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Vamos pintar a vida de amarelo

TW: SUICÍDIO

Estamos entrando nas últimas semanas de setembro, mês escolhido para sediar a campanha contra suicídio do CVV (Centro de Valorização da Vida). Chamada de “setembro amarelo”, a campanha propõe levas informações sobre a problemática do suicídio para a população que nunca sofreu com esse fantasma e ampliar a rede de apoio para a população que sofre ou já sofreu.

Em 2014, o Brasil era o 8º país com mais suicídios no mundo e o 4º com o maior crescimento no número de suicídios na América Latina. Não sei e não cabe a mim discutir as causas dessas estatísticas tão exorbitantes, mas o fato é que moramos num país onde o número de pessoas acometidas por essa epidemia é grande e cresce rápido, enquanto o número de pessoas ignorantes sobre ela se mantém altíssimo. Todo mundo que já teve ideações suicidas ou tem amigos próximos que já as tiveram sabe que não é fácil encontrar uma pessoa para quem desabafar. Desordens mentais, infelizmente, ainda são vistas como fruto de uma falta de vontade pessoal, de uma grande preguiça existencial, e não de um real desequilíbrio mental e químico que resulta numa doença crônica, de difícil manejo e alto risco de morte. Assim que tentamos encontrar uma pessoa com quem conversar, esbarramos no clichê do “você deveria sair mais”, ou “você deveria arranjar um emprego/uma pessoa para namorar/uns amigos”. Não é simples se livrar de uma depressão ou de ideações suicidas, porque elas são parte da sua mente, uma parte que pode ser confortável, mas que ninguém gosta de ter; mas também são partes que estão sempre ali, o tempo todo, cutucando, machucando, ferindo sem dar tempo de cicatrizar. Só com muito trabalho e tempo elas vão embora, mas, enquanto não vão, é imprescindível que as pessoas em volta de quem está tendo ideações suicidas entendam que estar mal não é escolha, e muito menos gostoso.

Obviamente nem todas as pessoas suicidas pensam a mesma coisa, mas um sentimento que pode ocorrer é o de falta de esperança, de que não existe um motivo para acreditar que as coisas vão melhorar. Dessa forma, não importa o que exista lá “do outro lado”, vai ser melhor que o que existe aqui. Sem esperanças de que a vida vá melhorar, a pessoa suicida passa para um estado de inércia (veja: inércia, não preguiça), em que não vale a pena tentar sair do fundo do poço. Terapia não é mais uma opção, porque, nesse estágio, a pessoa entende que não é um terapeuta que vai conseguir tirá-la daquele estado. Esse é o pensamento da pessoa suicida, mas não necessariamente é a verdade. Uma pessoa deprimida, sem esperanças na vida, costuma ver a realidade de forma mais distorcida que o restante das pessoas. É aí que a atuação de pessoas em situações melhores é crucial: as palavras certas podem significar muito para uma pessoa em ideação suicida, mas um passo em falso pode ser fatal. Para quem nunca esteve numa situação dessas, cabe saber que ajudar não é dizer o que a pessoa deveria fazer, mas sim, o que ela pode fazer. Dizer que uma pessoa deprimida deveria não estar mais deprimida é fácil, mas o que ela realmente pode fazer para chegar até lá? Fazer com que a pessoa se acalme em momentos de crise, ajudá-la a acreditar um pouco mais na eficiência da terapia, ocupá-la com atividades lúdicas e que a distraiam dos pensamentos suicidas são algumas das alternativas, mas conhecer a pessoa que se quer ajudar é a melhor opção. Só assim você saberá como realmente ajudá-la sem piorar a situação.

Nesse sentido, existe mais um problema: a personalidade da pessoa suicida. Se você já conhecia essa pessoa antes do período de depressão, saiba que ela não é mais a mesma pessoa de antes. A depressão nos transforma, nos deixa muito diferentes do que éramos antes. Se a pessoa em questão for adolescente ou jovem adulta e tiver passado toda a adolescência em depressão, o caso é ainda mais grave, porque essa pessoa não teve a oportunidade de formar sua personalidade, já que havia uma mentalidade deprimida tomando conta dos pensamentos dela e ela nunca conseguiu agir por si só. Por isso, dizer para uma pessoa deprimida e/ou com ideações suicidas coisas como “você não é a pessoa que eu conheci” é um erro. Só vai deixá-la ainda mais deprimida por ter decepcionado alguém que ela amava, e não vai ajudá-la de forma alguma.

