objetificação

“Mas ela era tão bonita!”

A beleza sempre me intrigou. Quando bem jovem (criança, mesmo) participei de inúmeras seleções para agências de modelos até conseguir uma que me aceitasse apesar dos quilos a mais, e, nesse tempo, testemunhei uma corrida insana para se conseguir e/ou se manter a beleza. Mesmo entre crianças, a competição para ver qual das meninas era mais bonita, qual tinha o acessório mais bonito no cabelo, qual tinha conseguido desfilar de salto (!) sem perder o equilíbrio era muito grande. As minhas colegas de profissão se orgulhavam de conseguir ficar horas e horas sentadas numa cadeira de salão tratando do cabelo para uma sessão de fotos que não duraria mais que trinta minutos, ou de conseguir empilhar uma biblioteca na cabeça. Fui modelo por pouco tempo, mas, enquanto o fui, me assustei muito com a indústria da beleza. Eu não compreendia o que era aquilo, por que aquilo acontecia, mas sabia que não queria deixar que um batom e um salto 15 tomassem conta da minha vida.

Fui crescendo, e as coisas não pareciam melhorar. Sempre, antes de sair de casa, minha mãe me perguntava se eu “não ia passar um batomzinho”. A resposta era quase sempre não, porque eu não gostava de usar maquiagem, apesar de gostar muito de passá-la no rosto; no começo, ela insistia e até brigava comigo por isso, mas depois foi desistindo, sempre me lembrando de que menino nenhum ia gostar de mim assim. Até hoje, por alguma razão que não consigo entender, me sinto extremamente desconfortável quando me dizem que estou bonita, principalmente se esse elogio partir dos meus pais. Talvez por isso, ou talvez pelo grande susto que a indústria da beleza me proporcionou na infância, eu não consiga entender por que a beleza é tão valorizada pelas pessoas. Beleza vende, principalmente a feminina – que foi feita para ser usada e observada, segundo a cultura patriarcal, que é a raiz e o caule da indústria da beleza -, e todos compram o ideal do belo, de que ser bonito é sinônimo de ser bem-sucedide.

Prova disso é que, quando uma pessoa jovem morre, três coisas são geralmente ressaltadas pelas pessoas que a conheciam: inteligência, alegria e beleza, três características bastante apreciadas pelo capitalismo. Dessas, a beleza é a que mais me intriga quando ressaltada dessa forma: qual o problema de uma pessoa considerada bela morrer? Depois de muito pensar, cheguei à conclusão de que, muitas vezes, pessoas consideradas belas dentro do padrão não são lembradas pelos outros como pessoas. Elas são mais que pessoas, um tipo de semideusas, intocáveis e inabaláveis; não dormem, não comem, não têm necessidades fisiológicas e, acima de tudo, não morrem. Sumarizando, não têm os problemas que as pessoas comuns, que não são exageradamente belas, possuem, e isso faz com que os “pobres mortais” se choquem ao perceber que sim, elas são pessoas, tal qual nós.

Não estou dizendo que exista preconceito ou discriminação contra pessoas belas. Pelo contrário: pessoas consideradas feias sofrem muito, seja para arranjar um emprego, companheire ou amizades, e não existe simetria em dizer que pessoas consideradas belas sofrem do mesmo jeito. O que existe é um sentimento coletivo de que o que vendem na mídia como belo é, na verdade, perfeito, sobreumano, inalcançável de tal forma que as pessoas que possuem esse “dom” deixam de ser seres humanos para se tornar uma coisa acima disso. Esse pensamento é nocivo de diversas formas. Primeiro, gera problemas epidemiológicos como transtornos alimentares e de humor, tanto que as passarelas passaram a repudiar modelos excessivamente magras por incitar esse tipo de doença. Segundo, cria sobre as pessoas, principalmente mulheres, uma expectativa irreal de beleza. Espera-se que mulheres sempre usem camadas e camadas de maquiagem para esconder imperfeições que todos têm, mas que são incompatíveis com o ideal de beleza; espera-se que se faça horas e horas de ginástica para perder quilos que não são nocivos para a saúde e, inicialmente, nem para a autoestima da pessoa. Daí vem a exclusão social de pessoas consideradas feias, que são vistas como “descuidadas de si mesmas”.

