sexo

O que a Fabíola tem a ver comigo?

Eu sei, você já cansou de ler texto sobre o caso da Fabíola, mas esse vai ser um pouquinho diferente dos outros – afinal, você tem que ter muita sorte para encontrar um texto que tenha relacionado o que aconteceu com a Fabíola com a discriminação que as pessoas assexuais sofrem diariamente.

Para quem não sabe, Fabíola era uma moça totalmente comum, como você e eu, que vivia uma vida totalmente comum. Um dia, o marido dela a seguiu e descobriu que ela o estava traindo com o cunhado. Não vou entrar no mérito se o que Fabíola fez foi “certo” ou “errado”, primeiro porque não tenho opinião formada sobre traição (afinal, é muito difícil para uma pessoa assexual entender o que motivaria uma), e, depois, porque nem eu, nem ninguém tem condições, e muito menos o direito, de julgar a vida de uma pessoa que não conhece. O fato é que Fabíola traiu, foi pega, filmada e sua cara – e toda a situação na qual foi envolvida – foi propagada pela internet. No mesmo vídeo, seu marido tem uma reação exagerada e abusiva, que inclusive custou a ele muito dinheiro, mas o que realmente ficou na cabeça das pessoas foi a desculpa da Fabíola e o quanto ela era “piranha” por ter feito aquilo com o marido.

A repercussão imensa que o vídeo da Fabíola gerou é um retrato instantâneo do quão doente por sexo é a nossa sociedade. Se Fabíola e seu marido tivessem combinado que só veriam o sétimo filme do Star Wars um com o outro, e ele a flagrasse vendo o filme com o cunhado, gravasse e colocasse na internet, a reação do público seria a mesma? Tecnicamente, o contexto é o mesmo: marido e mulher “combinam” que vão fazer algo apenas um com o outro; um deles faz com outra pessoa; o outro o flagra, grava e coloca na internet. Se despojarmos o sexo da sua grandiosidade, é isso que sobra. Mas, na nossa sociedade, o sexo é importante, é grandioso, é ponto central na vida das pessoas; sem ele, não é possível conceber relacionamentos saudáveis, mentes saudáveis e pessoas bem-sucedidas. Como eu já disse em outra ocasião, nossa sociedade é viciada em sexo, e parte da militância assexual deve trabalhar para que esse vício seja revertido. O vídeo de Fabíola só evidencia o quanto nossa cultura é dependente do sexo e de espetáculos que o envolvam.

É importante que nos coloquemos no lugar de Fabíola e entendamos que ela foi vítima da mesma sociedade ninfomaníaca que nos oprime. Quando alguém diz que nossa orientação sexual não existe, ou que não encontramos a pessoa certa, ou quando alguém pensa que somos tristes ou temos problemas mentais por não sentirmos atração sexual, seu pensamento está baseado na mesma cultura que consumiu compulsoriamente o vídeo de Fabíola, puramente por se tratar de sexo. É, também, a mesma cultura que faz circular rapidamente pela internet as fotos íntimas de garotas e garotos cujas vidas acabam no fundo do poço.

Fabíola é, portanto, um lembrete para todes nós: temos um trabalho extenso a fazer até que nossa sociedade aprenda o quanto é doentio correr atrás de sexo em todas as situações e consumir sexo em todas as mídias, de todas as formas e a qualquer custo. Fabíola foi forte e até falou sobre o caso no facebook, mas quantas vezes você abaixou a cabeça quando deslegitimaram a sua orientação sexual? O caminho para a autoafirmação é longo, e o que leva à nossa aceitação pela sociedade é ainda mais extenso, mas não impossível de traçar.

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Guest post – E pode namorar?

Por Priscilla Binato

Ser assexual e namorar com uma pessoa que não é (allosexual) é algo que, para muita gente com quem eu já conversei, parece ser uma  complicação sem limites. As pessoas falam que é impossível, que é irreal, que nunca vai dar certo, que o allosexual não vai conseguir deixar de lado o seu desejo sexual… Mas e se eu não quiser deixar de lado o meu para ser a assexual típica dos padrões?

Meu nome é Priscilla Binato, sou carioca, tenho 21 anos e sou assexual. Eu e meu namorado estamos juntos há quase um ano e, apesar dos estereótipos, temos uma vida excelente – tanto no relacionamento quanto uma vida sexual. E isso não me envergonha nem um pouco. Na realidade, é o tipo de coisa que eu gosto de falar para ajudar a quebrar esses estereótipos que são criados dentro do assexual. Eu descobri a minha assexualidade no ano passado e passei algum tempo tentando descobrir como funcionava esse mundo novo de nomes, identificações e até uma própria leitura de sociedade nova. A ideia de uma sociedade de não-sexualização era muito estranha antes de eu me identificar com a assexualidade, mas quando eu conheci o conceito foi algo que só começou a parecer cada vez mais real com o passar dos dias em que eu refletia sobre.

