sexualidade

Eu não sou anti-sexo

Muita gente acha que assexuais não gostam de sexo. Já sabemos que isso não é verdade; primeiro, porque assexual não é quem não gosta de sexo, mas sim, quem não sente atração sexual, ou apenas a sente sob determinadas circunstâncias; segundo, porque pessoas assexuais podem, sim, fazer sexo. E gostar.

Na verdade, o fato de que algumas pessoas assexuais fazem e gostam de sexo é apenas uma consequência do que é ser assexual. Assexual é um termo guarda-chuva, ou seja, abarca diversas denominações; dessa forma, não apenas quem não sente atração sexual em situação alguma é tido como assexual, mas também as pessoas que a sentem de forma muito esporádica, como pessoas demissexuais. Sabendo que algumas pessoas assexuais sentem atração sexual em situações específicas, concluímos que algumas delas façam sexo e gostem disso. Não existe muito mistério. Por que, então, essa confusão existe?

Tudo começa no moralismo. Historicamente, a sociedade entende o sexo como um ato que vai contra a moral. Por isso, sempre existiram pessoas que eram contra essa prática, por diversas razões (algumas delas, inclusive, não se apoiam no princípio da amoralidade do sexo). Essas pessoas são celibatárias, ou seja, escolheram não fazer sexo, por qualquer razão que seja. Padres católicos são um exemplo de celibatários. Essas pessoas fizeram uma escolha consciente de não fazer sexo, por mais que tenham vontade, e por maior que seja a atração que sentem. Não existe falta de atração nem de desejo nessas pessoas; o que existe é um autocontrole, e não estou dizendo que isso seja bom, nem ruim.

Para pessoas assexuais, a coisa funciona meio diferente. Nós não temos atração sexual e não houve escolha consciente sobre isso; tudo aconteceu naturalmente, como acontece com qualquer orientação sexual. Assim como pessoas homo ou heterossexuais, não escolhemos não sentir atração, apenas não sentimos. Quando sentimos e ficamos confortáveis o suficiente para que essa atração se concretize, isso não significa que não vamos gostar do sexo, porque temos capacidade de sentir prazer. Não existe motivo religioso, moral ou de qualquer outro cunho para que não façamos sexo: a única coisa que existe é falta de atração. A partir do momento em que ela passa a existir, o sexo passa a ser uma possibilidade. No entanto, uma vez que o celibato é tão amplamente divulgado e a assexualidade não é, é comum que as pessoas confundam os dois e assumam que assexuais escolheram não fazer sexo, não gostam de fazê-lo e têm algo contra ele.

Por isso, se você ler em algum lugar que assexual é quem não gosta de sexo, ou se pensava assim, saiba que isso não é verdade. É claro, existem pessoas assexuais que não gostam de fazer sexo, mas isso não é regra. E também não é ideologia. É apenas parte de quem somos.

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O que é área cinza?

A assexualidade é uma denominação guarda-chuva. Isso significa que existem pessoas estritamente assexuais – ou seja, aquelas que não sentem atração sexual -, e também existem pessoas que não costumam sentir atração sexual, mas isso pode acontecer sob determinadas condições. Todas essas pessoas podem se denominar assexuais. É mais ou menos o mesmo esquema do termo trans*, que é um termo guarda-chuva, ou seja, abarca várias denominações debaixo de si. Uma das denominações abraçadas pela assexualidade é a área cinza (ou gray-a, ou gray area), que é o conjunto de pessoas que não são estritamente assexuais e nem alossexuais (=sexuais).

Para entender melhor o termo, vamos fazer uma abstração: imagine que toda a pluralidade de sexualidades humanas coubesse numa paleta de cores. Na paleta de cinza estariam dois conceitos mais simples e mais abrangentes do que a bissexualidade, por exemplo; esses conceitos seriam a alossexualidade e a assexualidade. Nessa abstração, a alossexualidade seria representada pela cor preta e a assexualidade, pela cor branca. Por consequência, teríamos, entre esses dois extremos, vários tons de cinza. É daí que vem o termo “área cinza”. Dentro da área cinza, se encaixam as pessoas que: não sentem atração sexual normalmente, mas podem senti-la ocasionalmente; sentem atração sexual, mas não têm vontade de concretizá-la; e pessoas que fazem e gostam de fazer sexo, mas apenas em condições muito específicas.

