distúrbios alimentares

Tudo tem limites, mas a zoeira…

Eu estou ciente de que este post pode me deixar infame nas interwebs. Isso é porque 2014 foi o ano da zoeira – e eu não me assustarei se 2015 também for. Com uma plataforma de disseminação rápida como o facebook, as páginas de zoeira puderam se espalhar, e elas existem de todas as formas possíveis. Aí você me pergunta “mas Nathália, você vai querer ver problema até na zoeira agora?”, e eu respondo, não me leve a mal, eu também gosto de zoeira. Meus amigos que o digam. O problema é quando a zoeira não encontra limites, o que é fácil de acontecer na internet, porque, como todos nós sabemos, ela não tem limites.

Será?

A primeira notícia que eu li hoje foi a do suicídio de Leelah Alcorn. Não vou entrar em detalhes sobre esse caso no blog porque sou cis e não pretendo me meter numa luta que não é minha; se alguém quiser saber mais sobre a luta das pessoas transgêneras binárias, pode seguir o perfil da Daniela Andrade e do João Nery no facebook, por exemplo, ou ler o Batatinhas ou o Nonbinary.org, se quiser saber sobre a luta das pessoas não-binárias. O foco desse post não é o fato da Leelah ser trans, mas sim, o seu suicídio. A notícia dele me fez lembrar de todas as vezes que eu vi piadas de extremo mau gosto sobre suicidas na internet (e fora dela também), e sobre todo tipo de assunto com o qual não se faz piadas. Se você ainda não pegou o espírito da coisa, vou dar alguns exemplos (dos assuntos, não das piadas, não quero que esse post seja trigger para ninguém): transtornos alimentares, depressão, transtornos de personalidade, violência doméstica, infanticídio, estupro, pedofilia… Eu podia ficar aqui fazendo essa lista até o final de 2015, mas acho que agora já deu para ter uma ideia. A maioria das pessoas que eu conheço tem o bom senso de saber que não se faz piada com esses assuntos pesados, que podem causar emoções muito negativas em algumas pessoas, mas tem gente que sempre me pergunta “por que eu não posso fazer piada com [insira assunto sensível aqui]”.

Bom, vamos imaginar uma situação. Pense na pessoa que você mais ama. Pense nos momentos bons que você já passou com essa pessoa, em todas as vezes que vocês riram juntes, jogaram juntes, se divertiram juntes. Pode até pensar nas brigas, se elas fizeram as duas pessoas mais felizes, no final. Pensou? Ok, então agora pense em como você se sentiria se essa pessoa morresse. A menos que a situação de morte de alguém querido não seja traumática para você (o que também não é exatamente errado), você vai ficar muito triste por bastante tempo. Imagine, agora, que a perda dessa pessoa foi tão traumática que você desenvolveu transtorno do estresse pós-traumático (TEPT). Imagine, também, que essa pessoa querida tenha morrido atacada por um gorila. Então, oito meses depois da morte dessa pessoa, quando seu TEPT está bem estabelecido e você não consegue superar essa perda de forma alguma, você está, em um dia tranquilo e razoavelmente alegre, olhando o facebook, quando vê um vídeo de uma pessoa sendo atacada por um gorila. Você vai, imediatamente, começar a ter sintomas de ansiedade e estresse intensos, e provavelmente terá um ataque de raiva, pânico ou qualquer outro tipo de reação emocional muito negativa. Bom, o mesmo aconteceria se aparecesse um vídeo de uma pessoa contando uma piada sobre pessoas que foram atacadas por um gorila, ou algo assim.

E aí me perguntam de novo: “mas as pessoas têm traumas com todo tipo de coisa, eu vou parar de fazer piadas completamente?”, e novamente eu respondo, não. O caso que eu peguei foi obviamente exagerado. Alguns assuntos, como aqueles que eu citei no começo, são sensíveis para a maioria das pessoas que já tenha passado por essa experiência e/ou seus entes queridos. É claro, existem os que lutam contra um TEPT ou uma depressão ou qualquer tipo de emoção negativa fazendo piada, mas não é justo e nem compensa fazer milhares de pessoas sofrerem porque uma ou duas delas ia gostar desse tipo de piada. É o mesmo caso da cantada de rua: a grande maioria das mulheres alega não gostar; é justo continuar com as cantadas por causa das que alegam gostar delas? E eu sei, às vezes é difícil saber qual ou quais assuntos evitar fazer piada sobre, então eu fiz uma lista para ninguém ficar perdide.

  • suicídio
  • transtornos mentais
  • transtornos alimentares
  • transfobia, lesbofobia, bifobia, homofobia
  • racismo
  • classismo
  • capacitismo
  • gordofobia
  • escravidão
  • violência doméstica
  • violência contra a mulher
  • estupro
  • assassinato (e aí pode incluir o feminicídio e o infanticídio)
  • pedofilia
  • abusos físicos, emocionais e sexuais
  • qualquer coisa que viole os direitos humanos

É claro que ficou faltando coisa, porque eu não vou lembrar de tudo agora, mas a dica é que, antes de fazer uma piada, faça duas perguntas a si mesme: 1) alguém precisa se tratar para se livrar desta coisa sobre a qual eu vou fazer a minha piada? 2) existe algum grupo organizado que lute contra o assunto da minha piada? Se a resposta para uma dessas perguntas for sim, NÃO FAÇA, ou você é um babaca.

