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Eu sou assexual?

Às vezes eu recebo e-mails de pessoas que leem o blog, dizendo que eu as ajudei a se encontrar, que não sabiam o que era assexualidade e passaram não só a saber como a se identificar como assexuais, enfim, histórias muito bonitas, que me motivam a continuar escrevendo. Eu também recebo perguntas, e, de longe, a que mais aparece na minha caixa de entrada é “eu/fulane sou/é assexual?”. Geralmente, ao me perguntar isso, a pessoa me dá todo um panorama da sua vida, suas experiências, ou então da vida e das experiências da pessoa que é sujeito da pergunta, e eu sempre respondo da mesma forma: a única pessoa que pode dizer se você é assexual é você. Pode parecer que sim, mas eu não estou fugindo da pergunta; acontece que orientação sexual é algo muito pessoal, e, mesmo que eu conhecesse cada um de vocês desde criancinha, mesmo que observasse cada um de vocês todos os dias (o que seria bastante perturbador), eu ainda não teria resposta objetiva para essa pergunta. O que eu faço, nesse caso, é dar algumas “dicas”, baseadas unicamente na minha experiência, para que a pessoa tente se identificar sozinha, e, por mais que eu goste de receber e-mails das pessoas que leem o que eu escrevo, acho que talvez seja mais útil fazer um post sobre isso, até porque nem todo mundo que tem essa dúvida vai ter coragem de me perguntar.

Antes de tudo, queria pontuar que, quando digo “assexual”, incluo nessa denominação a área cinza.

Agora, vamos lá. Eu já fiz um post explicando o que é ser demissexual, mas talvez não tenha ficado claro que a assexualidade é a ausência de atração sexual. Ser assexual não significa não ter desejo sexual; uma pessoa assexual pode ou não sentir desejo, e pode satisfazê-lo de diversas formas, sendo a masturbação uma delas. Ser assexual também não significa não se apaixonar: algumas pessoas assexuais também são arromânticas, ou seja, não formam laço romântico com as pessoas, mas isso não quer dizer que todas sejam. Ser assexual não significa ser virgem, pois pessoas assexuais podem experimentar o sexo, antes ou depois de se descobrirem, e também não significa não gostar de sexo. Pessoas que se encontram na área cinza gostam do sexo em situações específicas – no caso de demissexuais, por exemplo, que sentem atração apenas por pessoas com quem têm laço emocional, logo, gostarão do sexo com essas pessoas. E, se tem uma coisa que ser assexual definitivamente não significa, é ser triste. A mídia nos vende a ideia de que sexo significa felicidade, ideia essa suportada pela medicina, e nós a compramos; no entanto, sexo não é a única forma de ser feliz nessa vida. Eu gosto muito de comer, e comer me faz feliz. Sou menos feliz por ser assexual? De modo algum, porque ser assexual não afeta a minha relação com comida, que é o que me faz feliz, nesse contexto. Ligar o mau-humor das pessoas à falta de sexo, além de falocêntrico e patriarcal, é inválido para assexuais.

Explicado o que ser assexual significa e não significa, vamos à dúvida cruel que assola tantas mentes: você é assexual? Para muita gente, é fácil responder isso, mas a sexualidade tem nuances que, às vezes, nós não conseguimos perceber. Uma pessoa assexual que ainda não se descobriu e está passando por uma depressão, por exemplo, ou algum outro tipo de transtorno mental, pode achar que a sua falta de atração sexual se deve à depressão. De fato, a depressão diminui muito a libido, mas a única forma de dizer com certeza se você é assexual ou se a falta de atração e/ou desejo está ligada ao transtorno mental pelo qual você está passando é tendo base de comparação. Se você tinha uma vida sexual ativa e prazerosa antes da sua depressão e, depois dela, não tem mais, é hora de procurar um médico. Se não, também é hora de procurar um médico. Depressão não é brincadeira e você precisa de ajuda para se livrar dela. Caso não tenha base de comparação para elucidar se você sempre foi assim ou se está assim, o tratamento vai te ajudar muito nisso.

Se o fato de você não sentir atração não te incomoda, há algumas perguntas sobre as quais você pode refletir. Por exemplo: você sente atração sexual por outras pessoas? Se sim, isso só acontece depois de vocês terem proximidade afetiva? Se você sentir atração por alguma celebridade, é necessária identificação emocional entre você e a celebridade para que essa atração se estabeleça? Se você já tiver feito sexo, foi uma experiência prazerosa? Você se sentiu à vontade? Caso tenha sentido prazer, ele foi realmente sexual? É claro que, depois de pensar nelas, você pode continuar confuse, sem saber quem você é e qual a sua orientação sexual; não é porque essas perguntas me ajudaram que elas vão, com certeza, ajudar você. Cada pessoa é diferente, e, por mais que eu queira te ajudar, pode ser que eu não consiga. A busca por quem você é de verdade depende só de você, e será diferente para cada pessoa. A partir das suas próprias experiências, você pode moldar as suas reflexões, as suas perguntas, que facilitem a chegada a uma conclusão. Além disso, nas questões referentes à sua experiência sexual, você deve levar em conta que a outra pessoa envolvida pode não ter te deixado à vontade, e isso pode não ter nada a ver com a sua orientação. O mais importante, no caso da dúvida quanto a se identificar como assexual ou não, é saber se você sente atração sexual e por quem.