Dependendo da concepção de área cinza, ela pode ou não conter outras denominações. Para algumas pessoas, a área cinza é uma orientação sexual, chamada de gray-asexual. Um gray-asexual, ou graysexual, é uma pessoa que sente atração sexual sob condições muito específicas, ou que raramente a sente. Para outras pessoas, a área cinza é um “lugar” onde se inserem várias outras orientações sexuais, como lithosexual (pessoas que sentem atração sexual, mas não querem que ela seja recíproca), pothisexual (pessoas que fazem e gostam de sexo, mas continuam assexuais por não sentirem atração) e demissexual (pessoas que podem sentir atração sexual apenas quando têm laços emocionais e/ou afetivos fortes).

Ou seja: a área cinza contempla as pessoas que não são estritamente assexuais, mas também não são alossexuais. Quem está na área cinza também pode se considerar assexual e também pode sofrer afobia (o preconceito contra assexuais). Para algumas pessoas, a área cinza é uma orientação sexual, mas, para outras, é o local onde se inserem as denominações que cabem dentro da assexualidade, junto com a assexualidade estrita. Nenhuma das duas concepções está errada; a vivência das pessoas e a denominação com a qual elas se sentem mais confortáveis vai determinar qual delas adotar – ou, até mesmo, nenhuma delas, afinal, podemos sempre formar nossas próprias concepções a partir das existentes, não é mesmo?

Para conhecer o seu corpo

Hoje, a seção TAB do Uol postou um infográfico esteticamente maravilhoso (mas que demora um pouco para carregar com conexões lentas) sobre a assexualidade, repleto de imagens de bolos sendo obscenamente cobertos por caldas de chocolate e cortados (para ser devorados por alguém que não sou eu, o que é triste). As pessoas que contribuíram para a elaboração desse infográfico foram muito felizes em diversos aspectos, deixando bastante claro o quanto somos felizes sem sexo, ou sem a necessidade de fazê-lo. No final da página, há um teste para saber se você é assexual ou só “tem preguiça” de fazer sexo. Eu já estava esperando que não concordasse com a matéria inteira, afinal, é muito difícil concordar inteiramente com o pensamento dos outros, então a presença desse teste não me surpreendeu. Já disse aqui, algumas vezes, e volto a bater na tecla: ninguém pode te dizer se você é assexual ou não, e “preguiça de fazer sexo” pode significar assexualidade, sim – da mesma forma que pode não significá-la. A ajuda de profissionais da medicina e da psicologia pode ser importante caso você desconfie que a sua falta de libido seja uma doença, mas a única pessoa que pode afirmar qualquer sobre sobre a sua sexualidade é você. (Se você ainda tiver dúvidas quanto a isso, sugiro a leitura do post Eu sou assexual?)

Uma das perguntas desse teste é: “Você se masturba com qual frequência?”, e as respostas possíveis são: “Com frequência”, “Evito me masturbar”, “Diariamente, às vezes mais de uma vez por dia”, “Apenas quando o corpo pede”. Torci um pouco o nariz para essa pergunta, e por isso marquei a primeira opção, e continuei o teste normalmente. O resultado foi “assex”. Refiz o teste, agora colocando a terceira opção para essa pergunta, e, novamente, o resultado foi “assex”. Isso me deixou um pouco mais aliviada, porque parece que esse teste não leva muito em consideração a frequência com a qual você se masturba para dizer se você é assexual ou não. Isso é bom. Significa que pessoas sexuais (ou alossexuais) estão entendendo o que é a assexualidade e que ela não necessariamente tem a ver com a sua relação com o seu corpo. Na maioria das vezes em que me foram feitas perguntas sobre a assexualidade, a masturbação apareceu de alguma forma, sutil ou não, no meio da conversa, e eu sempre digo o mesmo: não existe uma lei que proíba pessoas assexuais de se masturbarem, seja porque sentem desejo por si próprias ou porque têm vontade de sentir prazer sexual. Algumas pessoas assexuais sentem prazer sexual, e, dado que não há atração por outras pessoas, a masturbação é uma boa forma de alcançar esse prazer.

