medicina

Como não ser médicx babaca: um guia rápido

Todo mundo já se consultou com médique babaca. Médique babaca é aquele que faz questão de ressaltar que você não é uma pessoa “normal” e que sempre estará à margem da sociedade; que suas queixas nunca serão legitimadas, por ele nem por ninguém, porque você “escolheu” não seguir o padrão de conto-de-fadas Disney que todo mundo precisa seguir. Eu sei, você conhece um. Eu também conheço (mais de um, aliás). Médiques babacas adoecem ainda mais seus pacientes, e também adoecem a si própries; foi pensando nisso que eu resolvi escrever esse guia rápido de como não ser um deles, com 9 dicas fáceis de se seguir.

TW: exemplos de gordofobia, transfobia, racismo e homofobia no item 9.

  1. Não seja gordofóbique. Não é porque seu paciente tem 10, 20, 50 ou 100 quilos a mais do que você gostaria que tivesse que sua vida é miserável e um inferno na Terra. Ser gorde não é ruim e faz parte de quem a pessoa é; uma pessoa gorda é uma pessoa gorda, e não deve ser excluída de um grupo (no caso, o grupo de pessoas saudáveis) só porque é gorda. Claro, algumas pessoas têm motivos para se preocupar com ganhos de peso, mas não é porque uma família tem risco de doença cardiovascular/endocrinológica/etc que todas têm. E, mesmo que a pessoa à sua frente tenha altos riscos de desenvolver doenças crônicas devido ao seu peso, não há necessidade nenhuma de esfregar na cara dela a cada consulta que ela é uma aberração da estética/medicina e precisa urgentemente perder essa barriga antes que seu coração exploda. Ela sabe que não está no “peso ideal”. A mídia já disse isso para ela, os “amigos” já disseram isso para ela, e provavelmente até a família já disse isso para ela. Ela não precisa de você dizendo isso, também.
  2. Não seja transfóbique. Eu estou ciente de que sou uma mulher cis e não posso falar de transfobia, mas acho que é bastante óbvio que médique transfóbique não deveria existir. Você está lidando com vidas de pessoas, amiguinhe, não deve tratá-las como se fossem os bonequinhos em que você treinava ressuscitação. Se a pessoa se identifica como mulher, homem, não-binárie, genderfluid ou qualquer outra coisa, isso só concerne a ela. Você não tem poder algum de dizer quem ela é.
  3. Não seja lesbo/homofóbique. Essa vai especialmente para ginecologistas (e qualquer outra especialidade que lide diretamente com a sexualidade das pessoas). Ser homofóbique é especialmente ruim para médiques ginecologistas porque assusta e afasta as pacientes e dificulta ou impede o tratamento. Dizer, ou dar a entender, a uma pessoa que você a despreza por amar e/ou fazer sexo com quem ela quer é, além de cruel, extremamente indelicado e desumano. Portanto, não faça.
  4. Não seja racista. Assim como ser gorde, trans*, bi/homo/hetero/assexual e provavelmente qualquer outra coisa que você vai achar nessa lista, ser negre também faz parte da identidade da pessoa que você está tratando; portanto, respeite. Eu entendo que algumas condições acometam pessoas negras com mais frequência, mas é aí que deve parar a sua preocupação com a cor da pele de pacientes. Sua especialidade não tem nada a ver com nenhuma dessas condições? Ótimo, você pode simplesmente respeitar a negritude da pessoa à sua frente.
  5. Não seja machista. Ser machista (e gordofóbique, lesbo/homofóbique, transfóbique, racista, etc) já é péssimo em qualquer pessoa, mas especialmente terrível se você for obstetra. A violência obstétrica é a manifestação pura do machismo na medicina, e existe das mais diversas formas: desde uma episiotomia (aquele corte entre a entrada da vagina e o ânus para facilitar a saída do bebê) sem consentimento até um “na hora de fazer não gritou, né?”, e passa por cesarianas desnecessárias impostas por especialistas. Eu poderia ficar horas falando de outras coisas além da violência obstétrica que têm raízes machistas e se manifestam em sua plenitude na medicina, mas acho que todo mundo consegue encontrar pelo menos mais um exemplo, se pensar por dois minutinhos.
