demissexualidade

Eu não sou anti-sexo

Muita gente acha que assexuais não gostam de sexo. Já sabemos que isso não é verdade; primeiro, porque assexual não é quem não gosta de sexo, mas sim, quem não sente atração sexual, ou apenas a sente sob determinadas circunstâncias; segundo, porque pessoas assexuais podem, sim, fazer sexo. E gostar.

Na verdade, o fato de que algumas pessoas assexuais fazem e gostam de sexo é apenas uma consequência do que é ser assexual. Assexual é um termo guarda-chuva, ou seja, abarca diversas denominações; dessa forma, não apenas quem não sente atração sexual em situação alguma é tido como assexual, mas também as pessoas que a sentem de forma muito esporádica, como pessoas demissexuais. Sabendo que algumas pessoas assexuais sentem atração sexual em situações específicas, concluímos que algumas delas façam sexo e gostem disso. Não existe muito mistério. Por que, então, essa confusão existe?

Tudo começa no moralismo. Historicamente, a sociedade entende o sexo como um ato que vai contra a moral. Por isso, sempre existiram pessoas que eram contra essa prática, por diversas razões (algumas delas, inclusive, não se apoiam no princípio da amoralidade do sexo). Essas pessoas são celibatárias, ou seja, escolheram não fazer sexo, por qualquer razão que seja. Padres católicos são um exemplo de celibatários. Essas pessoas fizeram uma escolha consciente de não fazer sexo, por mais que tenham vontade, e por maior que seja a atração que sentem. Não existe falta de atração nem de desejo nessas pessoas; o que existe é um autocontrole, e não estou dizendo que isso seja bom, nem ruim.

Para pessoas assexuais, a coisa funciona meio diferente. Nós não temos atração sexual e não houve escolha consciente sobre isso; tudo aconteceu naturalmente, como acontece com qualquer orientação sexual. Assim como pessoas homo ou heterossexuais, não escolhemos não sentir atração, apenas não sentimos. Quando sentimos e ficamos confortáveis o suficiente para que essa atração se concretize, isso não significa que não vamos gostar do sexo, porque temos capacidade de sentir prazer. Não existe motivo religioso, moral ou de qualquer outro cunho para que não façamos sexo: a única coisa que existe é falta de atração. A partir do momento em que ela passa a existir, o sexo passa a ser uma possibilidade. No entanto, uma vez que o celibato é tão amplamente divulgado e a assexualidade não é, é comum que as pessoas confundam os dois e assumam que assexuais escolheram não fazer sexo, não gostam de fazê-lo e têm algo contra ele.

Por isso, se você ler em algum lugar que assexual é quem não gosta de sexo, ou se pensava assim, saiba que isso não é verdade. É claro, existem pessoas assexuais que não gostam de fazer sexo, mas isso não é regra. E também não é ideologia. É apenas parte de quem somos.

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A assexualidade dos outros

Se você é assexual, o post de hoje não é para você. Chame sua mãe, seu pai, as pessoas que são importantes na sua vida, e vamos falar, todes juntes, sobre como lidar com a assexualidade dos outros. Como tratar uma pessoa assexual? Como lidar com o fato de que uma pessoa importante para você tem uma sexualidade tão não-normativa, mas tão não-normativa, que você nunca ouviu falar sobre ela (e nem aquele seu amigo gay ouviu)?

Vão aí cinco dicas:

  1. Tente compreender. É difícil? É. Uma pessoa que não está passando por determinada experiência nunca vai entendê-la por completo, mas você não pode deixar de tentar. Sua geração, o ano em que você nasceu, sua idade, nada disso é empecilho para tentar entender que a pessoa que você ama não sente atração sexual e não tem problema nenhum quanto a isso. Não entendeu? Bom, continue tentando. Se você realmente ama essa pessoa assexual que te indicou esse post, tentar compreender a dor dela, a personalidade dela e as opressões pelas quais ela passa é o mínimo que você pode tentar fazer. Dói quando as pessoas que nos amam não nos compreendem, mas dói ainda mais quando elas nem tentam fazer isso.
  2. Não diga que a pessoa “vai morrer sozinha”. Você pode até ter medo disso, mas isso é falta de informação. Primeiro, porque o sexo não é a única forme de encontrar companhia; as pessoas podem se apaixonar e ter um relacionamento sem sexo. Além disso, não namorar e não se casar não é estar sozinhe. É pra isso que servem os amigos, não?
  3. Não questione a assexualidade dessa pessoa. “Ah, mas você ficou com tal pessoa, você não pode ser assexual.” NÃO FAÇA ISSO. APENAS NÃO FAÇA.  A atração sexual pode acontecer ocasionalmente para algumas pessoas assexuais, ou ela pode ter consentido em ficar com a outra pessoa por pressão social ou qualquer outra coisa.
  4. Tente não encarar a assexualidade como um problema. Assexualidade não é ruim, não é doença, e não precisa ser “culpa” de ninguém. Não é “culpa” da sua criação, nem de religião, nem de nada, porque não é ruim e não precisa ser “culpa” de ninguém. Ponto final. Dizer que a assexualidade é “culpa” de alguém significa dizer que é um problema.
  5. Não apague o sofrimento da pessoa assexual. Pressão social, apagamento, confusão e dúvidas: o dia normal de uma pessoa assexual. A sociedade não nos admite, a mídia não nos representa, nossa família e amigues não nos compreendem. Se uma pessoa assexual está sofrendo preconceito por sua orientação sexual, não diga que “todo mundo é assim”, que isso “acontece”, enfim, não diminua o sofrimento dela. Escute e fale o que achar necessário: o desnecessário pode ficar não-dito. Evite o sofrimento.

O que é área cinza?

A assexualidade é uma denominação guarda-chuva. Isso significa que existem pessoas estritamente assexuais – ou seja, aquelas que não sentem atração sexual -, e também existem pessoas que não costumam sentir atração sexual, mas isso pode acontecer sob determinadas condições. Todas essas pessoas podem se denominar assexuais. É mais ou menos o mesmo esquema do termo trans*, que é um termo guarda-chuva, ou seja, abarca várias denominações debaixo de si. Uma das denominações abraçadas pela assexualidade é a área cinza (ou gray-a, ou gray area), que é o conjunto de pessoas que não são estritamente assexuais e nem alossexuais (=sexuais).

Para entender melhor o termo, vamos fazer uma abstração: imagine que toda a pluralidade de sexualidades humanas coubesse numa paleta de cores. Na paleta de cinza estariam dois conceitos mais simples e mais abrangentes do que a bissexualidade, por exemplo; esses conceitos seriam a alossexualidade e a assexualidade. Nessa abstração, a alossexualidade seria representada pela cor preta e a assexualidade, pela cor branca. Por consequência, teríamos, entre esses dois extremos, vários tons de cinza. É daí que vem o termo “área cinza”. Dentro da área cinza, se encaixam as pessoas que: não sentem atração sexual normalmente, mas podem senti-la ocasionalmente; sentem atração sexual, mas não têm vontade de concretizá-la; e pessoas que fazem e gostam de fazer sexo, mas apenas em condições muito específicas.

Dependendo da concepção de área cinza, ela pode ou não conter outras denominações. Para algumas pessoas, a área cinza é uma orientação sexual, chamada de gray-asexual. Um gray-asexual, ou graysexual, é uma pessoa que sente atração sexual sob condições muito específicas, ou que raramente a sente. Para outras pessoas, a área cinza é um “lugar” onde se inserem várias outras orientações sexuais, como lithosexual (pessoas que sentem atração sexual, mas não querem que ela seja recíproca), pothisexual (pessoas que fazem e gostam de sexo, mas continuam assexuais por não sentirem atração) e demissexual (pessoas que podem sentir atração sexual apenas quando têm laços emocionais e/ou afetivos fortes).