Mas o prazer sexual não é a única recompensa que a masturbação nos oferece. Masturbar-se é uma prática saudável porque alivia o estresse, já que os neurotransmissores liberados durante a masturbação (e também durante o sexo) favorecem o relaxamento; melhora a dor de cabeça, por causa das substâncias prazerosas que o cérebro produz durante o processo; melhora o tônus muscular, porque a masturbação e o sexo movimentam os músculos e servem como atividade física; e, acima de tudo, ajuda você a conhecer o seu corpo. Principalmente para mulheres, cuja masturbação e cujo corpo são assuntos velados, tocar-se é muito importante. Sem se tocar, você não vai saber como você é, do que você gosta, de onde você gosta que coloquem a mão. Tocar-se aumenta seu grau de intimidade com você mesme, te torna amigue íntime do seu corpo. Ser assexual não deve privar você de todas essas coisas boas que vêm com a masturbação; não é porque você não sente atração por outras pessoas que não deve se masturbar, sentir prazer sexual com você mesme, ou até mesmo com outra pessoa com quem você se sinta à vontade. Não é um encontro sexual ou uma prática comum de masturbação que vai tirar sua carteirinha de assexual.

Acontece que tem muita gente que não gosta de se masturbar, não necessariamente porque se reprime. Tem gente que sente dor, tem gente que não está confortável o suficiente para fazer isso, e tem gente que não gosta da ideia de tocar os próprios genitais; por isso, apresento aqui algumas outras formas de conhecer o seu corpo (e também a sua alma), que podem ser úteis para quem não se masturba, e também para quem quer explorar-se de outras formas.

Vista várias roupas diferentes e veja como elas se adaptam ao seu corpo. Essa história de que o seu corpo precisa entrar nas roupas, e por isso você tem que fazer mil dietas para entrar naquele vestido dois números menor que o seu e que você vai usar na sexta, é só um artifício do mercado para que você compre a ideia de corpo magro = corpo bonito. As roupas são os produtos industrializados feitos para servir o seu corpo, não o contrário; logo, elas precisam se adaptar ao seu corpo, não o contrário. Tire várias roupas do seu armário, de modelos diferentes, de festa e de dia-a-dia, e vá vestindo. Sinta o tecido tocando a sua pele e veja como ele se molda ao contorno do seu corpo. Aprecie a sua silhueta, ela é única e perfeita para você. Caso algumas das roupas não te sirva mais, ótimo! Pegue uma caixa de papelão, coloque todas essas roupas que não se adaptam mais ao seu corpo e doe para alguém que esteja precisando.

Dance. Dançar alegra, além de te deixar mais íntime dos seus músculos, da força das suas pernas e braços, e, consequentemente, do seu corpo. Caso a dança seja de salão, você ainda vai conseguir trabalhar sua relação com outras pessoas. Dança do ventre e pole dance trabalham ainda a sensualidade e a sua relação com ela. Além disso, dançar, assim como se masturbar, libera substâncias prazerosas no seu cérebro, e você vai sentir menos dor muscular, menos dor de cabeça e menos tristeza. Dançar na frente do espelho vai te ajudar a enxergar e aceitar a forma como seu corpo se movimenta.

Lute. Lutar é ótimo para extravasar a raiva! Com a onda recente do muay thai, kickboxing e outras lutas como forma de emagrecimento, vai ser bem fácil encontrar um lugar que ofereça aulas de lutas. Lutar também melhora o tônus muscular, te ajuda a conhecer os limites do seu corpo e aceitar a forma como sua mente e seu corpo reagem a situações de tensão e alerta. Além de tudo isso, você ainda ganha mais uma forma para se defender de violências.

Saia sozinhe. Vá ao shopping, veja um filme, faça uma refeição, tudo isso com você mesme como companhia. Sair com amigues é bom, mas a conversa pode ofuscar seus pensamentos. Além disso, sair na sua própria companhia te ajuda a ter mais paciência com você mesme, além de se entender mais e se importar menos com os olhares e as conversas das pessoas ao seu redor. Quantos filmes você viu nesse ano? Você veria todos eles se estivesse sozinhe ou viu alguns por influência das pessoas que estavam com você? Quantas refeições você fez acompanhade? Teria feito todas elas da mesma forma ou alguns itens do seu prato foram influência das pessoas que estavam com você? A resposta para essas perguntas está em se conhecer, em saber como você agiria se estivesse sozinhe.

É claro que essas são apenas sugestões: você pode procurar a forma de se conhecer que combine mais com você, com as suas demandas e seus traumas. Além disso, caso você tenha problemas com alguma dessas práticas, não a faça! Não se expor a situações traumáticas também é importante na hora de se conhecer. Considerando tudo isso, o resto é por sua conta. Boa sorte nessa empreitada para conhecer seu corpo e sua mente!

Eu sou assexual?

