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Quando o amor sufoca – e mata

TW: ABUSO EMOCIONAL

Hoje é dia das mães. É uma data particularmente bonita para as pessoas que têm famílias unidas, que se comunicam de forma saudável e possuem mães que sabem se colocar no seu lugar de mãe sem invadir a privacidade de suas crianças e/ou obrigá-las a desempenhar algum outro papel que não seja o de filhe (amigue, companheire, etc); no entanto, num dia tão especial para mães de forma geral e para pessoas que lutam por seus direitos reprodutivos, precisamos lembrar que nem todos possuem uma mãe, seja porque ela morreu, seja porque não desempenha seu papel de mãe. Também precisamos lembrar que não é necessário abandonar uma criança para deixar de desempenhar a função de mãe – ou de pai, mas não vou discutir aqui se existem diferenças entre as funções de uma mãe e as funções de um pai. Isso fica para outro post.

Mas como um pai ou uma mãe pode deixar de sê-lo sem sair de perto da criança? Há algumas formas de se fazer isso, e uma delas é mantendo um relacionamento abusivo com filhes. Relacionamento abusivo é uma relação entre duas pessoas que se baseia em chantagem emocional, culpa, vergonha, humilhação e isolamento, nem sempre explícitos; ou, numa definição mais elaborada e formal, “qualquer ato que inclua confinamento, isolamento, agressão verbal, humilhação, intimidação, infantilização ou qualquer outro tratamento que diminua o senso de identidade, dignidade e autoestima” (traduzido daqui). Esse tipo de relacionamento, nem um pouco saudável, entrou em voga na internet quando muitas pessoas que produzem conteúdo, seja em forma de vídeo ou texto, passaram a falar abertamente sobre ele. Ainda existe uma defasagem, no entanto, no sentido em que é muito mais fácil encontrar material em português – e até mesmo em inglês – sobre relacionamentos abusivos entre casais do que entre pais e filhes, mas as duas modalidades acontecem de forma bastante comum. Caso você queira saber um pouco mais sobre essa situação ou acha que está inseride nela, deixo aqui um vídeo da JoutJout (que tem um canal maravilhoso!) falando sobre relacionamentos abusivos no contexto de um casal.

No tempo em que estive engajada mais intimamente à militância LGBT, percebi que é bastante comum que pais e mães sejam abusivos com filhes que se encaixam em condições não-normativas de identidade de gênero e orientação sexual. Não sei se existe uma correlação verdadeira entre esses dois fatos, mas foi isso que observei, e foi isso que me levou a pesquisar sobre o assunto e escrever aqui.

Agora que sabemos o que é um relacionamento abusivo, precisamos saber como se percebe que se está em um, e é aí que mora o trunfo desse tipo de violência: não se percebe. Geralmente, nem a vítima, nem o agressor percebem que estão envolvides numa teia nem um pouco saudável de violência e desamor, e é aí que mora o perigo. Cabe às pessoas próximas da vítima alertá-la que essa situação não é saudável e que não pode se sustentar, muito embora o cenário mais comum seja a negação da vítima em relação ao abuso que sofre. É difícil para ela entender e aceitar que aquela pessoa está violentando-a, justamente porque um dos “sintomas” de um relacionamento abusivo é que a vítima se sente culpada e até mesmo merecedora da agressão que sofre. Quando a vítima é filha da pessoa que a agride, o cenário é ainda mais grave. A sociedade nos conta que devemos amar nossos pais incondicionalmente, porque eles nos tratam bem, nos dão amor, carinho e comida na mesa; caso não o façamos, somos ingrates, mesmo que o “amor” e o “carinho” sejam distorcidos a ponto de nos trazer sofrimento. Isso só agrava a culpa da pessoa que sofre abuso por parte dos pais: além de sentir-se culpada e merecedora daquele abuso, ela se sente mais culpada por não conseguir amar seus pais da forma que é esperado dela, apesar da violência.

Se, a essa altura, você acha que está passando por essa situação ou conhece alguém que está, deixarei aqui uma lista de sinais de abuso emocional de pais para filhes. Muitos desses sinais não se aplicam a crianças, e não consegui encontrar material sobre abuso emocional entre pais e filhes direcionado a crianças jovens, que ainda não entraram na puberdade. (A lista foi traduzida integralmente desse site.)

