romantismo

Sexualidade e romantismo

Vejo muitos problemas na concepção atual de amor. Esses problemas vão desde a essência de algumas relações amorosas até a mercantilização do amor, mas cada um deles merece um post para si, porque a discussão é longa e rende muito. Neste post, eu vou tratar de um problema o qual não costumo discutir com as pessoas: a relação entre sexualidade e romantismo.

A maioria das pessoas admite a dissociação entre sexo e amor, unilateralmente. Prova disso é que o sexo casual é – felizmente – aceito na sociedade pós-industrial, embora com vários poréns. Não ignoro, é claro, a ditadura machista sobre nossa atitude sexual, que exige que as mulheres sejam santas e associem amor e sexo com muito mais frequência do que os homens o fazem, mas o fato é que, mesmo entre mulheres, o sexo casual já não é mais o tabu que foi, digamos, na época em que minha mãe era jovem – a saber, década de 1960. Sei disso porque fui criada numa família conservadora, que me ensinou a não me aproximar dos homens, porque tudo o que eles queriam era sexo e eu, enquanto mulher, não podia responder diretamente a essas investidas, ou seria taxada de puta, vadia, piranha e todos os outros adjetivos carinhosíssimos que todas nós já ouvimos pelo menos uma vez na vida. Quando cresci, aprendi que eu podia, sim, responder, mas em situações muito específicas. Também não vou me ater ao assunto da liberalização sexual feminina, ou esse post vai ficar longo demais; o ponto é que o sexo casual é razoavelmente aceitável em nossa sociedade, apesar de o ser em medidas diferentes para homens e mulheres.

Quando é exigido das pessoas que se dissocie amor e sexo, nessa ordem, muitas têm dificuldades em fazê-lo. Ainda é inconcebível para muita gente que uma relação romântica – um namoro, um casamento, etc – exista sem o componente sexual. Assim como o já citado machismo, isso também é pensamento aprendido; eu mesma aprendi assim, na escola mesmo, e, se não tivesse aprendido lá, aprenderia folheando qualquer revista feminina, nas quais propagandas berram que “sexo é vida” e prometem resolver todos os problemas de um casamento monogâmico falido corrigindo a impotência do marido ou a falta de vontade da mulher de ceder às investidas dele – porque, claro, o único papel de uma mulher num relacionamento sexual é ceder ao marido, não cabe a ela estimulá-lo; e ai dela se não ceder! Esse é outro aspecto que enxergo muito bem nos meus pais: em crise, eles reclamam de forma recorrente da falta de vontade de fazer sexo, e culpam esse fator isoladamente pela infelicidade pela qual passam. Parece que esqueceram de contar a eles, e à maioria das pessoas, que amor não tem, necessariamente, a ver com sexo. Um casamento é, antes de tudo, uma amizade; afinal, uma pessoa precisa ser muito amiga e confiar muito em outra para escolher passar o resto todo da vida com ela. O mesmo se aplica a um namoro. Relacionar-se amorosamente com alguém é abrir o seu coração e a sua alma para que alguém possa passar um tempo dentro de você, explorando seu íntimo, e isso não se faz sem uma amizade forte e grande confiança.

Talvez tudo isso que eu estou dizendo soe um pouco romântico demais, mas pense bem: uma pessoa qualquer, independente de sua orientação sexual, precisa ter relações sexuais todos os dias com a pessoa que ama para continuar amando-a, ou para continuar chamando a relação que tem com ela de namoro, casamento ou qualquer outra coisa? Você, que namora, me diga: se ficar três semanas sem fazer sexo com namorade, por qualquer razão, o namoro de vocês obrigatoriamente acaba? Se você respondeu que sim, está simplesmente exercendo sua liberdade de colocar o sexo como fator obrigatório para um relacionamento feliz, mas eu acredito que exista muito mais num namoro que o sexo, mesmo que se excetuem todas as coisas que eu disse anteriormente sobre abrir o coração para uma pessoa. Quando se namora alguém, não se namora o genital dessa pessoa, nem qualquer zona erógena que ela tenha; namora-se a pessoa por inteiro, inclusive sua mente, suas crenças e seus pensamentos. Um namoro que só existe pelo sexo podia existir perfeitamente bem, e até melhor, como uma amizade colorida, sem compromissos, com muito mais liberdade para as pessoas envolvidas; um namoro que existe pelo companheirismo, pelo amor, pela simples vontade de estar com a outra pessoa, existe bem com ou sem sexo. É claro que, em alguns relacionamentos, a falta de sexo é um problema, mas ela é mais um indicador de problemas muito maiores do que uma querela em si.

Falei tanto sobre isso porque uma das formas de preconceito contra assexuais mais pungentes que vejo pela internet e fora dela é dizer que vamos passar o resto das nossas vidas sozinhes. Eu mesma já ouvi isso dos meus pais, diversas vezes, porque além de assexual, sou uma pessoa muito difícil de me abrir para quem quer que seja. É tão comum assim ouvir isso justamente por causa dessa cultura tão arraigada de que um relacionamento amoroso deve vir com sexo embutido, ou então não é namoro de verdade. Se você já disse isso para alguém, ou se já pensou em dizer alguma vez, assexuais – pasme! – também namoram. E nem sempre é com outra pessoa assexual. Muitas pessoas sexuais mantém relacionamentos saudáveis com assexuais, e, embora eu não tenha detalhes sobre esses relacionamentos, posso dizer que eles não são um fracasso total, porque existem. Ser assexual não é assinar um termo que te obriga a ficar sozinhe para sempre, é simplesmente aceitar sua sexualidade, assim como ser gay, lésbica, bissexual, etc; e, da mesma forma que existem pessoas assexuais que têm relacionamentos amorosos saudáveis, existem pessoas assexuais que também são arromânticas, e são saudáveis sem qualquer relacionamento amoroso. Tudo o que nos contaram sobre precisar de um amor para viver e de sexo para ser feliz no casamento se revela, a partir desta data, como mentira.

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