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“Mas ela era tão bonita!”

A beleza sempre me intrigou. Quando bem jovem (criança, mesmo) participei de inúmeras seleções para agências de modelos até conseguir uma que me aceitasse apesar dos quilos a mais, e, nesse tempo, testemunhei uma corrida insana para se conseguir e/ou se manter a beleza. Mesmo entre crianças, a competição para ver qual das meninas era mais bonita, qual tinha o acessório mais bonito no cabelo, qual tinha conseguido desfilar de salto (!) sem perder o equilíbrio era muito grande. As minhas colegas de profissão se orgulhavam de conseguir ficar horas e horas sentadas numa cadeira de salão tratando do cabelo para uma sessão de fotos que não duraria mais que trinta minutos, ou de conseguir empilhar uma biblioteca na cabeça. Fui modelo por pouco tempo, mas, enquanto o fui, me assustei muito com a indústria da beleza. Eu não compreendia o que era aquilo, por que aquilo acontecia, mas sabia que não queria deixar que um batom e um salto 15 tomassem conta da minha vida.

Fui crescendo, e as coisas não pareciam melhorar. Sempre, antes de sair de casa, minha mãe me perguntava se eu “não ia passar um batomzinho”. A resposta era quase sempre não, porque eu não gostava de usar maquiagem, apesar de gostar muito de passá-la no rosto; no começo, ela insistia e até brigava comigo por isso, mas depois foi desistindo, sempre me lembrando de que menino nenhum ia gostar de mim assim. Até hoje, por alguma razão que não consigo entender, me sinto extremamente desconfortável quando me dizem que estou bonita, principalmente se esse elogio partir dos meus pais. Talvez por isso, ou talvez pelo grande susto que a indústria da beleza me proporcionou na infância, eu não consiga entender por que a beleza é tão valorizada pelas pessoas. Beleza vende, principalmente a feminina – que foi feita para ser usada e observada, segundo a cultura patriarcal, que é a raiz e o caule da indústria da beleza -, e todos compram o ideal do belo, de que ser bonito é sinônimo de ser bem-sucedide.

Prova disso é que, quando uma pessoa jovem morre, três coisas são geralmente ressaltadas pelas pessoas que a conheciam: inteligência, alegria e beleza, três características bastante apreciadas pelo capitalismo. Dessas, a beleza é a que mais me intriga quando ressaltada dessa forma: qual o problema de uma pessoa considerada bela morrer? Depois de muito pensar, cheguei à conclusão de que, muitas vezes, pessoas consideradas belas dentro do padrão não são lembradas pelos outros como pessoas. Elas são mais que pessoas, um tipo de semideusas, intocáveis e inabaláveis; não dormem, não comem, não têm necessidades fisiológicas e, acima de tudo, não morrem. Sumarizando, não têm os problemas que as pessoas comuns, que não são exageradamente belas, possuem, e isso faz com que os “pobres mortais” se choquem ao perceber que sim, elas são pessoas, tal qual nós.

Não estou dizendo que exista preconceito ou discriminação contra pessoas belas. Pelo contrário: pessoas consideradas feias sofrem muito, seja para arranjar um emprego, companheire ou amizades, e não existe simetria em dizer que pessoas consideradas belas sofrem do mesmo jeito. O que existe é um sentimento coletivo de que o que vendem na mídia como belo é, na verdade, perfeito, sobreumano, inalcançável de tal forma que as pessoas que possuem esse “dom” deixam de ser seres humanos para se tornar uma coisa acima disso. Esse pensamento é nocivo de diversas formas. Primeiro, gera problemas epidemiológicos como transtornos alimentares e de humor, tanto que as passarelas passaram a repudiar modelos excessivamente magras por incitar esse tipo de doença. Segundo, cria sobre as pessoas, principalmente mulheres, uma expectativa irreal de beleza. Espera-se que mulheres sempre usem camadas e camadas de maquiagem para esconder imperfeições que todos têm, mas que são incompatíveis com o ideal de beleza; espera-se que se faça horas e horas de ginástica para perder quilos que não são nocivos para a saúde e, inicialmente, nem para a autoestima da pessoa. Daí vem a exclusão social de pessoas consideradas feias, que são vistas como “descuidadas de si mesmas”.

Apesar de ser um conceito subjetivo, a beleza está no imaginário das pessoas como algo unificado, uniforme e padronizado, como se seres humanos saíssem de uma fábrica, todes prontes para se tornar o impossível: a pessoa bela e perfeita, endeusada e sobreumana que estampa capas de revistas e outdoors.