lgbt

Eu não sou LGBT

Hoje aconteceu a 19ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, na Avenida Paulista, como todos os anos. Muita gente me chamou para ir; eu não fui. Tenho diversos problemas com a Parada (por exemplo, o fato dela ser uma manifestação de cunho político, mas ter empresas que a apoiam abertamente), mas o principal, e que sempre me faz negar todos os pedidos dos meus amigos para que os acompanhem, é que a Parada não me representa.

Não me representa por um motivo simples: eu não sou LGBT.

É claro que não estou falando sobre ser a quatro coisas ao mesmo tempo, mas sim, do fato de que não sou lésbica, nem gay, nem bissexual, nem transexual. Aliás, já perceberam quantas nuances de sexualidade ficam de fora dessa sigla? Eu, enquanto pessoa assexual, não sou incluída, bem como companheires poli e pansexuais, por exemplo. Somos pouques? Talvez. Somos invisíveis? Nessa luta, com certeza. Se não fôssemos, não teríamos tantas pessoas envolvidas com a militância LGBT afirmando que não existimos, que ainda não encontramos a pessoa certa, que um dia vamos entender que somos lésbicas/gays/heterossexuais e vamos parar de afirmar que não temos interesse por sexo. Seria obviamente violento da nossa parte dizer para um homem gay que ele, na verdade, não encontrou a mulher certa e que, um dia, vai entender que é hetero e que vai parar de dizer que não tem interesse por mulheres; por que não é tão obviamente violento quando esses comentários são dirigidos a pessoas assexuais?

Acredito que nossa ausência na sigla LGBT tenha um tanto de responsabilidade nesse sentido. A invisibilidade de pessoas assexuais é tão grande, mas tão grande, que não temos lugar nem mesmo na comunidade LGBT. Nem mesmo a hipócrita atitude de falsa inclusão acontece conosco; ninguém tenta nos enfiar em qualquer buraco da militância só para dizer que estamos ali, que lembraram de nós. Ninguém lembra de nós. De certa forma, isso pode até ser bom: nos poupa de certos problemas, como a transfobia que sempre está envolvida em comentários de pessoas que tentam incluir pessoas trans, geralmente binárias, em seus discursos dessa forma hipócrita. Por outro lado, denuncia o quanto nossa sociedade preza pelo sexo e o quanto as pessoas que fogem desse padrão são “anormais” nesse contexto. Para a sociedade em que vivemos, nós, assexuais, não deveríamos nem mesmo existir, e isso fica bastante claro quando pensamos que nem no ambiente dito “seguro” da militância LGBT temos espaço para celebrar nossa existência.

Não estou dizendo que gostaria de ligar a tela da minha televisão e ver pessoas assexuais representadas lá, da mesma forma que gostaria de ver companheires indígenas, por exemplo, representando a minha cor. Na verdade, nem sei muito bem como isso poderia ser feito – afinal, como seria uma propaganda de perfume com uma pessoa assexual? -, mas seria interessante saber que temos um espaço onde podemos nos expressar e discutir livremente sobre nossa falta de atração sexual. A militância LGBT não é esse espaço. Sei que não somos as únicas pessoas a passar por isso, mas nossa orientação sexual, que deveria ser mais uma dentre tantas que têm um lugar nesse movimento, é constantemente invisibilizada e tratada como objeto de chacota em espaços LGBT, como grupos no Facebook e até mesmo coletivos sérios. Isso pode ser falta de informação, sim, mas nada justifica ignorar completamente uma parte de alguém e considerá-la lésbica, gay ou heterossexual baseado nas suas observações e na forma como você vê o mundo. Lembre-se sempre, quem tem que se categorizar ou não é a pessoa em questão. Você não tem que decidir nada sobre a sexualidade de ninguém além de você mesme.

