liberdade

O que a Fabíola tem a ver comigo?

Eu sei, você já cansou de ler texto sobre o caso da Fabíola, mas esse vai ser um pouquinho diferente dos outros – afinal, você tem que ter muita sorte para encontrar um texto que tenha relacionado o que aconteceu com a Fabíola com a discriminação que as pessoas assexuais sofrem diariamente.

Para quem não sabe, Fabíola era uma moça totalmente comum, como você e eu, que vivia uma vida totalmente comum. Um dia, o marido dela a seguiu e descobriu que ela o estava traindo com o cunhado. Não vou entrar no mérito se o que Fabíola fez foi “certo” ou “errado”, primeiro porque não tenho opinião formada sobre traição (afinal, é muito difícil para uma pessoa assexual entender o que motivaria uma), e, depois, porque nem eu, nem ninguém tem condições, e muito menos o direito, de julgar a vida de uma pessoa que não conhece. O fato é que Fabíola traiu, foi pega, filmada e sua cara – e toda a situação na qual foi envolvida – foi propagada pela internet. No mesmo vídeo, seu marido tem uma reação exagerada e abusiva, que inclusive custou a ele muito dinheiro, mas o que realmente ficou na cabeça das pessoas foi a desculpa da Fabíola e o quanto ela era “piranha” por ter feito aquilo com o marido.

A repercussão imensa que o vídeo da Fabíola gerou é um retrato instantâneo do quão doente por sexo é a nossa sociedade. Se Fabíola e seu marido tivessem combinado que só veriam o sétimo filme do Star Wars um com o outro, e ele a flagrasse vendo o filme com o cunhado, gravasse e colocasse na internet, a reação do público seria a mesma? Tecnicamente, o contexto é o mesmo: marido e mulher “combinam” que vão fazer algo apenas um com o outro; um deles faz com outra pessoa; o outro o flagra, grava e coloca na internet. Se despojarmos o sexo da sua grandiosidade, é isso que sobra. Mas, na nossa sociedade, o sexo é importante, é grandioso, é ponto central na vida das pessoas; sem ele, não é possível conceber relacionamentos saudáveis, mentes saudáveis e pessoas bem-sucedidas. Como eu já disse em outra ocasião, nossa sociedade é viciada em sexo, e parte da militância assexual deve trabalhar para que esse vício seja revertido. O vídeo de Fabíola só evidencia o quanto nossa cultura é dependente do sexo e de espetáculos que o envolvam.

É importante que nos coloquemos no lugar de Fabíola e entendamos que ela foi vítima da mesma sociedade ninfomaníaca que nos oprime. Quando alguém diz que nossa orientação sexual não existe, ou que não encontramos a pessoa certa, ou quando alguém pensa que somos tristes ou temos problemas mentais por não sentirmos atração sexual, seu pensamento está baseado na mesma cultura que consumiu compulsoriamente o vídeo de Fabíola, puramente por se tratar de sexo. É, também, a mesma cultura que faz circular rapidamente pela internet as fotos íntimas de garotas e garotos cujas vidas acabam no fundo do poço.

Fabíola é, portanto, um lembrete para todes nós: temos um trabalho extenso a fazer até que nossa sociedade aprenda o quanto é doentio correr atrás de sexo em todas as situações e consumir sexo em todas as mídias, de todas as formas e a qualquer custo. Fabíola foi forte e até falou sobre o caso no facebook, mas quantas vezes você abaixou a cabeça quando deslegitimaram a sua orientação sexual? O caminho para a autoafirmação é longo, e o que leva à nossa aceitação pela sociedade é ainda mais extenso, mas não impossível de traçar.

