problemas psiquiátricos

Vamos pintar a vida de amarelo

TW: SUICÍDIO

Estamos entrando nas últimas semanas de setembro, mês escolhido para sediar a campanha contra suicídio do CVV (Centro de Valorização da Vida). Chamada de “setembro amarelo”, a campanha propõe levas informações sobre a problemática do suicídio para a população que nunca sofreu com esse fantasma e ampliar a rede de apoio para a população que sofre ou já sofreu.

Em 2014, o Brasil era o 8º país com mais suicídios no mundo e o 4º com o maior crescimento no número de suicídios na América Latina. Não sei e não cabe a mim discutir as causas dessas estatísticas tão exorbitantes, mas o fato é que moramos num país onde o número de pessoas acometidas por essa epidemia é grande e cresce rápido, enquanto o número de pessoas ignorantes sobre ela se mantém altíssimo. Todo mundo que já teve ideações suicidas ou tem amigos próximos que já as tiveram sabe que não é fácil encontrar uma pessoa para quem desabafar. Desordens mentais, infelizmente, ainda são vistas como fruto de uma falta de vontade pessoal, de uma grande preguiça existencial, e não de um real desequilíbrio mental e químico que resulta numa doença crônica, de difícil manejo e alto risco de morte. Assim que tentamos encontrar uma pessoa com quem conversar, esbarramos no clichê do “você deveria sair mais”, ou “você deveria arranjar um emprego/uma pessoa para namorar/uns amigos”. Não é simples se livrar de uma depressão ou de ideações suicidas, porque elas são parte da sua mente, uma parte que pode ser confortável, mas que ninguém gosta de ter; mas também são partes que estão sempre ali, o tempo todo, cutucando, machucando, ferindo sem dar tempo de cicatrizar. Só com muito trabalho e tempo elas vão embora, mas, enquanto não vão, é imprescindível que as pessoas em volta de quem está tendo ideações suicidas entendam que estar mal não é escolha, e muito menos gostoso.

Obviamente nem todas as pessoas suicidas pensam a mesma coisa, mas um sentimento que pode ocorrer é o de falta de esperança, de que não existe um motivo para acreditar que as coisas vão melhorar. Dessa forma, não importa o que exista lá “do outro lado”, vai ser melhor que o que existe aqui. Sem esperanças de que a vida vá melhorar, a pessoa suicida passa para um estado de inércia (veja: inércia, não preguiça), em que não vale a pena tentar sair do fundo do poço. Terapia não é mais uma opção, porque, nesse estágio, a pessoa entende que não é um terapeuta que vai conseguir tirá-la daquele estado. Esse é o pensamento da pessoa suicida, mas não necessariamente é a verdade. Uma pessoa deprimida, sem esperanças na vida, costuma ver a realidade de forma mais distorcida que o restante das pessoas. É aí que a atuação de pessoas em situações melhores é crucial: as palavras certas podem significar muito para uma pessoa em ideação suicida, mas um passo em falso pode ser fatal. Para quem nunca esteve numa situação dessas, cabe saber que ajudar não é dizer o que a pessoa deveria fazer, mas sim, o que ela pode fazer. Dizer que uma pessoa deprimida deveria não estar mais deprimida é fácil, mas o que ela realmente pode fazer para chegar até lá? Fazer com que a pessoa se acalme em momentos de crise, ajudá-la a acreditar um pouco mais na eficiência da terapia, ocupá-la com atividades lúdicas e que a distraiam dos pensamentos suicidas são algumas das alternativas, mas conhecer a pessoa que se quer ajudar é a melhor opção. Só assim você saberá como realmente ajudá-la sem piorar a situação.

Nesse sentido, existe mais um problema: a personalidade da pessoa suicida. Se você já conhecia essa pessoa antes do período de depressão, saiba que ela não é mais a mesma pessoa de antes. A depressão nos transforma, nos deixa muito diferentes do que éramos antes. Se a pessoa em questão for adolescente ou jovem adulta e tiver passado toda a adolescência em depressão, o caso é ainda mais grave, porque essa pessoa não teve a oportunidade de formar sua personalidade, já que havia uma mentalidade deprimida tomando conta dos pensamentos dela e ela nunca conseguiu agir por si só. Por isso, dizer para uma pessoa deprimida e/ou com ideações suicidas coisas como “você não é a pessoa que eu conheci” é um erro. Só vai deixá-la ainda mais deprimida por ter decepcionado alguém que ela amava, e não vai ajudá-la de forma alguma.