Depois que a pessoa que você está tentando ajudar conseguir sair do fundo do poço, saiba que ela ainda não voltará a ser a mesma que era antes de tudo isso acontecer. É bastante comum que pessoas que passaram por essa experiência tenham Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT), uma doença psiquiátrica causada por eventos violentos. Idealizar, planejar e tentar suicídio é uma grande violência contra si próprie, e ninguém vai te dizer o contrário; logo, nada mais natural que haja um trauma depois dessa violência. Caso a pessoa suicida tenha TEPT, antes ou depois de se livrar da causa das suas ideações e/ou tentativas de suicídio, a terapia é muito importante, bem como o apoio das pessoas próximas a ela. Não é fácil sofrer com crises e mais crises de pânico, ansiedade e euforia, mas virar as costas para uma pessoa com TEPT pode ser o fim dela. Só faça isso se a pessoa pedir – e, mesmo nesse caso, saiba avaliar se ela está fazendo isso porque sua relação com ela é tóxica ou se é por um desejo de isolamento para que a culpa pelo suicídio iminente seja atenuada.

Numa analogia simples: todas as pessoas do mundo têm uma latinha de tinta, um pincel e uma parede para pintar. As pessoas saudáveis estão com a latinha cheia e as pessoas deprimidas estão com a latinha vazia. Se você tem a latinha cheia e seu amigo tem a latinha vazia e nenhum dinheiro para comprar tinta, você tem duas formas de ajudar: usando um pouco da tinta da sua latinha para encher a latinha dele ou dar dinheiro para ele comprar mais tinta. Não adianta dizer a ele para ir à loja comprar tinta, porque ele não tem dinheiro. Também não adianta dizer que ela deveria arranjar mais tinta, porque ele não tem como fazer isso. O que você pode dar ao seu amigo são meios, opções para que ele arranje a tinta. Dizer que ele precisa de mais tinta é o óbvio, e só vai fazê-lo se sentir mal por não ter tinta na latinha.

Se você tem a latinha vazia, não desista de você mesme. Vai melhorar. Isso é um conselho de quem, um dia, já perdeu até a latinha.

Se você tem a latinha cheia, pegue o seu pincel, molhe na sua tinta e pinte a vida de todas as pessoas à sua volta de amarelo, para sempre. Setembro vai acabar, mas a sua tinta, não.

Magrofobia? Tem certeza?

Eu sempre fui gorda. Como qualquer mulher criada dentro da estrutura social do patriarcado e que não pensa sobre sua condição, sempre detestei ser gorda. Foi por causa da minha forma física que eu saí – ou, melhor dizendo, fui praticamente expulsa – do meu primeiro emprego, como modelo fotográfica e de passarela. Foi por causa da minha forma física que eu sofri bullying por muitos anos, desde a escola primária até o colegial. Enfim, meu corpo gordo, que só deixou de sê-lo muito recentemente e de forma desagradável, sempre foi fonte de irritação para mim. Não é pouco dizer que eu sempre odiei ser gorda, e só nos últimos três anos comecei a compreender que eu não precisava me odiar por isso; pelo contrário, podia me amar e muito sendo gorda, e inclusive porque sou gorda. A culpa de todas essas coisas que sempre aconteceram comigo não era minha, muito embora os outros fizessem questão de dizer que eram.