  6. Não seja elitista. Ok, essa é bem difícil, eu sei. Mesmo eu, que não cresci pertencendo a classes altas e sim reproduzindo seu discurso, admito (com muita vergonha e nenhum orgulho) que sou um pouco elitista; para a classe médica, normalmente destinada a pertencer a classes altas, isso deve ser ainda mais difícil. Só que ser difícil não é desculpa. A faculdade de medicina foi fácil? Acho que não, né? Então você consegue. Não trate pacientes de consultório de forma diferenciada de pacientes do SUS, não culpe mulheres que jamais tiveram acesso a educação sexual e/ou métodos contraceptivos por gravidezes indesejadas e DSTs, enfim, em qualquer situação que envolva uma pessoa em condição social mais baixa que a sua, não pense que ter mais dinheiro faz de você uma pessoa melhor.
  7. Não seja capacitista. Apesar de estar fragilizada pelo problema de saúde que está enfrentando, essa pessoa à sua frente não é frágil. Ela tem força e autonomia para fazer o que quiser. Não importa qual seja a situação, você sempre precisa enxergar as outras pessoas como seres autônomos e capazes; mesmo um psiquiatra cuidando de pacientes deprimidos é ensinado a pensar assim. Saber lamentar pela perda e/ou pela condição de alguém sem fazê-la sentir-se incapaz é uma arte que médiques precisam aprender.
  8. Não pense que você é melhor do que ninguém. Você consulta as pessoas de cima de um pedestal de ouro cravado com diamantes? Se consulta, então quem precisa de tratamento é você, coleguinhe. A sua mesa fica na mesma altura em que o paciente se senta justamente para lembrar a vocês que são pessoas acessíveis entre si, que precisam manter um laço de confiança e que são iguais. Seu diploma, sua renda, seu jaleco, sua caneta daquele laboratório que financia suas viagens anuais a Paris ou qualquer outra coisa não te fazem melhor que seus pacientes. Isso significa que, além de não tratar as pessoas feito lixo, você não deve abusar da confiança delas para cometer crimes, enganá-las ou fazer qualquer outra coisa que possa custar seu CRM, sua liberdade ou a saúde mental da pessoa que você está consultando.
  9. Não tente mascarar seus preconceitos. Você diagnosticou-se como preconceituose. Independente de querer ou não mudar, aquela coisa de precisar ter um laço de confiança com as pessoas que você vai consultar continua valendo, então, você não pode escancarar seus preconceitos para elas; no entanto, mascará-los também não vai adiantar. É pior, em alguns casos. Se você não sabe identificar quando está ou não mascarando preconceitos, seguem alguns exemplos: “Você é gorde, mas é linde!”; “Nossa, você é transexual/travesti? Até parece mulher de verdade!”; “Sempre use camisinha, todo mundo sabe que todo gay tem AIDS”; “Seu cabelo é crespo, mas é lindo!”; entre outros. Nesses “outros”, um dos favoritos das pessoas preconceituosas é o clássico “Eu não sou preconceituose, mas…”. Nada de bom vem depois desse mas. De verdade. Mascarar os preconceitos, além de deixar ainda mais óbvio que você os tem, denota incapacidade e/ou falta de vontade de se livrar deles, o que não é algo para se orgulhar.

No final isso aqui virou mais um desabafo do que um guia rápido. Eu gostaria, muito, de encontrar médiques que tivessem essas qualidades, e espero que, da turma de medicina da qual participei, pelo menos uma pessoa saia assim. Mesmo. Se, nas próximas turmas de médiques que se formarem, tivermos 1 pessoa em 50 que saiba como tratar bem a diversidade, quem sabe, num futuro não tão distante, não tenhamos todas?