Eu nunca fui uma pessoa sexual, apesar de já ter tido diversos relacionamentos antes do meu atual. Gostava de me sentir parte de um relacionamento de me sentir amada, de ser parte de uma dupla. Só que na parte de ter uma vida sexual nesses antigos relacionamentos, eu sempre pensava naqueles comentários sexistas que mulheres fazem quando estão reproduzindo o machismo: eu nunca teria a minha virgindade de novo, então era melhor “gastar” com alguém que valesse a pena. De certa forma, eu via a minha falta de atração sexual (e, naquele momento, de interesse) como algo natural para mulheres “boas”, uma vez que a minha reprodução de preconceitos me impedia de ver os problemas nisso.

Foi só quando comecei o meu atual relacionamento que eu decidi iniciar uma vida sexual. Não porque eu comecei a sentir atração sexual ou deixei de ser assexual, mas porque várias coisas se juntaram no meu atual namorado que me deram interesse o suficiente para que eu tivesse vontade disso. Eu o amo, nós nos damos super bem, ele me faz sentir bem com a minha auto-estima, com o meu corpo, com muitas coisas que sempre me incomodaram antes. Então na hora de decidir como seria isso, eu só pensei: por que não?

Depois de alguns meses de namoro que eu conheci os conceitos de assexuais sexo-positivos ou sexo-negativos e isso só me ajudou ainda mais a me sentir uma parte da comunidade. A ideia de que um assexual pode não só fazer sexo como gostar de sexo e, ainda, viver em um relacionamento com alguém allosexual me completa e faz a capacidade de entender a minha sexualidade ser ainda mais plena. Mas, acima de tudo, ser uma pessoa assexual sexo-positiva me faz feliz, então só volto na pergunta com a qual comecei o texto: por que eu vou deixar isso de lado e me restringir para encaixar no padrão assexual?

Eu não sou anti-sexo

Muita gente acha que assexuais não gostam de sexo. Já sabemos que isso não é verdade; primeiro, porque assexual não é quem não gosta de sexo, mas sim, quem não sente atração sexual, ou apenas a sente sob determinadas circunstâncias; segundo, porque pessoas assexuais podem, sim, fazer sexo. E gostar.

Na verdade, o fato de que algumas pessoas assexuais fazem e gostam de sexo é apenas uma consequência do que é ser assexual. Assexual é um termo guarda-chuva, ou seja, abarca diversas denominações; dessa forma, não apenas quem não sente atração sexual em situação alguma é tido como assexual, mas também as pessoas que a sentem de forma muito esporádica, como pessoas demissexuais. Sabendo que algumas pessoas assexuais sentem atração sexual em situações específicas, concluímos que algumas delas façam sexo e gostem disso. Não existe muito mistério. Por que, então, essa confusão existe?

Tudo começa no moralismo. Historicamente, a sociedade entende o sexo como um ato que vai contra a moral. Por isso, sempre existiram pessoas que eram contra essa prática, por diversas razões (algumas delas, inclusive, não se apoiam no princípio da amoralidade do sexo). Essas pessoas são celibatárias, ou seja, escolheram não fazer sexo, por qualquer razão que seja. Padres católicos são um exemplo de celibatários. Essas pessoas fizeram uma escolha consciente de não fazer sexo, por mais que tenham vontade, e por maior que seja a atração que sentem. Não existe falta de atração nem de desejo nessas pessoas; o que existe é um autocontrole, e não estou dizendo que isso seja bom, nem ruim.

Para pessoas assexuais, a coisa funciona meio diferente. Nós não temos atração sexual e não houve escolha consciente sobre isso; tudo aconteceu naturalmente, como acontece com qualquer orientação sexual. Assim como pessoas homo ou heterossexuais, não escolhemos não sentir atração, apenas não sentimos. Quando sentimos e ficamos confortáveis o suficiente para que essa atração se concretize, isso não significa que não vamos gostar do sexo, porque temos capacidade de sentir prazer. Não existe motivo religioso, moral ou de qualquer outro cunho para que não façamos sexo: a única coisa que existe é falta de atração. A partir do momento em que ela passa a existir, o sexo passa a ser uma possibilidade. No entanto, uma vez que o celibato é tão amplamente divulgado e a assexualidade não é, é comum que as pessoas confundam os dois e assumam que assexuais escolheram não fazer sexo, não gostam de fazê-lo e têm algo contra ele.