Às vezes eu recebo e-mails de pessoas que leem o blog, dizendo que eu as ajudei a se encontrar, que não sabiam o que era assexualidade e passaram não só a saber como a se identificar como assexuais, enfim, histórias muito bonitas, que me motivam a continuar escrevendo. Eu também recebo perguntas, e, de longe, a que mais aparece na minha caixa de entrada é “eu/fulane sou/é assexual?”. Geralmente, ao me perguntar isso, a pessoa me dá todo um panorama da sua vida, suas experiências, ou então da vida e das experiências da pessoa que é sujeito da pergunta, e eu sempre respondo da mesma forma: a única pessoa que pode dizer se você é assexual é você. Pode parecer que sim, mas eu não estou fugindo da pergunta; acontece que orientação sexual é algo muito pessoal, e, mesmo que eu conhecesse cada um de vocês desde criancinha, mesmo que observasse cada um de vocês todos os dias (o que seria bastante perturbador), eu ainda não teria resposta objetiva para essa pergunta. O que eu faço, nesse caso, é dar algumas “dicas”, baseadas unicamente na minha experiência, para que a pessoa tente se identificar sozinha, e, por mais que eu goste de receber e-mails das pessoas que leem o que eu escrevo, acho que talvez seja mais útil fazer um post sobre isso, até porque nem todo mundo que tem essa dúvida vai ter coragem de me perguntar.

Antes de tudo, queria pontuar que, quando digo “assexual”, incluo nessa denominação a área cinza.

Agora, vamos lá. Eu já fiz um post explicando o que é ser demissexual, mas talvez não tenha ficado claro que a assexualidade é a ausência de atração sexual. Ser assexual não significa não ter desejo sexual; uma pessoa assexual pode ou não sentir desejo, e pode satisfazê-lo de diversas formas, sendo a masturbação uma delas. Ser assexual também não significa não se apaixonar: algumas pessoas assexuais também são arromânticas, ou seja, não formam laço romântico com as pessoas, mas isso não quer dizer que todas sejam. Ser assexual não significa ser virgem, pois pessoas assexuais podem experimentar o sexo, antes ou depois de se descobrirem, e também não significa não gostar de sexo. Pessoas que se encontram na área cinza gostam do sexo em situações específicas – no caso de demissexuais, por exemplo, que sentem atração apenas por pessoas com quem têm laço emocional, logo, gostarão do sexo com essas pessoas. E, se tem uma coisa que ser assexual definitivamente não significa, é ser triste. A mídia nos vende a ideia de que sexo significa felicidade, ideia essa suportada pela medicina, e nós a compramos; no entanto, sexo não é a única forma de ser feliz nessa vida. Eu gosto muito de comer, e comer me faz feliz. Sou menos feliz por ser assexual? De modo algum, porque ser assexual não afeta a minha relação com comida, que é o que me faz feliz, nesse contexto. Ligar o mau-humor das pessoas à falta de sexo, além de falocêntrico e patriarcal, é inválido para assexuais.

Explicado o que ser assexual significa e não significa, vamos à dúvida cruel que assola tantas mentes: você é assexual? Para muita gente, é fácil responder isso, mas a sexualidade tem nuances que, às vezes, nós não conseguimos perceber. Uma pessoa assexual que ainda não se descobriu e está passando por uma depressão, por exemplo, ou algum outro tipo de transtorno mental, pode achar que a sua falta de atração sexual se deve à depressão. De fato, a depressão diminui muito a libido, mas a única forma de dizer com certeza se você é assexual ou se a falta de atração e/ou desejo está ligada ao transtorno mental pelo qual você está passando é tendo base de comparação. Se você tinha uma vida sexual ativa e prazerosa antes da sua depressão e, depois dela, não tem mais, é hora de procurar um médico. Se não, também é hora de procurar um médico. Depressão não é brincadeira e você precisa de ajuda para se livrar dela. Caso não tenha base de comparação para elucidar se você sempre foi assim ou se está assim, o tratamento vai te ajudar muito nisso.