Para conhecer o seu corpo

Hoje, a seção TAB do Uol postou um infográfico esteticamente maravilhoso (mas que demora um pouco para carregar com conexões lentas) sobre a assexualidade, repleto de imagens de bolos sendo obscenamente cobertos por caldas de chocolate e cortados (para ser devorados por alguém que não sou eu, o que é triste). As pessoas que contribuíram para a elaboração desse infográfico foram muito felizes em diversos aspectos, deixando bastante claro o quanto somos felizes sem sexo, ou sem a necessidade de fazê-lo. No final da página, há um teste para saber se você é assexual ou só “tem preguiça” de fazer sexo. Eu já estava esperando que não concordasse com a matéria inteira, afinal, é muito difícil concordar inteiramente com o pensamento dos outros, então a presença desse teste não me surpreendeu. Já disse aqui, algumas vezes, e volto a bater na tecla: ninguém pode te dizer se você é assexual ou não, e “preguiça de fazer sexo” pode significar assexualidade, sim – da mesma forma que pode não significá-la. A ajuda de profissionais da medicina e da psicologia pode ser importante caso você desconfie que a sua falta de libido seja uma doença, mas a única pessoa que pode afirmar qualquer sobre sobre a sua sexualidade é você. (Se você ainda tiver dúvidas quanto a isso, sugiro a leitura do post Eu sou assexual?)

Uma das perguntas desse teste é: “Você se masturba com qual frequência?”, e as respostas possíveis são: “Com frequência”, “Evito me masturbar”, “Diariamente, às vezes mais de uma vez por dia”, “Apenas quando o corpo pede”. Torci um pouco o nariz para essa pergunta, e por isso marquei a primeira opção, e continuei o teste normalmente. O resultado foi “assex”. Refiz o teste, agora colocando a terceira opção para essa pergunta, e, novamente, o resultado foi “assex”. Isso me deixou um pouco mais aliviada, porque parece que esse teste não leva muito em consideração a frequência com a qual você se masturba para dizer se você é assexual ou não. Isso é bom. Significa que pessoas sexuais (ou alossexuais) estão entendendo o que é a assexualidade e que ela não necessariamente tem a ver com a sua relação com o seu corpo. Na maioria das vezes em que me foram feitas perguntas sobre a assexualidade, a masturbação apareceu de alguma forma, sutil ou não, no meio da conversa, e eu sempre digo o mesmo: não existe uma lei que proíba pessoas assexuais de se masturbarem, seja porque sentem desejo por si próprias ou porque têm vontade de sentir prazer sexual. Algumas pessoas assexuais sentem prazer sexual, e, dado que não há atração por outras pessoas, a masturbação é uma boa forma de alcançar esse prazer.

Mas o prazer sexual não é a única recompensa que a masturbação nos oferece. Masturbar-se é uma prática saudável porque alivia o estresse, já que os neurotransmissores liberados durante a masturbação (e também durante o sexo) favorecem o relaxamento; melhora a dor de cabeça, por causa das substâncias prazerosas que o cérebro produz durante o processo; melhora o tônus muscular, porque a masturbação e o sexo movimentam os músculos e servem como atividade física; e, acima de tudo, ajuda você a conhecer o seu corpo. Principalmente para mulheres, cuja masturbação e cujo corpo são assuntos velados, tocar-se é muito importante. Sem se tocar, você não vai saber como você é, do que você gosta, de onde você gosta que coloquem a mão. Tocar-se aumenta seu grau de intimidade com você mesme, te torna amigue íntime do seu corpo. Ser assexual não deve privar você de todas essas coisas boas que vêm com a masturbação; não é porque você não sente atração por outras pessoas que não deve se masturbar, sentir prazer sexual com você mesme, ou até mesmo com outra pessoa com quem você se sinta à vontade. Não é um encontro sexual ou uma prática comum de masturbação que vai tirar sua carteirinha de assexual.

Acontece que tem muita gente que não gosta de se masturbar, não necessariamente porque se reprime. Tem gente que sente dor, tem gente que não está confortável o suficiente para fazer isso, e tem gente que não gosta da ideia de tocar os próprios genitais; por isso, apresento aqui algumas outras formas de conhecer o seu corpo (e também a sua alma), que podem ser úteis para quem não se masturba, e também para quem quer explorar-se de outras formas.

