feminismo

A vaidade da mulher assexual

Eu gosto de maquiagem. Gosto de pintar e desenhar, apesar de não fazer isso muito bem, e gosto de fazer o meu corpo como tela de pintura. Não tenho tatuagens, mas me maquiar me faz saciar um pouquinho essa vontade de fazer arte no meu corpo. Sei passar corretivo, base, pó, sombra, batom… Mas não passo. Não passo porque, quando eu era criança, minha mãe me incentivava para passar maquiagem e, quando passava, sempre vinha alguém me perguntar aonde eu ia ou para quem eu estava me arrumando, e isso me irritava muito. Para uma pessoa que sempre se incomodou ao ser associada a romance e sexo, isso era muito irritante. Era mais fácil parar de passar maquiagem do que explicar para todo mundo que eu não estava me arrumando para nada ou para ninguém, só para me sentir bem com a arte no meu corpo.

Crescendo um pouco, eu descobri que a vaidade é algo esperado de mulheres de forma geral, mas não para que elas se sintam melhores consigo mesmas, e sim para que possam impressionar homens. Mesmo que eles morram de dizer que preferem mulheres sem maquiagem, a cobrança para usarmos os cosméticos como forma de impressioná-los e/ou mantê-los por perto (sabe como é, “segurar marido”, para ele “não procurar fora de casa o que não encontrou dentro”) existe muito fortemente no nosso cotidiano. É claro que muitas mulheres usam a maquiagem como forma de empoderamento e de se sentir melhor com a própria aparência, mas a cobrança da sociedade diz respeito a impressionar homens. Isso não vale só para maquiagem, claro: usar vestido e salto me sujeita aos mesmos comentários.

Para mulheres assexuais, ser associada à ideia de tentar “capturar” ou “segurar” homens é violento. Nós não queremos homens, da mesma forma que não queremos mulheres. Nós não queremos conquistar ninguém, não queremos impressionar ninguém. Dizer o contrário é negar nossa personalidade, nossa essência.  Para a mulher assexual, ser vaidosa é um tabu no sentido que uma mulher vaidosa é socialmente lida como uma mulher que está procurando um parceiro, provavelmente homem; inclusive, muita gente ainda acha que uma mulher que usa batom vermelho está dando carta branca para que abusem dela. Não ser vaidosa também não é socialmente aceitável, porque mulheres precisam “se cuidar”: se depilar, não ter cheiros desagradáveis em parte nenhuma do corpo, não ser gordas, não estar com frizz no cabelo, não andar com tênis velho, etc. Todas essas características partem de dois pressupostos exageradamente machistas, que são: 1) toda mulher está disponível para pelo menos um homem; e 2) ser gorda, ter frizz no cabelo, não usar maquiagem, não se depilar, enfim, não estar dentro do padrão de higienização e beleza femininas é não se cuidar.

Se você acredita nisso, pense de novo. Primeiro, se submeter a procedimentos malucos e dolorosos para atingir um ideal de beleza não é se cuidar, de jeito nenhum. Segundo, uma pessoa pode se cuidar de diversas formas, sem ser fisicamente. Ela pode cuidar do espírito, da mente. Pode cuidar do seu sono. Pode equilibrar a sua rotina de forma a não ficar muito estressada, e isso é cuidar de tudo ao mesmo tempo. Não é porque você não consegue ver os resultados desse cuidado que ele não existe.

Se você é mulher e assexual e tem receio de se maquiar ou usar salto alto ou qualquer outra coisa porque não quer sofrer assédio e não quer que as pessoas associem o seu comportamento a busca por sexo, vamos nos libertar juntas. A ideia de que mulheres vaidosas estão, necessariamente, tentando impressionar homens é machista, obsoleta e errônea. Todas as mulheres merecem sair na rua sem ser lidas como máquinas de sexo, sejam elas assexuais ou não; para nós, que somos assexuais, esse assunto é ainda mais delicado, mas ter os comportamentos que nos são negados por causa dessas ideias erradas da sociedade nos empodera e nos torna visíveis. Usar maquiagem, vestido e salto alto e não estar procurando por sexo é uma forma de dizer ao mundo que você é assexual, que você existe e que vai fazer o que bem entender, não importa o que os outros achem, porque você é mulher e dona de si.

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Querido homem

Hoje é 8 de março, dia da mulher, e estou escrevendo este texto especialmente para pedir a você que não me dê parabéns. Explicarei por quê.