Ou seja: a área cinza contempla as pessoas que não são estritamente assexuais, mas também não são alossexuais. Quem está na área cinza também pode se considerar assexual e também pode sofrer afobia (o preconceito contra assexuais). Para algumas pessoas, a área cinza é uma orientação sexual, mas, para outras, é o local onde se inserem as denominações que cabem dentro da assexualidade, junto com a assexualidade estrita. Nenhuma das duas concepções está errada; a vivência das pessoas e a denominação com a qual elas se sentem mais confortáveis vai determinar qual delas adotar – ou, até mesmo, nenhuma delas, afinal, podemos sempre formar nossas próprias concepções a partir das existentes, não é mesmo?

Assexual ou assexuado?

Hoje (19/10) começa a semana da visibilidade assexual, que vai até o dia 23. Para comemorar a semana, o blog vai ter alguns textos curtos sobre questões importantes e básicas no que diz respeito à sexualidade. A primeira delas é aquela dúvida comum: o certo é assexual ou assexuado?

É parecido para falar e para escrever. Às vezes, até parece que as duas palavras têm o mesmo significado. Mas não têm, não. É bem comum as pessoas confundirem assexual com assexuado; mesmo quem já está acostumado com a militância, às vezes, comete esse erro. Mas as duas coisas são bem diferentes. Bem diferentes MESMO. Esse post é para esclarecer isso, não só porque eu tenho gastura quando escrevem errado, mas também porque é desrespeitoso, e ninguém quer ser desrespeitoso sem querer, certo?

Vamos começar esclarecendo uma coisa: o nome da orientação sexual de quem não sente atração é ASSEXUAL.

E por que isso? Porque estamos falando de pessoas. As pessoas podem ser heterossexuais, homossexuais, bissexuais, pansexuais… Em momento algum elas são heterossexuadas ou bissexuadas. A confusão entre as palavras assexual e assexuado vem lá das aulas de biologia, de quando escutamos falar em plantas e microorganismos que não fazem reprodução sexuada. Esses seres, sim, são assexuados. Ou seja: assexuado é quem pode se reproduzir produzindo cópias de si mesmo, clones, para povoar um ambiente. Isso é ser assexuado. Quando você estiver em dúvida se o certo é assexual ou assexuado, então, pare e pense: essa pessoa se reproduz fazendo clones de si mesma? Se a resposta for não, o certo é assexual.

aequina bacteria

Esse pólipo e essas bactérias são assexuados, por exemplo.

Em algumas definições de dicionário, contudo, a palavra “assexuado” aparece como sendo uma pessoa que não sente atração sexual. Como todes devem saber, verbetes de dicionário são péssimos para explicar as pessoas (vamos lembrar que os dicionários ainda apontam pessoas trans como doentes mentais?). Além disso, todas as pessoas assexuais que eu conheço se sentem incomodadas e/ou ofendidas pelo uso da palavra “assexuado” para se referir à assexualidade, dado que assexuado é um adjetivo que cabe a organismos que fazem reprodução assexuada, como eu já disse. Então, se você quiser continuar usando a palavra “assexuada” para se referir a uma pessoa assexual, saiba que, no mínimo, ela vai se incomodar. É claro que, como qualquer outra coisa que eu escreva aqui, isso não é regra para todas as pessoas assexuais, mas é provável que o incômodo exista. A menos que a pessoa se refira a si mesma como assexuada e/ou te diga para fazer isso, assexual é a palavra certa.

Agora que já sabemos como tratar uma pessoa assexual, vamos fazer a lição de casa?

Mariazinha não sente atração sexual por ninguém. Mariazinha é uma pessoa _________.

As plantas são seres vivos que podem se reproduzir sem a troca de material genético, ou seja, fazendo clones de si mesmas. As plantas são seres ________.

Luizinha sente atração sexual apenas por pessoas com quem tem conexão emocional, isto é, Luizinha é demissexual. Como assexualidade é um termo guarda-chuva, Luizinha também é uma pessoa ________.

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Respostas: assexual, assexuados, assexual. Acertou? Parabéns! Errou? Se acostumar com a terminologia é realmente difícil, mas você consegue!

Eu não sou LGBT

Hoje aconteceu a 19ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, na Avenida Paulista, como todos os anos. Muita gente me chamou para ir; eu não fui. Tenho diversos problemas com a Parada (por exemplo, o fato dela ser uma manifestação de cunho político, mas ter empresas que a apoiam abertamente), mas o principal, e que sempre me faz negar todos os pedidos dos meus amigos para que os acompanhem, é que a Parada não me representa.