Vista várias roupas diferentes e veja como elas se adaptam ao seu corpo. Essa história de que o seu corpo precisa entrar nas roupas, e por isso você tem que fazer mil dietas para entrar naquele vestido dois números menor que o seu e que você vai usar na sexta, é só um artifício do mercado para que você compre a ideia de corpo magro = corpo bonito. As roupas são os produtos industrializados feitos para servir o seu corpo, não o contrário; logo, elas precisam se adaptar ao seu corpo, não o contrário. Tire várias roupas do seu armário, de modelos diferentes, de festa e de dia-a-dia, e vá vestindo. Sinta o tecido tocando a sua pele e veja como ele se molda ao contorno do seu corpo. Aprecie a sua silhueta, ela é única e perfeita para você. Caso algumas das roupas não te sirva mais, ótimo! Pegue uma caixa de papelão, coloque todas essas roupas que não se adaptam mais ao seu corpo e doe para alguém que esteja precisando.

Dance. Dançar alegra, além de te deixar mais íntime dos seus músculos, da força das suas pernas e braços, e, consequentemente, do seu corpo. Caso a dança seja de salão, você ainda vai conseguir trabalhar sua relação com outras pessoas. Dança do ventre e pole dance trabalham ainda a sensualidade e a sua relação com ela. Além disso, dançar, assim como se masturbar, libera substâncias prazerosas no seu cérebro, e você vai sentir menos dor muscular, menos dor de cabeça e menos tristeza. Dançar na frente do espelho vai te ajudar a enxergar e aceitar a forma como seu corpo se movimenta.

Lute. Lutar é ótimo para extravasar a raiva! Com a onda recente do muay thai, kickboxing e outras lutas como forma de emagrecimento, vai ser bem fácil encontrar um lugar que ofereça aulas de lutas. Lutar também melhora o tônus muscular, te ajuda a conhecer os limites do seu corpo e aceitar a forma como sua mente e seu corpo reagem a situações de tensão e alerta. Além de tudo isso, você ainda ganha mais uma forma para se defender de violências.

Saia sozinhe. Vá ao shopping, veja um filme, faça uma refeição, tudo isso com você mesme como companhia. Sair com amigues é bom, mas a conversa pode ofuscar seus pensamentos. Além disso, sair na sua própria companhia te ajuda a ter mais paciência com você mesme, além de se entender mais e se importar menos com os olhares e as conversas das pessoas ao seu redor. Quantos filmes você viu nesse ano? Você veria todos eles se estivesse sozinhe ou viu alguns por influência das pessoas que estavam com você? Quantas refeições você fez acompanhade? Teria feito todas elas da mesma forma ou alguns itens do seu prato foram influência das pessoas que estavam com você? A resposta para essas perguntas está em se conhecer, em saber como você agiria se estivesse sozinhe.

É claro que essas são apenas sugestões: você pode procurar a forma de se conhecer que combine mais com você, com as suas demandas e seus traumas. Além disso, caso você tenha problemas com alguma dessas práticas, não a faça! Não se expor a situações traumáticas também é importante na hora de se conhecer. Considerando tudo isso, o resto é por sua conta. Boa sorte nessa empreitada para conhecer seu corpo e sua mente!

Assexualidade e feminismo

O feminismo é uma luta hegemônica. Quando se fala em luta de minorias, ele sempre está lá, mesmo que discreto, no meio das pautas em questão. Se a luta é por igualdade social, a emancipação das mulheres ajuda muito nisso; o Bolsa Família, que fez de tantas mulheres as chefes da casa, é um exemplo disso. Se a luta é por direitos LGBT, ou seja, por igualdade civil e o fim do preconceito, esses objetivos jamais serão atingidos sem que as mulheres sejam vistas como iguais pelos homens e por outras mulheres (a menos que o movimento seja GGGG, o qual não é uma luta de fato). Sendo assim, é mais do que justo que o feminismo também esteja inserido e seja intrínseco à luta pelo reconhecimento de pessoas assexuais.

Como minhes amigues do Coletivo Feminista Trepadeiras me ajudaram a perceber de forma mais clara, o feminismo luta, entre outras coisas, pela liberdade dos corpos femininos. Isso quer dizer muitas coisas; dentre elas, que quando uma mulher diz “não”, é exatamente isso que ela quer dizer. Se você é mulher ou foi designade assim ao nascimento, sabe perfeitamente do que eu estou falando. Todes nós temos pelo menos uma história de assédio sexual ou moral decorrente do fato de não estarmos sexualmente disponíveis quando deveríamos, ou seja, quando a sociedade pede que estejamos. Comigo, isso acontecia com frequência em festas, uma dessas ocasiões em que se supõe que as mulheres estejam sexualmente disponíveis – algo que não é regra nem para mulheres sexuais, então, por que o seria para as assexuais? Nunca cheguei a sofrer violência física por isso, mas ficava tão socialmente acuada que, com o tempo (e com a piora da minha fobia social), parei de sair. Era muito mais fácil ficar em casa me divertindo no computador do que precisar sair e enfrentar quem quisesse se aproximar de mim com intenções muito diferentes das minhas.