Assim como você tem seus broders, as mulheres são minhas irmãs. E isso não é porque eu sou um ser iluminado e acredito que todas as pessoas são irmãs. Isso é porque existe uma estrutura social dedicada a arruinar as vidas das mulheres no mundo todo, a fim de que elas permaneçam como seres inferiores por uma miríade de razões: o patriarcado. Esse patriarcado nos faz acreditar que somos inimigas, que devemos competir o tempo todo; e, como disse brilhantemente Chimamanda Ngozi Adichie, não competimos “por empregos ou conquistas, o que pode ser algo bom, mas pela atenção dos homens”. Esse mesmo patriarcado, que transforma minhas irmãs em inimigas, reforça a ideia de que todas nós existimos com a única função de servir homens como você. Mesmo que você seja um homem “diferente”, nós ainda existimos para servi-lo. Sendo homem, você automaticamente está inserido nessa cruel relação de dominação, mesmo que não queira. Sendo homem, a sociedade o colocou, sem perguntar a você se queria ou não, na posição de abusador emocional de mulheres. Quando estamos andando na rua sozinhas à noite e o encontramos, não paramos para nos perguntar se você tem um bom caráter. O medo nos sobe à cabeça e nós corremos. Você não tem como lutar contra isso, porque, num relacionamento abusivo, quem deve lutar para se livrar disso é a vítima; o que você pode fazer é conscientizar seus iguais da existência dessas relações e de como isso nos afeta.

Entre 2001 e 2011, mais de 50 mil das minhas irmãs morreram simplesmente por serem mulheres. Então você me diz: “mas morreram muito mais homens no mesmo período!”. É verdade. Acontece que o crime de assassinato de um homem é diferente do crime de assassinato de uma mulher, da mesma forma que assassinar um homem homossexual é diferente de assassinar um homem heterossexual. Quaisquer crimes envolvendo minorias sociais, salvo raras exceções, decorrem ou são agravados pelo fato daquela pessoa pertencer a uma minoria social. Dado que ser mulher não é algo que possa ser “escondido”, como a homossexualidade pode, não é exagero afirmar que os crimes de assassinato contra mulheres tenham pelo menos um dedinho de machismo. Afinal, quando um homem mata uma mulher, ele está exercendo seu controle sobre ela; quando uma mulher mata um homem, ela está saindo da sua posição submissa. Nenhum dos crimes é louvável, mas a natureza dos dois é diferente.

Mesmo quando continuamos vivas, caro homem, não paramos de sofrer com o patriarcado. Temos medo de andar pela rua sozinhas a qualquer hora do dia. A pesquisa Chega de Fiufiu contabilizou, em 2013, que 99,6% das 7762 mulheres que participaram da pesquisa já haviam sofrido assédio. Dessas, 83% disseram que receber cantadas não é algo legal. 90% já trocaram de roupa por medo de ser assediadas na rua. Por medo. Medo. Não existe palavra que resuma melhor o sentimento de ser mulher do que “medo”. Estamos constantemente suscetíveis a ataques, seja na forma de “inocentes” cantadas, ou na forma de brutais estupros. Então você me diz, homem: “mas não só mulheres sofrem estupros!”. De novo, é verdade; no entanto, em relatório do IPEA, nota-se que 88,5% das vítimas de estupro no Brasil em 2011 eram mulheres. Isso decorre da ideia de que mulheres devem estar sempre sexualmente disponíveis para homens, uma ideia vendida pela mídia e até mesmo pela educação que é dada aos nossos meninos. Aliás, esses dados seriam muito maiores se todas as mulheres estupradas tivessem coragem de denunciar seus agressores, ou mesmo conseguissem reconhecer que foram vítimas de um estupro.

