misoginia

Querido homem

Hoje é 8 de março, dia da mulher, e estou escrevendo este texto especialmente para pedir a você que não me dê parabéns. Explicarei por quê.

Assim como você tem seus broders, as mulheres são minhas irmãs. E isso não é porque eu sou um ser iluminado e acredito que todas as pessoas são irmãs. Isso é porque existe uma estrutura social dedicada a arruinar as vidas das mulheres no mundo todo, a fim de que elas permaneçam como seres inferiores por uma miríade de razões: o patriarcado. Esse patriarcado nos faz acreditar que somos inimigas, que devemos competir o tempo todo; e, como disse brilhantemente Chimamanda Ngozi Adichie, não competimos “por empregos ou conquistas, o que pode ser algo bom, mas pela atenção dos homens”. Esse mesmo patriarcado, que transforma minhas irmãs em inimigas, reforça a ideia de que todas nós existimos com a única função de servir homens como você. Mesmo que você seja um homem “diferente”, nós ainda existimos para servi-lo. Sendo homem, você automaticamente está inserido nessa cruel relação de dominação, mesmo que não queira. Sendo homem, a sociedade o colocou, sem perguntar a você se queria ou não, na posição de abusador emocional de mulheres. Quando estamos andando na rua sozinhas à noite e o encontramos, não paramos para nos perguntar se você tem um bom caráter. O medo nos sobe à cabeça e nós corremos. Você não tem como lutar contra isso, porque, num relacionamento abusivo, quem deve lutar para se livrar disso é a vítima; o que você pode fazer é conscientizar seus iguais da existência dessas relações e de como isso nos afeta.

Entre 2001 e 2011, mais de 50 mil das minhas irmãs morreram simplesmente por serem mulheres. Então você me diz: “mas morreram muito mais homens no mesmo período!”. É verdade. Acontece que o crime de assassinato de um homem é diferente do crime de assassinato de uma mulher, da mesma forma que assassinar um homem homossexual é diferente de assassinar um homem heterossexual. Quaisquer crimes envolvendo minorias sociais, salvo raras exceções, decorrem ou são agravados pelo fato daquela pessoa pertencer a uma minoria social. Dado que ser mulher não é algo que possa ser “escondido”, como a homossexualidade pode, não é exagero afirmar que os crimes de assassinato contra mulheres tenham pelo menos um dedinho de machismo. Afinal, quando um homem mata uma mulher, ele está exercendo seu controle sobre ela; quando uma mulher mata um homem, ela está saindo da sua posição submissa. Nenhum dos crimes é louvável, mas a natureza dos dois é diferente.

Mesmo quando continuamos vivas, caro homem, não paramos de sofrer com o patriarcado. Temos medo de andar pela rua sozinhas a qualquer hora do dia. A pesquisa Chega de Fiufiu contabilizou, em 2013, que 99,6% das 7762 mulheres que participaram da pesquisa já haviam sofrido assédio. Dessas, 83% disseram que receber cantadas não é algo legal. 90% já trocaram de roupa por medo de ser assediadas na rua. Por medo. Medo. Não existe palavra que resuma melhor o sentimento de ser mulher do que “medo”. Estamos constantemente suscetíveis a ataques, seja na forma de “inocentes” cantadas, ou na forma de brutais estupros. Então você me diz, homem: “mas não só mulheres sofrem estupros!”. De novo, é verdade; no entanto, em relatório do IPEA, nota-se que 88,5% das vítimas de estupro no Brasil em 2011 eram mulheres. Isso decorre da ideia de que mulheres devem estar sempre sexualmente disponíveis para homens, uma ideia vendida pela mídia e até mesmo pela educação que é dada aos nossos meninos. Aliás, esses dados seriam muito maiores se todas as mulheres estupradas tivessem coragem de denunciar seus agressores, ou mesmo conseguissem reconhecer que foram vítimas de um estupro.

Mas nem precisamos ser tão brutais para falar de violência contra mulheres, estimado homem. Uma pesquisa (promovida por uma marca de higienização antes e depois do sexo, mas ainda válida) feita com 1252 homens heterossexuais revelou que 33% deles tem nojo de fazer sexo oral em sua parceira. Não era para menos: nossa vagina é taxada como suja e nojenta desde a infância. Precisamos ter um cuidado especial com ela, sempre limpar, usar um sabonete diferente, um lenço umedecido, limpar com o papel higiênico até estarmos completamente secas (muito embora vulva seca seja um mau sinal), tirar todos os pelos (e ficar suscetíveis a ataques de microorganismos que poderiam ser evitados com a presença desses pelos), entre outros cuidados que “toda mulher” precisa tomar para estar sempre cheirosinha e ser desejada. Acontece que a vagina, como qualquer parte do corpo, possui um odor natural, indicativo de que está tudo bem por lá, e esse odor não é o de flores do campo. Pelo contrário, aliás: higiene em excesso mata a flora vaginal, um conjunto de microorganismos benéficos e necessários para a saúde da vagina. Somos convencidas de que a vulva é nojenta e não deve ser tocada nem por dedos, muito menos por línguas; enquanto isso, ensinamos aos meninos que, depois de fazer xixi, uma balançadinha resolve. E ai da namorada dele se não quiser fazer sexo oral e engolir depois!

Talvez devido a esse nojo extremo da vagina, e com certeza devido à ignorância extrema quanto à anatomia e fisiologia do prazer feminino, um terço das mulheres brasileiras nunca atingiu um orgasmo. Sabe-se que a masturbação ajuda a mulher a se conhecer, saber o que gosta e o que não gosta quanto ao sexo, e também melhora sua capacidade de atingir orgasmos, mas 40% das mulheres brasileiras nunca se masturbaram, não porque não queiram, mas porque a masturbação feminina ainda é vista como um tabu, algo proibido. Quando nossas mães nos viam com a mão perigosamente próxima da vulva durante o final da infância, elas nos censuravam e brigavam conosco; mas quantas mães brigam com os filhos adolescentes quando eles passam um tempo descomunalmente grande no banho? E, caro homem, se a sua parceira não consegue atingir orgasmos durante o sexo e teve a coragem para contar isso a você (o que geralmente não acontece), pense bem: você sabe manipular um clitóris? Talvez seja hora de aprender.

Você também pode me perguntar, amado homem, por que estou falando de sexo num blog sobre assexualidade. Isso é porque o mesmo patriarcado que mata de forma gritante as minhas irmãs negras e trans não permite que minhas irmãs assexuais se assumam como tal. Como já disse, uma mulher tem a obrigação de estar sexualmente disponível para os homens que a desejam, e isso tira de suas mãos o poder de se assumir assexual perante a sociedade – e, muitas vezes, perante si mesma. Se ela o faz, será questionada; morrerá sozinha, não será feliz. Muitas nem consideram a assexualidade como uma opção para sua identidade, não só porque não a conhecem, mas também porque não nos é dada essa opção. Precisamos nos casar com um homem, satisfazê-lo e ter filhos com ele, ou jamais alcançaremos a felicidade plena. Daí, você, louvado homem, também pode concluir que não temos direito a ser lésbicas, e isso é verdade. Mulher com mulher só é aceito em filmes pornôs, quando ambas estão ali para dar prazer a – adivinhe – homens, como você.

Por tudo isso, querido homem, não me dê parabéns. Muito menos uma rosa. O melhor presente que você pode me dar é reconhecer que não existe mérito nenhum em ser mulher.

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