Se você é gorde, você não tem opção. Você precisa emagrecer. Não é uma coisa que cabe a você decidir; é claro, você pode decidir permanecer gorde, mas não é sua competência avaliar se você realmente tem a necessidade de emagrecer ou se pode continuar do jeito que está. Não importa se você é feliz sendo gorde. A sociedade decidiu, muito antes de você nascer, que gente gorda é gente doente, porque tem placa de gordura no coração e no fígado, tem pressão alta, tem problemas de coluna, tem diabetes, tem síndrome metabólica e mais outras mil doenças para as quais a correlação com a obesidade é forte. Você pode até continuar gorde, mas vão te julgar como uma pessoa preguiçosa, desleixada, que não cuida de si mesma. Porque se cuidar significa ser saudável, e ser saudável significa ser magre. É completamente inconcebível para a sociedade que uma pessoa gorda possa ser saudável sendo gorda, e, quando é, não poderá ser feliz, porque pessoas gordas não são amadas, não são respeitadas, não são colocadas no mesmo patamar de pessoas magras. Quem não se lembra da Perséfone, da novela Amor À Vida, que ficou durante mais da metade da história sendo ridicularizada por ser gorda e virgem? Pode parecer apenas um exemplo escrachado, mas assim é a vida de muitas mulheres gordas: lembradas cotidianamente do quanto são patéticas e “mal-amadas” por serem gordas.

Não estou dizendo que as doenças que citei anteriormente não têm nenhuma ligação com a obesidade. É claro que, se você é uma pessoa gorda, você precisa ir ao médico regularmente, especialmente se houver algum caso de diabetes, hipertensão, câncer, arritmias e outros problemas geneticamente herdados na sua família. O problema é que pessoas magras também precisam ter esse tipo de cuidado consigo mesmas, mas elas não são cobradas disso, porque seu tipo físico não está constantemente lembrando os outros que aquela pessoa pode ter algum problema de saúde. Muitas vezes, a gordura não incomoda tanto a pessoa gorda quanto incomoda os outros ao seu redor, e é aí que mora o preconceito. É aí que começa a ficar absurdo falar em “magrofobia” – da mesma forma que é absurdo falar em “heterofobia”, “brancofobia”, etc. Pessoas magras podem sofrer bullying por ser magras? É claro que podem, mas sofrer bullying não caracteriza preconceito. A diferença entre preconceito e bullying é tênue, mas, analisando um pouquinho a situação toda, é possível delineá-la: bullying é uma atitude cruel, maldosa em relação a uma pessoa; preconceito depende de uma estrutura social criada para discriminar aquela pessoa. Existe bullying sem preconceito, sim, e é esse o caso das pessoas magras. Não existe uma estrutura social criada exclusivamente para discriminar pessoas magras. Pessoas magras não são demitidas por isso; elas não têm sua saúde monitorada cotidianamente por causa disso; não choram em provadores de lojas porque nenhuma, absolutamente nenhuma roupa em nenhuma loja cabe nelas; não são cobradas por sua forma física por pessoas completamente desconhecidas; não são censuradas ao comer um sanduíche, um sorvete ou qualquer coisa que não seja uma folha de alface com um copo d’água; e não sofrem prejuízos em relações sociais por conta da sua magreza.

Se você leu até aqui e está pensando que eu acho que pessoas magras absolutamente não sofrem, você leu errado. As pessoas consideradas “magras demais” sofrem com alguns dos aspectos que eu listei no parágrafo anterior, no que diz respeito ao quanto comem e como vai sua saúde, mas isso também não é magrofobia por um motivo bastante simples: não é institucionalizado. Pessoas magras demais não são excluídas da seleção para a vaga de vendedora no shopping por serem magras demais. Pelo contrário, aliás: essas pessoas eram exaltadas no mundo da moda até muito recentemente, e ainda o são em alguns espaços. Ser muito magra é o sonho de muitas meninas gordas, e não é difícil inferir, a partir daí, que a violência contra pessoas gordas seja muito mais escancarada e legitimada por uma estrutura social.

Quando eu era criança, minha mãe costumava me dizer, para aumentar a minha autoestima, que “a gordura só incomoda os outros”. Ela não estava errada. O crime de ser gorda extrapola a falta de saúde, a falta de beleza ou a falta de autoestima; ele ofende os outros muito mais profundamente do que pode ofender a pessoa gorda. Falar em magrofobia numa sociedade que ojeriza corpos gordos de forma institucional é como falar em heterofobia ou cisfobia no contexto LGBTfóbico em que vivemos; por que, então, tem tanto militante da causa LGBT invalidando pessoas gordas que clamam sofrer gordofobia em espaços de militância?

“Mas ela era tão bonita!”