Mas nem precisamos ser tão brutais para falar de violência contra mulheres, estimado homem. Uma pesquisa (promovida por uma marca de higienização antes e depois do sexo, mas ainda válida) feita com 1252 homens heterossexuais revelou que 33% deles tem nojo de fazer sexo oral em sua parceira. Não era para menos: nossa vagina é taxada como suja e nojenta desde a infância. Precisamos ter um cuidado especial com ela, sempre limpar, usar um sabonete diferente, um lenço umedecido, limpar com o papel higiênico até estarmos completamente secas (muito embora vulva seca seja um mau sinal), tirar todos os pelos (e ficar suscetíveis a ataques de microorganismos que poderiam ser evitados com a presença desses pelos), entre outros cuidados que “toda mulher” precisa tomar para estar sempre cheirosinha e ser desejada. Acontece que a vagina, como qualquer parte do corpo, possui um odor natural, indicativo de que está tudo bem por lá, e esse odor não é o de flores do campo. Pelo contrário, aliás: higiene em excesso mata a flora vaginal, um conjunto de microorganismos benéficos e necessários para a saúde da vagina. Somos convencidas de que a vulva é nojenta e não deve ser tocada nem por dedos, muito menos por línguas; enquanto isso, ensinamos aos meninos que, depois de fazer xixi, uma balançadinha resolve. E ai da namorada dele se não quiser fazer sexo oral e engolir depois!

Talvez devido a esse nojo extremo da vagina, e com certeza devido à ignorância extrema quanto à anatomia e fisiologia do prazer feminino, um terço das mulheres brasileiras nunca atingiu um orgasmo. Sabe-se que a masturbação ajuda a mulher a se conhecer, saber o que gosta e o que não gosta quanto ao sexo, e também melhora sua capacidade de atingir orgasmos, mas 40% das mulheres brasileiras nunca se masturbaram, não porque não queiram, mas porque a masturbação feminina ainda é vista como um tabu, algo proibido. Quando nossas mães nos viam com a mão perigosamente próxima da vulva durante o final da infância, elas nos censuravam e brigavam conosco; mas quantas mães brigam com os filhos adolescentes quando eles passam um tempo descomunalmente grande no banho? E, caro homem, se a sua parceira não consegue atingir orgasmos durante o sexo e teve a coragem para contar isso a você (o que geralmente não acontece), pense bem: você sabe manipular um clitóris? Talvez seja hora de aprender.

Você também pode me perguntar, amado homem, por que estou falando de sexo num blog sobre assexualidade. Isso é porque o mesmo patriarcado que mata de forma gritante as minhas irmãs negras e trans não permite que minhas irmãs assexuais se assumam como tal. Como já disse, uma mulher tem a obrigação de estar sexualmente disponível para os homens que a desejam, e isso tira de suas mãos o poder de se assumir assexual perante a sociedade – e, muitas vezes, perante si mesma. Se ela o faz, será questionada; morrerá sozinha, não será feliz. Muitas nem consideram a assexualidade como uma opção para sua identidade, não só porque não a conhecem, mas também porque não nos é dada essa opção. Precisamos nos casar com um homem, satisfazê-lo e ter filhos com ele, ou jamais alcançaremos a felicidade plena. Daí, você, louvado homem, também pode concluir que não temos direito a ser lésbicas, e isso é verdade. Mulher com mulher só é aceito em filmes pornôs, quando ambas estão ali para dar prazer a – adivinhe – homens, como você.

Por tudo isso, querido homem, não me dê parabéns. Muito menos uma rosa. O melhor presente que você pode me dar é reconhecer que não existe mérito nenhum em ser mulher.

A “ninfomania social” ou Como a militância assexual pode ajudar pessoas sexuais

tw: exemplos de: transfobia, lesbofobia, homofobia, afobia

Vivemos numa sociedade viciada em sexo. Talvez isso seja mais fácil de perceber para uma pessoa assexual, vítima direta da ninfomania da sociedade, mas o sucesso das pessoas – de todas as pessoas – está, de certa forma, ligado ao sexo. Um homem bem-sucedido não é aquele que tem cinco casas na Europa, dez carros importados e um quarteirão na Avenida Paulista, mas sim o homem que penetra muitas vaginas (até porque, quando um homem tem cinco casas na Europa, dez carros importados e um quarteirão na Avenida Paulista, ele “deve pegar todas”). A mulher bem-sucedida é aquela que tem um homem, é a “bem-comida” (ou “bem-amada” para pessoas mais tímidas), a que é penetrada, mas não por muitos homens, apenas por um. Na sociedade ninfomaníaca, os papéis de gênero são complementares, mas também contraditórios: homens devem penetrar muito, mulheres devem deixar ser penetradas. Homens devem ter múltiplas parceiras, mulheres devem ser fiéis; mas ambos necessitam do sexo para sua felicidade, para seu bem-estar pleno. Mesmo pessoas que fujam do padrão heteronormativo caem nesses papéis. O homem gay também deve penetrar para ser um homem; gays passivos, principalmente afeminados, não são aceitos nem no meio LGBT. Para a sociedade ninfomaníaca, que também é falocêntrica, transfóbica e binarista, o sexo lésbico não existe, é “só uma brincadeira”, e por isso não existem lésbicas ativas – afinal, elas precisariam de um pênis para penetrar vaginas, e mulheres trans que não fizeram a cirurgia de redesignação não são mulheres “de verdade”, logo, não podem ser lésbicas.