Depois que a pessoa que você está tentando ajudar conseguir sair do fundo do poço, saiba que ela ainda não voltará a ser a mesma que era antes de tudo isso acontecer. É bastante comum que pessoas que passaram por essa experiência tenham Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT), uma doença psiquiátrica causada por eventos violentos. Idealizar, planejar e tentar suicídio é uma grande violência contra si próprie, e ninguém vai te dizer o contrário; logo, nada mais natural que haja um trauma depois dessa violência. Caso a pessoa suicida tenha TEPT, antes ou depois de se livrar da causa das suas ideações e/ou tentativas de suicídio, a terapia é muito importante, bem como o apoio das pessoas próximas a ela. Não é fácil sofrer com crises e mais crises de pânico, ansiedade e euforia, mas virar as costas para uma pessoa com TEPT pode ser o fim dela. Só faça isso se a pessoa pedir – e, mesmo nesse caso, saiba avaliar se ela está fazendo isso porque sua relação com ela é tóxica ou se é por um desejo de isolamento para que a culpa pelo suicídio iminente seja atenuada.

Numa analogia simples: todas as pessoas do mundo têm uma latinha de tinta, um pincel e uma parede para pintar. As pessoas saudáveis estão com a latinha cheia e as pessoas deprimidas estão com a latinha vazia. Se você tem a latinha cheia e seu amigo tem a latinha vazia e nenhum dinheiro para comprar tinta, você tem duas formas de ajudar: usando um pouco da tinta da sua latinha para encher a latinha dele ou dar dinheiro para ele comprar mais tinta. Não adianta dizer a ele para ir à loja comprar tinta, porque ele não tem dinheiro. Também não adianta dizer que ela deveria arranjar mais tinta, porque ele não tem como fazer isso. O que você pode dar ao seu amigo são meios, opções para que ele arranje a tinta. Dizer que ele precisa de mais tinta é o óbvio, e só vai fazê-lo se sentir mal por não ter tinta na latinha.

Se você tem a latinha vazia, não desista de você mesme. Vai melhorar. Isso é um conselho de quem, um dia, já perdeu até a latinha.

Se você tem a latinha cheia, pegue o seu pincel, molhe na sua tinta e pinte a vida de todas as pessoas à sua volta de amarelo, para sempre. Setembro vai acabar, mas a sua tinta, não.

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Eu sou assexual?

Às vezes eu recebo e-mails de pessoas que leem o blog, dizendo que eu as ajudei a se encontrar, que não sabiam o que era assexualidade e passaram não só a saber como a se identificar como assexuais, enfim, histórias muito bonitas, que me motivam a continuar escrevendo. Eu também recebo perguntas, e, de longe, a que mais aparece na minha caixa de entrada é “eu/fulane sou/é assexual?”. Geralmente, ao me perguntar isso, a pessoa me dá todo um panorama da sua vida, suas experiências, ou então da vida e das experiências da pessoa que é sujeito da pergunta, e eu sempre respondo da mesma forma: a única pessoa que pode dizer se você é assexual é você. Pode parecer que sim, mas eu não estou fugindo da pergunta; acontece que orientação sexual é algo muito pessoal, e, mesmo que eu conhecesse cada um de vocês desde criancinha, mesmo que observasse cada um de vocês todos os dias (o que seria bastante perturbador), eu ainda não teria resposta objetiva para essa pergunta. O que eu faço, nesse caso, é dar algumas “dicas”, baseadas unicamente na minha experiência, para que a pessoa tente se identificar sozinha, e, por mais que eu goste de receber e-mails das pessoas que leem o que eu escrevo, acho que talvez seja mais útil fazer um post sobre isso, até porque nem todo mundo que tem essa dúvida vai ter coragem de me perguntar.