Se o fato de você não sentir atração não te incomoda, há algumas perguntas sobre as quais você pode refletir. Por exemplo: você sente atração sexual por outras pessoas? Se sim, isso só acontece depois de vocês terem proximidade afetiva? Se você sentir atração por alguma celebridade, é necessária identificação emocional entre você e a celebridade para que essa atração se estabeleça? Se você já tiver feito sexo, foi uma experiência prazerosa? Você se sentiu à vontade? Caso tenha sentido prazer, ele foi realmente sexual? É claro que, depois de pensar nelas, você pode continuar confuse, sem saber quem você é e qual a sua orientação sexual; não é porque essas perguntas me ajudaram que elas vão, com certeza, ajudar você. Cada pessoa é diferente, e, por mais que eu queira te ajudar, pode ser que eu não consiga. A busca por quem você é de verdade depende só de você, e será diferente para cada pessoa. A partir das suas próprias experiências, você pode moldar as suas reflexões, as suas perguntas, que facilitem a chegada a uma conclusão. Além disso, nas questões referentes à sua experiência sexual, você deve levar em conta que a outra pessoa envolvida pode não ter te deixado à vontade, e isso pode não ter nada a ver com a sua orientação. O mais importante, no caso da dúvida quanto a se identificar como assexual ou não, é saber se você sente atração sexual e por quem.

Mesmo depois de tudo isso, eu ainda não posso afirmar se você é ou não assexual, e talvez nem você possa. Se encontrar no espectro das sexualidades pode ser importante para autoafirmação e para acabar com aquele sentimento de que você está sozinhe, mas, se você não conseguir encontrar onde você está, relaxe. Talvez, um dia, você encontre, e talvez não. Não existem rótulos para contemplar todas as pessoas nesse mundo, e você não precisa ficar triste se for uma das pessoas que caem fora das caixinhas.

Assexualidade e feminismo

O feminismo é uma luta hegemônica. Quando se fala em luta de minorias, ele sempre está lá, mesmo que discreto, no meio das pautas em questão. Se a luta é por igualdade social, a emancipação das mulheres ajuda muito nisso; o Bolsa Família, que fez de tantas mulheres as chefes da casa, é um exemplo disso. Se a luta é por direitos LGBT, ou seja, por igualdade civil e o fim do preconceito, esses objetivos jamais serão atingidos sem que as mulheres sejam vistas como iguais pelos homens e por outras mulheres (a menos que o movimento seja GGGG, o qual não é uma luta de fato). Sendo assim, é mais do que justo que o feminismo também esteja inserido e seja intrínseco à luta pelo reconhecimento de pessoas assexuais.

Como minhes amigues do Coletivo Feminista Trepadeiras me ajudaram a perceber de forma mais clara, o feminismo luta, entre outras coisas, pela liberdade dos corpos femininos. Isso quer dizer muitas coisas; dentre elas, que quando uma mulher diz “não”, é exatamente isso que ela quer dizer. Se você é mulher ou foi designade assim ao nascimento, sabe perfeitamente do que eu estou falando. Todes nós temos pelo menos uma história de assédio sexual ou moral decorrente do fato de não estarmos sexualmente disponíveis quando deveríamos, ou seja, quando a sociedade pede que estejamos. Comigo, isso acontecia com frequência em festas, uma dessas ocasiões em que se supõe que as mulheres estejam sexualmente disponíveis – algo que não é regra nem para mulheres sexuais, então, por que o seria para as assexuais? Nunca cheguei a sofrer violência física por isso, mas ficava tão socialmente acuada que, com o tempo (e com a piora da minha fobia social), parei de sair. Era muito mais fácil ficar em casa me divertindo no computador do que precisar sair e enfrentar quem quisesse se aproximar de mim com intenções muito diferentes das minhas.

É aí que o feminismo encontra a assexualidade. Defendendo o direito da mulher de dizer não a qualquer pessoa que assuma que ela está sexualmente disponível, o feminismo defende o direito à assexualidade, isto é, o direito a se assumir assexual sem ouvir coisas como “você só não encontrou a pessoa certa” ou “você só está se fazendo de difícil”. Caso as pessoas conseguissem entender claramente que o não de uma mulher é tão legítimo como qualquer outro “não”, nós jamais precisaríamos ouvir isso, porque ninguém pensaria que estamos “nos fazendo de difíceis”, simplesmente que não estamos sexualmente disponíveis; acontece que o machismo objetifica todas nós mulheres, fazendo de nós instrumentos de prazer para os homens e tirando nosso direito de não estar sexualmente disponível para qualquer um deles. Isso resulta em agressões de toda sorte; afinal, quem nunca foi xingada por não querer ficar com um cara?

