transexualidade

Guest post – Mulher transgênera demissexual

Por Ariel Nolasco

Quando eu pude assumir pra mim mesma que era uma mulher transgênera, eu já sabia por tudo o que eu iria passar. As dificuldades ao sair na rua, as dificuldades com emprego, as dificuldades com família, as dificuldades com relacionamentos. E esse último item era o que mais me preocupava. Me preocupava porque todos nós nascemos e crescemos numa sociedade que prioriza o amor, o romance. Onde tudo é romance disney, onde tudo é amor, onde tudo é conto de fadas, e desde pequenos somos expostos a isso, a encontrar alguém e ser feliz com essa pessoa. E claro que eu fui exposta a isso também, então fiquei noites pensando se eu acharia uma pessoa que me amasse do jeito que eu sou, com as minhas singularidades.

Com o tempo, algo em mim começou a mudar. Eu estava com certa dificuldade de me envolver com as pessoas, de uma forma que fosse não-afetiva (como por exemplo, sair pra ficar com alguém). Pra mim havia se tornado um desconforto isso, um desconforto enorme, e foi então que fui buscar saber o que era isso. Por que antigamente eu conseguia ficar com todo mundo mas hoje eu não consigo mais? E depois de muitas conversas com alguns amigos e depois de ler alguns textos sobre, pude ver que o que exatamente era: demissexual.

Demissexual – uma vertente da assexualidade; a área cinza – são as pessoas que só se envolvem com alguém quando possuem algum tipo de laço, de ligação, com a(s) pessoa(s) em questão. Pode ser uma amizade, pode ser amor, paixão, e até mesmo aquela admiração forte (como os fãs e os artistas, por exemplo). E, com o tempo, percebi que a assexualidade, a demissexualidade, me protegia de algumas coisas.

Uma das experiências horríveis que tive, na tentativa de conhecer uma pessoa legal, foi horrível. Eu mal conhecia a pessoa, foi uma situação bem desconfortável, eu não tinha qualquer tipo de laço com ela. Eu fui e me dei a oportunidade, com a melhor das intenções, achando que eu poderia ficar menos desconfortável, ou que algo pudesse surgir dali. Pois surgiu: nojo. Nojo de mim. Eu estava com nojo de mim por ter ficado com uma pessoa a qual eu mal conhecia. Eu estava com nojo de mim por ter ouvido coisas dessa pessoa indelicada. Foi um mix de desconforto. Desconforto por ter feito algo que eu não estava acostumada a fazer e desconforto por ter que ouvir coisas que me afetam diretamente, enquanto mulher transgênera.

A assexualidade me protegeu de muita coisa, e ainda me protege. Enquanto mulher transgênera, estou passível a ser sexualizada e exotificada em grande parte do tempo, então naturalmente já fico de sobressalto quando conheço uma pessoa nova. E a demissexualidade me protege de pessoas assim. Eu não consigo e NUNCA vou conseguir criar uma laço, uma ligação, um sentimento mais forte, por uma pessoa que me sexualiza e me exotifica. Da mesma forma como nunca vou conseguir criar um laço com alguém transfóbico, racista, classista, machista e por aí vai. É como se a minha sexualidade fosse uma peneira que filtrasse as pessoas com as quais eu tenho contato, e assim que ela deixa apenas as pessoas boas, é que eu consigo me aproximar mais um pouco, é que eu consigo me propor a conhecer e talvez criar um laço com aquela pessoa.

Hoje posso dizer com todas as letras que ser uma mulher transgênera demissexual me contempla de diversas formas. 

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