Obviamente, a invisibilidade não vai acabar quando nos incluírem na sigla; afinal, nos Estados Unidos, muitas organizações de pessoas não-cis-hetero já incluíram o A, e nem por isso as pessoas assexuais são mais visíveis do que eram antes. Inclusão na sigla, contudo, significa que estão cientes de que existimos e que estamos fazendo algum barulho, pelo menos o suficiente para incomodar ou alguém – ou fazer com que alguém olhe para nós. Enquanto não existirmos na sigla, temos o atestado de que somos completamente invisíveis, até mesmo para as pessoas que deveriam estar nos apoiando. Mesmo assim, ainda estamos inserides em espaços LGBT, porque é nesses espaços que costumamos encontrar segurança para falar sobre nossos problemas e indagações quanto a nossa sexualidade. Quando não há hostilidade, grupos e coletivos LGBT nos oferecem discussões ricas e, algumas vezes, esclarecedoras; no entanto, ainda não são espaços ideais, justamente porque, na maioria das vezes, não estamos discutindo com nossos iguais, mas com pessoas que nunca passaram e nunca passarão pelas mesmas experiências que nós. Seria como uma pessoa homossexual tentar discutir sua sexualidade numa roda exclusivamente heterossexual.

A inserção da letra A na sigla que representa as pessoas não-cis-hetero não vai acabar com nenhum problema da comunidade assexual, mas nos ajudaria a dar um passo mais longe da invisibilidade completa; afinal, enquanto eu puder ser categorizada apenas como homo ou heterossexual, sem nenhuma outra opção, a exclusão será sistêmica e constante, e é contra isso que devemos lutar de forma mais urgente.

“Você não existe”: o peso da deslegitimação

Não sei até que ponto posso dizer que sofro preconceito por ser demissexual. Tenho váries amigues homossexuais e conheço pessoas trans* que sofrem muito mais com a sociedade cis-heteronormativa do que eu, então, talvez, chamar o que sofro de preconceito seja um pouco presunçoso demais. O fato é que, bem como ocorre com as outras orientações sexuais e com as identidades de gênero trans*, há um estigma rondando pessoas assexuais, e a forma mais recorrente pela qual ele se manifesta é o apagamento, ou a deslegitimação.

Deslegitimar alguma coisa é deixar de reconhecê-la como autêntica, ou seja, passá-la a um status de “falsa”, “imprópria”. Com pessoas assexuais, isso acontece de diversas formas. A que mais escuto, enquanto demissexual, é clássica: “mas todo mundo é assim!”. Por mais inofensiva que pareça para quem a profere, essa frase me causa enjoos, náuseas, indigestão e dores fortes no peito, seguidas de ataques de impaciência que tento controlar antes de começar a explicar que não, isso não é verdade. Dizer a um demissexual – ou a qualquer outra pessoa – que “todo mundo é assim” não é inseri-lo num contexto mais amplo, não é fazê-lo se sentir bem-vindo no grupo, e também não é demonstrar empatia; é, pura e simplesmente, deslegitimar sua orientação sexual. Ao dizer a uma pessoa demissexual que “todo mundo” compartilha de sua orientação sexual, se está igualando essa pessoa ao hetero/bi/pan/homossexual que pratica sexo casual, por exemplo, o que invalida todas as experiências pelas quais aquela pessoa já passou simplesmente por ser assexual. Eu, por exemplo, já fui várias vezes excluída de grupos sociais devido à minha orientação sexual, principalmente durante a adolescência, e dizer que minhas experiências românticas e sexuais são idênticas às de qualquer outra pessoa no mundo é ignorar completamente esse e outros fatos da minha vida – além de ser uma grande ignorância, porque nenhuma experiência sexual/romântica é igual, não importa a orientação sexual dos envolvidos.

Outra forma de apagar as orientações assexuais é dizer que “isso não existe” ou que “é doença”. Essa última forma é a mais cruel. Patologizar – ou seja, transformar em doença – uma pessoa, sua essência, o que ela é, é uma crueldade sem tamanho; a maioria des homossexuais e transgêneres deve se identificar, já que a homossexualidade era considerada doença até algumas décadas atrás, e a transexualidade ainda o é. É simplesmente absurdo dizer que uma pessoa homossexual é doente e precisa ser tratada por um psiquiatra ou psicólogo para se livrar disso, haja vista as inúmeras manifestações que ocorreram contra parlamentares brasileiros após tentativas de incluir esse tipo de “tratamento” nas pautas da saúde do país; por que, então, ainda é aceito que se trate uma pessoa assexual como um ser doente, de baixa libido, que necessita ter seus “traumas de infância” devidamente tratados para que possa recuperar uma “vida saudável”? Já me cansei de ver, em revistas femininas, principalmente, aquelas propagandas clamando que “sexo é vida” e que, se você não tem uma libido considerada “normal” ou “aceitável”, precisa procurar um médico neste momento, porque pode ter uma doença muito grave. É tão grave assim ser assexual? É tão ruim, a ponto de ser amplamente difundido como doença, que uma pessoa simplesmente não queira fazer sexo? 

