invisibilidade

Para conhecer o seu corpo

Hoje, a seção TAB do Uol postou um infográfico esteticamente maravilhoso (mas que demora um pouco para carregar com conexões lentas) sobre a assexualidade, repleto de imagens de bolos sendo obscenamente cobertos por caldas de chocolate e cortados (para ser devorados por alguém que não sou eu, o que é triste). As pessoas que contribuíram para a elaboração desse infográfico foram muito felizes em diversos aspectos, deixando bastante claro o quanto somos felizes sem sexo, ou sem a necessidade de fazê-lo. No final da página, há um teste para saber se você é assexual ou só “tem preguiça” de fazer sexo. Eu já estava esperando que não concordasse com a matéria inteira, afinal, é muito difícil concordar inteiramente com o pensamento dos outros, então a presença desse teste não me surpreendeu. Já disse aqui, algumas vezes, e volto a bater na tecla: ninguém pode te dizer se você é assexual ou não, e “preguiça de fazer sexo” pode significar assexualidade, sim – da mesma forma que pode não significá-la. A ajuda de profissionais da medicina e da psicologia pode ser importante caso você desconfie que a sua falta de libido seja uma doença, mas a única pessoa que pode afirmar qualquer sobre sobre a sua sexualidade é você. (Se você ainda tiver dúvidas quanto a isso, sugiro a leitura do post Eu sou assexual?)

Uma das perguntas desse teste é: “Você se masturba com qual frequência?”, e as respostas possíveis são: “Com frequência”, “Evito me masturbar”, “Diariamente, às vezes mais de uma vez por dia”, “Apenas quando o corpo pede”. Torci um pouco o nariz para essa pergunta, e por isso marquei a primeira opção, e continuei o teste normalmente. O resultado foi “assex”. Refiz o teste, agora colocando a terceira opção para essa pergunta, e, novamente, o resultado foi “assex”. Isso me deixou um pouco mais aliviada, porque parece que esse teste não leva muito em consideração a frequência com a qual você se masturba para dizer se você é assexual ou não. Isso é bom. Significa que pessoas sexuais (ou alossexuais) estão entendendo o que é a assexualidade e que ela não necessariamente tem a ver com a sua relação com o seu corpo. Na maioria das vezes em que me foram feitas perguntas sobre a assexualidade, a masturbação apareceu de alguma forma, sutil ou não, no meio da conversa, e eu sempre digo o mesmo: não existe uma lei que proíba pessoas assexuais de se masturbarem, seja porque sentem desejo por si próprias ou porque têm vontade de sentir prazer sexual. Algumas pessoas assexuais sentem prazer sexual, e, dado que não há atração por outras pessoas, a masturbação é uma boa forma de alcançar esse prazer.

Mas o prazer sexual não é a única recompensa que a masturbação nos oferece. Masturbar-se é uma prática saudável porque alivia o estresse, já que os neurotransmissores liberados durante a masturbação (e também durante o sexo) favorecem o relaxamento; melhora a dor de cabeça, por causa das substâncias prazerosas que o cérebro produz durante o processo; melhora o tônus muscular, porque a masturbação e o sexo movimentam os músculos e servem como atividade física; e, acima de tudo, ajuda você a conhecer o seu corpo. Principalmente para mulheres, cuja masturbação e cujo corpo são assuntos velados, tocar-se é muito importante. Sem se tocar, você não vai saber como você é, do que você gosta, de onde você gosta que coloquem a mão. Tocar-se aumenta seu grau de intimidade com você mesme, te torna amigue íntime do seu corpo. Ser assexual não deve privar você de todas essas coisas boas que vêm com a masturbação; não é porque você não sente atração por outras pessoas que não deve se masturbar, sentir prazer sexual com você mesme, ou até mesmo com outra pessoa com quem você se sinta à vontade. Não é um encontro sexual ou uma prática comum de masturbação que vai tirar sua carteirinha de assexual.

Acontece que tem muita gente que não gosta de se masturbar, não necessariamente porque se reprime. Tem gente que sente dor, tem gente que não está confortável o suficiente para fazer isso, e tem gente que não gosta da ideia de tocar os próprios genitais; por isso, apresento aqui algumas outras formas de conhecer o seu corpo (e também a sua alma), que podem ser úteis para quem não se masturba, e também para quem quer explorar-se de outras formas.