Antes de tudo, queria pontuar que, quando digo “assexual”, incluo nessa denominação a área cinza.

Agora, vamos lá. Eu já fiz um post explicando o que é ser demissexual, mas talvez não tenha ficado claro que a assexualidade é a ausência de atração sexual. Ser assexual não significa não ter desejo sexual; uma pessoa assexual pode ou não sentir desejo, e pode satisfazê-lo de diversas formas, sendo a masturbação uma delas. Ser assexual também não significa não se apaixonar: algumas pessoas assexuais também são arromânticas, ou seja, não formam laço romântico com as pessoas, mas isso não quer dizer que todas sejam. Ser assexual não significa ser virgem, pois pessoas assexuais podem experimentar o sexo, antes ou depois de se descobrirem, e também não significa não gostar de sexo. Pessoas que se encontram na área cinza gostam do sexo em situações específicas – no caso de demissexuais, por exemplo, que sentem atração apenas por pessoas com quem têm laço emocional, logo, gostarão do sexo com essas pessoas. E, se tem uma coisa que ser assexual definitivamente não significa, é ser triste. A mídia nos vende a ideia de que sexo significa felicidade, ideia essa suportada pela medicina, e nós a compramos; no entanto, sexo não é a única forma de ser feliz nessa vida. Eu gosto muito de comer, e comer me faz feliz. Sou menos feliz por ser assexual? De modo algum, porque ser assexual não afeta a minha relação com comida, que é o que me faz feliz, nesse contexto. Ligar o mau-humor das pessoas à falta de sexo, além de falocêntrico e patriarcal, é inválido para assexuais.

Explicado o que ser assexual significa e não significa, vamos à dúvida cruel que assola tantas mentes: você é assexual? Para muita gente, é fácil responder isso, mas a sexualidade tem nuances que, às vezes, nós não conseguimos perceber. Uma pessoa assexual que ainda não se descobriu e está passando por uma depressão, por exemplo, ou algum outro tipo de transtorno mental, pode achar que a sua falta de atração sexual se deve à depressão. De fato, a depressão diminui muito a libido, mas a única forma de dizer com certeza se você é assexual ou se a falta de atração e/ou desejo está ligada ao transtorno mental pelo qual você está passando é tendo base de comparação. Se você tinha uma vida sexual ativa e prazerosa antes da sua depressão e, depois dela, não tem mais, é hora de procurar um médico. Se não, também é hora de procurar um médico. Depressão não é brincadeira e você precisa de ajuda para se livrar dela. Caso não tenha base de comparação para elucidar se você sempre foi assim ou se está assim, o tratamento vai te ajudar muito nisso.

Se o fato de você não sentir atração não te incomoda, há algumas perguntas sobre as quais você pode refletir. Por exemplo: você sente atração sexual por outras pessoas? Se sim, isso só acontece depois de vocês terem proximidade afetiva? Se você sentir atração por alguma celebridade, é necessária identificação emocional entre você e a celebridade para que essa atração se estabeleça? Se você já tiver feito sexo, foi uma experiência prazerosa? Você se sentiu à vontade? Caso tenha sentido prazer, ele foi realmente sexual? É claro que, depois de pensar nelas, você pode continuar confuse, sem saber quem você é e qual a sua orientação sexual; não é porque essas perguntas me ajudaram que elas vão, com certeza, ajudar você. Cada pessoa é diferente, e, por mais que eu queira te ajudar, pode ser que eu não consiga. A busca por quem você é de verdade depende só de você, e será diferente para cada pessoa. A partir das suas próprias experiências, você pode moldar as suas reflexões, as suas perguntas, que facilitem a chegada a uma conclusão. Além disso, nas questões referentes à sua experiência sexual, você deve levar em conta que a outra pessoa envolvida pode não ter te deixado à vontade, e isso pode não ter nada a ver com a sua orientação. O mais importante, no caso da dúvida quanto a se identificar como assexual ou não, é saber se você sente atração sexual e por quem.