Por isso, se você ler em algum lugar que assexual é quem não gosta de sexo, ou se pensava assim, saiba que isso não é verdade. É claro, existem pessoas assexuais que não gostam de fazer sexo, mas isso não é regra. E também não é ideologia. É apenas parte de quem somos.

Para conhecer o seu corpo

Hoje, a seção TAB do Uol postou um infográfico esteticamente maravilhoso (mas que demora um pouco para carregar com conexões lentas) sobre a assexualidade, repleto de imagens de bolos sendo obscenamente cobertos por caldas de chocolate e cortados (para ser devorados por alguém que não sou eu, o que é triste). As pessoas que contribuíram para a elaboração desse infográfico foram muito felizes em diversos aspectos, deixando bastante claro o quanto somos felizes sem sexo, ou sem a necessidade de fazê-lo. No final da página, há um teste para saber se você é assexual ou só “tem preguiça” de fazer sexo. Eu já estava esperando que não concordasse com a matéria inteira, afinal, é muito difícil concordar inteiramente com o pensamento dos outros, então a presença desse teste não me surpreendeu. Já disse aqui, algumas vezes, e volto a bater na tecla: ninguém pode te dizer se você é assexual ou não, e “preguiça de fazer sexo” pode significar assexualidade, sim – da mesma forma que pode não significá-la. A ajuda de profissionais da medicina e da psicologia pode ser importante caso você desconfie que a sua falta de libido seja uma doença, mas a única pessoa que pode afirmar qualquer sobre sobre a sua sexualidade é você. (Se você ainda tiver dúvidas quanto a isso, sugiro a leitura do post Eu sou assexual?)

Uma das perguntas desse teste é: “Você se masturba com qual frequência?”, e as respostas possíveis são: “Com frequência”, “Evito me masturbar”, “Diariamente, às vezes mais de uma vez por dia”, “Apenas quando o corpo pede”. Torci um pouco o nariz para essa pergunta, e por isso marquei a primeira opção, e continuei o teste normalmente. O resultado foi “assex”. Refiz o teste, agora colocando a terceira opção para essa pergunta, e, novamente, o resultado foi “assex”. Isso me deixou um pouco mais aliviada, porque parece que esse teste não leva muito em consideração a frequência com a qual você se masturba para dizer se você é assexual ou não. Isso é bom. Significa que pessoas sexuais (ou alossexuais) estão entendendo o que é a assexualidade e que ela não necessariamente tem a ver com a sua relação com o seu corpo. Na maioria das vezes em que me foram feitas perguntas sobre a assexualidade, a masturbação apareceu de alguma forma, sutil ou não, no meio da conversa, e eu sempre digo o mesmo: não existe uma lei que proíba pessoas assexuais de se masturbarem, seja porque sentem desejo por si próprias ou porque têm vontade de sentir prazer sexual. Algumas pessoas assexuais sentem prazer sexual, e, dado que não há atração por outras pessoas, a masturbação é uma boa forma de alcançar esse prazer.

Mas o prazer sexual não é a única recompensa que a masturbação nos oferece. Masturbar-se é uma prática saudável porque alivia o estresse, já que os neurotransmissores liberados durante a masturbação (e também durante o sexo) favorecem o relaxamento; melhora a dor de cabeça, por causa das substâncias prazerosas que o cérebro produz durante o processo; melhora o tônus muscular, porque a masturbação e o sexo movimentam os músculos e servem como atividade física; e, acima de tudo, ajuda você a conhecer o seu corpo. Principalmente para mulheres, cuja masturbação e cujo corpo são assuntos velados, tocar-se é muito importante. Sem se tocar, você não vai saber como você é, do que você gosta, de onde você gosta que coloquem a mão. Tocar-se aumenta seu grau de intimidade com você mesme, te torna amigue íntime do seu corpo. Ser assexual não deve privar você de todas essas coisas boas que vêm com a masturbação; não é porque você não sente atração por outras pessoas que não deve se masturbar, sentir prazer sexual com você mesme, ou até mesmo com outra pessoa com quem você se sinta à vontade. Não é um encontro sexual ou uma prática comum de masturbação que vai tirar sua carteirinha de assexual.

Acontece que tem muita gente que não gosta de se masturbar, não necessariamente porque se reprime. Tem gente que sente dor, tem gente que não está confortável o suficiente para fazer isso, e tem gente que não gosta da ideia de tocar os próprios genitais; por isso, apresento aqui algumas outras formas de conhecer o seu corpo (e também a sua alma), que podem ser úteis para quem não se masturba, e também para quem quer explorar-se de outras formas.