Justamente pelo fato de o feminismo defender a liberdade dos corpos femininos é que não consigo entender quando escuto de uma feminista as mesmas expressões que qualquer outra pessoa  usaria para me deslegitimar enquanto pessoa assexual. Isso já aconteceu, e choca ainda mais do que chocaria se fosse qualquer outra pessoa, simplesmente pelo fato de feministas acreditarem que o corpo da mulher é propriedade dela própria e, portanto, ela pode fazer dele o que quiser: dar para todo mundo, dar para qualquer um ou não dar para ninguém. A opção de não dá-lo a ninguém – ou seja, o celibato – ou a assexualidade – a orientação sexual – devem ser respeitadas igualmente entre si e quando comparadas à opção de uma mulher que decidiu dar para quem quisesse. No meio feminista, contudo, essa última mulher é mais aceita, e até mesmo exaltada, em comparação à assexual ou à celibatária; certas vezes, as duas últimas são vistas como mulheres tão afetadas pelo patriarcado que não conseguem aceitar a sua sexualidade, e se escondem por trás do celibato ou da assexualidade. Claro, isso pode ser verdade; afinal, nossa mente cria toda sorte de artifícios para legitimar um abuso emocional, principalmente quando ele tem as dimensões do patriarcado. Generalizar o caso, contudo, é um problema. Da mesma forma que nem todas as feministas pensam isso das mulheres assexuais e celibatárias, nem todas essas mulheres estão desconfortáveis com a própria sexualidade a ponto de escondê-la.

Em outras palavras, o feminismo é extremamente benéfico para a aceitação da assexualidade, no sentido que instrui as pessoas para que aceitem o “não” da mulher; no entanto, é preciso tomar cuidado para que as mulheres assexuais, ou mesmo as celibatárias, não se sintam excluídas do movimento. Isso é construído com reflexão e conhecimento sobre a situação dessas mulheres.

Se quiser mais um ponto de vista sobre a baixa aceitação de mulheres que não fazem sexo regularmente no feminismo, leia este texto.

Como o machismo me oprime

Esse é um daqueles posts que, por mais que eu escreva, vou continuar achando que está muito raso e que poderia ser maior. Como minha tendinite está atacada esses tempos, provavelmente ele ficará mesmo um pouco raso, mas esse é um assunto que será recorrente no blog; além disso, o meu objetivo não é e nunca foi dar todas as respostas para as perguntas que proponho nos títulos, mas sim plantar a sementinha da dúvida em quem ainda não tem e colocar um pouco de água na planta de quem já tem (e na minha também, óbvio).

Antes de qualquer coisa, esclareço que esse post vai focar na minha experiência enquanto mulher demissexual, porque não há como dissociar a minha assexualidade da minha identidade de gênero. Tudo faz parte de quem eu sou. Segunda coisa: o post não se chama “como o machismo me oprime” à toa; eu não quero e nunca quis representar todas as mulheres ou todes demissexuais. Por último, tomarei por base, para deixar as coisas mais palpáveis, a indústria. Mais especificamente, a indústria da música. Todo mundo sabe que o machismo é latente e praticamente não pode ser evitado na indústria musical, onde quer que seja; se não é pela hiperexposição dos corpos, assunto do qual vou tratar aqui, é pela vida pessoal des artistes, sempre escancarada pela mídia e alvo de todo tipo de críticas.

Por que escolhi a indústria da música? Porque ela me oferece vários clipes com exemplos de machismo e hipersexualização fáceis de identificar. Um deles é o clipe abaixo. É um clipe coreano, de uma música que eu adoro, de uma dupla chamada Troublemaker, composta pela Hyuna e pelo Hyunseung. Construirei meu raciocínio sobre a performance dos dois nesse vídeo, então, lá vai:

Vamos começar por 0:08 de vídeo. Nesse momento, temos Hyunseung vindo na direção da câmera, Hyuna na direção contrária, e, em menos de 10 segundos, eu já percebo que terei um enorme desgosto em ver esse clipe. O tamanho do vestido da Hyuna, a roupa do Hyunseung e a forma como eles andam já deixa isso bem claro para mim. Por que ela precisa andar desse jeito, rebolando, até mudando o salto de direção quando pisa – uma forma que absolutamente ninguém anda normalmente, mesmo de salto – e ele pode andar casualmente, como se estivesse indo pegar água na cozinha? Veja bem, eu não sou contra mulheres usando vestido curto, salto alto e rebolando. Pelo contrário, sou bastante a favor disso, contanto que seja escolha única e exclusivamente da mulher que o está fazendo, o que, no caso, não acontece. Além de Hyuna já ter dito, inúmeras vezes, que odeia essa máscara “sexy” que colocam nela nos clipes, ela está sendo paga por isso. Por uma empresa. Que pode e vai demiti-la se ela não fizer o que eles mandam.

