orientação sexual

Uma meta para 2016

O ano novo chegou. Isso significa, friamente, que a Terra passou por um determinado ponto no movimento de translação, que acontece ao redor do Sol – na verdade, nem é um ponto determinado, porque, a cada ano, ficamos 6 horas atrasades em relação ao movimento de translação. É para corrigir esse erro que existem os anos bissextos (como 2016). Nossa espécie, no entanto, é famosa por incutir significado a coisas que parecem triviais. Biólogos que pesquisam a evolução humana estudam essa capacidade como um dos traços que nos define. Definindo ou não, o fato é que incutimos simbolismo em coisas aparentemente supérfluas, e, por mais que algumas pessoas queiram se distanciar disso, é algo inerente a nós e que não precisa ser, necessariamente, condenado. Devido a essa capacidade, colocamos significado às mudanças na posição do Sol, o que resultou em um calendário de 12 meses, cujo fim também possui um significado: renovação, renascimento, recomeço. Mesmo quem não segue o calendário gregoriano tem significados parecidos para a virada do ano; é só ver como chineses comemoram a vinda do ano-novo lunar, que não só significa renovação, mas também traz toda uma onda de vibrações diferentes, que favorece determinadas atividades, de forma parecida com a astrologia ocidental.

Horóscopos à parte, 2016 chegou, e para todo mundo, já que o calendário gregoriano é o oficial em todas as partes do mundo. Eu nunca fiz resoluções de ano novo, mas resolvi dar uma chance para elas dessa vez, mesmo sabendo que já vou ter esquecido todas elas em março. Uma delas eu não quero esquecer, e, por isso, resolvi trazê-la para o blog.

Em 2015, testemunhamos grandes avanços da militância assexual no Brasil. Vimos surgirem grandes – e ótimas – páginas no Facebook com esse tema: a Assexualidade da Depressão, que agora não funciona mais, mas teve um papel expressivo em 2015; a Fofura Assexual, que tem um pessoal tão criativo e que sabe fazer tantas coisas!; a Que Ace Te Mordeu?, que é novinha, mas já chegou chegando; e muitas outras que eu não conheço, ou que conheço, mas não lembro, porque a minha memória tem uma capacidade muito pequena. Também vimos grandes jornais fazerem matérias muito boas sobre a assexualidade, esclarecendo para quem não conhece que não somos aberrações, e que também não vivemos tristes; infelizmente, também vimos outros jornais prestarem desserviços a nós, mas, com sorte, isso não vai mais se repetir.

De qualquer forma, a quantidade de informação sobre a assexualidade em português aumentou muito em 2015, e isso é maravilhoso. Criei esse blog porque não conseguia encontrar informações sobre assexualidade em português, e, principalmente, informações mais pessoais, relatos sobre vivências, textos com os quais eu pudesse me identificar. Provavelmente, se eu não soubesse falar inglês, estaria até hoje procurando quem eu sou. Hoje, o cenário, para uma pessoa que se descobre assexual, é bastante diferente. Temos uma quantidade razoável de conteúdo em português, acessível para essas pessoas, para que elas tirem suas dúvidas e se encontrem. Fico imensamente feliz pensando nisso, mas ainda não é o suficiente.

Como eu já disse, algumas coisas que encontramos na internet não são mais do que um grande desserviço a nós, passando informações falsas, e até mesmo a noção de que somos doentes e precisamos ser tratades. Algumas dessas informações podem ser encontradas em jornais de grande circulação e que algumas pessoas consideram confiáveis, então é difícil filtrar tudo isso. A única forma que temos de passar nossas vivências para quem está se descobrindo agora e de fazermos as outras entenderem que não somos doentes é falando. Por isso, se você tem desenvoltura com as palavras, se sabe se portar na frente da câmera, se desenha, se narra, se consegue fazer qualquer coisa que possa ser convertida em mídia na internet, fica aqui o meu convite: comece a falar sobre a assexualidade. Você não precisa ter um blog ou um canal no YouTube exclusivos sobre isso – nem esse blog é exclusivo, por mais que pareça -, mas um post, um vídeo, um desenho, já vai fazer a mensagem se espalhar para mais gente. Se tem uma coisa que eu aprendi com esse blog é que todo mundo pode ter um grande alcance e atingir muitas outras pessoas. Muitas mais do que você pode imaginar.