Não me representa por um motivo simples: eu não sou LGBT.

É claro que não estou falando sobre ser a quatro coisas ao mesmo tempo, mas sim, do fato de que não sou lésbica, nem gay, nem bissexual, nem transexual. Aliás, já perceberam quantas nuances de sexualidade ficam de fora dessa sigla? Eu, enquanto pessoa assexual, não sou incluída, bem como companheires poli e pansexuais, por exemplo. Somos pouques? Talvez. Somos invisíveis? Nessa luta, com certeza. Se não fôssemos, não teríamos tantas pessoas envolvidas com a militância LGBT afirmando que não existimos, que ainda não encontramos a pessoa certa, que um dia vamos entender que somos lésbicas/gays/heterossexuais e vamos parar de afirmar que não temos interesse por sexo. Seria obviamente violento da nossa parte dizer para um homem gay que ele, na verdade, não encontrou a mulher certa e que, um dia, vai entender que é hetero e que vai parar de dizer que não tem interesse por mulheres; por que não é tão obviamente violento quando esses comentários são dirigidos a pessoas assexuais?

Acredito que nossa ausência na sigla LGBT tenha um tanto de responsabilidade nesse sentido. A invisibilidade de pessoas assexuais é tão grande, mas tão grande, que não temos lugar nem mesmo na comunidade LGBT. Nem mesmo a hipócrita atitude de falsa inclusão acontece conosco; ninguém tenta nos enfiar em qualquer buraco da militância só para dizer que estamos ali, que lembraram de nós. Ninguém lembra de nós. De certa forma, isso pode até ser bom: nos poupa de certos problemas, como a transfobia que sempre está envolvida em comentários de pessoas que tentam incluir pessoas trans, geralmente binárias, em seus discursos dessa forma hipócrita. Por outro lado, denuncia o quanto nossa sociedade preza pelo sexo e o quanto as pessoas que fogem desse padrão são “anormais” nesse contexto. Para a sociedade em que vivemos, nós, assexuais, não deveríamos nem mesmo existir, e isso fica bastante claro quando pensamos que nem no ambiente dito “seguro” da militância LGBT temos espaço para celebrar nossa existência.

Não estou dizendo que gostaria de ligar a tela da minha televisão e ver pessoas assexuais representadas lá, da mesma forma que gostaria de ver companheires indígenas, por exemplo, representando a minha cor. Na verdade, nem sei muito bem como isso poderia ser feito – afinal, como seria uma propaganda de perfume com uma pessoa assexual? -, mas seria interessante saber que temos um espaço onde podemos nos expressar e discutir livremente sobre nossa falta de atração sexual. A militância LGBT não é esse espaço. Sei que não somos as únicas pessoas a passar por isso, mas nossa orientação sexual, que deveria ser mais uma dentre tantas que têm um lugar nesse movimento, é constantemente invisibilizada e tratada como objeto de chacota em espaços LGBT, como grupos no Facebook e até mesmo coletivos sérios. Isso pode ser falta de informação, sim, mas nada justifica ignorar completamente uma parte de alguém e considerá-la lésbica, gay ou heterossexual baseado nas suas observações e na forma como você vê o mundo. Lembre-se sempre, quem tem que se categorizar ou não é a pessoa em questão. Você não tem que decidir nada sobre a sexualidade de ninguém além de você mesme.

Obviamente, a invisibilidade não vai acabar quando nos incluírem na sigla; afinal, nos Estados Unidos, muitas organizações de pessoas não-cis-hetero já incluíram o A, e nem por isso as pessoas assexuais são mais visíveis do que eram antes. Inclusão na sigla, contudo, significa que estão cientes de que existimos e que estamos fazendo algum barulho, pelo menos o suficiente para incomodar ou alguém – ou fazer com que alguém olhe para nós. Enquanto não existirmos na sigla, temos o atestado de que somos completamente invisíveis, até mesmo para as pessoas que deveriam estar nos apoiando. Mesmo assim, ainda estamos inserides em espaços LGBT, porque é nesses espaços que costumamos encontrar segurança para falar sobre nossos problemas e indagações quanto a nossa sexualidade. Quando não há hostilidade, grupos e coletivos LGBT nos oferecem discussões ricas e, algumas vezes, esclarecedoras; no entanto, ainda não são espaços ideais, justamente porque, na maioria das vezes, não estamos discutindo com nossos iguais, mas com pessoas que nunca passaram e nunca passarão pelas mesmas experiências que nós. Seria como uma pessoa homossexual tentar discutir sua sexualidade numa roda exclusivamente heterossexual.