Vamos pular para o intervalo entre 0:30 e 0:45 para comparar como os dois se portam na cadeira de couro. Hyunseung está sentado com pose de gangster, com duas mulheres rebolando do lado; Hyuna está sozinha, se contorcendo toda para mostrar sua cara “sexy” e suas pernas, que aparecem o tempo todo (meio off-topic, mas a Hyuna tem pernas lindas, é justo que apareçam). Agora eu vou pular para 1:25, e se você assistiu o vídeo até aqui sem pular desse jeito, percebeu que a Hyuna está sempre se esforçando muito para ser sexy, e que o Hyunseung não faz nada. Literalmente. Ele só fica lá, com essa pose de gangster, esse olhar meio indefinido e essas meninas rebolando em volta. Mas, em 1:25, começa a parte da dança solo da Hyuna. Ela dança com mais algumas meninas, e eu gosto muito dessa coreografia, mas nessa parte fica bastante claro que até o enquadramento da câmera está tentando hipersexualizá-la. Quando ela está de costas, a câmera fica baixa, perto dos pés dela, evidenciando o bumbum dela. Esse enquadramento mais baixo também acontece na parte da dança solo do Hyunseung (2:50), mas nunca de forma a evidenciar a bunda, as coxas ou qualquer coisa assim; é sempre uma câmera mais larga, que fica mais longe, dando para ver bem o cenário e os outros dançarinos.

Ok, não vou continuar analisando o vídeo. Acho que já deu para perceber que, durante o clipe todo, ela está tentando ser sexy e ele está sendo cool, afinal, homens não precisam tentar ser sexy, são as mulheres que precisam fazer isso por eles. Essa mensagem fica muito, muito clara nesse vídeo. Mulheres são hipersexualizadas o tempo todo na mídia em geral, porque é isso que se espera de nós: uma postura impecável, sensual, que esteja o tempo todo disponível para e em busca de homens, mas que não deixe claro que fazemos e gostamos de sexo. Quando uma mulher foge disso, ela não cabe na sociedade.

Agora, surpresa! Mulheres assexuais nunca atenderão a esse estereótipo, simplesmente porque elas não estão disponíveis e muito menos à procura de homens. Nem de mulheres. Nem de qualquer outra identidade de gênero. Mulheres assexuais nunca vão atender a esse estereótipo porque a hipersexualização simplesmente é ridícula para quem não sente atração sexual. Uma vez, vendo um clipe da Beyoncè (acho que era Naughty Girl), me senti tão deslocada do mundo que foi até estranho. Como aquilo não me atraía de modo algum, comecei a achar hilária a forma como ela dançava, tentando impressionar o homem que estava com ela e a audiência que estaria atrás do computador, e isso me pareceu ridículo. Por que alguém teria que fazer isso? Claro, Beyoncè e Hyuna fizeram pelo seu trabalho, mas onde isso se encaixaria no meu cotidiano?

A hipersexualização do corpo feminino causa na sociedade em geral uma ideia de que todas as mulheres buscam sexo (mesmo que isso tenha que ser bastante velado), mas eu, como mulher assexual, posso dizer que isso não é verdade. Já me perguntaram, em uma festa, por que eu iria a festas se não buscava ficar com ninguém, e isso me chocou tanto que eu tive que parar para pensar sobre essas coisas que estou escrevendo agora. Espera-se que queiramos sexo, e a mídia sustenta isso de forma impecável, com clipes de grande alcance, como Troublemaker, que tem uma audiência um pouco restrita por ser coreano, mas já tem mais de 42.000.000 de visualizações. Além de todo o resto, é assim que o machismo me oprime: esfregando na minha cara, mesmo quando eu estou tentando me divertir, que não estar sexualmente disponível é errado, uma abominação, uma doença, e que eu deveria me tratar.

Para quem gostou do tema, deixo aqui outro texto para pensar mais um pouco.

“Você não existe”: o peso da deslegitimação

Não sei até que ponto posso dizer que sofro preconceito por ser demissexual. Tenho váries amigues homossexuais e conheço pessoas trans* que sofrem muito mais com a sociedade cis-heteronormativa do que eu, então, talvez, chamar o que sofro de preconceito seja um pouco presunçoso demais. O fato é que, bem como ocorre com as outras orientações sexuais e com as identidades de gênero trans*, há um estigma rondando pessoas assexuais, e a forma mais recorrente pela qual ele se manifesta é o apagamento, ou a deslegitimação.