Apesar de ser um conceito subjetivo, a beleza está no imaginário das pessoas como algo unificado, uniforme e padronizado, como se seres humanos saíssem de uma fábrica, todes prontes para se tornar o impossível: a pessoa bela e perfeita, endeusada e sobreumana que estampa capas de revistas e outdoors.

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Assexualidade e feminismo

O feminismo é uma luta hegemônica. Quando se fala em luta de minorias, ele sempre está lá, mesmo que discreto, no meio das pautas em questão. Se a luta é por igualdade social, a emancipação das mulheres ajuda muito nisso; o Bolsa Família, que fez de tantas mulheres as chefes da casa, é um exemplo disso. Se a luta é por direitos LGBT, ou seja, por igualdade civil e o fim do preconceito, esses objetivos jamais serão atingidos sem que as mulheres sejam vistas como iguais pelos homens e por outras mulheres (a menos que o movimento seja GGGG, o qual não é uma luta de fato). Sendo assim, é mais do que justo que o feminismo também esteja inserido e seja intrínseco à luta pelo reconhecimento de pessoas assexuais.

Como minhes amigues do Coletivo Feminista Trepadeiras me ajudaram a perceber de forma mais clara, o feminismo luta, entre outras coisas, pela liberdade dos corpos femininos. Isso quer dizer muitas coisas; dentre elas, que quando uma mulher diz “não”, é exatamente isso que ela quer dizer. Se você é mulher ou foi designade assim ao nascimento, sabe perfeitamente do que eu estou falando. Todes nós temos pelo menos uma história de assédio sexual ou moral decorrente do fato de não estarmos sexualmente disponíveis quando deveríamos, ou seja, quando a sociedade pede que estejamos. Comigo, isso acontecia com frequência em festas, uma dessas ocasiões em que se supõe que as mulheres estejam sexualmente disponíveis – algo que não é regra nem para mulheres sexuais, então, por que o seria para as assexuais? Nunca cheguei a sofrer violência física por isso, mas ficava tão socialmente acuada que, com o tempo (e com a piora da minha fobia social), parei de sair. Era muito mais fácil ficar em casa me divertindo no computador do que precisar sair e enfrentar quem quisesse se aproximar de mim com intenções muito diferentes das minhas.

É aí que o feminismo encontra a assexualidade. Defendendo o direito da mulher de dizer não a qualquer pessoa que assuma que ela está sexualmente disponível, o feminismo defende o direito à assexualidade, isto é, o direito a se assumir assexual sem ouvir coisas como “você só não encontrou a pessoa certa” ou “você só está se fazendo de difícil”. Caso as pessoas conseguissem entender claramente que o não de uma mulher é tão legítimo como qualquer outro “não”, nós jamais precisaríamos ouvir isso, porque ninguém pensaria que estamos “nos fazendo de difíceis”, simplesmente que não estamos sexualmente disponíveis; acontece que o machismo objetifica todas nós mulheres, fazendo de nós instrumentos de prazer para os homens e tirando nosso direito de não estar sexualmente disponível para qualquer um deles. Isso resulta em agressões de toda sorte; afinal, quem nunca foi xingada por não querer ficar com um cara?