A inserção da letra A na sigla que representa as pessoas não-cis-hetero não vai acabar com nenhum problema da comunidade assexual, mas nos ajudaria a dar um passo mais longe da invisibilidade completa; afinal, enquanto eu puder ser categorizada apenas como homo ou heterossexual, sem nenhuma outra opção, a exclusão será sistêmica e constante, e é contra isso que devemos lutar de forma mais urgente.

A “ninfomania social” ou Como a militância assexual pode ajudar pessoas sexuais

tw: exemplos de: transfobia, lesbofobia, homofobia, afobia

Vivemos numa sociedade viciada em sexo. Talvez isso seja mais fácil de perceber para uma pessoa assexual, vítima direta da ninfomania da sociedade, mas o sucesso das pessoas – de todas as pessoas – está, de certa forma, ligado ao sexo. Um homem bem-sucedido não é aquele que tem cinco casas na Europa, dez carros importados e um quarteirão na Avenida Paulista, mas sim o homem que penetra muitas vaginas (até porque, quando um homem tem cinco casas na Europa, dez carros importados e um quarteirão na Avenida Paulista, ele “deve pegar todas”). A mulher bem-sucedida é aquela que tem um homem, é a “bem-comida” (ou “bem-amada” para pessoas mais tímidas), a que é penetrada, mas não por muitos homens, apenas por um. Na sociedade ninfomaníaca, os papéis de gênero são complementares, mas também contraditórios: homens devem penetrar muito, mulheres devem deixar ser penetradas. Homens devem ter múltiplas parceiras, mulheres devem ser fiéis; mas ambos necessitam do sexo para sua felicidade, para seu bem-estar pleno. Mesmo pessoas que fujam do padrão heteronormativo caem nesses papéis. O homem gay também deve penetrar para ser um homem; gays passivos, principalmente afeminados, não são aceitos nem no meio LGBT. Para a sociedade ninfomaníaca, que também é falocêntrica, transfóbica e binarista, o sexo lésbico não existe, é “só uma brincadeira”, e por isso não existem lésbicas ativas – afinal, elas precisariam de um pênis para penetrar vaginas, e mulheres trans que não fizeram a cirurgia de redesignação não são mulheres “de verdade”, logo, não podem ser lésbicas.

Isso se traduz de forma bastante clara em jogos online, por exemplo. Tomando o World of Warcraft como exemplo – um jogo que adoro e o que mais entendo -, uma pessoa, para ser boa no jogo, precisaria ter um personagem no nível 100, com equipamentos épicos, um anel lendário e um dano por segundo incrivelmente alto; mas nada disso é o suficiente se o dito jogador não tiver uma namorada. Sim, no feminino, porque um bom jogador só pode ser homem e só pode penetrar vaginas. Relacionamentos amorosos/sexuais com homens são inadmissíveis, a menos que você “goste” de ser xingado a cada login. Caso o homem em questão se relacione com uma mulher trans, ele será eternamente ridicularizado por ter “caído na mentira” dela.