Deslegitimar alguma coisa é deixar de reconhecê-la como autêntica, ou seja, passá-la a um status de “falsa”, “imprópria”. Com pessoas assexuais, isso acontece de diversas formas. A que mais escuto, enquanto demissexual, é clássica: “mas todo mundo é assim!”. Por mais inofensiva que pareça para quem a profere, essa frase me causa enjoos, náuseas, indigestão e dores fortes no peito, seguidas de ataques de impaciência que tento controlar antes de começar a explicar que não, isso não é verdade. Dizer a um demissexual – ou a qualquer outra pessoa – que “todo mundo é assim” não é inseri-lo num contexto mais amplo, não é fazê-lo se sentir bem-vindo no grupo, e também não é demonstrar empatia; é, pura e simplesmente, deslegitimar sua orientação sexual. Ao dizer a uma pessoa demissexual que “todo mundo” compartilha de sua orientação sexual, se está igualando essa pessoa ao hetero/bi/pan/homossexual que pratica sexo casual, por exemplo, o que invalida todas as experiências pelas quais aquela pessoa já passou simplesmente por ser assexual. Eu, por exemplo, já fui várias vezes excluída de grupos sociais devido à minha orientação sexual, principalmente durante a adolescência, e dizer que minhas experiências românticas e sexuais são idênticas às de qualquer outra pessoa no mundo é ignorar completamente esse e outros fatos da minha vida – além de ser uma grande ignorância, porque nenhuma experiência sexual/romântica é igual, não importa a orientação sexual dos envolvidos.

Outra forma de apagar as orientações assexuais é dizer que “isso não existe” ou que “é doença”. Essa última forma é a mais cruel. Patologizar – ou seja, transformar em doença – uma pessoa, sua essência, o que ela é, é uma crueldade sem tamanho; a maioria des homossexuais e transgêneres deve se identificar, já que a homossexualidade era considerada doença até algumas décadas atrás, e a transexualidade ainda o é. É simplesmente absurdo dizer que uma pessoa homossexual é doente e precisa ser tratada por um psiquiatra ou psicólogo para se livrar disso, haja vista as inúmeras manifestações que ocorreram contra parlamentares brasileiros após tentativas de incluir esse tipo de “tratamento” nas pautas da saúde do país; por que, então, ainda é aceito que se trate uma pessoa assexual como um ser doente, de baixa libido, que necessita ter seus “traumas de infância” devidamente tratados para que possa recuperar uma “vida saudável”? Já me cansei de ver, em revistas femininas, principalmente, aquelas propagandas clamando que “sexo é vida” e que, se você não tem uma libido considerada “normal” ou “aceitável”, precisa procurar um médico neste momento, porque pode ter uma doença muito grave. É tão grave assim ser assexual? É tão ruim, a ponto de ser amplamente difundido como doença, que uma pessoa simplesmente não queira fazer sexo? 

E qual o problema, afinal, de tanta gente apontando na nossa cara que não existimos ou que somos doentes? Nós devemos mesmo nos importar com a opinião de pessoas que não estão no nosso grupo de relações e com as quais podemos nunca nos encontrar na vida? Sim, nós devemos. A deslegitimação pesa, e, infelizmente, tem alto poder de convencimento. Eu mesma passei anos da minha vida buscando soluções médicas para a minha falta de libido, o que me causou uma grande tristeza. Me sentia – e ainda me sinto, de certa forma – constantemente forçada a ter intenções sexuais com pessoas, o que me deixava tensa e abatida por nunca conseguir. Além disso, justamente por não ter segundas intenções com ninguém, sou muito lenta para entender quando as pessoas as têm para comigo, e vivo num estado constante de alerta, como se fossem me atacar a qualquer momento, de todos os lados, simplesmente porque, apesar de saber que sou assexual e que essa é uma orientação sexual válida, passei a maior parte dos meus anos acreditando no contrário, e o que está enraizado é difícil de ser tirado.

(Atenção: se você ou qualquer parente/amigue/cônjuge seu já teve níveis de libido considerados dentro dos padrões e sofreu uma queda brusca nesses níveis, a ponto de incomodar, essa pessoa DEVE ser aconselhada a procurar atendimento médico. Transtornos psiquiátricos graves, como depressão, se manifestam precocemente com diminuição da libido; no entanto, cabe a essa pessoa decidir se vai ou não buscar ajuda médica. Lembre-se sempre de que a sexualidade de uma pessoa pertence apenas a ela.)