Isso se traduz de forma bastante clara em jogos online, por exemplo. Tomando o World of Warcraft como exemplo – um jogo que adoro e o que mais entendo -, uma pessoa, para ser boa no jogo, precisaria ter um personagem no nível 100, com equipamentos épicos, um anel lendário e um dano por segundo incrivelmente alto; mas nada disso é o suficiente se o dito jogador não tiver uma namorada. Sim, no feminino, porque um bom jogador só pode ser homem e só pode penetrar vaginas. Relacionamentos amorosos/sexuais com homens são inadmissíveis, a menos que você “goste” de ser xingado a cada login. Caso o homem em questão se relacione com uma mulher trans, ele será eternamente ridicularizado por ter “caído na mentira” dela.

Para uma criança, um adolescente ou um adulto que ainda não tenha formado sua personalidade, a ninfomania da nossa sociedade é extremamente danosa. Com o indivíduo suscetível a qualquer tipo de propaganda, bombardeá-lo com a ideia de que ter uma vida sexual badalada é ser saudável, feliz e bem-sucedido faz com que ele se envolva em situações que, muitas vezes, não são exatamente consentidas. E, mesmo quando o são, talvez não fossem se a pessoa tivesse escolha. Infelizmente, nosso consentimento nem sempre parte de nós; quando nos forçamos a pensar que o sexo nos fará felizes, mantemos relações sexuais com quaisquer pessoas para alcançar essa felicidade. Muitas vezes nos arrependemos, e, depois de pensar um pouco, chegamos à conclusão de que nos forçamos a ter aquele momento, como se fosse nossa obrigação manter relações sexuais sempre que a oportunidade apareça. Caso isso não aconteça, somos moles, frouxes, não sabemos curtir a vida. (Não estou falando de pessoas, na maioria homens cis, que bebem até cair, ficam com uma pessoa que sofra preconceito, como travestis e mulheres gordas, e depois “se arrependem” disso. Essas pessoas são apenas preconceituosas.)

E onde entra a militância assexual nessa história toda? Obviamente, essa “ninfomania social” atinge pessoas assexuais. A maior parte dos casos de afobia que presenciei derivam dela. Somos aberrações, erros da humanidade por não ter interesse por sexo. Ao me reconhecer demissexual e começar a pensar nas relações de poder que me mantiveram presa à ideia de que fui doente até aquele momento, percebi tudo isso que foi explicitado até agora, e entendi que não era a única a sofrer com isso. Minhas amigas que foram forçadas a ter sua primeira vez num momento em que não queriam sofreram com isso. Meus amigos gays que foram forçados pelos pais a manter relações sexuais com mulheres sofreram com isso. Nenhuma dessas pessoas é assexual, mas elas também sofrem com a ninfomania da sociedade, muito embora poucas pensem sobre ela. Ao mesmo tempo, pessoas assexuais são invisibilizadas e silenciadas em todos os espaços: não existe “A” na sigla LGBT, e, recentemente, uma organização de lésbicas e gays dos Estados Unidos fez uma campanha afirmando que o “A” da sigla estendida LGBTQIA queria dizer “aliados” e não “assexuais” (caso completo aqui, em inglês). Por isso, mesmo em meios não-normativos, as pessoas tendem a acreditar que não existimos, e isso só reforça a ninfomania social, no sentido em que compactua com a ideia de que o sexo é necessário para o bem-estar dos seres humanos.