Justamente pelo fato de o feminismo defender a liberdade dos corpos femininos é que não consigo entender quando escuto de uma feminista as mesmas expressões que qualquer outra pessoa  usaria para me deslegitimar enquanto pessoa assexual. Isso já aconteceu, e choca ainda mais do que chocaria se fosse qualquer outra pessoa, simplesmente pelo fato de feministas acreditarem que o corpo da mulher é propriedade dela própria e, portanto, ela pode fazer dele o que quiser: dar para todo mundo, dar para qualquer um ou não dar para ninguém. A opção de não dá-lo a ninguém – ou seja, o celibato – ou a assexualidade – a orientação sexual – devem ser respeitadas igualmente entre si e quando comparadas à opção de uma mulher que decidiu dar para quem quisesse. No meio feminista, contudo, essa última mulher é mais aceita, e até mesmo exaltada, em comparação à assexual ou à celibatária; certas vezes, as duas últimas são vistas como mulheres tão afetadas pelo patriarcado que não conseguem aceitar a sua sexualidade, e se escondem por trás do celibato ou da assexualidade. Claro, isso pode ser verdade; afinal, nossa mente cria toda sorte de artifícios para legitimar um abuso emocional, principalmente quando ele tem as dimensões do patriarcado. Generalizar o caso, contudo, é um problema. Da mesma forma que nem todas as feministas pensam isso das mulheres assexuais e celibatárias, nem todas essas mulheres estão desconfortáveis com a própria sexualidade a ponto de escondê-la.

Em outras palavras, o feminismo é extremamente benéfico para a aceitação da assexualidade, no sentido que instrui as pessoas para que aceitem o “não” da mulher; no entanto, é preciso tomar cuidado para que as mulheres assexuais, ou mesmo as celibatárias, não se sintam excluídas do movimento. Isso é construído com reflexão e conhecimento sobre a situação dessas mulheres.

Se quiser mais um ponto de vista sobre a baixa aceitação de mulheres que não fazem sexo regularmente no feminismo, leia este texto.

O amor é capitalista

Eu ensaiei muito esse post. Muito mesmo. Por várias razões. A principal é que, mesmo fazendo essa associação desde criança, eu nunca li o suficiente a respeito para ter uma opinião mais madura do que aquela que formo sozinha. Depois, estava tentando reunir exemplos o suficiente para falar disso, e, apesar de não tê-lo feito de forma satisfatória para mim, provavelmente vou voltar ao assunto, então farei uma introdução hoje e, no futuro, aprofundarei meus conhecimentos e os posts sobre amor e capitalismo.

Como já disse, penso nisso desde criança, e a primeira forma de amor com a qual uma criança tem contato é o amor fraternal (aquele que vem das pessoas que nos criam e de nosses irmãos e irmãs). Sou filha única, logo, o amor do qual estive exclusivamente próxima, até os 17 anos, foi o amor dos meus pais. Isso me fez pensar abundante e incessantemente sobre a natureza desse amor, que muitas vezes me parecia exageradamente protetor e possessivo. Claro, as pessoas adultas sempre fizeram questão de invalidar os meus questionamentos, dizendo que “quando você crescer, vai entender” ou “quando você for mãe, saberá do que estou falando”. Ainda não sou mãe, então não posso refutar a segunda afirmação, mas a primeira é claramente inválida, pelo menos no meu caso. Estou com 20 anos, o que pode não ser muito, mas já é o bastante para dizer com certeza que sou adulta e ainda não entendi por que o amor maternal e paternal precisa ser tão… Paternalista. Não entendi, mas tenho algumas hipóteses. A que me convence melhor é a de que isso acontece porque o amor, na nossa sociedade, é visto da mesma forma que todas as outras coisas e até mesmo pessoas: uma mercadoria, um objeto, que você pode obter e perder, que pode ser “comprado” e “roubado”.

Recentemente, minha mãe me deu um exemplo muito claro de que esse pensamento existe e do quanto está arraigado nas mentes das pessoas. Via facebook, ela compartilhou uma foto dizendo que o maior medo dos pais seria perder os filhos, ou coisa parecida, ao que eu argumentei que não se pode perder algo que nunca foi sua propriedade. Ela, mais que depressa, refutou que eu sou, sim, propriedade dela, que ela é minha dona, pura e simplesmente por ser minha mãe. É óbvio que ela não usou essas palavras, mas a ideia geral era essa. Eu, então, pedi a ela que me mostrasse o certificado de propriedade, a nota fiscal, a escritura que me vinculava a ela dessa forma mercantil e capitalista, e foi aí que ela pensou que talvez, e apenas talvez, transformar pessoas em mercadorias não fosse algo tão legal assim, muito menos uma demonstração de amor. Porque é isso que as pessoas pensam: que ter umas às outras, agir como se o outro fosse sua propriedade é demonstração pura de amor. Eu mesma já pensei assim, e mesmo hoje tenho dificuldades para conter isso. É uma cultura hegemônica entre nós, que só será subvertida com a subversão da noção capitalista de que tudo tem um valor comercial, o que está bem longe de nós, mas não custa sonhar, não é?