Vista várias roupas diferentes e veja como elas se adaptam ao seu corpo. Essa história de que o seu corpo precisa entrar nas roupas, e por isso você tem que fazer mil dietas para entrar naquele vestido dois números menor que o seu e que você vai usar na sexta, é só um artifício do mercado para que você compre a ideia de corpo magro = corpo bonito. As roupas são os produtos industrializados feitos para servir o seu corpo, não o contrário; logo, elas precisam se adaptar ao seu corpo, não o contrário. Tire várias roupas do seu armário, de modelos diferentes, de festa e de dia-a-dia, e vá vestindo. Sinta o tecido tocando a sua pele e veja como ele se molda ao contorno do seu corpo. Aprecie a sua silhueta, ela é única e perfeita para você. Caso algumas das roupas não te sirva mais, ótimo! Pegue uma caixa de papelão, coloque todas essas roupas que não se adaptam mais ao seu corpo e doe para alguém que esteja precisando.

Dance. Dançar alegra, além de te deixar mais íntime dos seus músculos, da força das suas pernas e braços, e, consequentemente, do seu corpo. Caso a dança seja de salão, você ainda vai conseguir trabalhar sua relação com outras pessoas. Dança do ventre e pole dance trabalham ainda a sensualidade e a sua relação com ela. Além disso, dançar, assim como se masturbar, libera substâncias prazerosas no seu cérebro, e você vai sentir menos dor muscular, menos dor de cabeça e menos tristeza. Dançar na frente do espelho vai te ajudar a enxergar e aceitar a forma como seu corpo se movimenta.

Lute. Lutar é ótimo para extravasar a raiva! Com a onda recente do muay thai, kickboxing e outras lutas como forma de emagrecimento, vai ser bem fácil encontrar um lugar que ofereça aulas de lutas. Lutar também melhora o tônus muscular, te ajuda a conhecer os limites do seu corpo e aceitar a forma como sua mente e seu corpo reagem a situações de tensão e alerta. Além de tudo isso, você ainda ganha mais uma forma para se defender de violências.

Saia sozinhe. Vá ao shopping, veja um filme, faça uma refeição, tudo isso com você mesme como companhia. Sair com amigues é bom, mas a conversa pode ofuscar seus pensamentos. Além disso, sair na sua própria companhia te ajuda a ter mais paciência com você mesme, além de se entender mais e se importar menos com os olhares e as conversas das pessoas ao seu redor. Quantos filmes você viu nesse ano? Você veria todos eles se estivesse sozinhe ou viu alguns por influência das pessoas que estavam com você? Quantas refeições você fez acompanhade? Teria feito todas elas da mesma forma ou alguns itens do seu prato foram influência das pessoas que estavam com você? A resposta para essas perguntas está em se conhecer, em saber como você agiria se estivesse sozinhe.

É claro que essas são apenas sugestões: você pode procurar a forma de se conhecer que combine mais com você, com as suas demandas e seus traumas. Além disso, caso você tenha problemas com alguma dessas práticas, não a faça! Não se expor a situações traumáticas também é importante na hora de se conhecer. Considerando tudo isso, o resto é por sua conta. Boa sorte nessa empreitada para conhecer seu corpo e sua mente!

Querido homem

Hoje é 8 de março, dia da mulher, e estou escrevendo este texto especialmente para pedir a você que não me dê parabéns. Explicarei por quê.

Assim como você tem seus broders, as mulheres são minhas irmãs. E isso não é porque eu sou um ser iluminado e acredito que todas as pessoas são irmãs. Isso é porque existe uma estrutura social dedicada a arruinar as vidas das mulheres no mundo todo, a fim de que elas permaneçam como seres inferiores por uma miríade de razões: o patriarcado. Esse patriarcado nos faz acreditar que somos inimigas, que devemos competir o tempo todo; e, como disse brilhantemente Chimamanda Ngozi Adichie, não competimos “por empregos ou conquistas, o que pode ser algo bom, mas pela atenção dos homens”. Esse mesmo patriarcado, que transforma minhas irmãs em inimigas, reforça a ideia de que todas nós existimos com a única função de servir homens como você. Mesmo que você seja um homem “diferente”, nós ainda existimos para servi-lo. Sendo homem, você automaticamente está inserido nessa cruel relação de dominação, mesmo que não queira. Sendo homem, a sociedade o colocou, sem perguntar a você se queria ou não, na posição de abusador emocional de mulheres. Quando estamos andando na rua sozinhas à noite e o encontramos, não paramos para nos perguntar se você tem um bom caráter. O medo nos sobe à cabeça e nós corremos. Você não tem como lutar contra isso, porque, num relacionamento abusivo, quem deve lutar para se livrar disso é a vítima; o que você pode fazer é conscientizar seus iguais da existência dessas relações e de como isso nos afeta.