Minha meta para 2016, então, é ver ainda mais conteúdo bom em português sobre a assexualidade, e ainda mais discussões (produtivas!) sendo feitas. Então, vamos lá?

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Eu não sou anti-sexo

Muita gente acha que assexuais não gostam de sexo. Já sabemos que isso não é verdade; primeiro, porque assexual não é quem não gosta de sexo, mas sim, quem não sente atração sexual, ou apenas a sente sob determinadas circunstâncias; segundo, porque pessoas assexuais podem, sim, fazer sexo. E gostar.

Na verdade, o fato de que algumas pessoas assexuais fazem e gostam de sexo é apenas uma consequência do que é ser assexual. Assexual é um termo guarda-chuva, ou seja, abarca diversas denominações; dessa forma, não apenas quem não sente atração sexual em situação alguma é tido como assexual, mas também as pessoas que a sentem de forma muito esporádica, como pessoas demissexuais. Sabendo que algumas pessoas assexuais sentem atração sexual em situações específicas, concluímos que algumas delas façam sexo e gostem disso. Não existe muito mistério. Por que, então, essa confusão existe?

Tudo começa no moralismo. Historicamente, a sociedade entende o sexo como um ato que vai contra a moral. Por isso, sempre existiram pessoas que eram contra essa prática, por diversas razões (algumas delas, inclusive, não se apoiam no princípio da amoralidade do sexo). Essas pessoas são celibatárias, ou seja, escolheram não fazer sexo, por qualquer razão que seja. Padres católicos são um exemplo de celibatários. Essas pessoas fizeram uma escolha consciente de não fazer sexo, por mais que tenham vontade, e por maior que seja a atração que sentem. Não existe falta de atração nem de desejo nessas pessoas; o que existe é um autocontrole, e não estou dizendo que isso seja bom, nem ruim.

Para pessoas assexuais, a coisa funciona meio diferente. Nós não temos atração sexual e não houve escolha consciente sobre isso; tudo aconteceu naturalmente, como acontece com qualquer orientação sexual. Assim como pessoas homo ou heterossexuais, não escolhemos não sentir atração, apenas não sentimos. Quando sentimos e ficamos confortáveis o suficiente para que essa atração se concretize, isso não significa que não vamos gostar do sexo, porque temos capacidade de sentir prazer. Não existe motivo religioso, moral ou de qualquer outro cunho para que não façamos sexo: a única coisa que existe é falta de atração. A partir do momento em que ela passa a existir, o sexo passa a ser uma possibilidade. No entanto, uma vez que o celibato é tão amplamente divulgado e a assexualidade não é, é comum que as pessoas confundam os dois e assumam que assexuais escolheram não fazer sexo, não gostam de fazê-lo e têm algo contra ele.

Por isso, se você ler em algum lugar que assexual é quem não gosta de sexo, ou se pensava assim, saiba que isso não é verdade. É claro, existem pessoas assexuais que não gostam de fazer sexo, mas isso não é regra. E também não é ideologia. É apenas parte de quem somos.

A assexualidade dos outros

Se você é assexual, o post de hoje não é para você. Chame sua mãe, seu pai, as pessoas que são importantes na sua vida, e vamos falar, todes juntes, sobre como lidar com a assexualidade dos outros. Como tratar uma pessoa assexual? Como lidar com o fato de que uma pessoa importante para você tem uma sexualidade tão não-normativa, mas tão não-normativa, que você nunca ouviu falar sobre ela (e nem aquele seu amigo gay ouviu)?