Mesmo depois de tudo isso, eu ainda não posso afirmar se você é ou não assexual, e talvez nem você possa. Se encontrar no espectro das sexualidades pode ser importante para autoafirmação e para acabar com aquele sentimento de que você está sozinhe, mas, se você não conseguir encontrar onde você está, relaxe. Talvez, um dia, você encontre, e talvez não. Não existem rótulos para contemplar todas as pessoas nesse mundo, e você não precisa ficar triste se for uma das pessoas que caem fora das caixinhas.

“Mas ela era tão bonita!”

A beleza sempre me intrigou. Quando bem jovem (criança, mesmo) participei de inúmeras seleções para agências de modelos até conseguir uma que me aceitasse apesar dos quilos a mais, e, nesse tempo, testemunhei uma corrida insana para se conseguir e/ou se manter a beleza. Mesmo entre crianças, a competição para ver qual das meninas era mais bonita, qual tinha o acessório mais bonito no cabelo, qual tinha conseguido desfilar de salto (!) sem perder o equilíbrio era muito grande. As minhas colegas de profissão se orgulhavam de conseguir ficar horas e horas sentadas numa cadeira de salão tratando do cabelo para uma sessão de fotos que não duraria mais que trinta minutos, ou de conseguir empilhar uma biblioteca na cabeça. Fui modelo por pouco tempo, mas, enquanto o fui, me assustei muito com a indústria da beleza. Eu não compreendia o que era aquilo, por que aquilo acontecia, mas sabia que não queria deixar que um batom e um salto 15 tomassem conta da minha vida.

Fui crescendo, e as coisas não pareciam melhorar. Sempre, antes de sair de casa, minha mãe me perguntava se eu “não ia passar um batomzinho”. A resposta era quase sempre não, porque eu não gostava de usar maquiagem, apesar de gostar muito de passá-la no rosto; no começo, ela insistia e até brigava comigo por isso, mas depois foi desistindo, sempre me lembrando de que menino nenhum ia gostar de mim assim. Até hoje, por alguma razão que não consigo entender, me sinto extremamente desconfortável quando me dizem que estou bonita, principalmente se esse elogio partir dos meus pais. Talvez por isso, ou talvez pelo grande susto que a indústria da beleza me proporcionou na infância, eu não consiga entender por que a beleza é tão valorizada pelas pessoas. Beleza vende, principalmente a feminina – que foi feita para ser usada e observada, segundo a cultura patriarcal, que é a raiz e o caule da indústria da beleza -, e todos compram o ideal do belo, de que ser bonito é sinônimo de ser bem-sucedide.

Prova disso é que, quando uma pessoa jovem morre, três coisas são geralmente ressaltadas pelas pessoas que a conheciam: inteligência, alegria e beleza, três características bastante apreciadas pelo capitalismo. Dessas, a beleza é a que mais me intriga quando ressaltada dessa forma: qual o problema de uma pessoa considerada bela morrer? Depois de muito pensar, cheguei à conclusão de que, muitas vezes, pessoas consideradas belas dentro do padrão não são lembradas pelos outros como pessoas. Elas são mais que pessoas, um tipo de semideusas, intocáveis e inabaláveis; não dormem, não comem, não têm necessidades fisiológicas e, acima de tudo, não morrem. Sumarizando, não têm os problemas que as pessoas comuns, que não são exageradamente belas, possuem, e isso faz com que os “pobres mortais” se choquem ao perceber que sim, elas são pessoas, tal qual nós.

Não estou dizendo que exista preconceito ou discriminação contra pessoas belas. Pelo contrário: pessoas consideradas feias sofrem muito, seja para arranjar um emprego, companheire ou amizades, e não existe simetria em dizer que pessoas consideradas belas sofrem do mesmo jeito. O que existe é um sentimento coletivo de que o que vendem na mídia como belo é, na verdade, perfeito, sobreumano, inalcançável de tal forma que as pessoas que possuem esse “dom” deixam de ser seres humanos para se tornar uma coisa acima disso. Esse pensamento é nocivo de diversas formas. Primeiro, gera problemas epidemiológicos como transtornos alimentares e de humor, tanto que as passarelas passaram a repudiar modelos excessivamente magras por incitar esse tipo de doença. Segundo, cria sobre as pessoas, principalmente mulheres, uma expectativa irreal de beleza. Espera-se que mulheres sempre usem camadas e camadas de maquiagem para esconder imperfeições que todos têm, mas que são incompatíveis com o ideal de beleza; espera-se que se faça horas e horas de ginástica para perder quilos que não são nocivos para a saúde e, inicialmente, nem para a autoestima da pessoa. Daí vem a exclusão social de pessoas consideradas feias, que são vistas como “descuidadas de si mesmas”.

Apesar de ser um conceito subjetivo, a beleza está no imaginário das pessoas como algo unificado, uniforme e padronizado, como se seres humanos saíssem de uma fábrica, todes prontes para se tornar o impossível: a pessoa bela e perfeita, endeusada e sobreumana que estampa capas de revistas e outdoors.