Vista várias roupas diferentes e veja como elas se adaptam ao seu corpo. Essa história de que o seu corpo precisa entrar nas roupas, e por isso você tem que fazer mil dietas para entrar naquele vestido dois números menor que o seu e que você vai usar na sexta, é só um artifício do mercado para que você compre a ideia de corpo magro = corpo bonito. As roupas são os produtos industrializados feitos para servir o seu corpo, não o contrário; logo, elas precisam se adaptar ao seu corpo, não o contrário. Tire várias roupas do seu armário, de modelos diferentes, de festa e de dia-a-dia, e vá vestindo. Sinta o tecido tocando a sua pele e veja como ele se molda ao contorno do seu corpo. Aprecie a sua silhueta, ela é única e perfeita para você. Caso algumas das roupas não te sirva mais, ótimo! Pegue uma caixa de papelão, coloque todas essas roupas que não se adaptam mais ao seu corpo e doe para alguém que esteja precisando.

Dance. Dançar alegra, além de te deixar mais íntime dos seus músculos, da força das suas pernas e braços, e, consequentemente, do seu corpo. Caso a dança seja de salão, você ainda vai conseguir trabalhar sua relação com outras pessoas. Dança do ventre e pole dance trabalham ainda a sensualidade e a sua relação com ela. Além disso, dançar, assim como se masturbar, libera substâncias prazerosas no seu cérebro, e você vai sentir menos dor muscular, menos dor de cabeça e menos tristeza. Dançar na frente do espelho vai te ajudar a enxergar e aceitar a forma como seu corpo se movimenta.

Lute. Lutar é ótimo para extravasar a raiva! Com a onda recente do muay thai, kickboxing e outras lutas como forma de emagrecimento, vai ser bem fácil encontrar um lugar que ofereça aulas de lutas. Lutar também melhora o tônus muscular, te ajuda a conhecer os limites do seu corpo e aceitar a forma como sua mente e seu corpo reagem a situações de tensão e alerta. Além de tudo isso, você ainda ganha mais uma forma para se defender de violências.

Saia sozinhe. Vá ao shopping, veja um filme, faça uma refeição, tudo isso com você mesme como companhia. Sair com amigues é bom, mas a conversa pode ofuscar seus pensamentos. Além disso, sair na sua própria companhia te ajuda a ter mais paciência com você mesme, além de se entender mais e se importar menos com os olhares e as conversas das pessoas ao seu redor. Quantos filmes você viu nesse ano? Você veria todos eles se estivesse sozinhe ou viu alguns por influência das pessoas que estavam com você? Quantas refeições você fez acompanhade? Teria feito todas elas da mesma forma ou alguns itens do seu prato foram influência das pessoas que estavam com você? A resposta para essas perguntas está em se conhecer, em saber como você agiria se estivesse sozinhe.

É claro que essas são apenas sugestões: você pode procurar a forma de se conhecer que combine mais com você, com as suas demandas e seus traumas. Além disso, caso você tenha problemas com alguma dessas práticas, não a faça! Não se expor a situações traumáticas também é importante na hora de se conhecer. Considerando tudo isso, o resto é por sua conta. Boa sorte nessa empreitada para conhecer seu corpo e sua mente!

Eu não sou LGBT

Hoje aconteceu a 19ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, na Avenida Paulista, como todos os anos. Muita gente me chamou para ir; eu não fui. Tenho diversos problemas com a Parada (por exemplo, o fato dela ser uma manifestação de cunho político, mas ter empresas que a apoiam abertamente), mas o principal, e que sempre me faz negar todos os pedidos dos meus amigos para que os acompanhem, é que a Parada não me representa.

Não me representa por um motivo simples: eu não sou LGBT.

É claro que não estou falando sobre ser a quatro coisas ao mesmo tempo, mas sim, do fato de que não sou lésbica, nem gay, nem bissexual, nem transexual. Aliás, já perceberam quantas nuances de sexualidade ficam de fora dessa sigla? Eu, enquanto pessoa assexual, não sou incluída, bem como companheires poli e pansexuais, por exemplo. Somos pouques? Talvez. Somos invisíveis? Nessa luta, com certeza. Se não fôssemos, não teríamos tantas pessoas envolvidas com a militância LGBT afirmando que não existimos, que ainda não encontramos a pessoa certa, que um dia vamos entender que somos lésbicas/gays/heterossexuais e vamos parar de afirmar que não temos interesse por sexo. Seria obviamente violento da nossa parte dizer para um homem gay que ele, na verdade, não encontrou a mulher certa e que, um dia, vai entender que é hetero e que vai parar de dizer que não tem interesse por mulheres; por que não é tão obviamente violento quando esses comentários são dirigidos a pessoas assexuais?