Vão aí cinco dicas:

  1. Tente compreender. É difícil? É. Uma pessoa que não está passando por determinada experiência nunca vai entendê-la por completo, mas você não pode deixar de tentar. Sua geração, o ano em que você nasceu, sua idade, nada disso é empecilho para tentar entender que a pessoa que você ama não sente atração sexual e não tem problema nenhum quanto a isso. Não entendeu? Bom, continue tentando. Se você realmente ama essa pessoa assexual que te indicou esse post, tentar compreender a dor dela, a personalidade dela e as opressões pelas quais ela passa é o mínimo que você pode tentar fazer. Dói quando as pessoas que nos amam não nos compreendem, mas dói ainda mais quando elas nem tentam fazer isso.
  2. Não diga que a pessoa “vai morrer sozinha”. Você pode até ter medo disso, mas isso é falta de informação. Primeiro, porque o sexo não é a única forme de encontrar companhia; as pessoas podem se apaixonar e ter um relacionamento sem sexo. Além disso, não namorar e não se casar não é estar sozinhe. É pra isso que servem os amigos, não?
  3. Não questione a assexualidade dessa pessoa. “Ah, mas você ficou com tal pessoa, você não pode ser assexual.” NÃO FAÇA ISSO. APENAS NÃO FAÇA.  A atração sexual pode acontecer ocasionalmente para algumas pessoas assexuais, ou ela pode ter consentido em ficar com a outra pessoa por pressão social ou qualquer outra coisa.
  4. Tente não encarar a assexualidade como um problema. Assexualidade não é ruim, não é doença, e não precisa ser “culpa” de ninguém. Não é “culpa” da sua criação, nem de religião, nem de nada, porque não é ruim e não precisa ser “culpa” de ninguém. Ponto final. Dizer que a assexualidade é “culpa” de alguém significa dizer que é um problema.
  5. Não apague o sofrimento da pessoa assexual. Pressão social, apagamento, confusão e dúvidas: o dia normal de uma pessoa assexual. A sociedade não nos admite, a mídia não nos representa, nossa família e amigues não nos compreendem. Se uma pessoa assexual está sofrendo preconceito por sua orientação sexual, não diga que “todo mundo é assim”, que isso “acontece”, enfim, não diminua o sofrimento dela. Escute e fale o que achar necessário: o desnecessário pode ficar não-dito. Evite o sofrimento.

O que é área cinza?

A assexualidade é uma denominação guarda-chuva. Isso significa que existem pessoas estritamente assexuais – ou seja, aquelas que não sentem atração sexual -, e também existem pessoas que não costumam sentir atração sexual, mas isso pode acontecer sob determinadas condições. Todas essas pessoas podem se denominar assexuais. É mais ou menos o mesmo esquema do termo trans*, que é um termo guarda-chuva, ou seja, abarca várias denominações debaixo de si. Uma das denominações abraçadas pela assexualidade é a área cinza (ou gray-a, ou gray area), que é o conjunto de pessoas que não são estritamente assexuais e nem alossexuais (=sexuais).

Para entender melhor o termo, vamos fazer uma abstração: imagine que toda a pluralidade de sexualidades humanas coubesse numa paleta de cores. Na paleta de cinza estariam dois conceitos mais simples e mais abrangentes do que a bissexualidade, por exemplo; esses conceitos seriam a alossexualidade e a assexualidade. Nessa abstração, a alossexualidade seria representada pela cor preta e a assexualidade, pela cor branca. Por consequência, teríamos, entre esses dois extremos, vários tons de cinza. É daí que vem o termo “área cinza”. Dentro da área cinza, se encaixam as pessoas que: não sentem atração sexual normalmente, mas podem senti-la ocasionalmente; sentem atração sexual, mas não têm vontade de concretizá-la; e pessoas que fazem e gostam de fazer sexo, mas apenas em condições muito específicas.

Dependendo da concepção de área cinza, ela pode ou não conter outras denominações. Para algumas pessoas, a área cinza é uma orientação sexual, chamada de gray-asexual. Um gray-asexual, ou graysexual, é uma pessoa que sente atração sexual sob condições muito específicas, ou que raramente a sente. Para outras pessoas, a área cinza é um “lugar” onde se inserem várias outras orientações sexuais, como lithosexual (pessoas que sentem atração sexual, mas não querem que ela seja recíproca), pothisexual (pessoas que fazem e gostam de sexo, mas continuam assexuais por não sentirem atração) e demissexual (pessoas que podem sentir atração sexual apenas quando têm laços emocionais e/ou afetivos fortes).