A beleza sempre me intrigou. Quando bem jovem (criança, mesmo) participei de inúmeras seleções para agências de modelos até conseguir uma que me aceitasse apesar dos quilos a mais, e, nesse tempo, testemunhei uma corrida insana para se conseguir e/ou se manter a beleza. Mesmo entre crianças, a competição para ver qual das meninas era mais bonita, qual tinha o acessório mais bonito no cabelo, qual tinha conseguido desfilar de salto (!) sem perder o equilíbrio era muito grande. As minhas colegas de profissão se orgulhavam de conseguir ficar horas e horas sentadas numa cadeira de salão tratando do cabelo para uma sessão de fotos que não duraria mais que trinta minutos, ou de conseguir empilhar uma biblioteca na cabeça. Fui modelo por pouco tempo, mas, enquanto o fui, me assustei muito com a indústria da beleza. Eu não compreendia o que era aquilo, por que aquilo acontecia, mas sabia que não queria deixar que um batom e um salto 15 tomassem conta da minha vida.

Fui crescendo, e as coisas não pareciam melhorar. Sempre, antes de sair de casa, minha mãe me perguntava se eu “não ia passar um batomzinho”. A resposta era quase sempre não, porque eu não gostava de usar maquiagem, apesar de gostar muito de passá-la no rosto; no começo, ela insistia e até brigava comigo por isso, mas depois foi desistindo, sempre me lembrando de que menino nenhum ia gostar de mim assim. Até hoje, por alguma razão que não consigo entender, me sinto extremamente desconfortável quando me dizem que estou bonita, principalmente se esse elogio partir dos meus pais. Talvez por isso, ou talvez pelo grande susto que a indústria da beleza me proporcionou na infância, eu não consiga entender por que a beleza é tão valorizada pelas pessoas. Beleza vende, principalmente a feminina – que foi feita para ser usada e observada, segundo a cultura patriarcal, que é a raiz e o caule da indústria da beleza -, e todos compram o ideal do belo, de que ser bonito é sinônimo de ser bem-sucedide.

Prova disso é que, quando uma pessoa jovem morre, três coisas são geralmente ressaltadas pelas pessoas que a conheciam: inteligência, alegria e beleza, três características bastante apreciadas pelo capitalismo. Dessas, a beleza é a que mais me intriga quando ressaltada dessa forma: qual o problema de uma pessoa considerada bela morrer? Depois de muito pensar, cheguei à conclusão de que, muitas vezes, pessoas consideradas belas dentro do padrão não são lembradas pelos outros como pessoas. Elas são mais que pessoas, um tipo de semideusas, intocáveis e inabaláveis; não dormem, não comem, não têm necessidades fisiológicas e, acima de tudo, não morrem. Sumarizando, não têm os problemas que as pessoas comuns, que não são exageradamente belas, possuem, e isso faz com que os “pobres mortais” se choquem ao perceber que sim, elas são pessoas, tal qual nós.

Não estou dizendo que exista preconceito ou discriminação contra pessoas belas. Pelo contrário: pessoas consideradas feias sofrem muito, seja para arranjar um emprego, companheire ou amizades, e não existe simetria em dizer que pessoas consideradas belas sofrem do mesmo jeito. O que existe é um sentimento coletivo de que o que vendem na mídia como belo é, na verdade, perfeito, sobreumano, inalcançável de tal forma que as pessoas que possuem esse “dom” deixam de ser seres humanos para se tornar uma coisa acima disso. Esse pensamento é nocivo de diversas formas. Primeiro, gera problemas epidemiológicos como transtornos alimentares e de humor, tanto que as passarelas passaram a repudiar modelos excessivamente magras por incitar esse tipo de doença. Segundo, cria sobre as pessoas, principalmente mulheres, uma expectativa irreal de beleza. Espera-se que mulheres sempre usem camadas e camadas de maquiagem para esconder imperfeições que todos têm, mas que são incompatíveis com o ideal de beleza; espera-se que se faça horas e horas de ginástica para perder quilos que não são nocivos para a saúde e, inicialmente, nem para a autoestima da pessoa. Daí vem a exclusão social de pessoas consideradas feias, que são vistas como “descuidadas de si mesmas”.

Apesar de ser um conceito subjetivo, a beleza está no imaginário das pessoas como algo unificado, uniforme e padronizado, como se seres humanos saíssem de uma fábrica, todes prontes para se tornar o impossível: a pessoa bela e perfeita, endeusada e sobreumana que estampa capas de revistas e outdoors.