Com uma militância assexual bem organizada e bastante presente, a visibilidade assexual seria muito maior, e as pessoas saberiam que existimos, que não somos aberrações e nem deprimidos – pelo menos não pelo fato de sermos assexuais. Isso levaria mais pessoas à reflexão que acabei de fazer sobre a ninfomania da sociedade, e elas concluiriam que é necessário subverter esse processo para que a adolescência e a vida adulta sejam fases menos traumáticas na vida de muitas pessoas, assexuais ou não. Isso também contribuiria para a não sexualização da infância: a partir do momento em que se assume que nem todas as pessoas possuem necessidade de fazer sexo, a pressão para que façam diminui, e perguntas como “você já tem namoradinhes?” param de ser feitas para crianças de cinco anos, por exemplo. No entanto, o sonho de uma sociedade menos ninfomaníaca está bem longe de ser alcançado por vários fatores. O mais proeminente deles, ao meu ver, é a falta de discussão sobre a compulsoriedade do sexo, mas podemos citar também interesses comerciais (afinal, indústrias de camisinhas, testes de gravidez, anticoncepcionais e brinquedos eróticos não ficariam felizes caso uma parcela de seus consumidores tivesse a liberdade de se assumir assexual).

E não é necessário temer um colapso da vida humana caso a sociedade deixe de ser ninfomaníaca: o número de pessoas que sentem atração sexual continuará maior que o número das pessoas que não sentem, o que desaparecerá será a pressão. Além disso, nosso modelo contemporâneo de alimentação e o estresse em que vivemos favorece doenças reprodutivas em homens e mulheres e aumenta os níveis de esterilidade em casais heterossexuais cisgênero. Se você realmente se preocupa com a perpetuação da espécie humana, campanhas para uma melhor alimentação e uma vida mais tranquila, além de militância ambiental, para que os recursos naturais tornem possível a procriação, são muito mais urgentes do que campanhas contra homossexuais ou assexuais.

Assexualidade e feminismo

O feminismo é uma luta hegemônica. Quando se fala em luta de minorias, ele sempre está lá, mesmo que discreto, no meio das pautas em questão. Se a luta é por igualdade social, a emancipação das mulheres ajuda muito nisso; o Bolsa Família, que fez de tantas mulheres as chefes da casa, é um exemplo disso. Se a luta é por direitos LGBT, ou seja, por igualdade civil e o fim do preconceito, esses objetivos jamais serão atingidos sem que as mulheres sejam vistas como iguais pelos homens e por outras mulheres (a menos que o movimento seja GGGG, o qual não é uma luta de fato). Sendo assim, é mais do que justo que o feminismo também esteja inserido e seja intrínseco à luta pelo reconhecimento de pessoas assexuais.

Como minhes amigues do Coletivo Feminista Trepadeiras me ajudaram a perceber de forma mais clara, o feminismo luta, entre outras coisas, pela liberdade dos corpos femininos. Isso quer dizer muitas coisas; dentre elas, que quando uma mulher diz “não”, é exatamente isso que ela quer dizer. Se você é mulher ou foi designade assim ao nascimento, sabe perfeitamente do que eu estou falando. Todes nós temos pelo menos uma história de assédio sexual ou moral decorrente do fato de não estarmos sexualmente disponíveis quando deveríamos, ou seja, quando a sociedade pede que estejamos. Comigo, isso acontecia com frequência em festas, uma dessas ocasiões em que se supõe que as mulheres estejam sexualmente disponíveis – algo que não é regra nem para mulheres sexuais, então, por que o seria para as assexuais? Nunca cheguei a sofrer violência física por isso, mas ficava tão socialmente acuada que, com o tempo (e com a piora da minha fobia social), parei de sair. Era muito mais fácil ficar em casa me divertindo no computador do que precisar sair e enfrentar quem quisesse se aproximar de mim com intenções muito diferentes das minhas.

É aí que o feminismo encontra a assexualidade. Defendendo o direito da mulher de dizer não a qualquer pessoa que assuma que ela está sexualmente disponível, o feminismo defende o direito à assexualidade, isto é, o direito a se assumir assexual sem ouvir coisas como “você só não encontrou a pessoa certa” ou “você só está se fazendo de difícil”. Caso as pessoas conseguissem entender claramente que o não de uma mulher é tão legítimo como qualquer outro “não”, nós jamais precisaríamos ouvir isso, porque ninguém pensaria que estamos “nos fazendo de difíceis”, simplesmente que não estamos sexualmente disponíveis; acontece que o machismo objetifica todas nós mulheres, fazendo de nós instrumentos de prazer para os homens e tirando nosso direito de não estar sexualmente disponível para qualquer um deles. Isso resulta em agressões de toda sorte; afinal, quem nunca foi xingada por não querer ficar com um cara?