Ou seja: a área cinza contempla as pessoas que não são estritamente assexuais, mas também não são alossexuais. Quem está na área cinza também pode se considerar assexual e também pode sofrer afobia (o preconceito contra assexuais). Para algumas pessoas, a área cinza é uma orientação sexual, mas, para outras, é o local onde se inserem as denominações que cabem dentro da assexualidade, junto com a assexualidade estrita. Nenhuma das duas concepções está errada; a vivência das pessoas e a denominação com a qual elas se sentem mais confortáveis vai determinar qual delas adotar – ou, até mesmo, nenhuma delas, afinal, podemos sempre formar nossas próprias concepções a partir das existentes, não é mesmo?

Eu não sou LGBT

Hoje aconteceu a 19ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, na Avenida Paulista, como todos os anos. Muita gente me chamou para ir; eu não fui. Tenho diversos problemas com a Parada (por exemplo, o fato dela ser uma manifestação de cunho político, mas ter empresas que a apoiam abertamente), mas o principal, e que sempre me faz negar todos os pedidos dos meus amigos para que os acompanhem, é que a Parada não me representa.

Não me representa por um motivo simples: eu não sou LGBT.

É claro que não estou falando sobre ser a quatro coisas ao mesmo tempo, mas sim, do fato de que não sou lésbica, nem gay, nem bissexual, nem transexual. Aliás, já perceberam quantas nuances de sexualidade ficam de fora dessa sigla? Eu, enquanto pessoa assexual, não sou incluída, bem como companheires poli e pansexuais, por exemplo. Somos pouques? Talvez. Somos invisíveis? Nessa luta, com certeza. Se não fôssemos, não teríamos tantas pessoas envolvidas com a militância LGBT afirmando que não existimos, que ainda não encontramos a pessoa certa, que um dia vamos entender que somos lésbicas/gays/heterossexuais e vamos parar de afirmar que não temos interesse por sexo. Seria obviamente violento da nossa parte dizer para um homem gay que ele, na verdade, não encontrou a mulher certa e que, um dia, vai entender que é hetero e que vai parar de dizer que não tem interesse por mulheres; por que não é tão obviamente violento quando esses comentários são dirigidos a pessoas assexuais?

Acredito que nossa ausência na sigla LGBT tenha um tanto de responsabilidade nesse sentido. A invisibilidade de pessoas assexuais é tão grande, mas tão grande, que não temos lugar nem mesmo na comunidade LGBT. Nem mesmo a hipócrita atitude de falsa inclusão acontece conosco; ninguém tenta nos enfiar em qualquer buraco da militância só para dizer que estamos ali, que lembraram de nós. Ninguém lembra de nós. De certa forma, isso pode até ser bom: nos poupa de certos problemas, como a transfobia que sempre está envolvida em comentários de pessoas que tentam incluir pessoas trans, geralmente binárias, em seus discursos dessa forma hipócrita. Por outro lado, denuncia o quanto nossa sociedade preza pelo sexo e o quanto as pessoas que fogem desse padrão são “anormais” nesse contexto. Para a sociedade em que vivemos, nós, assexuais, não deveríamos nem mesmo existir, e isso fica bastante claro quando pensamos que nem no ambiente dito “seguro” da militância LGBT temos espaço para celebrar nossa existência.

Não estou dizendo que gostaria de ligar a tela da minha televisão e ver pessoas assexuais representadas lá, da mesma forma que gostaria de ver companheires indígenas, por exemplo, representando a minha cor. Na verdade, nem sei muito bem como isso poderia ser feito – afinal, como seria uma propaganda de perfume com uma pessoa assexual? -, mas seria interessante saber que temos um espaço onde podemos nos expressar e discutir livremente sobre nossa falta de atração sexual. A militância LGBT não é esse espaço. Sei que não somos as únicas pessoas a passar por isso, mas nossa orientação sexual, que deveria ser mais uma dentre tantas que têm um lugar nesse movimento, é constantemente invisibilizada e tratada como objeto de chacota em espaços LGBT, como grupos no Facebook e até mesmo coletivos sérios. Isso pode ser falta de informação, sim, mas nada justifica ignorar completamente uma parte de alguém e considerá-la lésbica, gay ou heterossexual baseado nas suas observações e na forma como você vê o mundo. Lembre-se sempre, quem tem que se categorizar ou não é a pessoa em questão. Você não tem que decidir nada sobre a sexualidade de ninguém além de você mesme.