E qual o problema, afinal, de tanta gente apontando na nossa cara que não existimos ou que somos doentes? Nós devemos mesmo nos importar com a opinião de pessoas que não estão no nosso grupo de relações e com as quais podemos nunca nos encontrar na vida? Sim, nós devemos. A deslegitimação pesa, e, infelizmente, tem alto poder de convencimento. Eu mesma passei anos da minha vida buscando soluções médicas para a minha falta de libido, o que me causou uma grande tristeza. Me sentia – e ainda me sinto, de certa forma – constantemente forçada a ter intenções sexuais com pessoas, o que me deixava tensa e abatida por nunca conseguir. Além disso, justamente por não ter segundas intenções com ninguém, sou muito lenta para entender quando as pessoas as têm para comigo, e vivo num estado constante de alerta, como se fossem me atacar a qualquer momento, de todos os lados, simplesmente porque, apesar de saber que sou assexual e que essa é uma orientação sexual válida, passei a maior parte dos meus anos acreditando no contrário, e o que está enraizado é difícil de ser tirado.

(Atenção: se você ou qualquer parente/amigue/cônjuge seu já teve níveis de libido considerados dentro dos padrões e sofreu uma queda brusca nesses níveis, a ponto de incomodar, essa pessoa DEVE ser aconselhada a procurar atendimento médico. Transtornos psiquiátricos graves, como depressão, se manifestam precocemente com diminuição da libido; no entanto, cabe a essa pessoa decidir se vai ou não buscar ajuda médica. Lembre-se sempre de que a sexualidade de uma pessoa pertence apenas a ela.)

O que é ser demissexual?

Eu posso não ter muitos anos nas costas, mas, no que diz respeito à minha sexualidade, já ouvi todo tipo de coisa. Primeiro – bem antes de me descobrir demissexual -, eu escutava que devia ser lésbica. É claro que isso não é depreciativo, pelo contrário, fico orgulhosa por saber que fui incluída num grupo que tanto luta por seus direitos, mas sempre que erram minha identidade sexual, eu fico com uma sensação de pura agonia. É como se tivessem anulado a pessoa Nathália e colocado no lugar dela uma outra mulher, que não é demissexual e, portanto, não passou pelas experiências que eu passei. É ainda pior quando vem da família, mas não é disso que quero falar hoje. O primeiro post desse blog será dedicado a todas as pessoas que não sabem o que é demissexualidade e/ou não sabem o que é ser demissexual. Geralmente, são essas pessoas que me classificam como lésbica, ou assumem que eu seja heterossexual; também são essas pessoas que me perguntam se eu só me relaciono com demônios, semi-deuses, meus pais ou a Demi Lovato. (Já escutei tudo isso. Juro.)

ATENÇÃO!!! Eu considero a demissexualidade como uma orientação sexual, mas isso não é consenso; inclusive, você pode ser demi e lésbica, demi e gay, demi e bi, enfim, demi e qualquer outra coisa. JAMAIS coloque a sua sexualidade dentro dos limites de qualquer texto que você tenha lido na internet, no jornal, num livro, em qualquer lugar. As opiniões das pessoas são muito divergentes, e não devem influenciar a forma como você se identifica.

Tinha 18 anos quando me descobri demissexual. A história de como isso aconteceu é cheia de altos e baixos, afinal, como qualquer adolescente, eu também passei pela fase em que, para ser socialmente aceita, precisava ter beijado na boca. Acontece que eu não conseguia. Quando pensava em beijar um estranho qualquer numa festa (no masculino, porque heterossexualidade era necessária no grupo em que eu tentava me inserir), tinha a sensação de estar sufocando, queria fugir, me esconder. Eu sabia que não era igual aos outros, e isso me causava intensa agonia, e até mesmo um grande ódio de mim mesma. Por que eu era a única que não conseguia pegar geral numa festa? Por que eu não conseguia fazer isso nem uma vez, para que me aceitassem? Por que eu não podia ser normal? Esse pensamento perdurou durante toda a minha puberdade, tendo sido mais intenso dos onze aos quinze anos. Basicamente, eu me sentia o patinho feio. Quando dei o meu primeiro beijo, aos quinze, com uma pessoa pela qual eu era apaixonada, achei que isso tivesse acabado, mas logo me vi novamente pressionada pelo grupo para ficar com pessoas em festas, e o sentimento de não pertencer àquele mundo voltou. Por muitos anos pensei que fosse doente, até que o tumblr me ensinou que assexualidade existe.