É aí que o feminismo encontra a assexualidade. Defendendo o direito da mulher de dizer não a qualquer pessoa que assuma que ela está sexualmente disponível, o feminismo defende o direito à assexualidade, isto é, o direito a se assumir assexual sem ouvir coisas como “você só não encontrou a pessoa certa” ou “você só está se fazendo de difícil”. Caso as pessoas conseguissem entender claramente que o não de uma mulher é tão legítimo como qualquer outro “não”, nós jamais precisaríamos ouvir isso, porque ninguém pensaria que estamos “nos fazendo de difíceis”, simplesmente que não estamos sexualmente disponíveis; acontece que o machismo objetifica todas nós mulheres, fazendo de nós instrumentos de prazer para os homens e tirando nosso direito de não estar sexualmente disponível para qualquer um deles. Isso resulta em agressões de toda sorte; afinal, quem nunca foi xingada por não querer ficar com um cara?

Justamente pelo fato de o feminismo defender a liberdade dos corpos femininos é que não consigo entender quando escuto de uma feminista as mesmas expressões que qualquer outra pessoa  usaria para me deslegitimar enquanto pessoa assexual. Isso já aconteceu, e choca ainda mais do que chocaria se fosse qualquer outra pessoa, simplesmente pelo fato de feministas acreditarem que o corpo da mulher é propriedade dela própria e, portanto, ela pode fazer dele o que quiser: dar para todo mundo, dar para qualquer um ou não dar para ninguém. A opção de não dá-lo a ninguém – ou seja, o celibato – ou a assexualidade – a orientação sexual – devem ser respeitadas igualmente entre si e quando comparadas à opção de uma mulher que decidiu dar para quem quisesse. No meio feminista, contudo, essa última mulher é mais aceita, e até mesmo exaltada, em comparação à assexual ou à celibatária; certas vezes, as duas últimas são vistas como mulheres tão afetadas pelo patriarcado que não conseguem aceitar a sua sexualidade, e se escondem por trás do celibato ou da assexualidade. Claro, isso pode ser verdade; afinal, nossa mente cria toda sorte de artifícios para legitimar um abuso emocional, principalmente quando ele tem as dimensões do patriarcado. Generalizar o caso, contudo, é um problema. Da mesma forma que nem todas as feministas pensam isso das mulheres assexuais e celibatárias, nem todas essas mulheres estão desconfortáveis com a própria sexualidade a ponto de escondê-la.

Em outras palavras, o feminismo é extremamente benéfico para a aceitação da assexualidade, no sentido que instrui as pessoas para que aceitem o “não” da mulher; no entanto, é preciso tomar cuidado para que as mulheres assexuais, ou mesmo as celibatárias, não se sintam excluídas do movimento. Isso é construído com reflexão e conhecimento sobre a situação dessas mulheres.

Se quiser mais um ponto de vista sobre a baixa aceitação de mulheres que não fazem sexo regularmente no feminismo, leia este texto.

Como o machismo me oprime

Esse é um daqueles posts que, por mais que eu escreva, vou continuar achando que está muito raso e que poderia ser maior. Como minha tendinite está atacada esses tempos, provavelmente ele ficará mesmo um pouco raso, mas esse é um assunto que será recorrente no blog; além disso, o meu objetivo não é e nunca foi dar todas as respostas para as perguntas que proponho nos títulos, mas sim plantar a sementinha da dúvida em quem ainda não tem e colocar um pouco de água na planta de quem já tem (e na minha também, óbvio).