Entre 2001 e 2011, mais de 50 mil das minhas irmãs morreram simplesmente por serem mulheres. Então você me diz: “mas morreram muito mais homens no mesmo período!”. É verdade. Acontece que o crime de assassinato de um homem é diferente do crime de assassinato de uma mulher, da mesma forma que assassinar um homem homossexual é diferente de assassinar um homem heterossexual. Quaisquer crimes envolvendo minorias sociais, salvo raras exceções, decorrem ou são agravados pelo fato daquela pessoa pertencer a uma minoria social. Dado que ser mulher não é algo que possa ser “escondido”, como a homossexualidade pode, não é exagero afirmar que os crimes de assassinato contra mulheres tenham pelo menos um dedinho de machismo. Afinal, quando um homem mata uma mulher, ele está exercendo seu controle sobre ela; quando uma mulher mata um homem, ela está saindo da sua posição submissa. Nenhum dos crimes é louvável, mas a natureza dos dois é diferente.

Mesmo quando continuamos vivas, caro homem, não paramos de sofrer com o patriarcado. Temos medo de andar pela rua sozinhas a qualquer hora do dia. A pesquisa Chega de Fiufiu contabilizou, em 2013, que 99,6% das 7762 mulheres que participaram da pesquisa já haviam sofrido assédio. Dessas, 83% disseram que receber cantadas não é algo legal. 90% já trocaram de roupa por medo de ser assediadas na rua. Por medo. Medo. Não existe palavra que resuma melhor o sentimento de ser mulher do que “medo”. Estamos constantemente suscetíveis a ataques, seja na forma de “inocentes” cantadas, ou na forma de brutais estupros. Então você me diz, homem: “mas não só mulheres sofrem estupros!”. De novo, é verdade; no entanto, em relatório do IPEA, nota-se que 88,5% das vítimas de estupro no Brasil em 2011 eram mulheres. Isso decorre da ideia de que mulheres devem estar sempre sexualmente disponíveis para homens, uma ideia vendida pela mídia e até mesmo pela educação que é dada aos nossos meninos. Aliás, esses dados seriam muito maiores se todas as mulheres estupradas tivessem coragem de denunciar seus agressores, ou mesmo conseguissem reconhecer que foram vítimas de um estupro.

Mas nem precisamos ser tão brutais para falar de violência contra mulheres, estimado homem. Uma pesquisa (promovida por uma marca de higienização antes e depois do sexo, mas ainda válida) feita com 1252 homens heterossexuais revelou que 33% deles tem nojo de fazer sexo oral em sua parceira. Não era para menos: nossa vagina é taxada como suja e nojenta desde a infância. Precisamos ter um cuidado especial com ela, sempre limpar, usar um sabonete diferente, um lenço umedecido, limpar com o papel higiênico até estarmos completamente secas (muito embora vulva seca seja um mau sinal), tirar todos os pelos (e ficar suscetíveis a ataques de microorganismos que poderiam ser evitados com a presença desses pelos), entre outros cuidados que “toda mulher” precisa tomar para estar sempre cheirosinha e ser desejada. Acontece que a vagina, como qualquer parte do corpo, possui um odor natural, indicativo de que está tudo bem por lá, e esse odor não é o de flores do campo. Pelo contrário, aliás: higiene em excesso mata a flora vaginal, um conjunto de microorganismos benéficos e necessários para a saúde da vagina. Somos convencidas de que a vulva é nojenta e não deve ser tocada nem por dedos, muito menos por línguas; enquanto isso, ensinamos aos meninos que, depois de fazer xixi, uma balançadinha resolve. E ai da namorada dele se não quiser fazer sexo oral e engolir depois!

Talvez devido a esse nojo extremo da vagina, e com certeza devido à ignorância extrema quanto à anatomia e fisiologia do prazer feminino, um terço das mulheres brasileiras nunca atingiu um orgasmo. Sabe-se que a masturbação ajuda a mulher a se conhecer, saber o que gosta e o que não gosta quanto ao sexo, e também melhora sua capacidade de atingir orgasmos, mas 40% das mulheres brasileiras nunca se masturbaram, não porque não queiram, mas porque a masturbação feminina ainda é vista como um tabu, algo proibido. Quando nossas mães nos viam com a mão perigosamente próxima da vulva durante o final da infância, elas nos censuravam e brigavam conosco; mas quantas mães brigam com os filhos adolescentes quando eles passam um tempo descomunalmente grande no banho? E, caro homem, se a sua parceira não consegue atingir orgasmos durante o sexo e teve a coragem para contar isso a você (o que geralmente não acontece), pense bem: você sabe manipular um clitóris? Talvez seja hora de aprender.

