preconceito

Uma meta para 2016

O ano novo chegou. Isso significa, friamente, que a Terra passou por um determinado ponto no movimento de translação, que acontece ao redor do Sol – na verdade, nem é um ponto determinado, porque, a cada ano, ficamos 6 horas atrasades em relação ao movimento de translação. É para corrigir esse erro que existem os anos bissextos (como 2016). Nossa espécie, no entanto, é famosa por incutir significado a coisas que parecem triviais. Biólogos que pesquisam a evolução humana estudam essa capacidade como um dos traços que nos define. Definindo ou não, o fato é que incutimos simbolismo em coisas aparentemente supérfluas, e, por mais que algumas pessoas queiram se distanciar disso, é algo inerente a nós e que não precisa ser, necessariamente, condenado. Devido a essa capacidade, colocamos significado às mudanças na posição do Sol, o que resultou em um calendário de 12 meses, cujo fim também possui um significado: renovação, renascimento, recomeço. Mesmo quem não segue o calendário gregoriano tem significados parecidos para a virada do ano; é só ver como chineses comemoram a vinda do ano-novo lunar, que não só significa renovação, mas também traz toda uma onda de vibrações diferentes, que favorece determinadas atividades, de forma parecida com a astrologia ocidental.

Horóscopos à parte, 2016 chegou, e para todo mundo, já que o calendário gregoriano é o oficial em todas as partes do mundo. Eu nunca fiz resoluções de ano novo, mas resolvi dar uma chance para elas dessa vez, mesmo sabendo que já vou ter esquecido todas elas em março. Uma delas eu não quero esquecer, e, por isso, resolvi trazê-la para o blog.

Em 2015, testemunhamos grandes avanços da militância assexual no Brasil. Vimos surgirem grandes – e ótimas – páginas no Facebook com esse tema: a Assexualidade da Depressão, que agora não funciona mais, mas teve um papel expressivo em 2015; a Fofura Assexual, que tem um pessoal tão criativo e que sabe fazer tantas coisas!; a Que Ace Te Mordeu?, que é novinha, mas já chegou chegando; e muitas outras que eu não conheço, ou que conheço, mas não lembro, porque a minha memória tem uma capacidade muito pequena. Também vimos grandes jornais fazerem matérias muito boas sobre a assexualidade, esclarecendo para quem não conhece que não somos aberrações, e que também não vivemos tristes; infelizmente, também vimos outros jornais prestarem desserviços a nós, mas, com sorte, isso não vai mais se repetir.

De qualquer forma, a quantidade de informação sobre a assexualidade em português aumentou muito em 2015, e isso é maravilhoso. Criei esse blog porque não conseguia encontrar informações sobre assexualidade em português, e, principalmente, informações mais pessoais, relatos sobre vivências, textos com os quais eu pudesse me identificar. Provavelmente, se eu não soubesse falar inglês, estaria até hoje procurando quem eu sou. Hoje, o cenário, para uma pessoa que se descobre assexual, é bastante diferente. Temos uma quantidade razoável de conteúdo em português, acessível para essas pessoas, para que elas tirem suas dúvidas e se encontrem. Fico imensamente feliz pensando nisso, mas ainda não é o suficiente.

Como eu já disse, algumas coisas que encontramos na internet não são mais do que um grande desserviço a nós, passando informações falsas, e até mesmo a noção de que somos doentes e precisamos ser tratades. Algumas dessas informações podem ser encontradas em jornais de grande circulação e que algumas pessoas consideram confiáveis, então é difícil filtrar tudo isso. A única forma que temos de passar nossas vivências para quem está se descobrindo agora e de fazermos as outras entenderem que não somos doentes é falando. Por isso, se você tem desenvoltura com as palavras, se sabe se portar na frente da câmera, se desenha, se narra, se consegue fazer qualquer coisa que possa ser convertida em mídia na internet, fica aqui o meu convite: comece a falar sobre a assexualidade. Você não precisa ter um blog ou um canal no YouTube exclusivos sobre isso – nem esse blog é exclusivo, por mais que pareça -, mas um post, um vídeo, um desenho, já vai fazer a mensagem se espalhar para mais gente. Se tem uma coisa que eu aprendi com esse blog é que todo mundo pode ter um grande alcance e atingir muitas outras pessoas. Muitas mais do que você pode imaginar.

Minha meta para 2016, então, é ver ainda mais conteúdo bom em português sobre a assexualidade, e ainda mais discussões (produtivas!) sendo feitas. Então, vamos lá?