Para uma criança, um adolescente ou um adulto que ainda não tenha formado sua personalidade, a ninfomania da nossa sociedade é extremamente danosa. Com o indivíduo suscetível a qualquer tipo de propaganda, bombardeá-lo com a ideia de que ter uma vida sexual badalada é ser saudável, feliz e bem-sucedido faz com que ele se envolva em situações que, muitas vezes, não são exatamente consentidas. E, mesmo quando o são, talvez não fossem se a pessoa tivesse escolha. Infelizmente, nosso consentimento nem sempre parte de nós; quando nos forçamos a pensar que o sexo nos fará felizes, mantemos relações sexuais com quaisquer pessoas para alcançar essa felicidade. Muitas vezes nos arrependemos, e, depois de pensar um pouco, chegamos à conclusão de que nos forçamos a ter aquele momento, como se fosse nossa obrigação manter relações sexuais sempre que a oportunidade apareça. Caso isso não aconteça, somos moles, frouxes, não sabemos curtir a vida. (Não estou falando de pessoas, na maioria homens cis, que bebem até cair, ficam com uma pessoa que sofra preconceito, como travestis e mulheres gordas, e depois “se arrependem” disso. Essas pessoas são apenas preconceituosas.)

E onde entra a militância assexual nessa história toda? Obviamente, essa “ninfomania social” atinge pessoas assexuais. A maior parte dos casos de afobia que presenciei derivam dela. Somos aberrações, erros da humanidade por não ter interesse por sexo. Ao me reconhecer demissexual e começar a pensar nas relações de poder que me mantiveram presa à ideia de que fui doente até aquele momento, percebi tudo isso que foi explicitado até agora, e entendi que não era a única a sofrer com isso. Minhas amigas que foram forçadas a ter sua primeira vez num momento em que não queriam sofreram com isso. Meus amigos gays que foram forçados pelos pais a manter relações sexuais com mulheres sofreram com isso. Nenhuma dessas pessoas é assexual, mas elas também sofrem com a ninfomania da sociedade, muito embora poucas pensem sobre ela. Ao mesmo tempo, pessoas assexuais são invisibilizadas e silenciadas em todos os espaços: não existe “A” na sigla LGBT, e, recentemente, uma organização de lésbicas e gays dos Estados Unidos fez uma campanha afirmando que o “A” da sigla estendida LGBTQIA queria dizer “aliados” e não “assexuais” (caso completo aqui, em inglês). Por isso, mesmo em meios não-normativos, as pessoas tendem a acreditar que não existimos, e isso só reforça a ninfomania social, no sentido em que compactua com a ideia de que o sexo é necessário para o bem-estar dos seres humanos.

Com uma militância assexual bem organizada e bastante presente, a visibilidade assexual seria muito maior, e as pessoas saberiam que existimos, que não somos aberrações e nem deprimidos – pelo menos não pelo fato de sermos assexuais. Isso levaria mais pessoas à reflexão que acabei de fazer sobre a ninfomania da sociedade, e elas concluiriam que é necessário subverter esse processo para que a adolescência e a vida adulta sejam fases menos traumáticas na vida de muitas pessoas, assexuais ou não. Isso também contribuiria para a não sexualização da infância: a partir do momento em que se assume que nem todas as pessoas possuem necessidade de fazer sexo, a pressão para que façam diminui, e perguntas como “você já tem namoradinhes?” param de ser feitas para crianças de cinco anos, por exemplo. No entanto, o sonho de uma sociedade menos ninfomaníaca está bem longe de ser alcançado por vários fatores. O mais proeminente deles, ao meu ver, é a falta de discussão sobre a compulsoriedade do sexo, mas podemos citar também interesses comerciais (afinal, indústrias de camisinhas, testes de gravidez, anticoncepcionais e brinquedos eróticos não ficariam felizes caso uma parcela de seus consumidores tivesse a liberdade de se assumir assexual).

E não é necessário temer um colapso da vida humana caso a sociedade deixe de ser ninfomaníaca: o número de pessoas que sentem atração sexual continuará maior que o número das pessoas que não sentem, o que desaparecerá será a pressão. Além disso, nosso modelo contemporâneo de alimentação e o estresse em que vivemos favorece doenças reprodutivas em homens e mulheres e aumenta os níveis de esterilidade em casais heterossexuais cisgênero. Se você realmente se preocupa com a perpetuação da espécie humana, campanhas para uma melhor alimentação e uma vida mais tranquila, além de militância ambiental, para que os recursos naturais tornem possível a procriação, são muito mais urgentes do que campanhas contra homossexuais ou assexuais.

Conheço uma pessoa assexual, e agora?