Humilhação, degradação, culpabilização, julgamento, críticas:
Eles zombam de você e te fazem sentir mal na frente de outras pessoas?
Eles te provocam e/ou usam sarcasmo como forma de fazer você se sentir mal?
Quando você reclama, eles dizem que “foi só uma piada” ou que você é sensível demais?
Eles te dizem (ou fazem com que você sinta) que seus sentimentos e suas opiniões estão errados?
Eles ridicularizam, dispensam ou desconsideram suas opiniões, sugestões, seus pensamentos e sentimentos?

Dominação, controle, uso da vergonha:
Você sente que eles te tratam feito criança?
Eles constantemente corrigem ou punem você pelo seu comportamento “inapropriado”?
Você sente que precisa de “permissão” para tomar até mesmo as menores decisões?
Eles controlam seus gastos?
Eles tratam você como se fosse inferior?
Eles fazem você sentir que estão sempre certos?
Eles sempre te lembram dos seus fracassos?
Eles diminuem suas conquistas, suas aspirações, seus planos ou até mesmo sua identidade?
Eles endereçam olhares, comentários e comportamentos de desaprovação, desconsideração, desdém ou superioridade a você?

Acusações e culpabilização, demandas ou expectativas irracionais, negação do próprio fracasso:
Eles te acusam de algo criado na própria mente deles, mesmo que você saiba que não é verdade?
Eles não conseguem rir de si mesmos?
Eles se mostram extremamente sensíveis quando outras pessoas zombam deles ou fazem qualquer comentário que mostre mínima falta de respeito?
Eles têm problemas para pedir desculpas?
Eles arranjam desculpas por seus erros e culpam outras pessoas ou as circunstâncias?
Eles te dão apelidos e rótulos depreciativos?
Eles culpam você pelos problemas ou pela infelicidade deles?
Eles continuamente cometem “violações de limites” e desrespeitam seus pedidos válidos?

Distância emocional e “tratamento do silêncio”, isolamento, abandono emocional e negligência:
Eles diminuem a afeição e a atenção dadas a você como forma de te punir?
Eles se negam a atender suas demandas mais básicas ou usam negligência e abandono como punição?
Eles se fazem de vítima para que a culpa recaia sobre você em vez de se responsabilizar por suas atitudes?
Eles não percebem ou não se importam com seus sentimentos?
Eles não mostram empatia nem fazem perguntas para conseguir informações sobre você?

Codependência e falta de limites pessoais:
Eles tratam você como uma extensão de si mesmos e não como um indivíduo?
Eles não protegem seus limites pessoais e dividem informações que você não quer dividir?
Eles desrespeitam suas demandas e fazem o que acham melhor para você?
Eles demandam contato contínuo com você e não conseguem formar uma rede social saudável com seus iguais?

Se você viu semelhança entre esses sinais e a sua relação com seus pais, procure ajuda o mais rápido possível, de preferência de alguém que esteja fora da situação, como amigues e outres parentes. Se possível, o mais indicado seria conseguir ajuda profissional, de uma pessoa formada em Psicologia e que esteja preparada para ajudar você a superar esse abuso. Abuso emocional por parte dos pais pode causar problemas profundos nas crianças e nas pessoas adultas que elas se tornarão, por isso a ajuda é tão importante. Nesse momento, o mais importante é ter esperança; afinal, essa situação não vai se sustentar para sempre, e você conseguirá sair desse ciclo de violência. É importante desenvolver a capacidade de se perdoar e entender que a culpa não é sua, mas da pessoa que te agrediu, além de ter consciência plena de que seus pais (ou apenas um deles) abusa/abusava de você e como. Se apenas um dos seus pais for abusive e você se sentir à vontade para isso, conte para a outra pessoa. Além disso, é vital que você crie uma distância com a pessoa que abusa de você, a fim de que ela não volte a fazê-lo e você possa lidar com seus traumas em paz. Isso será difícil, porque pais abusivos tendem a aumentar as agressões em quantidade e intensidade quando filhe começa a se distanciar, mas, com uma rede de suporte bem estabelecida entre você, psicólogue, amigues e outres familiares, você será capaz de superar essa fase mais violenta e se reinserir num contexto de relacionamentos saudáveis.