Você também pode me perguntar, amado homem, por que estou falando de sexo num blog sobre assexualidade. Isso é porque o mesmo patriarcado que mata de forma gritante as minhas irmãs negras e trans não permite que minhas irmãs assexuais se assumam como tal. Como já disse, uma mulher tem a obrigação de estar sexualmente disponível para os homens que a desejam, e isso tira de suas mãos o poder de se assumir assexual perante a sociedade – e, muitas vezes, perante si mesma. Se ela o faz, será questionada; morrerá sozinha, não será feliz. Muitas nem consideram a assexualidade como uma opção para sua identidade, não só porque não a conhecem, mas também porque não nos é dada essa opção. Precisamos nos casar com um homem, satisfazê-lo e ter filhos com ele, ou jamais alcançaremos a felicidade plena. Daí, você, louvado homem, também pode concluir que não temos direito a ser lésbicas, e isso é verdade. Mulher com mulher só é aceito em filmes pornôs, quando ambas estão ali para dar prazer a – adivinhe – homens, como você.

Por tudo isso, querido homem, não me dê parabéns. Muito menos uma rosa. O melhor presente que você pode me dar é reconhecer que não existe mérito nenhum em ser mulher.

A “ninfomania social” ou Como a militância assexual pode ajudar pessoas sexuais

tw: exemplos de: transfobia, lesbofobia, homofobia, afobia

Vivemos numa sociedade viciada em sexo. Talvez isso seja mais fácil de perceber para uma pessoa assexual, vítima direta da ninfomania da sociedade, mas o sucesso das pessoas – de todas as pessoas – está, de certa forma, ligado ao sexo. Um homem bem-sucedido não é aquele que tem cinco casas na Europa, dez carros importados e um quarteirão na Avenida Paulista, mas sim o homem que penetra muitas vaginas (até porque, quando um homem tem cinco casas na Europa, dez carros importados e um quarteirão na Avenida Paulista, ele “deve pegar todas”). A mulher bem-sucedida é aquela que tem um homem, é a “bem-comida” (ou “bem-amada” para pessoas mais tímidas), a que é penetrada, mas não por muitos homens, apenas por um. Na sociedade ninfomaníaca, os papéis de gênero são complementares, mas também contraditórios: homens devem penetrar muito, mulheres devem deixar ser penetradas. Homens devem ter múltiplas parceiras, mulheres devem ser fiéis; mas ambos necessitam do sexo para sua felicidade, para seu bem-estar pleno. Mesmo pessoas que fujam do padrão heteronormativo caem nesses papéis. O homem gay também deve penetrar para ser um homem; gays passivos, principalmente afeminados, não são aceitos nem no meio LGBT. Para a sociedade ninfomaníaca, que também é falocêntrica, transfóbica e binarista, o sexo lésbico não existe, é “só uma brincadeira”, e por isso não existem lésbicas ativas – afinal, elas precisariam de um pênis para penetrar vaginas, e mulheres trans que não fizeram a cirurgia de redesignação não são mulheres “de verdade”, logo, não podem ser lésbicas.

Isso se traduz de forma bastante clara em jogos online, por exemplo. Tomando o World of Warcraft como exemplo – um jogo que adoro e o que mais entendo -, uma pessoa, para ser boa no jogo, precisaria ter um personagem no nível 100, com equipamentos épicos, um anel lendário e um dano por segundo incrivelmente alto; mas nada disso é o suficiente se o dito jogador não tiver uma namorada. Sim, no feminino, porque um bom jogador só pode ser homem e só pode penetrar vaginas. Relacionamentos amorosos/sexuais com homens são inadmissíveis, a menos que você “goste” de ser xingado a cada login. Caso o homem em questão se relacione com uma mulher trans, ele será eternamente ridicularizado por ter “caído na mentira” dela.