A primeira consideração que devo fazer aqui é que não existe só uma assexualidade. Como o próprio termo revela, assexual é a pessoa que não sente atração sexual por outras pessoas; no entanto, é correto pensar na assexualidade como um espectro, tal qual pensamos nas cores, e não como uma tabela ou uma chave de classificação, em que as características da sua atração sexual te dizem exatamente qual a sua sexualidade. (Na verdade, eu acredito que mesmo as orientações que não estão no espectro assexual devam ser tratadas dessa forma.) Numa das pontas do espectro, temos a assexualidade, ou seja, a total falta de atração sexual; na outra, temos a sexualidade, isto é, as pessoas passíveis de sentir atração por qualquer pessoa. Veja bem, quando digo passíveis, não quero dizer que todas as pessoas não-assexuais sintam atração por qualquer ser humano que virem na rua. A palavra “passíveis” está aí para dizer que pessoas sexuais conseguem sentir atração por estranhes, ou seja, por pessoas que não conhecem direito, ou que conseguem sentir-se atraídas em pouco tempo.

Entre a sexualidade e a assexualidade, temos a chamada “gray-area”, “gray-a” ou “área cinza”, na qual estão inseridas todas as pessoas que não são nem absolutamente sexuais, nem absolutamente assexuais. É aí que estão os demissexuais. Quem é demi é passível de sentir atração por determinadas pessoas, aquelas com as quais já tem contato emocional. Esse contato emocional não é necessariamente paixão ou amor romântico; pode ser amizade, companheirismo ou mesmo um laço emocional forte criado entre ídolo e fã. O último caso, por mais absurdo que possa parecer a leitores não muito acostumades, é bastante comum. O tumblr Confessions of a Demisexual já recebeu perguntas relativas a essa forma de contato emocional.

Ainda que não exista uma letra A na sigla LGBT – letra da qual eu sinto muita falta, diga-se de passagem -, é geralmente nos meios LGBTs que assexuais e pessoas na área cinza em geral se sentirão acolhidas e representadas politicamente. Como todas as outras coisas, no entanto, isso não é regra; nem todos os grupos LGBTs acolhem assexuais da mesma forma que o fazem com outras orientações, e muitas pessoas assexuais não se sentem bem em meio à comunidade LGBT. (Como forma de reagir à pequena abrangência da sigla LGBT, a Universidade de Vermont, no Canadá, propôs a sigla MSGI, Minorities in Sexuality and Gender Identity, mas não tenho dados sobre a aderência dos movimentos a tal denominação.)

Demissexuais também sofrem preconceito. Nesse caso, é especialmente oportuno lembrar que não é necessário agredir alguém fisicamente para ser preconceituoso; muitas vezes, as formas mais cruéis de discriminação vêm de um olhar, uma palavra, uma ação simples, e não de uma surra. O preconceito que sofro, enquanto demissexual, é bastante velado: está presente na não-legitimação da minha orientação sexual, na maioria das vezes. É bastante comum que eu explique o que é uma pessoa demissexual e meu interlocutor me responda da seguinte forma: “mas todo mundo é assim!”. Não é preciso pensar muito para se chegar à conclusão de que isso não é verdade; por mais que exista uma ilusão romântica de que o sexo só é bom com amor, ou que todas as pessoas deveriam fazer sexo com amor, isso não é regra (e nem deve ser). Além disso, não é só porque uma pessoa sexual jamais fez sexo com alguém que não ame que ela vai ser demi, muito menos tornar sexuais todas as pessoas demi; a orientação sexual diz respeito à atração que uma pessoa sente, e não às ações que toma em relação a esta.

Esse post é uma introdução ao tópico central do blog, que é a assexualidade em geral, com foco na demissexualidade. Provavelmente, eu retomarei assuntos que toquei superficialmente aqui.

Obrigada por ler!