Se você conhece alguém que esteja passando por essa situação, fique disponível. Mostre que você se importa com essa pessoa e que deseja que ela saia desse relacionamento doente; mostre a ela os sinais, diga a ela que você está pronte para ouvi-la e conduzi-la a uma pessoa que possa guiá-la melhor para sair desse relacionamento. Ajude-a a perceber que a culpa não é dela, mas da pessoa agressora, e exerça sua paciência. Não é com violência que se tira uma pessoa de um contexto violento.

Referências que usei: 
The Invisible Scar – Adult Survivors of Emotional Abuse
WikiHow – How to Deal With Emotional Abuse From Your Parents (For Adolescents)
Healthy Place – Emotional Abuse: Definition, Signs, Symptoms, Examples
PsychCentral – Signs of Emotional Abuse
WikiPedia – Dysfunctional family

O amor é capitalista

Eu ensaiei muito esse post. Muito mesmo. Por várias razões. A principal é que, mesmo fazendo essa associação desde criança, eu nunca li o suficiente a respeito para ter uma opinião mais madura do que aquela que formo sozinha. Depois, estava tentando reunir exemplos o suficiente para falar disso, e, apesar de não tê-lo feito de forma satisfatória para mim, provavelmente vou voltar ao assunto, então farei uma introdução hoje e, no futuro, aprofundarei meus conhecimentos e os posts sobre amor e capitalismo.

Como já disse, penso nisso desde criança, e a primeira forma de amor com a qual uma criança tem contato é o amor fraternal (aquele que vem das pessoas que nos criam e de nosses irmãos e irmãs). Sou filha única, logo, o amor do qual estive exclusivamente próxima, até os 17 anos, foi o amor dos meus pais. Isso me fez pensar abundante e incessantemente sobre a natureza desse amor, que muitas vezes me parecia exageradamente protetor e possessivo. Claro, as pessoas adultas sempre fizeram questão de invalidar os meus questionamentos, dizendo que “quando você crescer, vai entender” ou “quando você for mãe, saberá do que estou falando”. Ainda não sou mãe, então não posso refutar a segunda afirmação, mas a primeira é claramente inválida, pelo menos no meu caso. Estou com 20 anos, o que pode não ser muito, mas já é o bastante para dizer com certeza que sou adulta e ainda não entendi por que o amor maternal e paternal precisa ser tão… Paternalista. Não entendi, mas tenho algumas hipóteses. A que me convence melhor é a de que isso acontece porque o amor, na nossa sociedade, é visto da mesma forma que todas as outras coisas e até mesmo pessoas: uma mercadoria, um objeto, que você pode obter e perder, que pode ser “comprado” e “roubado”.

Recentemente, minha mãe me deu um exemplo muito claro de que esse pensamento existe e do quanto está arraigado nas mentes das pessoas. Via facebook, ela compartilhou uma foto dizendo que o maior medo dos pais seria perder os filhos, ou coisa parecida, ao que eu argumentei que não se pode perder algo que nunca foi sua propriedade. Ela, mais que depressa, refutou que eu sou, sim, propriedade dela, que ela é minha dona, pura e simplesmente por ser minha mãe. É óbvio que ela não usou essas palavras, mas a ideia geral era essa. Eu, então, pedi a ela que me mostrasse o certificado de propriedade, a nota fiscal, a escritura que me vinculava a ela dessa forma mercantil e capitalista, e foi aí que ela pensou que talvez, e apenas talvez, transformar pessoas em mercadorias não fosse algo tão legal assim, muito menos uma demonstração de amor. Porque é isso que as pessoas pensam: que ter umas às outras, agir como se o outro fosse sua propriedade é demonstração pura de amor. Eu mesma já pensei assim, e mesmo hoje tenho dificuldades para conter isso. É uma cultura hegemônica entre nós, que só será subvertida com a subversão da noção capitalista de que tudo tem um valor comercial, o que está bem longe de nós, mas não custa sonhar, não é?

Exemplos dessa visão capitalista do amor, que bota valor monetário em tudo e todos e aplica seus conceitos econômicos a tudo e a todos, são recorrentes nas relações entre pais e filhes. Dadas as devidas exceções, temos filhes para suprir uma necessidade pessoal de sermos mães ou pais, e não porque queremos fazer algo por uma criança ou pelo mundo ou qualquer coisa do tipo; tratamos nosses filhes como bonecas que fazem tudo o que queremos, ou como uma projeção de nós mesmos, um ser sem consciência, um objeto que só existe para nos agradar, e, quando isso não acontece, ficamos decepcionades; entendemos nosses filhes como nossa propriedade, e temos medo de que os “roubem” de nós, não só no sentido literal (como num sequestro, por exemplo), mas também no sentido figurado – afinal, quantos pais não têm medo de que suas crianças arranjem amiguinhes e deixem-nos de lado?