Magrofobia? Tem certeza?

Eu sempre fui gorda. Como qualquer mulher criada dentro da estrutura social do patriarcado e que não pensa sobre sua condição, sempre detestei ser gorda. Foi por causa da minha forma física que eu saí – ou, melhor dizendo, fui praticamente expulsa – do meu primeiro emprego, como modelo fotográfica e de passarela. Foi por causa da minha forma física que eu sofri bullying por muitos anos, desde a escola primária até o colegial. Enfim, meu corpo gordo, que só deixou de sê-lo muito recentemente e de forma desagradável, sempre foi fonte de irritação para mim. Não é pouco dizer que eu sempre odiei ser gorda, e só nos últimos três anos comecei a compreender que eu não precisava me odiar por isso; pelo contrário, podia me amar e muito sendo gorda, e inclusive porque sou gorda. A culpa de todas essas coisas que sempre aconteceram comigo não era minha, muito embora os outros fizessem questão de dizer que eram.

Se você é gorde, você não tem opção. Você precisa emagrecer. Não é uma coisa que cabe a você decidir; é claro, você pode decidir permanecer gorde, mas não é sua competência avaliar se você realmente tem a necessidade de emagrecer ou se pode continuar do jeito que está. Não importa se você é feliz sendo gorde. A sociedade decidiu, muito antes de você nascer, que gente gorda é gente doente, porque tem placa de gordura no coração e no fígado, tem pressão alta, tem problemas de coluna, tem diabetes, tem síndrome metabólica e mais outras mil doenças para as quais a correlação com a obesidade é forte. Você pode até continuar gorde, mas vão te julgar como uma pessoa preguiçosa, desleixada, que não cuida de si mesma. Porque se cuidar significa ser saudável, e ser saudável significa ser magre. É completamente inconcebível para a sociedade que uma pessoa gorda possa ser saudável sendo gorda, e, quando é, não poderá ser feliz, porque pessoas gordas não são amadas, não são respeitadas, não são colocadas no mesmo patamar de pessoas magras. Quem não se lembra da Perséfone, da novela Amor À Vida, que ficou durante mais da metade da história sendo ridicularizada por ser gorda e virgem? Pode parecer apenas um exemplo escrachado, mas assim é a vida de muitas mulheres gordas: lembradas cotidianamente do quanto são patéticas e “mal-amadas” por serem gordas.

Não estou dizendo que as doenças que citei anteriormente não têm nenhuma ligação com a obesidade. É claro que, se você é uma pessoa gorda, você precisa ir ao médico regularmente, especialmente se houver algum caso de diabetes, hipertensão, câncer, arritmias e outros problemas geneticamente herdados na sua família. O problema é que pessoas magras também precisam ter esse tipo de cuidado consigo mesmas, mas elas não são cobradas disso, porque seu tipo físico não está constantemente lembrando os outros que aquela pessoa pode ter algum problema de saúde. Muitas vezes, a gordura não incomoda tanto a pessoa gorda quanto incomoda os outros ao seu redor, e é aí que mora o preconceito. É aí que começa a ficar absurdo falar em “magrofobia” – da mesma forma que é absurdo falar em “heterofobia”, “brancofobia”, etc. Pessoas magras podem sofrer bullying por ser magras? É claro que podem, mas sofrer bullying não caracteriza preconceito. A diferença entre preconceito e bullying é tênue, mas, analisando um pouquinho a situação toda, é possível delineá-la: bullying é uma atitude cruel, maldosa em relação a uma pessoa; preconceito depende de uma estrutura social criada para discriminar aquela pessoa. Existe bullying sem preconceito, sim, e é esse o caso das pessoas magras. Não existe uma estrutura social criada exclusivamente para discriminar pessoas magras. Pessoas magras não são demitidas por isso; elas não têm sua saúde monitorada cotidianamente por causa disso; não choram em provadores de lojas porque nenhuma, absolutamente nenhuma roupa em nenhuma loja cabe nelas; não são cobradas por sua forma física por pessoas completamente desconhecidas; não são censuradas ao comer um sanduíche, um sorvete ou qualquer coisa que não seja uma folha de alface com um copo d’água; e não sofrem prejuízos em relações sociais por conta da sua magreza.