Antes de qualquer coisa, esclareço que esse post vai focar na minha experiência enquanto mulher demissexual, porque não há como dissociar a minha assexualidade da minha identidade de gênero. Tudo faz parte de quem eu sou. Segunda coisa: o post não se chama “como o machismo me oprime” à toa; eu não quero e nunca quis representar todas as mulheres ou todes demissexuais. Por último, tomarei por base, para deixar as coisas mais palpáveis, a indústria. Mais especificamente, a indústria da música. Todo mundo sabe que o machismo é latente e praticamente não pode ser evitado na indústria musical, onde quer que seja; se não é pela hiperexposição dos corpos, assunto do qual vou tratar aqui, é pela vida pessoal des artistes, sempre escancarada pela mídia e alvo de todo tipo de críticas.

Por que escolhi a indústria da música? Porque ela me oferece vários clipes com exemplos de machismo e hipersexualização fáceis de identificar. Um deles é o clipe abaixo. É um clipe coreano, de uma música que eu adoro, de uma dupla chamada Troublemaker, composta pela Hyuna e pelo Hyunseung. Construirei meu raciocínio sobre a performance dos dois nesse vídeo, então, lá vai:

Vamos começar por 0:08 de vídeo. Nesse momento, temos Hyunseung vindo na direção da câmera, Hyuna na direção contrária, e, em menos de 10 segundos, eu já percebo que terei um enorme desgosto em ver esse clipe. O tamanho do vestido da Hyuna, a roupa do Hyunseung e a forma como eles andam já deixa isso bem claro para mim. Por que ela precisa andar desse jeito, rebolando, até mudando o salto de direção quando pisa – uma forma que absolutamente ninguém anda normalmente, mesmo de salto – e ele pode andar casualmente, como se estivesse indo pegar água na cozinha? Veja bem, eu não sou contra mulheres usando vestido curto, salto alto e rebolando. Pelo contrário, sou bastante a favor disso, contanto que seja escolha única e exclusivamente da mulher que o está fazendo, o que, no caso, não acontece. Além de Hyuna já ter dito, inúmeras vezes, que odeia essa máscara “sexy” que colocam nela nos clipes, ela está sendo paga por isso. Por uma empresa. Que pode e vai demiti-la se ela não fizer o que eles mandam.

Vamos pular para o intervalo entre 0:30 e 0:45 para comparar como os dois se portam na cadeira de couro. Hyunseung está sentado com pose de gangster, com duas mulheres rebolando do lado; Hyuna está sozinha, se contorcendo toda para mostrar sua cara “sexy” e suas pernas, que aparecem o tempo todo (meio off-topic, mas a Hyuna tem pernas lindas, é justo que apareçam). Agora eu vou pular para 1:25, e se você assistiu o vídeo até aqui sem pular desse jeito, percebeu que a Hyuna está sempre se esforçando muito para ser sexy, e que o Hyunseung não faz nada. Literalmente. Ele só fica lá, com essa pose de gangster, esse olhar meio indefinido e essas meninas rebolando em volta. Mas, em 1:25, começa a parte da dança solo da Hyuna. Ela dança com mais algumas meninas, e eu gosto muito dessa coreografia, mas nessa parte fica bastante claro que até o enquadramento da câmera está tentando hipersexualizá-la. Quando ela está de costas, a câmera fica baixa, perto dos pés dela, evidenciando o bumbum dela. Esse enquadramento mais baixo também acontece na parte da dança solo do Hyunseung (2:50), mas nunca de forma a evidenciar a bunda, as coxas ou qualquer coisa assim; é sempre uma câmera mais larga, que fica mais longe, dando para ver bem o cenário e os outros dançarinos.

Ok, não vou continuar analisando o vídeo. Acho que já deu para perceber que, durante o clipe todo, ela está tentando ser sexy e ele está sendo cool, afinal, homens não precisam tentar ser sexy, são as mulheres que precisam fazer isso por eles. Essa mensagem fica muito, muito clara nesse vídeo. Mulheres são hipersexualizadas o tempo todo na mídia em geral, porque é isso que se espera de nós: uma postura impecável, sensual, que esteja o tempo todo disponível para e em busca de homens, mas que não deixe claro que fazemos e gostamos de sexo. Quando uma mulher foge disso, ela não cabe na sociedade.