Ao contrário de pessoas homo, bi e pansexuais, poucas pessoas assexuais sentem necessidade de se assumir. Eu, particularmente, senti essa necessidade, porque o fato de ser mulher implica em gravidez compulsória e disponibilidade sexual, e, sabendo que sou assexual, as cobranças seriam menos ferrenhas e/ou menos frequentes. Com ou sem essa necessidade, contudo, é provável que mães, pais, amigues e conhecides da pessoa assexual vão, em algum momento, ficar sabendo sobre a orientação sexual dessa pessoa, e suas cabeças ficarão cheias de dúvidas. E então vem aquela insegurança: tenho filhe/amigue/conhecide assexual, o que eu faço?

A primeira coisa que você tem que fazer quando alguém assume uma orientação sexual e/ou identidade de gênero não-normativa é respeitar. Pessoas assexuais querem respeito, da mesma forma que qualquer pessoa quer respeito. Respeitar uma pessoa assexual é deixá-la confortável no tocante à sua sexualidade. Não tenho como fazer uma lista completamente precisa de coisas que você não deve fazer se quiser respeitar uma pessoa assexual porque cada pessoa é uma, e cabe a você perguntar a ela o que a deixa desconfortável quando necessário, mas algumas coisas deixarão a maioria das pessoas assexuais desconfortáveis, por exemplo:

  • “mas todo mundo é um pouco assim”
  • “isso vai passar logo, você vai ver”
  • “é só você encontrar a pessoa certa que a vontade de fazer sexo aparece”
  • “não é porque você não gosta de sexo que precisa inventar um nome pra isso”
  • “se você saísse de casa não seria assim”
  • “então você é virgem?”
  • “mas você namorou tal pessoa durante anos e vem com esse papinho agora?”
  • “se você nunca fez sexo, como sabe que é assexual?”
  • “o que eu fiz de errado para você ficar assim?”
  • “você devia procurar um psicólogo/psiquiatra”

Entre outros comentários depreciativos, ofensivos e completamente desnecessários. Outro ponto a se pensar é sobre as perguntas; sua curiosidade sobre a vida de uma pessoa assexual vem da sua ignorância ou do fato de que você acha a orientação sexual dela tão exótica, tão diferente de tudo o que viu e concebeu na vida, que quer saber detalhes íntimos? Não é melhor considerar que assexuais são pessoas, assim como você, e pensar como você reagiria às mesmas perguntas e aos mesmos comentários, caso eles se referissem à sua orientação sexual? Para pessoas heterossexuais talvez essa projeção seja um pouco diferente, e até mais difícil, porque elas não estão acostumadas a ser oprimidas por sua orientação sexual, mas com um pouco de esforço e empatia, tudo se resolve.

Fora isso, se o seu relacionamento com a pessoa assexual em questão é saudável, não há nada que precise ser mudado nele. Ela continua sendo a mesma pessoa, e você também; qual o sentido de mudar seu relacionamento só porque você soube que a pessoa não sente atração sexual da forma que você sente? O que isso muda na sua vida? Não acha que a atração que essa pessoa sente diz respeito somente a ela? Seja você mãe, pai ou amigue da pessoa assexual em questão, por quem, como, quando e por que ela sente atração sexual não é da sua conta, a menos que a própria pessoa resolva falar disso com você ou pedir sua opinião. E, mesmo assim, muitos detalhes ainda não serão da sua conta. Ou seja: não pressione. Se a pessoa quiser dar detalhes da sua vida sexual/amorosa para você e você estiver confortável com isso, ela dará. Não faz sentido ficar perguntando ou fazendo alusão a isso o tempo todo, mesmo que seja para reforçar que você sabe que a pessoa não sente atração alguma. Comentários como “você vai morrer sozinhe” ou “agora eu sei que você nunca vai engravidar, mesmo” não ajudam e só colocam para baixo, além de ser preconceituosos em vários níveis.

Se você lê em inglês, recomendo também o FAQ da AVEN para família e amigues de pessoas assexuais. Senão, pode conferir o FAQ para esposes/namorades de pessoas assexuais ou o FAQ para pais de pessoas assexuais no site da Comunidade Assexual.