Se você leu até aqui e está pensando que eu acho que pessoas magras absolutamente não sofrem, você leu errado. As pessoas consideradas “magras demais” sofrem com alguns dos aspectos que eu listei no parágrafo anterior, no que diz respeito ao quanto comem e como vai sua saúde, mas isso também não é magrofobia por um motivo bastante simples: não é institucionalizado. Pessoas magras demais não são excluídas da seleção para a vaga de vendedora no shopping por serem magras demais. Pelo contrário, aliás: essas pessoas eram exaltadas no mundo da moda até muito recentemente, e ainda o são em alguns espaços. Ser muito magra é o sonho de muitas meninas gordas, e não é difícil inferir, a partir daí, que a violência contra pessoas gordas seja muito mais escancarada e legitimada por uma estrutura social.

Quando eu era criança, minha mãe costumava me dizer, para aumentar a minha autoestima, que “a gordura só incomoda os outros”. Ela não estava errada. O crime de ser gorda extrapola a falta de saúde, a falta de beleza ou a falta de autoestima; ele ofende os outros muito mais profundamente do que pode ofender a pessoa gorda. Falar em magrofobia numa sociedade que ojeriza corpos gordos de forma institucional é como falar em heterofobia ou cisfobia no contexto LGBTfóbico em que vivemos; por que, então, tem tanto militante da causa LGBT invalidando pessoas gordas que clamam sofrer gordofobia em espaços de militância?

Assexualidade e feminismo

O feminismo é uma luta hegemônica. Quando se fala em luta de minorias, ele sempre está lá, mesmo que discreto, no meio das pautas em questão. Se a luta é por igualdade social, a emancipação das mulheres ajuda muito nisso; o Bolsa Família, que fez de tantas mulheres as chefes da casa, é um exemplo disso. Se a luta é por direitos LGBT, ou seja, por igualdade civil e o fim do preconceito, esses objetivos jamais serão atingidos sem que as mulheres sejam vistas como iguais pelos homens e por outras mulheres (a menos que o movimento seja GGGG, o qual não é uma luta de fato). Sendo assim, é mais do que justo que o feminismo também esteja inserido e seja intrínseco à luta pelo reconhecimento de pessoas assexuais.

Como minhes amigues do Coletivo Feminista Trepadeiras me ajudaram a perceber de forma mais clara, o feminismo luta, entre outras coisas, pela liberdade dos corpos femininos. Isso quer dizer muitas coisas; dentre elas, que quando uma mulher diz “não”, é exatamente isso que ela quer dizer. Se você é mulher ou foi designade assim ao nascimento, sabe perfeitamente do que eu estou falando. Todes nós temos pelo menos uma história de assédio sexual ou moral decorrente do fato de não estarmos sexualmente disponíveis quando deveríamos, ou seja, quando a sociedade pede que estejamos. Comigo, isso acontecia com frequência em festas, uma dessas ocasiões em que se supõe que as mulheres estejam sexualmente disponíveis – algo que não é regra nem para mulheres sexuais, então, por que o seria para as assexuais? Nunca cheguei a sofrer violência física por isso, mas ficava tão socialmente acuada que, com o tempo (e com a piora da minha fobia social), parei de sair. Era muito mais fácil ficar em casa me divertindo no computador do que precisar sair e enfrentar quem quisesse se aproximar de mim com intenções muito diferentes das minhas.

É aí que o feminismo encontra a assexualidade. Defendendo o direito da mulher de dizer não a qualquer pessoa que assuma que ela está sexualmente disponível, o feminismo defende o direito à assexualidade, isto é, o direito a se assumir assexual sem ouvir coisas como “você só não encontrou a pessoa certa” ou “você só está se fazendo de difícil”. Caso as pessoas conseguissem entender claramente que o não de uma mulher é tão legítimo como qualquer outro “não”, nós jamais precisaríamos ouvir isso, porque ninguém pensaria que estamos “nos fazendo de difíceis”, simplesmente que não estamos sexualmente disponíveis; acontece que o machismo objetifica todas nós mulheres, fazendo de nós instrumentos de prazer para os homens e tirando nosso direito de não estar sexualmente disponível para qualquer um deles. Isso resulta em agressões de toda sorte; afinal, quem nunca foi xingada por não querer ficar com um cara?