Agora, surpresa! Mulheres assexuais nunca atenderão a esse estereótipo, simplesmente porque elas não estão disponíveis e muito menos à procura de homens. Nem de mulheres. Nem de qualquer outra identidade de gênero. Mulheres assexuais nunca vão atender a esse estereótipo porque a hipersexualização simplesmente é ridícula para quem não sente atração sexual. Uma vez, vendo um clipe da Beyoncè (acho que era Naughty Girl), me senti tão deslocada do mundo que foi até estranho. Como aquilo não me atraía de modo algum, comecei a achar hilária a forma como ela dançava, tentando impressionar o homem que estava com ela e a audiência que estaria atrás do computador, e isso me pareceu ridículo. Por que alguém teria que fazer isso? Claro, Beyoncè e Hyuna fizeram pelo seu trabalho, mas onde isso se encaixaria no meu cotidiano?

A hipersexualização do corpo feminino causa na sociedade em geral uma ideia de que todas as mulheres buscam sexo (mesmo que isso tenha que ser bastante velado), mas eu, como mulher assexual, posso dizer que isso não é verdade. Já me perguntaram, em uma festa, por que eu iria a festas se não buscava ficar com ninguém, e isso me chocou tanto que eu tive que parar para pensar sobre essas coisas que estou escrevendo agora. Espera-se que queiramos sexo, e a mídia sustenta isso de forma impecável, com clipes de grande alcance, como Troublemaker, que tem uma audiência um pouco restrita por ser coreano, mas já tem mais de 42.000.000 de visualizações. Além de todo o resto, é assim que o machismo me oprime: esfregando na minha cara, mesmo quando eu estou tentando me divertir, que não estar sexualmente disponível é errado, uma abominação, uma doença, e que eu deveria me tratar.

Para quem gostou do tema, deixo aqui outro texto para pensar mais um pouco.

A meritocracia e a problemática do aborto

Um passo para frente, outro para trás – é assim que caminha a legalização do aborto, uma das mais incipientes polêmicas atuais, no tocante à saúde pública e ao feminismo. Há mais ou menos um mês foi aprovada uma portaria que incluía o aborto legal na lista de procedimentos executados pelo SUS, o que significaria um avanço nas políticas de prevenção de morte de gestantes e de maus tratos e abandono de crianças no Brasil, caso a mesma portaria não tivesse sido revogada dias depois da sua publicação. Se a revogação não tivesse acontecido, poderíamos esperar que pelo menos um milhão de mulheres por ano (Terra) logo teriam seu direito à interrupção segura da gravidez garantido, sendo que, dentre elas, figurariam muitas que não podem e nunca poderão pagar por um aborto em uma clínica e o fazem tomando chás absurdos e enfiando agulhas de crochê na vagina.

O que isso tem a ver com meritocracia? Bom, não sei se conseguirei explicar de forma clara o suficiente, porque essa reflexão é fruto de uma das minhas muitas viagens, mas tentarei. Meritocracia é a predominância do mérito sobre qualquer outro critério de seleção na sociedade, ou seja, é conseguir as coisas por “merecimento”. O vestibular é um dos exemplos mais claros de meritocracia em que consigo pensar, porque seleciona, da forma mais injusta possível, as pessoas que “merecem”, o que não significa exatamente aqueles que estudaram, mas sim os que tiveram oportunidade de pagar uma escola particular, geralmente das mais caras. Nessa conta também entram alguns transtornos psiquiátricos – por exemplo, entre dois adolescentes que estudam numa escola particular de elite, na mesma sala, sendo que uma tem transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e a outra não, qual delas tem mais chances de passar no vestibular? – e vários outros problemas, inclusive os familiares, o que torna a meritocracia uma ideologia muito, mas muito furada. Afinal, como quantificar o merecimento? E os fatores que não são considerados na hora de fazer essa conta? Como ter tanta certeza de que alguém não merece certo cargo sem acompanhar de perto seu cotidiano, seus dramas e suas alegrias?