Acredito que nossa ausência na sigla LGBT tenha um tanto de responsabilidade nesse sentido. A invisibilidade de pessoas assexuais é tão grande, mas tão grande, que não temos lugar nem mesmo na comunidade LGBT. Nem mesmo a hipócrita atitude de falsa inclusão acontece conosco; ninguém tenta nos enfiar em qualquer buraco da militância só para dizer que estamos ali, que lembraram de nós. Ninguém lembra de nós. De certa forma, isso pode até ser bom: nos poupa de certos problemas, como a transfobia que sempre está envolvida em comentários de pessoas que tentam incluir pessoas trans, geralmente binárias, em seus discursos dessa forma hipócrita. Por outro lado, denuncia o quanto nossa sociedade preza pelo sexo e o quanto as pessoas que fogem desse padrão são “anormais” nesse contexto. Para a sociedade em que vivemos, nós, assexuais, não deveríamos nem mesmo existir, e isso fica bastante claro quando pensamos que nem no ambiente dito “seguro” da militância LGBT temos espaço para celebrar nossa existência.

Não estou dizendo que gostaria de ligar a tela da minha televisão e ver pessoas assexuais representadas lá, da mesma forma que gostaria de ver companheires indígenas, por exemplo, representando a minha cor. Na verdade, nem sei muito bem como isso poderia ser feito – afinal, como seria uma propaganda de perfume com uma pessoa assexual? -, mas seria interessante saber que temos um espaço onde podemos nos expressar e discutir livremente sobre nossa falta de atração sexual. A militância LGBT não é esse espaço. Sei que não somos as únicas pessoas a passar por isso, mas nossa orientação sexual, que deveria ser mais uma dentre tantas que têm um lugar nesse movimento, é constantemente invisibilizada e tratada como objeto de chacota em espaços LGBT, como grupos no Facebook e até mesmo coletivos sérios. Isso pode ser falta de informação, sim, mas nada justifica ignorar completamente uma parte de alguém e considerá-la lésbica, gay ou heterossexual baseado nas suas observações e na forma como você vê o mundo. Lembre-se sempre, quem tem que se categorizar ou não é a pessoa em questão. Você não tem que decidir nada sobre a sexualidade de ninguém além de você mesme.

Obviamente, a invisibilidade não vai acabar quando nos incluírem na sigla; afinal, nos Estados Unidos, muitas organizações de pessoas não-cis-hetero já incluíram o A, e nem por isso as pessoas assexuais são mais visíveis do que eram antes. Inclusão na sigla, contudo, significa que estão cientes de que existimos e que estamos fazendo algum barulho, pelo menos o suficiente para incomodar ou alguém – ou fazer com que alguém olhe para nós. Enquanto não existirmos na sigla, temos o atestado de que somos completamente invisíveis, até mesmo para as pessoas que deveriam estar nos apoiando. Mesmo assim, ainda estamos inserides em espaços LGBT, porque é nesses espaços que costumamos encontrar segurança para falar sobre nossos problemas e indagações quanto a nossa sexualidade. Quando não há hostilidade, grupos e coletivos LGBT nos oferecem discussões ricas e, algumas vezes, esclarecedoras; no entanto, ainda não são espaços ideais, justamente porque, na maioria das vezes, não estamos discutindo com nossos iguais, mas com pessoas que nunca passaram e nunca passarão pelas mesmas experiências que nós. Seria como uma pessoa homossexual tentar discutir sua sexualidade numa roda exclusivamente heterossexual.

A inserção da letra A na sigla que representa as pessoas não-cis-hetero não vai acabar com nenhum problema da comunidade assexual, mas nos ajudaria a dar um passo mais longe da invisibilidade completa; afinal, enquanto eu puder ser categorizada apenas como homo ou heterossexual, sem nenhuma outra opção, a exclusão será sistêmica e constante, e é contra isso que devemos lutar de forma mais urgente.