Justamente pelo fato de o feminismo defender a liberdade dos corpos femininos é que não consigo entender quando escuto de uma feminista as mesmas expressões que qualquer outra pessoa  usaria para me deslegitimar enquanto pessoa assexual. Isso já aconteceu, e choca ainda mais do que chocaria se fosse qualquer outra pessoa, simplesmente pelo fato de feministas acreditarem que o corpo da mulher é propriedade dela própria e, portanto, ela pode fazer dele o que quiser: dar para todo mundo, dar para qualquer um ou não dar para ninguém. A opção de não dá-lo a ninguém – ou seja, o celibato – ou a assexualidade – a orientação sexual – devem ser respeitadas igualmente entre si e quando comparadas à opção de uma mulher que decidiu dar para quem quisesse. No meio feminista, contudo, essa última mulher é mais aceita, e até mesmo exaltada, em comparação à assexual ou à celibatária; certas vezes, as duas últimas são vistas como mulheres tão afetadas pelo patriarcado que não conseguem aceitar a sua sexualidade, e se escondem por trás do celibato ou da assexualidade. Claro, isso pode ser verdade; afinal, nossa mente cria toda sorte de artifícios para legitimar um abuso emocional, principalmente quando ele tem as dimensões do patriarcado. Generalizar o caso, contudo, é um problema. Da mesma forma que nem todas as feministas pensam isso das mulheres assexuais e celibatárias, nem todas essas mulheres estão desconfortáveis com a própria sexualidade a ponto de escondê-la.

Em outras palavras, o feminismo é extremamente benéfico para a aceitação da assexualidade, no sentido que instrui as pessoas para que aceitem o “não” da mulher; no entanto, é preciso tomar cuidado para que as mulheres assexuais, ou mesmo as celibatárias, não se sintam excluídas do movimento. Isso é construído com reflexão e conhecimento sobre a situação dessas mulheres.

Se quiser mais um ponto de vista sobre a baixa aceitação de mulheres que não fazem sexo regularmente no feminismo, leia este texto.

Como o machismo me oprime

Esse é um daqueles posts que, por mais que eu escreva, vou continuar achando que está muito raso e que poderia ser maior. Como minha tendinite está atacada esses tempos, provavelmente ele ficará mesmo um pouco raso, mas esse é um assunto que será recorrente no blog; além disso, o meu objetivo não é e nunca foi dar todas as respostas para as perguntas que proponho nos títulos, mas sim plantar a sementinha da dúvida em quem ainda não tem e colocar um pouco de água na planta de quem já tem (e na minha também, óbvio).

Antes de qualquer coisa, esclareço que esse post vai focar na minha experiência enquanto mulher demissexual, porque não há como dissociar a minha assexualidade da minha identidade de gênero. Tudo faz parte de quem eu sou. Segunda coisa: o post não se chama “como o machismo me oprime” à toa; eu não quero e nunca quis representar todas as mulheres ou todes demissexuais. Por último, tomarei por base, para deixar as coisas mais palpáveis, a indústria. Mais especificamente, a indústria da música. Todo mundo sabe que o machismo é latente e praticamente não pode ser evitado na indústria musical, onde quer que seja; se não é pela hiperexposição dos corpos, assunto do qual vou tratar aqui, é pela vida pessoal des artistes, sempre escancarada pela mídia e alvo de todo tipo de críticas.

Por que escolhi a indústria da música? Porque ela me oferece vários clipes com exemplos de machismo e hipersexualização fáceis de identificar. Um deles é o clipe abaixo. É um clipe coreano, de uma música que eu adoro, de uma dupla chamada Troublemaker, composta pela Hyuna e pelo Hyunseung. Construirei meu raciocínio sobre a performance dos dois nesse vídeo, então, lá vai:

Vamos começar por 0:08 de vídeo. Nesse momento, temos Hyunseung vindo na direção da câmera, Hyuna na direção contrária, e, em menos de 10 segundos, eu já percebo que terei um enorme desgosto em ver esse clipe. O tamanho do vestido da Hyuna, a roupa do Hyunseung e a forma como eles andam já deixa isso bem claro para mim. Por que ela precisa andar desse jeito, rebolando, até mudando o salto de direção quando pisa – uma forma que absolutamente ninguém anda normalmente, mesmo de salto – e ele pode andar casualmente, como se estivesse indo pegar água na cozinha? Veja bem, eu não sou contra mulheres usando vestido curto, salto alto e rebolando. Pelo contrário, sou bastante a favor disso, contanto que seja escolha única e exclusivamente da mulher que o está fazendo, o que, no caso, não acontece. Além de Hyuna já ter dito, inúmeras vezes, que odeia essa máscara “sexy” que colocam nela nos clipes, ela está sendo paga por isso. Por uma empresa. Que pode e vai demiti-la se ela não fizer o que eles mandam.