Obviamente, a invisibilidade não vai acabar quando nos incluírem na sigla; afinal, nos Estados Unidos, muitas organizações de pessoas não-cis-hetero já incluíram o A, e nem por isso as pessoas assexuais são mais visíveis do que eram antes. Inclusão na sigla, contudo, significa que estão cientes de que existimos e que estamos fazendo algum barulho, pelo menos o suficiente para incomodar ou alguém – ou fazer com que alguém olhe para nós. Enquanto não existirmos na sigla, temos o atestado de que somos completamente invisíveis, até mesmo para as pessoas que deveriam estar nos apoiando. Mesmo assim, ainda estamos inserides em espaços LGBT, porque é nesses espaços que costumamos encontrar segurança para falar sobre nossos problemas e indagações quanto a nossa sexualidade. Quando não há hostilidade, grupos e coletivos LGBT nos oferecem discussões ricas e, algumas vezes, esclarecedoras; no entanto, ainda não são espaços ideais, justamente porque, na maioria das vezes, não estamos discutindo com nossos iguais, mas com pessoas que nunca passaram e nunca passarão pelas mesmas experiências que nós. Seria como uma pessoa homossexual tentar discutir sua sexualidade numa roda exclusivamente heterossexual.

A inserção da letra A na sigla que representa as pessoas não-cis-hetero não vai acabar com nenhum problema da comunidade assexual, mas nos ajudaria a dar um passo mais longe da invisibilidade completa; afinal, enquanto eu puder ser categorizada apenas como homo ou heterossexual, sem nenhuma outra opção, a exclusão será sistêmica e constante, e é contra isso que devemos lutar de forma mais urgente.

Eu sou assexual?

Às vezes eu recebo e-mails de pessoas que leem o blog, dizendo que eu as ajudei a se encontrar, que não sabiam o que era assexualidade e passaram não só a saber como a se identificar como assexuais, enfim, histórias muito bonitas, que me motivam a continuar escrevendo. Eu também recebo perguntas, e, de longe, a que mais aparece na minha caixa de entrada é “eu/fulane sou/é assexual?”. Geralmente, ao me perguntar isso, a pessoa me dá todo um panorama da sua vida, suas experiências, ou então da vida e das experiências da pessoa que é sujeito da pergunta, e eu sempre respondo da mesma forma: a única pessoa que pode dizer se você é assexual é você. Pode parecer que sim, mas eu não estou fugindo da pergunta; acontece que orientação sexual é algo muito pessoal, e, mesmo que eu conhecesse cada um de vocês desde criancinha, mesmo que observasse cada um de vocês todos os dias (o que seria bastante perturbador), eu ainda não teria resposta objetiva para essa pergunta. O que eu faço, nesse caso, é dar algumas “dicas”, baseadas unicamente na minha experiência, para que a pessoa tente se identificar sozinha, e, por mais que eu goste de receber e-mails das pessoas que leem o que eu escrevo, acho que talvez seja mais útil fazer um post sobre isso, até porque nem todo mundo que tem essa dúvida vai ter coragem de me perguntar.

Antes de tudo, queria pontuar que, quando digo “assexual”, incluo nessa denominação a área cinza.

Agora, vamos lá. Eu já fiz um post explicando o que é ser demissexual, mas talvez não tenha ficado claro que a assexualidade é a ausência de atração sexual. Ser assexual não significa não ter desejo sexual; uma pessoa assexual pode ou não sentir desejo, e pode satisfazê-lo de diversas formas, sendo a masturbação uma delas. Ser assexual também não significa não se apaixonar: algumas pessoas assexuais também são arromânticas, ou seja, não formam laço romântico com as pessoas, mas isso não quer dizer que todas sejam. Ser assexual não significa ser virgem, pois pessoas assexuais podem experimentar o sexo, antes ou depois de se descobrirem, e também não significa não gostar de sexo. Pessoas que se encontram na área cinza gostam do sexo em situações específicas – no caso de demissexuais, por exemplo, que sentem atração apenas por pessoas com quem têm laço emocional, logo, gostarão do sexo com essas pessoas. E, se tem uma coisa que ser assexual definitivamente não significa, é ser triste. A mídia nos vende a ideia de que sexo significa felicidade, ideia essa suportada pela medicina, e nós a compramos; no entanto, sexo não é a única forma de ser feliz nessa vida. Eu gosto muito de comer, e comer me faz feliz. Sou menos feliz por ser assexual? De modo algum, porque ser assexual não afeta a minha relação com comida, que é o que me faz feliz, nesse contexto. Ligar o mau-humor das pessoas à falta de sexo, além de falocêntrico e patriarcal, é inválido para assexuais.