Exemplos dessa visão capitalista do amor, que bota valor monetário em tudo e todos e aplica seus conceitos econômicos a tudo e a todos, são recorrentes nas relações entre pais e filhes. Dadas as devidas exceções, temos filhes para suprir uma necessidade pessoal de sermos mães ou pais, e não porque queremos fazer algo por uma criança ou pelo mundo ou qualquer coisa do tipo; tratamos nosses filhes como bonecas que fazem tudo o que queremos, ou como uma projeção de nós mesmos, um ser sem consciência, um objeto que só existe para nos agradar, e, quando isso não acontece, ficamos decepcionades; entendemos nosses filhes como nossa propriedade, e temos medo de que os “roubem” de nós, não só no sentido literal (como num sequestro, por exemplo), mas também no sentido figurado – afinal, quantos pais não têm medo de que suas crianças arranjem amiguinhes e deixem-nos de lado?

A segunda forma de amor com a qual tive contato foi a amizade, que é, de longe, a mais desinteressada de todas as que experimentei. Ainda assim, algumas pessoas insistem que se pode “trocar” um amigue por outre, como se as duas (ou três, ou quatro, enfim) pessoas envolvidas fossem figurinhas do Harry Potter.

Depois da amizade, vem o amor romântico. Isso é particularmente difícil de falar no meu caso, porque é bastante recente e inclui muitas nuances da minha sexualidade, mas tentarei me desvincular disso, porque é tema de outro post. Por isso, falarei, especialmente, de relacionamentos que observei, seja entre meus pais, entre amigues, enfim. Todos esses relacionamentos eram monogâmicos, e a monogamia compulsória (ou seja, o sistema em que se impõe a todas as pessoas que elas devem ser monogâmicas para serem aceitas na sociedade) deixa bastante explícita a noção de que pessoas são mercadorias. Num relacionamento monogâmico faz-se um contrato de exclusividade, ou seja, as duas partes concordam em não desejar nem se relacionar com mais ninguém. Na minha opinião, isso, por si só, é tentar negar os sentimentos, o desejo e a expressão da sexualidade das pessoas, o que as reduz a objetos ou sombras de pessoas; afinal, como se pode ter certeza de que jamais haverá sentimentos por mais ninguém, ou, que seja, apenas o desejo? Se não se pode, o contrato é desonesto e torna-se inválido, a menos que ambas as partes também concordem em ignorar sumariamente essas partes de si mesmas e, eventualmente, tornarem-se propriedade do outro. Muitas vezes eu ouvi que os ciúmes são “medo de perder” alguém, e, como já citei, não se pode perder algo que não seja sua propriedade, o que confirma que os relacionamentos monogâmicos (e muitos relacionamentos não-monogâmicos também) são capitalistas na medida em que tratam as pessoas como objetos que podem ser roubados e perdidos.

Como última consideração, nossa linguagem corrobora tudo isso. “Meu” esposo, “minha” esposa, “meu” filho, “minha” filha, “meu” amigo, “minha” amiga, enfim, precisamos utilizar pronomes possessivos ao nos referirmos às pessoas que amamos, e não consigo pensar em nenhuma alternativa viável a isso. A cultura que transforma pessoas em objetos e mercadorias é onipresente e é quase impossível escapar dela, mas, quem sabe, não vivamos algum dia num mundo em que as pessoas sejam tratadas como pessoas e os objetos, como objetos?