Vamos pular para o intervalo entre 0:30 e 0:45 para comparar como os dois se portam na cadeira de couro. Hyunseung está sentado com pose de gangster, com duas mulheres rebolando do lado; Hyuna está sozinha, se contorcendo toda para mostrar sua cara “sexy” e suas pernas, que aparecem o tempo todo (meio off-topic, mas a Hyuna tem pernas lindas, é justo que apareçam). Agora eu vou pular para 1:25, e se você assistiu o vídeo até aqui sem pular desse jeito, percebeu que a Hyuna está sempre se esforçando muito para ser sexy, e que o Hyunseung não faz nada. Literalmente. Ele só fica lá, com essa pose de gangster, esse olhar meio indefinido e essas meninas rebolando em volta. Mas, em 1:25, começa a parte da dança solo da Hyuna. Ela dança com mais algumas meninas, e eu gosto muito dessa coreografia, mas nessa parte fica bastante claro que até o enquadramento da câmera está tentando hipersexualizá-la. Quando ela está de costas, a câmera fica baixa, perto dos pés dela, evidenciando o bumbum dela. Esse enquadramento mais baixo também acontece na parte da dança solo do Hyunseung (2:50), mas nunca de forma a evidenciar a bunda, as coxas ou qualquer coisa assim; é sempre uma câmera mais larga, que fica mais longe, dando para ver bem o cenário e os outros dançarinos.

Ok, não vou continuar analisando o vídeo. Acho que já deu para perceber que, durante o clipe todo, ela está tentando ser sexy e ele está sendo cool, afinal, homens não precisam tentar ser sexy, são as mulheres que precisam fazer isso por eles. Essa mensagem fica muito, muito clara nesse vídeo. Mulheres são hipersexualizadas o tempo todo na mídia em geral, porque é isso que se espera de nós: uma postura impecável, sensual, que esteja o tempo todo disponível para e em busca de homens, mas que não deixe claro que fazemos e gostamos de sexo. Quando uma mulher foge disso, ela não cabe na sociedade.

Agora, surpresa! Mulheres assexuais nunca atenderão a esse estereótipo, simplesmente porque elas não estão disponíveis e muito menos à procura de homens. Nem de mulheres. Nem de qualquer outra identidade de gênero. Mulheres assexuais nunca vão atender a esse estereótipo porque a hipersexualização simplesmente é ridícula para quem não sente atração sexual. Uma vez, vendo um clipe da Beyoncè (acho que era Naughty Girl), me senti tão deslocada do mundo que foi até estranho. Como aquilo não me atraía de modo algum, comecei a achar hilária a forma como ela dançava, tentando impressionar o homem que estava com ela e a audiência que estaria atrás do computador, e isso me pareceu ridículo. Por que alguém teria que fazer isso? Claro, Beyoncè e Hyuna fizeram pelo seu trabalho, mas onde isso se encaixaria no meu cotidiano?

A hipersexualização do corpo feminino causa na sociedade em geral uma ideia de que todas as mulheres buscam sexo (mesmo que isso tenha que ser bastante velado), mas eu, como mulher assexual, posso dizer que isso não é verdade. Já me perguntaram, em uma festa, por que eu iria a festas se não buscava ficar com ninguém, e isso me chocou tanto que eu tive que parar para pensar sobre essas coisas que estou escrevendo agora. Espera-se que queiramos sexo, e a mídia sustenta isso de forma impecável, com clipes de grande alcance, como Troublemaker, que tem uma audiência um pouco restrita por ser coreano, mas já tem mais de 42.000.000 de visualizações. Além de todo o resto, é assim que o machismo me oprime: esfregando na minha cara, mesmo quando eu estou tentando me divertir, que não estar sexualmente disponível é errado, uma abominação, uma doença, e que eu deveria me tratar.

Para quem gostou do tema, deixo aqui outro texto para pensar mais um pouco.