A segunda forma de amor com a qual tive contato foi a amizade, que é, de longe, a mais desinteressada de todas as que experimentei. Ainda assim, algumas pessoas insistem que se pode “trocar” um amigue por outre, como se as duas (ou três, ou quatro, enfim) pessoas envolvidas fossem figurinhas do Harry Potter.

Depois da amizade, vem o amor romântico. Isso é particularmente difícil de falar no meu caso, porque é bastante recente e inclui muitas nuances da minha sexualidade, mas tentarei me desvincular disso, porque é tema de outro post. Por isso, falarei, especialmente, de relacionamentos que observei, seja entre meus pais, entre amigues, enfim. Todos esses relacionamentos eram monogâmicos, e a monogamia compulsória (ou seja, o sistema em que se impõe a todas as pessoas que elas devem ser monogâmicas para serem aceitas na sociedade) deixa bastante explícita a noção de que pessoas são mercadorias. Num relacionamento monogâmico faz-se um contrato de exclusividade, ou seja, as duas partes concordam em não desejar nem se relacionar com mais ninguém. Na minha opinião, isso, por si só, é tentar negar os sentimentos, o desejo e a expressão da sexualidade das pessoas, o que as reduz a objetos ou sombras de pessoas; afinal, como se pode ter certeza de que jamais haverá sentimentos por mais ninguém, ou, que seja, apenas o desejo? Se não se pode, o contrato é desonesto e torna-se inválido, a menos que ambas as partes também concordem em ignorar sumariamente essas partes de si mesmas e, eventualmente, tornarem-se propriedade do outro. Muitas vezes eu ouvi que os ciúmes são “medo de perder” alguém, e, como já citei, não se pode perder algo que não seja sua propriedade, o que confirma que os relacionamentos monogâmicos (e muitos relacionamentos não-monogâmicos também) são capitalistas na medida em que tratam as pessoas como objetos que podem ser roubados e perdidos.

Como última consideração, nossa linguagem corrobora tudo isso. “Meu” esposo, “minha” esposa, “meu” filho, “minha” filha, “meu” amigo, “minha” amiga, enfim, precisamos utilizar pronomes possessivos ao nos referirmos às pessoas que amamos, e não consigo pensar em nenhuma alternativa viável a isso. A cultura que transforma pessoas em objetos e mercadorias é onipresente e é quase impossível escapar dela, mas, quem sabe, não vivamos algum dia num mundo em que as pessoas sejam tratadas como pessoas e os objetos, como objetos?

Sexualidade e romantismo

Vejo muitos problemas na concepção atual de amor. Esses problemas vão desde a essência de algumas relações amorosas até a mercantilização do amor, mas cada um deles merece um post para si, porque a discussão é longa e rende muito. Neste post, eu vou tratar de um problema o qual não costumo discutir com as pessoas: a relação entre sexualidade e romantismo.

A maioria das pessoas admite a dissociação entre sexo e amor, unilateralmente. Prova disso é que o sexo casual é – felizmente – aceito na sociedade pós-industrial, embora com vários poréns. Não ignoro, é claro, a ditadura machista sobre nossa atitude sexual, que exige que as mulheres sejam santas e associem amor e sexo com muito mais frequência do que os homens o fazem, mas o fato é que, mesmo entre mulheres, o sexo casual já não é mais o tabu que foi, digamos, na época em que minha mãe era jovem – a saber, década de 1960. Sei disso porque fui criada numa família conservadora, que me ensinou a não me aproximar dos homens, porque tudo o que eles queriam era sexo e eu, enquanto mulher, não podia responder diretamente a essas investidas, ou seria taxada de puta, vadia, piranha e todos os outros adjetivos carinhosíssimos que todas nós já ouvimos pelo menos uma vez na vida. Quando cresci, aprendi que eu podia, sim, responder, mas em situações muito específicas. Também não vou me ater ao assunto da liberalização sexual feminina, ou esse post vai ficar longo demais; o ponto é que o sexo casual é razoavelmente aceitável em nossa sociedade, apesar de o ser em medidas diferentes para homens e mulheres.