Como não ser médicx babaca: um guia rápido

Todo mundo já se consultou com médique babaca. Médique babaca é aquele que faz questão de ressaltar que você não é uma pessoa “normal” e que sempre estará à margem da sociedade; que suas queixas nunca serão legitimadas, por ele nem por ninguém, porque você “escolheu” não seguir o padrão de conto-de-fadas Disney que todo mundo precisa seguir. Eu sei, você conhece um. Eu também conheço (mais de um, aliás). Médiques babacas adoecem ainda mais seus pacientes, e também adoecem a si própries; foi pensando nisso que eu resolvi escrever esse guia rápido de como não ser um deles, com 9 dicas fáceis de se seguir.

TW: exemplos de gordofobia, transfobia, racismo e homofobia no item 9.

  1. Não seja gordofóbique. Não é porque seu paciente tem 10, 20, 50 ou 100 quilos a mais do que você gostaria que tivesse que sua vida é miserável e um inferno na Terra. Ser gorde não é ruim e faz parte de quem a pessoa é; uma pessoa gorda é uma pessoa gorda, e não deve ser excluída de um grupo (no caso, o grupo de pessoas saudáveis) só porque é gorda. Claro, algumas pessoas têm motivos para se preocupar com ganhos de peso, mas não é porque uma família tem risco de doença cardiovascular/endocrinológica/etc que todas têm. E, mesmo que a pessoa à sua frente tenha altos riscos de desenvolver doenças crônicas devido ao seu peso, não há necessidade nenhuma de esfregar na cara dela a cada consulta que ela é uma aberração da estética/medicina e precisa urgentemente perder essa barriga antes que seu coração exploda. Ela sabe que não está no “peso ideal”. A mídia já disse isso para ela, os “amigos” já disseram isso para ela, e provavelmente até a família já disse isso para ela. Ela não precisa de você dizendo isso, também.
  2. Não seja transfóbique. Eu estou ciente de que sou uma mulher cis e não posso falar de transfobia, mas acho que é bastante óbvio que médique transfóbique não deveria existir. Você está lidando com vidas de pessoas, amiguinhe, não deve tratá-las como se fossem os bonequinhos em que você treinava ressuscitação. Se a pessoa se identifica como mulher, homem, não-binárie, genderfluid ou qualquer outra coisa, isso só concerne a ela. Você não tem poder algum de dizer quem ela é.
  3. Não seja lesbo/homofóbique. Essa vai especialmente para ginecologistas (e qualquer outra especialidade que lide diretamente com a sexualidade das pessoas). Ser homofóbique é especialmente ruim para médiques ginecologistas porque assusta e afasta as pacientes e dificulta ou impede o tratamento. Dizer, ou dar a entender, a uma pessoa que você a despreza por amar e/ou fazer sexo com quem ela quer é, além de cruel, extremamente indelicado e desumano. Portanto, não faça.
  4. Não seja racista. Assim como ser gorde, trans*, bi/homo/hetero/assexual e provavelmente qualquer outra coisa que você vai achar nessa lista, ser negre também faz parte da identidade da pessoa que você está tratando; portanto, respeite. Eu entendo que algumas condições acometam pessoas negras com mais frequência, mas é aí que deve parar a sua preocupação com a cor da pele de pacientes. Sua especialidade não tem nada a ver com nenhuma dessas condições? Ótimo, você pode simplesmente respeitar a negritude da pessoa à sua frente.
  5. Não seja machista. Ser machista (e gordofóbique, lesbo/homofóbique, transfóbique, racista, etc) já é péssimo em qualquer pessoa, mas especialmente terrível se você for obstetra. A violência obstétrica é a manifestação pura do machismo na medicina, e existe das mais diversas formas: desde uma episiotomia (aquele corte entre a entrada da vagina e o ânus para facilitar a saída do bebê) sem consentimento até um “na hora de fazer não gritou, né?”, e passa por cesarianas desnecessárias impostas por especialistas. Eu poderia ficar horas falando de outras coisas além da violência obstétrica que têm raízes machistas e se manifestam em sua plenitude na medicina, mas acho que todo mundo consegue encontrar pelo menos mais um exemplo, se pensar por dois minutinhos.
  6. Não seja elitista. Ok, essa é bem difícil, eu sei. Mesmo eu, que não cresci pertencendo a classes altas e sim reproduzindo seu discurso, admito (com muita vergonha e nenhum orgulho) que sou um pouco elitista; para a classe médica, normalmente destinada a pertencer a classes altas, isso deve ser ainda mais difícil. Só que ser difícil não é desculpa. A faculdade de medicina foi fácil? Acho que não, né? Então você consegue. Não trate pacientes de consultório de forma diferenciada de pacientes do SUS, não culpe mulheres que jamais tiveram acesso a educação sexual e/ou métodos contraceptivos por gravidezes indesejadas e DSTs, enfim, em qualquer situação que envolva uma pessoa em condição social mais baixa que a sua, não pense que ter mais dinheiro faz de você uma pessoa melhor.
  7. Não seja capacitista. Apesar de estar fragilizada pelo problema de saúde que está enfrentando, essa pessoa à sua frente não é frágil. Ela tem força e autonomia para fazer o que quiser. Não importa qual seja a situação, você sempre precisa enxergar as outras pessoas como seres autônomos e capazes; mesmo um psiquiatra cuidando de pacientes deprimidos é ensinado a pensar assim. Saber lamentar pela perda e/ou pela condição de alguém sem fazê-la sentir-se incapaz é uma arte que médiques precisam aprender.
  8. Não pense que você é melhor do que ninguém. Você consulta as pessoas de cima de um pedestal de ouro cravado com diamantes? Se consulta, então quem precisa de tratamento é você, coleguinhe. A sua mesa fica na mesma altura em que o paciente se senta justamente para lembrar a vocês que são pessoas acessíveis entre si, que precisam manter um laço de confiança e que são iguais. Seu diploma, sua renda, seu jaleco, sua caneta daquele laboratório que financia suas viagens anuais a Paris ou qualquer outra coisa não te fazem melhor que seus pacientes. Isso significa que, além de não tratar as pessoas feito lixo, você não deve abusar da confiança delas para cometer crimes, enganá-las ou fazer qualquer outra coisa que possa custar seu CRM, sua liberdade ou a saúde mental da pessoa que você está consultando.
  9. Não tente mascarar seus preconceitos. Você diagnosticou-se como preconceituose. Independente de querer ou não mudar, aquela coisa de precisar ter um laço de confiança com as pessoas que você vai consultar continua valendo, então, você não pode escancarar seus preconceitos para elas; no entanto, mascará-los também não vai adiantar. É pior, em alguns casos. Se você não sabe identificar quando está ou não mascarando preconceitos, seguem alguns exemplos: “Você é gorde, mas é linde!”; “Nossa, você é transexual/travesti? Até parece mulher de verdade!”; “Sempre use camisinha, todo mundo sabe que todo gay tem AIDS”; “Seu cabelo é crespo, mas é lindo!”; entre outros. Nesses “outros”, um dos favoritos das pessoas preconceituosas é o clássico “Eu não sou preconceituose, mas…”. Nada de bom vem depois desse mas. De verdade. Mascarar os preconceitos, além de deixar ainda mais óbvio que você os tem, denota incapacidade e/ou falta de vontade de se livrar deles, o que não é algo para se orgulhar.