Justamente pelo fato de o feminismo defender a liberdade dos corpos femininos é que não consigo entender quando escuto de uma feminista as mesmas expressões que qualquer outra pessoa  usaria para me deslegitimar enquanto pessoa assexual. Isso já aconteceu, e choca ainda mais do que chocaria se fosse qualquer outra pessoa, simplesmente pelo fato de feministas acreditarem que o corpo da mulher é propriedade dela própria e, portanto, ela pode fazer dele o que quiser: dar para todo mundo, dar para qualquer um ou não dar para ninguém. A opção de não dá-lo a ninguém – ou seja, o celibato – ou a assexualidade – a orientação sexual – devem ser respeitadas igualmente entre si e quando comparadas à opção de uma mulher que decidiu dar para quem quisesse. No meio feminista, contudo, essa última mulher é mais aceita, e até mesmo exaltada, em comparação à assexual ou à celibatária; certas vezes, as duas últimas são vistas como mulheres tão afetadas pelo patriarcado que não conseguem aceitar a sua sexualidade, e se escondem por trás do celibato ou da assexualidade. Claro, isso pode ser verdade; afinal, nossa mente cria toda sorte de artifícios para legitimar um abuso emocional, principalmente quando ele tem as dimensões do patriarcado. Generalizar o caso, contudo, é um problema. Da mesma forma que nem todas as feministas pensam isso das mulheres assexuais e celibatárias, nem todas essas mulheres estão desconfortáveis com a própria sexualidade a ponto de escondê-la.

Em outras palavras, o feminismo é extremamente benéfico para a aceitação da assexualidade, no sentido que instrui as pessoas para que aceitem o “não” da mulher; no entanto, é preciso tomar cuidado para que as mulheres assexuais, ou mesmo as celibatárias, não se sintam excluídas do movimento. Isso é construído com reflexão e conhecimento sobre a situação dessas mulheres.

Se quiser mais um ponto de vista sobre a baixa aceitação de mulheres que não fazem sexo regularmente no feminismo, leia este texto.

“Você não existe”: o peso da deslegitimação

Não sei até que ponto posso dizer que sofro preconceito por ser demissexual. Tenho váries amigues homossexuais e conheço pessoas trans* que sofrem muito mais com a sociedade cis-heteronormativa do que eu, então, talvez, chamar o que sofro de preconceito seja um pouco presunçoso demais. O fato é que, bem como ocorre com as outras orientações sexuais e com as identidades de gênero trans*, há um estigma rondando pessoas assexuais, e a forma mais recorrente pela qual ele se manifesta é o apagamento, ou a deslegitimação.

Deslegitimar alguma coisa é deixar de reconhecê-la como autêntica, ou seja, passá-la a um status de “falsa”, “imprópria”. Com pessoas assexuais, isso acontece de diversas formas. A que mais escuto, enquanto demissexual, é clássica: “mas todo mundo é assim!”. Por mais inofensiva que pareça para quem a profere, essa frase me causa enjoos, náuseas, indigestão e dores fortes no peito, seguidas de ataques de impaciência que tento controlar antes de começar a explicar que não, isso não é verdade. Dizer a um demissexual – ou a qualquer outra pessoa – que “todo mundo é assim” não é inseri-lo num contexto mais amplo, não é fazê-lo se sentir bem-vindo no grupo, e também não é demonstrar empatia; é, pura e simplesmente, deslegitimar sua orientação sexual. Ao dizer a uma pessoa demissexual que “todo mundo” compartilha de sua orientação sexual, se está igualando essa pessoa ao hetero/bi/pan/homossexual que pratica sexo casual, por exemplo, o que invalida todas as experiências pelas quais aquela pessoa já passou simplesmente por ser assexual. Eu, por exemplo, já fui várias vezes excluída de grupos sociais devido à minha orientação sexual, principalmente durante a adolescência, e dizer que minhas experiências românticas e sexuais são idênticas às de qualquer outra pessoa no mundo é ignorar completamente esse e outros fatos da minha vida – além de ser uma grande ignorância, porque nenhuma experiência sexual/romântica é igual, não importa a orientação sexual dos envolvidos.

Outra forma de apagar as orientações assexuais é dizer que “isso não existe” ou que “é doença”. Essa última forma é a mais cruel. Patologizar – ou seja, transformar em doença – uma pessoa, sua essência, o que ela é, é uma crueldade sem tamanho; a maioria des homossexuais e transgêneres deve se identificar, já que a homossexualidade era considerada doença até algumas décadas atrás, e a transexualidade ainda o é. É simplesmente absurdo dizer que uma pessoa homossexual é doente e precisa ser tratada por um psiquiatra ou psicólogo para se livrar disso, haja vista as inúmeras manifestações que ocorreram contra parlamentares brasileiros após tentativas de incluir esse tipo de “tratamento” nas pautas da saúde do país; por que, então, ainda é aceito que se trate uma pessoa assexual como um ser doente, de baixa libido, que necessita ter seus “traumas de infância” devidamente tratados para que possa recuperar uma “vida saudável”? Já me cansei de ver, em revistas femininas, principalmente, aquelas propagandas clamando que “sexo é vida” e que, se você não tem uma libido considerada “normal” ou “aceitável”, precisa procurar um médico neste momento, porque pode ter uma doença muito grave. É tão grave assim ser assexual? É tão ruim, a ponto de ser amplamente difundido como doença, que uma pessoa simplesmente não queira fazer sexo? 