Explicado o que ser assexual significa e não significa, vamos à dúvida cruel que assola tantas mentes: você é assexual? Para muita gente, é fácil responder isso, mas a sexualidade tem nuances que, às vezes, nós não conseguimos perceber. Uma pessoa assexual que ainda não se descobriu e está passando por uma depressão, por exemplo, ou algum outro tipo de transtorno mental, pode achar que a sua falta de atração sexual se deve à depressão. De fato, a depressão diminui muito a libido, mas a única forma de dizer com certeza se você é assexual ou se a falta de atração e/ou desejo está ligada ao transtorno mental pelo qual você está passando é tendo base de comparação. Se você tinha uma vida sexual ativa e prazerosa antes da sua depressão e, depois dela, não tem mais, é hora de procurar um médico. Se não, também é hora de procurar um médico. Depressão não é brincadeira e você precisa de ajuda para se livrar dela. Caso não tenha base de comparação para elucidar se você sempre foi assim ou se está assim, o tratamento vai te ajudar muito nisso.

Se o fato de você não sentir atração não te incomoda, há algumas perguntas sobre as quais você pode refletir. Por exemplo: você sente atração sexual por outras pessoas? Se sim, isso só acontece depois de vocês terem proximidade afetiva? Se você sentir atração por alguma celebridade, é necessária identificação emocional entre você e a celebridade para que essa atração se estabeleça? Se você já tiver feito sexo, foi uma experiência prazerosa? Você se sentiu à vontade? Caso tenha sentido prazer, ele foi realmente sexual? É claro que, depois de pensar nelas, você pode continuar confuse, sem saber quem você é e qual a sua orientação sexual; não é porque essas perguntas me ajudaram que elas vão, com certeza, ajudar você. Cada pessoa é diferente, e, por mais que eu queira te ajudar, pode ser que eu não consiga. A busca por quem você é de verdade depende só de você, e será diferente para cada pessoa. A partir das suas próprias experiências, você pode moldar as suas reflexões, as suas perguntas, que facilitem a chegada a uma conclusão. Além disso, nas questões referentes à sua experiência sexual, você deve levar em conta que a outra pessoa envolvida pode não ter te deixado à vontade, e isso pode não ter nada a ver com a sua orientação. O mais importante, no caso da dúvida quanto a se identificar como assexual ou não, é saber se você sente atração sexual e por quem.

Mesmo depois de tudo isso, eu ainda não posso afirmar se você é ou não assexual, e talvez nem você possa. Se encontrar no espectro das sexualidades pode ser importante para autoafirmação e para acabar com aquele sentimento de que você está sozinhe, mas, se você não conseguir encontrar onde você está, relaxe. Talvez, um dia, você encontre, e talvez não. Não existem rótulos para contemplar todas as pessoas nesse mundo, e você não precisa ficar triste se for uma das pessoas que caem fora das caixinhas.

“Você não existe”: o peso da deslegitimação

Não sei até que ponto posso dizer que sofro preconceito por ser demissexual. Tenho váries amigues homossexuais e conheço pessoas trans* que sofrem muito mais com a sociedade cis-heteronormativa do que eu, então, talvez, chamar o que sofro de preconceito seja um pouco presunçoso demais. O fato é que, bem como ocorre com as outras orientações sexuais e com as identidades de gênero trans*, há um estigma rondando pessoas assexuais, e a forma mais recorrente pela qual ele se manifesta é o apagamento, ou a deslegitimação.