No final isso aqui virou mais um desabafo do que um guia rápido. Eu gostaria, muito, de encontrar médiques que tivessem essas qualidades, e espero que, da turma de medicina da qual participei, pelo menos uma pessoa saia assim. Mesmo. Se, nas próximas turmas de médiques que se formarem, tivermos 1 pessoa em 50 que saiba como tratar bem a diversidade, quem sabe, num futuro não tão distante, não tenhamos todas?

A meritocracia e a problemática do aborto

Um passo para frente, outro para trás – é assim que caminha a legalização do aborto, uma das mais incipientes polêmicas atuais, no tocante à saúde pública e ao feminismo. Há mais ou menos um mês foi aprovada uma portaria que incluía o aborto legal na lista de procedimentos executados pelo SUS, o que significaria um avanço nas políticas de prevenção de morte de gestantes e de maus tratos e abandono de crianças no Brasil, caso a mesma portaria não tivesse sido revogada dias depois da sua publicação. Se a revogação não tivesse acontecido, poderíamos esperar que pelo menos um milhão de mulheres por ano (Terra) logo teriam seu direito à interrupção segura da gravidez garantido, sendo que, dentre elas, figurariam muitas que não podem e nunca poderão pagar por um aborto em uma clínica e o fazem tomando chás absurdos e enfiando agulhas de crochê na vagina.

