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Guest post – E pode namorar?

Por Priscilla Binato

Ser assexual e namorar com uma pessoa que não é (allosexual) é algo que, para muita gente com quem eu já conversei, parece ser uma  complicação sem limites. As pessoas falam que é impossível, que é irreal, que nunca vai dar certo, que o allosexual não vai conseguir deixar de lado o seu desejo sexual… Mas e se eu não quiser deixar de lado o meu para ser a assexual típica dos padrões?

Meu nome é Priscilla Binato, sou carioca, tenho 21 anos e sou assexual. Eu e meu namorado estamos juntos há quase um ano e, apesar dos estereótipos, temos uma vida excelente – tanto no relacionamento quanto uma vida sexual. E isso não me envergonha nem um pouco. Na realidade, é o tipo de coisa que eu gosto de falar para ajudar a quebrar esses estereótipos que são criados dentro do assexual. Eu descobri a minha assexualidade no ano passado e passei algum tempo tentando descobrir como funcionava esse mundo novo de nomes, identificações e até uma própria leitura de sociedade nova. A ideia de uma sociedade de não-sexualização era muito estranha antes de eu me identificar com a assexualidade, mas quando eu conheci o conceito foi algo que só começou a parecer cada vez mais real com o passar dos dias em que eu refletia sobre.

Eu nunca fui uma pessoa sexual, apesar de já ter tido diversos relacionamentos antes do meu atual. Gostava de me sentir parte de um relacionamento de me sentir amada, de ser parte de uma dupla. Só que na parte de ter uma vida sexual nesses antigos relacionamentos, eu sempre pensava naqueles comentários sexistas que mulheres fazem quando estão reproduzindo o machismo: eu nunca teria a minha virgindade de novo, então era melhor “gastar” com alguém que valesse a pena. De certa forma, eu via a minha falta de atração sexual (e, naquele momento, de interesse) como algo natural para mulheres “boas”, uma vez que a minha reprodução de preconceitos me impedia de ver os problemas nisso.

Foi só quando comecei o meu atual relacionamento que eu decidi iniciar uma vida sexual. Não porque eu comecei a sentir atração sexual ou deixei de ser assexual, mas porque várias coisas se juntaram no meu atual namorado que me deram interesse o suficiente para que eu tivesse vontade disso. Eu o amo, nós nos damos super bem, ele me faz sentir bem com a minha auto-estima, com o meu corpo, com muitas coisas que sempre me incomodaram antes. Então na hora de decidir como seria isso, eu só pensei: por que não?

Depois de alguns meses de namoro que eu conheci os conceitos de assexuais sexo-positivos ou sexo-negativos e isso só me ajudou ainda mais a me sentir uma parte da comunidade. A ideia de que um assexual pode não só fazer sexo como gostar de sexo e, ainda, viver em um relacionamento com alguém allosexual me completa e faz a capacidade de entender a minha sexualidade ser ainda mais plena. Mas, acima de tudo, ser uma pessoa assexual sexo-positiva me faz feliz, então só volto na pergunta com a qual comecei o texto: por que eu vou deixar isso de lado e me restringir para encaixar no padrão assexual?

Guest post – Mulher transgênera demissexual

Por Ariel Nolasco

Quando eu pude assumir pra mim mesma que era uma mulher transgênera, eu já sabia por tudo o que eu iria passar. As dificuldades ao sair na rua, as dificuldades com emprego, as dificuldades com família, as dificuldades com relacionamentos. E esse último item era o que mais me preocupava. Me preocupava porque todos nós nascemos e crescemos numa sociedade que prioriza o amor, o romance. Onde tudo é romance disney, onde tudo é amor, onde tudo é conto de fadas, e desde pequenos somos expostos a isso, a encontrar alguém e ser feliz com essa pessoa. E claro que eu fui exposta a isso também, então fiquei noites pensando se eu acharia uma pessoa que me amasse do jeito que eu sou, com as minhas singularidades.

Com o tempo, algo em mim começou a mudar. Eu estava com certa dificuldade de me envolver com as pessoas, de uma forma que fosse não-afetiva (como por exemplo, sair pra ficar com alguém). Pra mim havia se tornado um desconforto isso, um desconforto enorme, e foi então que fui buscar saber o que era isso. Por que antigamente eu conseguia ficar com todo mundo mas hoje eu não consigo mais? E depois de muitas conversas com alguns amigos e depois de ler alguns textos sobre, pude ver que o que exatamente era: demissexual.

Demissexual – uma vertente da assexualidade; a área cinza – são as pessoas que só se envolvem com alguém quando possuem algum tipo de laço, de ligação, com a(s) pessoa(s) em questão. Pode ser uma amizade, pode ser amor, paixão, e até mesmo aquela admiração forte (como os fãs e os artistas, por exemplo). E, com o tempo, percebi que a assexualidade, a demissexualidade, me protegia de algumas coisas.

Uma das experiências horríveis que tive, na tentativa de conhecer uma pessoa legal, foi horrível. Eu mal conhecia a pessoa, foi uma situação bem desconfortável, eu não tinha qualquer tipo de laço com ela. Eu fui e me dei a oportunidade, com a melhor das intenções, achando que eu poderia ficar menos desconfortável, ou que algo pudesse surgir dali. Pois surgiu: nojo. Nojo de mim. Eu estava com nojo de mim por ter ficado com uma pessoa a qual eu mal conhecia. Eu estava com nojo de mim por ter ouvido coisas dessa pessoa indelicada. Foi um mix de desconforto. Desconforto por ter feito algo que eu não estava acostumada a fazer e desconforto por ter que ouvir coisas que me afetam diretamente, enquanto mulher transgênera.

A assexualidade me protegeu de muita coisa, e ainda me protege. Enquanto mulher transgênera, estou passível a ser sexualizada e exotificada em grande parte do tempo, então naturalmente já fico de sobressalto quando conheço uma pessoa nova. E a demissexualidade me protege de pessoas assim. Eu não consigo e NUNCA vou conseguir criar uma laço, uma ligação, um sentimento mais forte, por uma pessoa que me sexualiza e me exotifica. Da mesma forma como nunca vou conseguir criar um laço com alguém transfóbico, racista, classista, machista e por aí vai. É como se a minha sexualidade fosse uma peneira que filtrasse as pessoas com as quais eu tenho contato, e assim que ela deixa apenas as pessoas boas, é que eu consigo me aproximar mais um pouco, é que eu consigo me propor a conhecer e talvez criar um laço com aquela pessoa.

Hoje posso dizer com todas as letras que ser uma mulher transgênera demissexual me contempla de diversas formas.