Apesar de todos esses furos, a ideologia meritocrática é comprada por muita gente, como o próprio vestibular ilustra. Já vi muito vestibulando defender esse tipo de prova como algo ideal para selecionar quem entra e quem não entra em uma universidade, por mais pública que ela alegue ser (um beijo para a FUVEST!). Outro exemplo muito claro é o problema do desemprego. Quantas vezes eu já ouvi – e sei que não vou parar de ouvir… – gente dizendo, sobre pessoas pobres, que, “se tomassem vergonha na cara”, ou “se não fossem tão preguiçosos”, ou “se não ficassem tentando escolher o que fazer (!!!!!), teriam um emprego”. É bastante óbvio que quem diz isso não tem noção nenhuma do que é não ter oportunidade para sair de uma situação. Ninguém é pobre porque gosta, muito menos porque quer, e sim porque o sistema não deu oportunidades para que essas pessoas se desenvolvessem financeiramente. Os pobres sustentam o sistema, mas não cabem nele, e a forma de pensar meritocrática é um bom meio de dar conta dessa contradição: o que os pobres “merecem”, por sua falta de vontade de trabalhar, é limpar o meu lixo, lavar os meus copos, fazer a minha comida, limpar a bunda dos meus filhos (ironicamente, tarefas muito desgastantes). Seguindo a mesma ideia, uma mulher pobre, que não mereceu a informação suficiente para acessar camisinha e pílula anticoncepcional, ou que não mereceu o dinheiro de que precisava para comprar a pílula do dia seguinte, merece ter um filho ou morrer tentando se livrar dele. Ela também não tem dinheiro para subornar o ginecologista ou comprar Citotec, como muitas adolescentes de classe média e alta fazem, então, tudo o que pode fazer é tomar aquele chazinho de abacaxi, se jogar da escada, enfiar agulha na vagina, entre outras formas tão ou mais brutais de abortar uma criança e que matam quase 12 vezes mais, no Brasil, do que ataques de pitbull matam nos EUA (ZH Notícias). E ainda querem matar os pitbulls.

Achar que qualquer mulher poderia ter evitado a sua gravidez é não só uma atitude ingênua como meritocrática e, portanto, injusta. Além dos casos em que o método anticoncepcional falhou – mesmo a camisinha tem entre 88% e 97% de eficácia -, existem aqueles em que a gravidez não poderia ter sido evitada por uma miríade de outros motivos. Não cabe a mim, e nem a você, julgar os motivos de qualquer mulher para cometer um aborto. E nem para comer um bolo – mas de gordofobia eu falarei no futuro.

Sexualidade e romantismo

Vejo muitos problemas na concepção atual de amor. Esses problemas vão desde a essência de algumas relações amorosas até a mercantilização do amor, mas cada um deles merece um post para si, porque a discussão é longa e rende muito. Neste post, eu vou tratar de um problema o qual não costumo discutir com as pessoas: a relação entre sexualidade e romantismo.

A maioria das pessoas admite a dissociação entre sexo e amor, unilateralmente. Prova disso é que o sexo casual é – felizmente – aceito na sociedade pós-industrial, embora com vários poréns. Não ignoro, é claro, a ditadura machista sobre nossa atitude sexual, que exige que as mulheres sejam santas e associem amor e sexo com muito mais frequência do que os homens o fazem, mas o fato é que, mesmo entre mulheres, o sexo casual já não é mais o tabu que foi, digamos, na época em que minha mãe era jovem – a saber, década de 1960. Sei disso porque fui criada numa família conservadora, que me ensinou a não me aproximar dos homens, porque tudo o que eles queriam era sexo e eu, enquanto mulher, não podia responder diretamente a essas investidas, ou seria taxada de puta, vadia, piranha e todos os outros adjetivos carinhosíssimos que todas nós já ouvimos pelo menos uma vez na vida. Quando cresci, aprendi que eu podia, sim, responder, mas em situações muito específicas. Também não vou me ater ao assunto da liberalização sexual feminina, ou esse post vai ficar longo demais; o ponto é que o sexo casual é razoavelmente aceitável em nossa sociedade, apesar de o ser em medidas diferentes para homens e mulheres.