Deslegitimar alguma coisa é deixar de reconhecê-la como autêntica, ou seja, passá-la a um status de “falsa”, “imprópria”. Com pessoas assexuais, isso acontece de diversas formas. A que mais escuto, enquanto demissexual, é clássica: “mas todo mundo é assim!”. Por mais inofensiva que pareça para quem a profere, essa frase me causa enjoos, náuseas, indigestão e dores fortes no peito, seguidas de ataques de impaciência que tento controlar antes de começar a explicar que não, isso não é verdade. Dizer a um demissexual – ou a qualquer outra pessoa – que “todo mundo é assim” não é inseri-lo num contexto mais amplo, não é fazê-lo se sentir bem-vindo no grupo, e também não é demonstrar empatia; é, pura e simplesmente, deslegitimar sua orientação sexual. Ao dizer a uma pessoa demissexual que “todo mundo” compartilha de sua orientação sexual, se está igualando essa pessoa ao hetero/bi/pan/homossexual que pratica sexo casual, por exemplo, o que invalida todas as experiências pelas quais aquela pessoa já passou simplesmente por ser assexual. Eu, por exemplo, já fui várias vezes excluída de grupos sociais devido à minha orientação sexual, principalmente durante a adolescência, e dizer que minhas experiências românticas e sexuais são idênticas às de qualquer outra pessoa no mundo é ignorar completamente esse e outros fatos da minha vida – além de ser uma grande ignorância, porque nenhuma experiência sexual/romântica é igual, não importa a orientação sexual dos envolvidos.

Outra forma de apagar as orientações assexuais é dizer que “isso não existe” ou que “é doença”. Essa última forma é a mais cruel. Patologizar – ou seja, transformar em doença – uma pessoa, sua essência, o que ela é, é uma crueldade sem tamanho; a maioria des homossexuais e transgêneres deve se identificar, já que a homossexualidade era considerada doença até algumas décadas atrás, e a transexualidade ainda o é. É simplesmente absurdo dizer que uma pessoa homossexual é doente e precisa ser tratada por um psiquiatra ou psicólogo para se livrar disso, haja vista as inúmeras manifestações que ocorreram contra parlamentares brasileiros após tentativas de incluir esse tipo de “tratamento” nas pautas da saúde do país; por que, então, ainda é aceito que se trate uma pessoa assexual como um ser doente, de baixa libido, que necessita ter seus “traumas de infância” devidamente tratados para que possa recuperar uma “vida saudável”? Já me cansei de ver, em revistas femininas, principalmente, aquelas propagandas clamando que “sexo é vida” e que, se você não tem uma libido considerada “normal” ou “aceitável”, precisa procurar um médico neste momento, porque pode ter uma doença muito grave. É tão grave assim ser assexual? É tão ruim, a ponto de ser amplamente difundido como doença, que uma pessoa simplesmente não queira fazer sexo? 

E qual o problema, afinal, de tanta gente apontando na nossa cara que não existimos ou que somos doentes? Nós devemos mesmo nos importar com a opinião de pessoas que não estão no nosso grupo de relações e com as quais podemos nunca nos encontrar na vida? Sim, nós devemos. A deslegitimação pesa, e, infelizmente, tem alto poder de convencimento. Eu mesma passei anos da minha vida buscando soluções médicas para a minha falta de libido, o que me causou uma grande tristeza. Me sentia – e ainda me sinto, de certa forma – constantemente forçada a ter intenções sexuais com pessoas, o que me deixava tensa e abatida por nunca conseguir. Além disso, justamente por não ter segundas intenções com ninguém, sou muito lenta para entender quando as pessoas as têm para comigo, e vivo num estado constante de alerta, como se fossem me atacar a qualquer momento, de todos os lados, simplesmente porque, apesar de saber que sou assexual e que essa é uma orientação sexual válida, passei a maior parte dos meus anos acreditando no contrário, e o que está enraizado é difícil de ser tirado.

(Atenção: se você ou qualquer parente/amigue/cônjuge seu já teve níveis de libido considerados dentro dos padrões e sofreu uma queda brusca nesses níveis, a ponto de incomodar, essa pessoa DEVE ser aconselhada a procurar atendimento médico. Transtornos psiquiátricos graves, como depressão, se manifestam precocemente com diminuição da libido; no entanto, cabe a essa pessoa decidir se vai ou não buscar ajuda médica. Lembre-se sempre de que a sexualidade de uma pessoa pertence apenas a ela.)