A meritocracia e a problemática do aborto

Um passo para frente, outro para trás – é assim que caminha a legalização do aborto, uma das mais incipientes polêmicas atuais, no tocante à saúde pública e ao feminismo. Há mais ou menos um mês foi aprovada uma portaria que incluía o aborto legal na lista de procedimentos executados pelo SUS, o que significaria um avanço nas políticas de prevenção de morte de gestantes e de maus tratos e abandono de crianças no Brasil, caso a mesma portaria não tivesse sido revogada dias depois da sua publicação. Se a revogação não tivesse acontecido, poderíamos esperar que pelo menos um milhão de mulheres por ano (Terra) logo teriam seu direito à interrupção segura da gravidez garantido, sendo que, dentre elas, figurariam muitas que não podem e nunca poderão pagar por um aborto em uma clínica e o fazem tomando chás absurdos e enfiando agulhas de crochê na vagina.

O que isso tem a ver com meritocracia? Bom, não sei se conseguirei explicar de forma clara o suficiente, porque essa reflexão é fruto de uma das minhas muitas viagens, mas tentarei. Meritocracia é a predominância do mérito sobre qualquer outro critério de seleção na sociedade, ou seja, é conseguir as coisas por “merecimento”. O vestibular é um dos exemplos mais claros de meritocracia em que consigo pensar, porque seleciona, da forma mais injusta possível, as pessoas que “merecem”, o que não significa exatamente aqueles que estudaram, mas sim os que tiveram oportunidade de pagar uma escola particular, geralmente das mais caras. Nessa conta também entram alguns transtornos psiquiátricos – por exemplo, entre dois adolescentes que estudam numa escola particular de elite, na mesma sala, sendo que uma tem transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e a outra não, qual delas tem mais chances de passar no vestibular? – e vários outros problemas, inclusive os familiares, o que torna a meritocracia uma ideologia muito, mas muito furada. Afinal, como quantificar o merecimento? E os fatores que não são considerados na hora de fazer essa conta? Como ter tanta certeza de que alguém não merece certo cargo sem acompanhar de perto seu cotidiano, seus dramas e suas alegrias?

Apesar de todos esses furos, a ideologia meritocrática é comprada por muita gente, como o próprio vestibular ilustra. Já vi muito vestibulando defender esse tipo de prova como algo ideal para selecionar quem entra e quem não entra em uma universidade, por mais pública que ela alegue ser (um beijo para a FUVEST!). Outro exemplo muito claro é o problema do desemprego. Quantas vezes eu já ouvi – e sei que não vou parar de ouvir… – gente dizendo, sobre pessoas pobres, que, “se tomassem vergonha na cara”, ou “se não fossem tão preguiçosos”, ou “se não ficassem tentando escolher o que fazer (!!!!!), teriam um emprego”. É bastante óbvio que quem diz isso não tem noção nenhuma do que é não ter oportunidade para sair de uma situação. Ninguém é pobre porque gosta, muito menos porque quer, e sim porque o sistema não deu oportunidades para que essas pessoas se desenvolvessem financeiramente. Os pobres sustentam o sistema, mas não cabem nele, e a forma de pensar meritocrática é um bom meio de dar conta dessa contradição: o que os pobres “merecem”, por sua falta de vontade de trabalhar, é limpar o meu lixo, lavar os meus copos, fazer a minha comida, limpar a bunda dos meus filhos (ironicamente, tarefas muito desgastantes). Seguindo a mesma ideia, uma mulher pobre, que não mereceu a informação suficiente para acessar camisinha e pílula anticoncepcional, ou que não mereceu o dinheiro de que precisava para comprar a pílula do dia seguinte, merece ter um filho ou morrer tentando se livrar dele. Ela também não tem dinheiro para subornar o ginecologista ou comprar Citotec, como muitas adolescentes de classe média e alta fazem, então, tudo o que pode fazer é tomar aquele chazinho de abacaxi, se jogar da escada, enfiar agulha na vagina, entre outras formas tão ou mais brutais de abortar uma criança e que matam quase 12 vezes mais, no Brasil, do que ataques de pitbull matam nos EUA (ZH Notícias). E ainda querem matar os pitbulls.

Achar que qualquer mulher poderia ter evitado a sua gravidez é não só uma atitude ingênua como meritocrática e, portanto, injusta. Além dos casos em que o método anticoncepcional falhou – mesmo a camisinha tem entre 88% e 97% de eficácia -, existem aqueles em que a gravidez não poderia ter sido evitada por uma miríade de outros motivos. Não cabe a mim, e nem a você, julgar os motivos de qualquer mulher para cometer um aborto. E nem para comer um bolo – mas de gordofobia eu falarei no futuro.