Quando é exigido das pessoas que se dissocie amor e sexo, nessa ordem, muitas têm dificuldades em fazê-lo. Ainda é inconcebível para muita gente que uma relação romântica – um namoro, um casamento, etc – exista sem o componente sexual. Assim como o já citado machismo, isso também é pensamento aprendido; eu mesma aprendi assim, na escola mesmo, e, se não tivesse aprendido lá, aprenderia folheando qualquer revista feminina, nas quais propagandas berram que “sexo é vida” e prometem resolver todos os problemas de um casamento monogâmico falido corrigindo a impotência do marido ou a falta de vontade da mulher de ceder às investidas dele – porque, claro, o único papel de uma mulher num relacionamento sexual é ceder ao marido, não cabe a ela estimulá-lo; e ai dela se não ceder! Esse é outro aspecto que enxergo muito bem nos meus pais: em crise, eles reclamam de forma recorrente da falta de vontade de fazer sexo, e culpam esse fator isoladamente pela infelicidade pela qual passam. Parece que esqueceram de contar a eles, e à maioria das pessoas, que amor não tem, necessariamente, a ver com sexo. Um casamento é, antes de tudo, uma amizade; afinal, uma pessoa precisa ser muito amiga e confiar muito em outra para escolher passar o resto todo da vida com ela. O mesmo se aplica a um namoro. Relacionar-se amorosamente com alguém é abrir o seu coração e a sua alma para que alguém possa passar um tempo dentro de você, explorando seu íntimo, e isso não se faz sem uma amizade forte e grande confiança.

Talvez tudo isso que eu estou dizendo soe um pouco romântico demais, mas pense bem: uma pessoa qualquer, independente de sua orientação sexual, precisa ter relações sexuais todos os dias com a pessoa que ama para continuar amando-a, ou para continuar chamando a relação que tem com ela de namoro, casamento ou qualquer outra coisa? Você, que namora, me diga: se ficar três semanas sem fazer sexo com namorade, por qualquer razão, o namoro de vocês obrigatoriamente acaba? Se você respondeu que sim, está simplesmente exercendo sua liberdade de colocar o sexo como fator obrigatório para um relacionamento feliz, mas eu acredito que exista muito mais num namoro que o sexo, mesmo que se excetuem todas as coisas que eu disse anteriormente sobre abrir o coração para uma pessoa. Quando se namora alguém, não se namora o genital dessa pessoa, nem qualquer zona erógena que ela tenha; namora-se a pessoa por inteiro, inclusive sua mente, suas crenças e seus pensamentos. Um namoro que só existe pelo sexo podia existir perfeitamente bem, e até melhor, como uma amizade colorida, sem compromissos, com muito mais liberdade para as pessoas envolvidas; um namoro que existe pelo companheirismo, pelo amor, pela simples vontade de estar com a outra pessoa, existe bem com ou sem sexo. É claro que, em alguns relacionamentos, a falta de sexo é um problema, mas ela é mais um indicador de problemas muito maiores do que uma querela em si.

Falei tanto sobre isso porque uma das formas de preconceito contra assexuais mais pungentes que vejo pela internet e fora dela é dizer que vamos passar o resto das nossas vidas sozinhes. Eu mesma já ouvi isso dos meus pais, diversas vezes, porque além de assexual, sou uma pessoa muito difícil de me abrir para quem quer que seja. É tão comum assim ouvir isso justamente por causa dessa cultura tão arraigada de que um relacionamento amoroso deve vir com sexo embutido, ou então não é namoro de verdade. Se você já disse isso para alguém, ou se já pensou em dizer alguma vez, assexuais – pasme! – também namoram. E nem sempre é com outra pessoa assexual. Muitas pessoas sexuais mantém relacionamentos saudáveis com assexuais, e, embora eu não tenha detalhes sobre esses relacionamentos, posso dizer que eles não são um fracasso total, porque existem. Ser assexual não é assinar um termo que te obriga a ficar sozinhe para sempre, é simplesmente aceitar sua sexualidade, assim como ser gay, lésbica, bissexual, etc; e, da mesma forma que existem pessoas assexuais que têm relacionamentos amorosos saudáveis, existem pessoas assexuais que também são arromânticas, e são saudáveis sem qualquer relacionamento amoroso. Tudo o que nos contaram sobre precisar de um amor para viver e de sexo para ser feliz no casamento se revela, a partir desta data, como mentira.