Para uma criança, um adolescente ou um adulto que ainda não tenha formado sua personalidade, a ninfomania da nossa sociedade é extremamente danosa. Com o indivíduo suscetível a qualquer tipo de propaganda, bombardeá-lo com a ideia de que ter uma vida sexual badalada é ser saudável, feliz e bem-sucedido faz com que ele se envolva em situações que, muitas vezes, não são exatamente consentidas. E, mesmo quando o são, talvez não fossem se a pessoa tivesse escolha. Infelizmente, nosso consentimento nem sempre parte de nós; quando nos forçamos a pensar que o sexo nos fará felizes, mantemos relações sexuais com quaisquer pessoas para alcançar essa felicidade. Muitas vezes nos arrependemos, e, depois de pensar um pouco, chegamos à conclusão de que nos forçamos a ter aquele momento, como se fosse nossa obrigação manter relações sexuais sempre que a oportunidade apareça. Caso isso não aconteça, somos moles, frouxes, não sabemos curtir a vida. (Não estou falando de pessoas, na maioria homens cis, que bebem até cair, ficam com uma pessoa que sofra preconceito, como travestis e mulheres gordas, e depois “se arrependem” disso. Essas pessoas são apenas preconceituosas.)

E onde entra a militância assexual nessa história toda? Obviamente, essa “ninfomania social” atinge pessoas assexuais. A maior parte dos casos de afobia que presenciei derivam dela. Somos aberrações, erros da humanidade por não ter interesse por sexo. Ao me reconhecer demissexual e começar a pensar nas relações de poder que me mantiveram presa à ideia de que fui doente até aquele momento, percebi tudo isso que foi explicitado até agora, e entendi que não era a única a sofrer com isso. Minhas amigas que foram forçadas a ter sua primeira vez num momento em que não queriam sofreram com isso. Meus amigos gays que foram forçados pelos pais a manter relações sexuais com mulheres sofreram com isso. Nenhuma dessas pessoas é assexual, mas elas também sofrem com a ninfomania da sociedade, muito embora poucas pensem sobre ela. Ao mesmo tempo, pessoas assexuais são invisibilizadas e silenciadas em todos os espaços: não existe “A” na sigla LGBT, e, recentemente, uma organização de lésbicas e gays dos Estados Unidos fez uma campanha afirmando que o “A” da sigla estendida LGBTQIA queria dizer “aliados” e não “assexuais” (caso completo aqui, em inglês). Por isso, mesmo em meios não-normativos, as pessoas tendem a acreditar que não existimos, e isso só reforça a ninfomania social, no sentido em que compactua com a ideia de que o sexo é necessário para o bem-estar dos seres humanos.

Com uma militância assexual bem organizada e bastante presente, a visibilidade assexual seria muito maior, e as pessoas saberiam que existimos, que não somos aberrações e nem deprimidos – pelo menos não pelo fato de sermos assexuais. Isso levaria mais pessoas à reflexão que acabei de fazer sobre a ninfomania da sociedade, e elas concluiriam que é necessário subverter esse processo para que a adolescência e a vida adulta sejam fases menos traumáticas na vida de muitas pessoas, assexuais ou não. Isso também contribuiria para a não sexualização da infância: a partir do momento em que se assume que nem todas as pessoas possuem necessidade de fazer sexo, a pressão para que façam diminui, e perguntas como “você já tem namoradinhes?” param de ser feitas para crianças de cinco anos, por exemplo. No entanto, o sonho de uma sociedade menos ninfomaníaca está bem longe de ser alcançado por vários fatores. O mais proeminente deles, ao meu ver, é a falta de discussão sobre a compulsoriedade do sexo, mas podemos citar também interesses comerciais (afinal, indústrias de camisinhas, testes de gravidez, anticoncepcionais e brinquedos eróticos não ficariam felizes caso uma parcela de seus consumidores tivesse a liberdade de se assumir assexual).

E não é necessário temer um colapso da vida humana caso a sociedade deixe de ser ninfomaníaca: o número de pessoas que sentem atração sexual continuará maior que o número das pessoas que não sentem, o que desaparecerá será a pressão. Além disso, nosso modelo contemporâneo de alimentação e o estresse em que vivemos favorece doenças reprodutivas em homens e mulheres e aumenta os níveis de esterilidade em casais heterossexuais cisgênero. Se você realmente se preocupa com a perpetuação da espécie humana, campanhas para uma melhor alimentação e uma vida mais tranquila, além de militância ambiental, para que os recursos naturais tornem possível a procriação, são muito mais urgentes do que campanhas contra homossexuais ou assexuais.

