monogamia

O amor é capitalista

Eu ensaiei muito esse post. Muito mesmo. Por várias razões. A principal é que, mesmo fazendo essa associação desde criança, eu nunca li o suficiente a respeito para ter uma opinião mais madura do que aquela que formo sozinha. Depois, estava tentando reunir exemplos o suficiente para falar disso, e, apesar de não tê-lo feito de forma satisfatória para mim, provavelmente vou voltar ao assunto, então farei uma introdução hoje e, no futuro, aprofundarei meus conhecimentos e os posts sobre amor e capitalismo.

Como já disse, penso nisso desde criança, e a primeira forma de amor com a qual uma criança tem contato é o amor fraternal (aquele que vem das pessoas que nos criam e de nosses irmãos e irmãs). Sou filha única, logo, o amor do qual estive exclusivamente próxima, até os 17 anos, foi o amor dos meus pais. Isso me fez pensar abundante e incessantemente sobre a natureza desse amor, que muitas vezes me parecia exageradamente protetor e possessivo. Claro, as pessoas adultas sempre fizeram questão de invalidar os meus questionamentos, dizendo que “quando você crescer, vai entender” ou “quando você for mãe, saberá do que estou falando”. Ainda não sou mãe, então não posso refutar a segunda afirmação, mas a primeira é claramente inválida, pelo menos no meu caso. Estou com 20 anos, o que pode não ser muito, mas já é o bastante para dizer com certeza que sou adulta e ainda não entendi por que o amor maternal e paternal precisa ser tão… Paternalista. Não entendi, mas tenho algumas hipóteses. A que me convence melhor é a de que isso acontece porque o amor, na nossa sociedade, é visto da mesma forma que todas as outras coisas e até mesmo pessoas: uma mercadoria, um objeto, que você pode obter e perder, que pode ser “comprado” e “roubado”.

Recentemente, minha mãe me deu um exemplo muito claro de que esse pensamento existe e do quanto está arraigado nas mentes das pessoas. Via facebook, ela compartilhou uma foto dizendo que o maior medo dos pais seria perder os filhos, ou coisa parecida, ao que eu argumentei que não se pode perder algo que nunca foi sua propriedade. Ela, mais que depressa, refutou que eu sou, sim, propriedade dela, que ela é minha dona, pura e simplesmente por ser minha mãe. É óbvio que ela não usou essas palavras, mas a ideia geral era essa. Eu, então, pedi a ela que me mostrasse o certificado de propriedade, a nota fiscal, a escritura que me vinculava a ela dessa forma mercantil e capitalista, e foi aí que ela pensou que talvez, e apenas talvez, transformar pessoas em mercadorias não fosse algo tão legal assim, muito menos uma demonstração de amor. Porque é isso que as pessoas pensam: que ter umas às outras, agir como se o outro fosse sua propriedade é demonstração pura de amor. Eu mesma já pensei assim, e mesmo hoje tenho dificuldades para conter isso. É uma cultura hegemônica entre nós, que só será subvertida com a subversão da noção capitalista de que tudo tem um valor comercial, o que está bem longe de nós, mas não custa sonhar, não é?

Exemplos dessa visão capitalista do amor, que bota valor monetário em tudo e todos e aplica seus conceitos econômicos a tudo e a todos, são recorrentes nas relações entre pais e filhes. Dadas as devidas exceções, temos filhes para suprir uma necessidade pessoal de sermos mães ou pais, e não porque queremos fazer algo por uma criança ou pelo mundo ou qualquer coisa do tipo; tratamos nosses filhes como bonecas que fazem tudo o que queremos, ou como uma projeção de nós mesmos, um ser sem consciência, um objeto que só existe para nos agradar, e, quando isso não acontece, ficamos decepcionades; entendemos nosses filhes como nossa propriedade, e temos medo de que os “roubem” de nós, não só no sentido literal (como num sequestro, por exemplo), mas também no sentido figurado – afinal, quantos pais não têm medo de que suas crianças arranjem amiguinhes e deixem-nos de lado?

A segunda forma de amor com a qual tive contato foi a amizade, que é, de longe, a mais desinteressada de todas as que experimentei. Ainda assim, algumas pessoas insistem que se pode “trocar” um amigue por outre, como se as duas (ou três, ou quatro, enfim) pessoas envolvidas fossem figurinhas do Harry Potter.

Depois da amizade, vem o amor romântico. Isso é particularmente difícil de falar no meu caso, porque é bastante recente e inclui muitas nuances da minha sexualidade, mas tentarei me desvincular disso, porque é tema de outro post. Por isso, falarei, especialmente, de relacionamentos que observei, seja entre meus pais, entre amigues, enfim. Todos esses relacionamentos eram monogâmicos, e a monogamia compulsória (ou seja, o sistema em que se impõe a todas as pessoas que elas devem ser monogâmicas para serem aceitas na sociedade) deixa bastante explícita a noção de que pessoas são mercadorias. Num relacionamento monogâmico faz-se um contrato de exclusividade, ou seja, as duas partes concordam em não desejar nem se relacionar com mais ninguém. Na minha opinião, isso, por si só, é tentar negar os sentimentos, o desejo e a expressão da sexualidade das pessoas, o que as reduz a objetos ou sombras de pessoas; afinal, como se pode ter certeza de que jamais haverá sentimentos por mais ninguém, ou, que seja, apenas o desejo? Se não se pode, o contrato é desonesto e torna-se inválido, a menos que ambas as partes também concordem em ignorar sumariamente essas partes de si mesmas e, eventualmente, tornarem-se propriedade do outro. Muitas vezes eu ouvi que os ciúmes são “medo de perder” alguém, e, como já citei, não se pode perder algo que não seja sua propriedade, o que confirma que os relacionamentos monogâmicos (e muitos relacionamentos não-monogâmicos também) são capitalistas na medida em que tratam as pessoas como objetos que podem ser roubados e perdidos.

Como última consideração, nossa linguagem corrobora tudo isso. “Meu” esposo, “minha” esposa, “meu” filho, “minha” filha, “meu” amigo, “minha” amiga, enfim, precisamos utilizar pronomes possessivos ao nos referirmos às pessoas que amamos, e não consigo pensar em nenhuma alternativa viável a isso. A cultura que transforma pessoas em objetos e mercadorias é onipresente e é quase impossível escapar dela, mas, quem sabe, não vivamos algum dia num mundo em que as pessoas sejam tratadas como pessoas e os objetos, como objetos?