Mesmo depois de tudo isso, eu ainda não posso afirmar se você é ou não assexual, e talvez nem você possa. Se encontrar no espectro das sexualidades pode ser importante para autoafirmação e para acabar com aquele sentimento de que você está sozinhe, mas, se você não conseguir encontrar onde você está, relaxe. Talvez, um dia, você encontre, e talvez não. Não existem rótulos para contemplar todas as pessoas nesse mundo, e você não precisa ficar triste se for uma das pessoas que caem fora das caixinhas.

O lado bom da depressão? (repost)

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Encontrei aqui em casa essa revista, Mente e Cérebro, de setembro de 2010. A matéria de capa é essa, “O lado bom da depressão”, que versa sobre a possibilidade de a depressão não ser uma doença, mas uma adaptação para a resolução de problemas graves. Não entrarei na discussão sobre o limiar da loucura e da sanidade, ou qual a definição de transtorno mental – uma das questões levantadas pela matéria da revista; o que eu quero discutir é outra coisa: o desserviço que essa matéria presta para os portadores da depressão.

Depressão não tem um “lado bom”. Alguém pode até dizer que é verdade, melancolia nos torna criativos, mas isso não é porque a depressão sirva como uma pílula da criatividade infinita, e sim porque a tristeza sufoca tanto, mas tanto, que você não tem por onde deixá-la sair, e o único recurso que resta quando os amigos acabam é a arte. Sobre resolver problemas, o outro tópico coberto pela sinopse da matéria na capa, uma coisa que eu aprendi com a minha depressão foi fugir deles, não resolvê-los. Depressão não dá a inteligência nem a clareza de pensamento que você precisa para resolver seus problemas; pelo contrário, com o tempo você percebe que a sua capacidade cognitiva vai se deteriorando, e seu pensamento fica cada vez menos claro, por diversos fatores. 

Estar triste de vez em quando é saudável, contornável e faz parte da vida. Ter depressão não. Colocando na capa de um exemplar que um transtorno mental tão grave e que mata tanto (não tenho dados porque é impossível inferir que a causa da morte de alguém foi depressão sendo que a maioria não busca tratamento, mas, no Brasil, 17 milhões de pessoas sofriam com a depressão em 2010, segundo a própria revista) talvez não seja tão grave assim, e talvez seja até desejável, a revista está endossando a violência psicológica que os portadores de depressão sofrem quando buscam apoio em familiares e amigos e não o encontram – porque “você é forte, pode sair dessa”, “você não está se esforçando o suficiente”, “talvez se você tentasse, conseguisse se dar bem”, entre outras coisas que qualquer um que tenha depressão há um tempo considerável já deve ter escutado. As intenções dessas pessoas podem até ser boas, mas ouvir isso não ajuda, pelo contrário, só nos faz sentir piores, mais incapazes, mais inúteis por não conseguir tomar as rédeas da própria vida, como qualquer pessoa deveria ser capaz de fazer. E aí nós nos fechamos, não corremos atrás de tratamento, vamos guardando as coisas para nós, até que não aguentamos mais e entramos para as estatísticas de suicídio, causa da morte de 26 brasileiros por dia em junho de 2013, segundo a Folha.

Então, Mente e Cérebro, depressão não é saudável, não tem um lado bom e, por mais que também surja em sociedades muito diferentes da nossa, não quer dizer que seja uma adaptação. Talvez, quem sabe, isso tenha a ver com a bioquímica do cérebro das pessoas atingidas?

(Aliás, só mais uma coisa: “Ao comparar a composição da parte funcional do receptor 5HT1A [que estaria ligado aos casos de depressão] dos ratos à dos homens, notou-se uma similaridade de 99%, indicando que a molécula é tão vital que a seleção natural a preservou por milhares de anos desde o tempo em que viveu nosso ancestral comum.” Será que esse receptor surgiu no nosso ancestral comum? Será que ele se conservou mesmo? Não teve nenhuma regressão desde então? Como é a qualidade de vida dos seres produto dessas regressões, se existirem? Será que a seleção natural teria eliminado completamente de todos os lugares do mundo os seres vivos com esse receptor se ele fosse inútil?)

Esse texto foi postado no meu facebook em 1º de maio de 2014, mas, como esse blog é para ser uma reunião de opiniões minhas sobre diversos assuntos, achei digno colocá-lo aqui também.