Assexualidade e feminismo

O feminismo é uma luta hegemônica. Quando se fala em luta de minorias, ele sempre está lá, mesmo que discreto, no meio das pautas em questão. Se a luta é por igualdade social, a emancipação das mulheres ajuda muito nisso; o Bolsa Família, que fez de tantas mulheres as chefes da casa, é um exemplo disso. Se a luta é por direitos LGBT, ou seja, por igualdade civil e o fim do preconceito, esses objetivos jamais serão atingidos sem que as mulheres sejam vistas como iguais pelos homens e por outras mulheres (a menos que o movimento seja GGGG, o qual não é uma luta de fato). Sendo assim, é mais do que justo que o feminismo também esteja inserido e seja intrínseco à luta pelo reconhecimento de pessoas assexuais.

Como minhes amigues do Coletivo Feminista Trepadeiras me ajudaram a perceber de forma mais clara, o feminismo luta, entre outras coisas, pela liberdade dos corpos femininos. Isso quer dizer muitas coisas; dentre elas, que quando uma mulher diz “não”, é exatamente isso que ela quer dizer. Se você é mulher ou foi designade assim ao nascimento, sabe perfeitamente do que eu estou falando. Todes nós temos pelo menos uma história de assédio sexual ou moral decorrente do fato de não estarmos sexualmente disponíveis quando deveríamos, ou seja, quando a sociedade pede que estejamos. Comigo, isso acontecia com frequência em festas, uma dessas ocasiões em que se supõe que as mulheres estejam sexualmente disponíveis – algo que não é regra nem para mulheres sexuais, então, por que o seria para as assexuais? Nunca cheguei a sofrer violência física por isso, mas ficava tão socialmente acuada que, com o tempo (e com a piora da minha fobia social), parei de sair. Era muito mais fácil ficar em casa me divertindo no computador do que precisar sair e enfrentar quem quisesse se aproximar de mim com intenções muito diferentes das minhas.

É aí que o feminismo encontra a assexualidade. Defendendo o direito da mulher de dizer não a qualquer pessoa que assuma que ela está sexualmente disponível, o feminismo defende o direito à assexualidade, isto é, o direito a se assumir assexual sem ouvir coisas como “você só não encontrou a pessoa certa” ou “você só está se fazendo de difícil”. Caso as pessoas conseguissem entender claramente que o não de uma mulher é tão legítimo como qualquer outro “não”, nós jamais precisaríamos ouvir isso, porque ninguém pensaria que estamos “nos fazendo de difíceis”, simplesmente que não estamos sexualmente disponíveis; acontece que o machismo objetifica todas nós mulheres, fazendo de nós instrumentos de prazer para os homens e tirando nosso direito de não estar sexualmente disponível para qualquer um deles. Isso resulta em agressões de toda sorte; afinal, quem nunca foi xingada por não querer ficar com um cara?

Justamente pelo fato de o feminismo defender a liberdade dos corpos femininos é que não consigo entender quando escuto de uma feminista as mesmas expressões que qualquer outra pessoa  usaria para me deslegitimar enquanto pessoa assexual. Isso já aconteceu, e choca ainda mais do que chocaria se fosse qualquer outra pessoa, simplesmente pelo fato de feministas acreditarem que o corpo da mulher é propriedade dela própria e, portanto, ela pode fazer dele o que quiser: dar para todo mundo, dar para qualquer um ou não dar para ninguém. A opção de não dá-lo a ninguém – ou seja, o celibato – ou a assexualidade – a orientação sexual – devem ser respeitadas igualmente entre si e quando comparadas à opção de uma mulher que decidiu dar para quem quisesse. No meio feminista, contudo, essa última mulher é mais aceita, e até mesmo exaltada, em comparação à assexual ou à celibatária; certas vezes, as duas últimas são vistas como mulheres tão afetadas pelo patriarcado que não conseguem aceitar a sua sexualidade, e se escondem por trás do celibato ou da assexualidade. Claro, isso pode ser verdade; afinal, nossa mente cria toda sorte de artifícios para legitimar um abuso emocional, principalmente quando ele tem as dimensões do patriarcado. Generalizar o caso, contudo, é um problema. Da mesma forma que nem todas as feministas pensam isso das mulheres assexuais e celibatárias, nem todas essas mulheres estão desconfortáveis com a própria sexualidade a ponto de escondê-la.

Em outras palavras, o feminismo é extremamente benéfico para a aceitação da assexualidade, no sentido que instrui as pessoas para que aceitem o “não” da mulher; no entanto, é preciso tomar cuidado para que as mulheres assexuais, ou mesmo as celibatárias, não se sintam excluídas do movimento. Isso é construído com reflexão e conhecimento sobre a situação dessas mulheres.

Se quiser mais um ponto de vista sobre a baixa aceitação de mulheres que não fazem sexo regularmente no feminismo, leia este texto.