O que isso tem a ver com meritocracia? Bom, não sei se conseguirei explicar de forma clara o suficiente, porque essa reflexão é fruto de uma das minhas muitas viagens, mas tentarei. Meritocracia é a predominância do mérito sobre qualquer outro critério de seleção na sociedade, ou seja, é conseguir as coisas por “merecimento”. O vestibular é um dos exemplos mais claros de meritocracia em que consigo pensar, porque seleciona, da forma mais injusta possível, as pessoas que “merecem”, o que não significa exatamente aqueles que estudaram, mas sim os que tiveram oportunidade de pagar uma escola particular, geralmente das mais caras. Nessa conta também entram alguns transtornos psiquiátricos – por exemplo, entre dois adolescentes que estudam numa escola particular de elite, na mesma sala, sendo que uma tem transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e a outra não, qual delas tem mais chances de passar no vestibular? – e vários outros problemas, inclusive os familiares, o que torna a meritocracia uma ideologia muito, mas muito furada. Afinal, como quantificar o merecimento? E os fatores que não são considerados na hora de fazer essa conta? Como ter tanta certeza de que alguém não merece certo cargo sem acompanhar de perto seu cotidiano, seus dramas e suas alegrias?

Apesar de todos esses furos, a ideologia meritocrática é comprada por muita gente, como o próprio vestibular ilustra. Já vi muito vestibulando defender esse tipo de prova como algo ideal para selecionar quem entra e quem não entra em uma universidade, por mais pública que ela alegue ser (um beijo para a FUVEST!). Outro exemplo muito claro é o problema do desemprego. Quantas vezes eu já ouvi – e sei que não vou parar de ouvir… – gente dizendo, sobre pessoas pobres, que, “se tomassem vergonha na cara”, ou “se não fossem tão preguiçosos”, ou “se não ficassem tentando escolher o que fazer (!!!!!), teriam um emprego”. É bastante óbvio que quem diz isso não tem noção nenhuma do que é não ter oportunidade para sair de uma situação. Ninguém é pobre porque gosta, muito menos porque quer, e sim porque o sistema não deu oportunidades para que essas pessoas se desenvolvessem financeiramente. Os pobres sustentam o sistema, mas não cabem nele, e a forma de pensar meritocrática é um bom meio de dar conta dessa contradição: o que os pobres “merecem”, por sua falta de vontade de trabalhar, é limpar o meu lixo, lavar os meus copos, fazer a minha comida, limpar a bunda dos meus filhos (ironicamente, tarefas muito desgastantes). Seguindo a mesma ideia, uma mulher pobre, que não mereceu a informação suficiente para acessar camisinha e pílula anticoncepcional, ou que não mereceu o dinheiro de que precisava para comprar a pílula do dia seguinte, merece ter um filho ou morrer tentando se livrar dele. Ela também não tem dinheiro para subornar o ginecologista ou comprar Citotec, como muitas adolescentes de classe média e alta fazem, então, tudo o que pode fazer é tomar aquele chazinho de abacaxi, se jogar da escada, enfiar agulha na vagina, entre outras formas tão ou mais brutais de abortar uma criança e que matam quase 12 vezes mais, no Brasil, do que ataques de pitbull matam nos EUA (ZH Notícias). E ainda querem matar os pitbulls.

Achar que qualquer mulher poderia ter evitado a sua gravidez é não só uma atitude ingênua como meritocrática e, portanto, injusta. Além dos casos em que o método anticoncepcional falhou – mesmo a camisinha tem entre 88% e 97% de eficácia -, existem aqueles em que a gravidez não poderia ter sido evitada por uma miríade de outros motivos. Não cabe a mim, e nem a você, julgar os motivos de qualquer mulher para cometer um aborto. E nem para comer um bolo – mas de gordofobia eu falarei no futuro.