E qual o problema, afinal, de tanta gente apontando na nossa cara que não existimos ou que somos doentes? Nós devemos mesmo nos importar com a opinião de pessoas que não estão no nosso grupo de relações e com as quais podemos nunca nos encontrar na vida? Sim, nós devemos. A deslegitimação pesa, e, infelizmente, tem alto poder de convencimento. Eu mesma passei anos da minha vida buscando soluções médicas para a minha falta de libido, o que me causou uma grande tristeza. Me sentia – e ainda me sinto, de certa forma – constantemente forçada a ter intenções sexuais com pessoas, o que me deixava tensa e abatida por nunca conseguir. Além disso, justamente por não ter segundas intenções com ninguém, sou muito lenta para entender quando as pessoas as têm para comigo, e vivo num estado constante de alerta, como se fossem me atacar a qualquer momento, de todos os lados, simplesmente porque, apesar de saber que sou assexual e que essa é uma orientação sexual válida, passei a maior parte dos meus anos acreditando no contrário, e o que está enraizado é difícil de ser tirado.

(Atenção: se você ou qualquer parente/amigue/cônjuge seu já teve níveis de libido considerados dentro dos padrões e sofreu uma queda brusca nesses níveis, a ponto de incomodar, essa pessoa DEVE ser aconselhada a procurar atendimento médico. Transtornos psiquiátricos graves, como depressão, se manifestam precocemente com diminuição da libido; no entanto, cabe a essa pessoa decidir se vai ou não buscar ajuda médica. Lembre-se sempre de que a sexualidade de uma pessoa pertence apenas a ela.)

O que é ser demissexual?

Eu posso não ter muitos anos nas costas, mas, no que diz respeito à minha sexualidade, já ouvi todo tipo de coisa. Primeiro – bem antes de me descobrir demissexual -, eu escutava que devia ser lésbica. É claro que isso não é depreciativo, pelo contrário, fico orgulhosa por saber que fui incluída num grupo que tanto luta por seus direitos, mas sempre que erram minha identidade sexual, eu fico com uma sensação de pura agonia. É como se tivessem anulado a pessoa Nathália e colocado no lugar dela uma outra mulher, que não é demissexual e, portanto, não passou pelas experiências que eu passei. É ainda pior quando vem da família, mas não é disso que quero falar hoje. O primeiro post desse blog será dedicado a todas as pessoas que não sabem o que é demissexualidade e/ou não sabem o que é ser demissexual. Geralmente, são essas pessoas que me classificam como lésbica, ou assumem que eu seja heterossexual; também são essas pessoas que me perguntam se eu só me relaciono com demônios, semi-deuses, meus pais ou a Demi Lovato. (Já escutei tudo isso. Juro.)

ATENÇÃO!!! Eu considero a demissexualidade como uma orientação sexual, mas isso não é consenso; inclusive, você pode ser demi e lésbica, demi e gay, demi e bi, enfim, demi e qualquer outra coisa. JAMAIS coloque a sua sexualidade dentro dos limites de qualquer texto que você tenha lido na internet, no jornal, num livro, em qualquer lugar. As opiniões das pessoas são muito divergentes, e não devem influenciar a forma como você se identifica.

Tinha 18 anos quando me descobri demissexual. A história de como isso aconteceu é cheia de altos e baixos, afinal, como qualquer adolescente, eu também passei pela fase em que, para ser socialmente aceita, precisava ter beijado na boca. Acontece que eu não conseguia. Quando pensava em beijar um estranho qualquer numa festa (no masculino, porque heterossexualidade era necessária no grupo em que eu tentava me inserir), tinha a sensação de estar sufocando, queria fugir, me esconder. Eu sabia que não era igual aos outros, e isso me causava intensa agonia, e até mesmo um grande ódio de mim mesma. Por que eu era a única que não conseguia pegar geral numa festa? Por que eu não conseguia fazer isso nem uma vez, para que me aceitassem? Por que eu não podia ser normal? Esse pensamento perdurou durante toda a minha puberdade, tendo sido mais intenso dos onze aos quinze anos. Basicamente, eu me sentia o patinho feio. Quando dei o meu primeiro beijo, aos quinze, com uma pessoa pela qual eu era apaixonada, achei que isso tivesse acabado, mas logo me vi novamente pressionada pelo grupo para ficar com pessoas em festas, e o sentimento de não pertencer àquele mundo voltou. Por muitos anos pensei que fosse doente, até que o tumblr me ensinou que assexualidade existe.