Quando é exigido das pessoas que se dissocie amor e sexo, nessa ordem, muitas têm dificuldades em fazê-lo. Ainda é inconcebível para muita gente que uma relação romântica – um namoro, um casamento, etc – exista sem o componente sexual. Assim como o já citado machismo, isso também é pensamento aprendido; eu mesma aprendi assim, na escola mesmo, e, se não tivesse aprendido lá, aprenderia folheando qualquer revista feminina, nas quais propagandas berram que “sexo é vida” e prometem resolver todos os problemas de um casamento monogâmico falido corrigindo a impotência do marido ou a falta de vontade da mulher de ceder às investidas dele – porque, claro, o único papel de uma mulher num relacionamento sexual é ceder ao marido, não cabe a ela estimulá-lo; e ai dela se não ceder! Esse é outro aspecto que enxergo muito bem nos meus pais: em crise, eles reclamam de forma recorrente da falta de vontade de fazer sexo, e culpam esse fator isoladamente pela infelicidade pela qual passam. Parece que esqueceram de contar a eles, e à maioria das pessoas, que amor não tem, necessariamente, a ver com sexo. Um casamento é, antes de tudo, uma amizade; afinal, uma pessoa precisa ser muito amiga e confiar muito em outra para escolher passar o resto todo da vida com ela. O mesmo se aplica a um namoro. Relacionar-se amorosamente com alguém é abrir o seu coração e a sua alma para que alguém possa passar um tempo dentro de você, explorando seu íntimo, e isso não se faz sem uma amizade forte e grande confiança.

Talvez tudo isso que eu estou dizendo soe um pouco romântico demais, mas pense bem: uma pessoa qualquer, independente de sua orientação sexual, precisa ter relações sexuais todos os dias com a pessoa que ama para continuar amando-a, ou para continuar chamando a relação que tem com ela de namoro, casamento ou qualquer outra coisa? Você, que namora, me diga: se ficar três semanas sem fazer sexo com namorade, por qualquer razão, o namoro de vocês obrigatoriamente acaba? Se você respondeu que sim, está simplesmente exercendo sua liberdade de colocar o sexo como fator obrigatório para um relacionamento feliz, mas eu acredito que exista muito mais num namoro que o sexo, mesmo que se excetuem todas as coisas que eu disse anteriormente sobre abrir o coração para uma pessoa. Quando se namora alguém, não se namora o genital dessa pessoa, nem qualquer zona erógena que ela tenha; namora-se a pessoa por inteiro, inclusive sua mente, suas crenças e seus pensamentos. Um namoro que só existe pelo sexo podia existir perfeitamente bem, e até melhor, como uma amizade colorida, sem compromissos, com muito mais liberdade para as pessoas envolvidas; um namoro que existe pelo companheirismo, pelo amor, pela simples vontade de estar com a outra pessoa, existe bem com ou sem sexo. É claro que, em alguns relacionamentos, a falta de sexo é um problema, mas ela é mais um indicador de problemas muito maiores do que uma querela em si.

Falei tanto sobre isso porque uma das formas de preconceito contra assexuais mais pungentes que vejo pela internet e fora dela é dizer que vamos passar o resto das nossas vidas sozinhes. Eu mesma já ouvi isso dos meus pais, diversas vezes, porque além de assexual, sou uma pessoa muito difícil de me abrir para quem quer que seja. É tão comum assim ouvir isso justamente por causa dessa cultura tão arraigada de que um relacionamento amoroso deve vir com sexo embutido, ou então não é namoro de verdade. Se você já disse isso para alguém, ou se já pensou em dizer alguma vez, assexuais – pasme! – também namoram. E nem sempre é com outra pessoa assexual. Muitas pessoas sexuais mantém relacionamentos saudáveis com assexuais, e, embora eu não tenha detalhes sobre esses relacionamentos, posso dizer que eles não são um fracasso total, porque existem. Ser assexual não é assinar um termo que te obriga a ficar sozinhe para sempre, é simplesmente aceitar sua sexualidade, assim como ser gay, lésbica, bissexual, etc; e, da mesma forma que existem pessoas assexuais que têm relacionamentos amorosos saudáveis, existem pessoas assexuais que também são arromânticas, e são saudáveis sem qualquer relacionamento amoroso. Tudo o que nos contaram sobre precisar de um amor para viver e de sexo para ser feliz no casamento se revela, a partir desta data, como mentira.