A primeira consideração que devo fazer aqui é que não existe só uma assexualidade. Como o próprio termo revela, assexual é a pessoa que não sente atração sexual por outras pessoas; no entanto, é correto pensar na assexualidade como um espectro, tal qual pensamos nas cores, e não como uma tabela ou uma chave de classificação, em que as características da sua atração sexual te dizem exatamente qual a sua sexualidade. (Na verdade, eu acredito que mesmo as orientações que não estão no espectro assexual devam ser tratadas dessa forma.) Numa das pontas do espectro, temos a assexualidade, ou seja, a total falta de atração sexual; na outra, temos a sexualidade, isto é, as pessoas passíveis de sentir atração por qualquer pessoa. Veja bem, quando digo passíveis, não quero dizer que todas as pessoas não-assexuais sintam atração por qualquer ser humano que virem na rua. A palavra “passíveis” está aí para dizer que pessoas sexuais conseguem sentir atração por estranhes, ou seja, por pessoas que não conhecem direito, ou que conseguem sentir-se atraídas em pouco tempo.

Entre a sexualidade e a assexualidade, temos a chamada “gray-area”, “gray-a” ou “área cinza”, na qual estão inseridas todas as pessoas que não são nem absolutamente sexuais, nem absolutamente assexuais. É aí que estão os demissexuais. Quem é demi é passível de sentir atração por determinadas pessoas, aquelas com as quais já tem contato emocional. Esse contato emocional não é necessariamente paixão ou amor romântico; pode ser amizade, companheirismo ou mesmo um laço emocional forte criado entre ídolo e fã. O último caso, por mais absurdo que possa parecer a leitores não muito acostumades, é bastante comum. O tumblr Confessions of a Demisexual já recebeu perguntas relativas a essa forma de contato emocional.

Ainda que não exista uma letra A na sigla LGBT – letra da qual eu sinto muita falta, diga-se de passagem -, é geralmente nos meios LGBTs que assexuais e pessoas na área cinza em geral se sentirão acolhidas e representadas politicamente. Como todas as outras coisas, no entanto, isso não é regra; nem todos os grupos LGBTs acolhem assexuais da mesma forma que o fazem com outras orientações, e muitas pessoas assexuais não se sentem bem em meio à comunidade LGBT. (Como forma de reagir à pequena abrangência da sigla LGBT, a Universidade de Vermont, no Canadá, propôs a sigla MSGI, Minorities in Sexuality and Gender Identity, mas não tenho dados sobre a aderência dos movimentos a tal denominação.)

Demissexuais também sofrem preconceito. Nesse caso, é especialmente oportuno lembrar que não é necessário agredir alguém fisicamente para ser preconceituoso; muitas vezes, as formas mais cruéis de discriminação vêm de um olhar, uma palavra, uma ação simples, e não de uma surra. O preconceito que sofro, enquanto demissexual, é bastante velado: está presente na não-legitimação da minha orientação sexual, na maioria das vezes. É bastante comum que eu explique o que é uma pessoa demissexual e meu interlocutor me responda da seguinte forma: “mas todo mundo é assim!”. Não é preciso pensar muito para se chegar à conclusão de que isso não é verdade; por mais que exista uma ilusão romântica de que o sexo só é bom com amor, ou que todas as pessoas deveriam fazer sexo com amor, isso não é regra (e nem deve ser). Além disso, não é só porque uma pessoa sexual jamais fez sexo com alguém que não ame que ela vai ser demi, muito menos tornar sexuais todas as pessoas demi; a orientação sexual diz respeito à atração que uma pessoa sente, e não às ações que toma em relação a esta.

Esse post é uma introdução ao tópico central do blog, que é a assexualidade em geral, com foco na demissexualidade. Provavelmente, eu retomarei assuntos que toquei superficialmente aqui.

Obrigada por ler!