cotidiano

Uma meta para 2016

O ano novo chegou. Isso significa, friamente, que a Terra passou por um determinado ponto no movimento de translação, que acontece ao redor do Sol – na verdade, nem é um ponto determinado, porque, a cada ano, ficamos 6 horas atrasades em relação ao movimento de translação. É para corrigir esse erro que existem os anos bissextos (como 2016). Nossa espécie, no entanto, é famosa por incutir significado a coisas que parecem triviais. Biólogos que pesquisam a evolução humana estudam essa capacidade como um dos traços que nos define. Definindo ou não, o fato é que incutimos simbolismo em coisas aparentemente supérfluas, e, por mais que algumas pessoas queiram se distanciar disso, é algo inerente a nós e que não precisa ser, necessariamente, condenado. Devido a essa capacidade, colocamos significado às mudanças na posição do Sol, o que resultou em um calendário de 12 meses, cujo fim também possui um significado: renovação, renascimento, recomeço. Mesmo quem não segue o calendário gregoriano tem significados parecidos para a virada do ano; é só ver como chineses comemoram a vinda do ano-novo lunar, que não só significa renovação, mas também traz toda uma onda de vibrações diferentes, que favorece determinadas atividades, de forma parecida com a astrologia ocidental.

Horóscopos à parte, 2016 chegou, e para todo mundo, já que o calendário gregoriano é o oficial em todas as partes do mundo. Eu nunca fiz resoluções de ano novo, mas resolvi dar uma chance para elas dessa vez, mesmo sabendo que já vou ter esquecido todas elas em março. Uma delas eu não quero esquecer, e, por isso, resolvi trazê-la para o blog.

Em 2015, testemunhamos grandes avanços da militância assexual no Brasil. Vimos surgirem grandes – e ótimas – páginas no Facebook com esse tema: a Assexualidade da Depressão, que agora não funciona mais, mas teve um papel expressivo em 2015; a Fofura Assexual, que tem um pessoal tão criativo e que sabe fazer tantas coisas!; a Que Ace Te Mordeu?, que é novinha, mas já chegou chegando; e muitas outras que eu não conheço, ou que conheço, mas não lembro, porque a minha memória tem uma capacidade muito pequena. Também vimos grandes jornais fazerem matérias muito boas sobre a assexualidade, esclarecendo para quem não conhece que não somos aberrações, e que também não vivemos tristes; infelizmente, também vimos outros jornais prestarem desserviços a nós, mas, com sorte, isso não vai mais se repetir.

De qualquer forma, a quantidade de informação sobre a assexualidade em português aumentou muito em 2015, e isso é maravilhoso. Criei esse blog porque não conseguia encontrar informações sobre assexualidade em português, e, principalmente, informações mais pessoais, relatos sobre vivências, textos com os quais eu pudesse me identificar. Provavelmente, se eu não soubesse falar inglês, estaria até hoje procurando quem eu sou. Hoje, o cenário, para uma pessoa que se descobre assexual, é bastante diferente. Temos uma quantidade razoável de conteúdo em português, acessível para essas pessoas, para que elas tirem suas dúvidas e se encontrem. Fico imensamente feliz pensando nisso, mas ainda não é o suficiente.

Como eu já disse, algumas coisas que encontramos na internet não são mais do que um grande desserviço a nós, passando informações falsas, e até mesmo a noção de que somos doentes e precisamos ser tratades. Algumas dessas informações podem ser encontradas em jornais de grande circulação e que algumas pessoas consideram confiáveis, então é difícil filtrar tudo isso. A única forma que temos de passar nossas vivências para quem está se descobrindo agora e de fazermos as outras entenderem que não somos doentes é falando. Por isso, se você tem desenvoltura com as palavras, se sabe se portar na frente da câmera, se desenha, se narra, se consegue fazer qualquer coisa que possa ser convertida em mídia na internet, fica aqui o meu convite: comece a falar sobre a assexualidade. Você não precisa ter um blog ou um canal no YouTube exclusivos sobre isso – nem esse blog é exclusivo, por mais que pareça -, mas um post, um vídeo, um desenho, já vai fazer a mensagem se espalhar para mais gente. Se tem uma coisa que eu aprendi com esse blog é que todo mundo pode ter um grande alcance e atingir muitas outras pessoas. Muitas mais do que você pode imaginar.

Minha meta para 2016, então, é ver ainda mais conteúdo bom em português sobre a assexualidade, e ainda mais discussões (produtivas!) sendo feitas. Então, vamos lá?

O que a Fabíola tem a ver comigo?

Eu sei, você já cansou de ler texto sobre o caso da Fabíola, mas esse vai ser um pouquinho diferente dos outros – afinal, você tem que ter muita sorte para encontrar um texto que tenha relacionado o que aconteceu com a Fabíola com a discriminação que as pessoas assexuais sofrem diariamente.

Para quem não sabe, Fabíola era uma moça totalmente comum, como você e eu, que vivia uma vida totalmente comum. Um dia, o marido dela a seguiu e descobriu que ela o estava traindo com o cunhado. Não vou entrar no mérito se o que Fabíola fez foi “certo” ou “errado”, primeiro porque não tenho opinião formada sobre traição (afinal, é muito difícil para uma pessoa assexual entender o que motivaria uma), e, depois, porque nem eu, nem ninguém tem condições, e muito menos o direito, de julgar a vida de uma pessoa que não conhece. O fato é que Fabíola traiu, foi pega, filmada e sua cara – e toda a situação na qual foi envolvida – foi propagada pela internet. No mesmo vídeo, seu marido tem uma reação exagerada e abusiva, que inclusive custou a ele muito dinheiro, mas o que realmente ficou na cabeça das pessoas foi a desculpa da Fabíola e o quanto ela era “piranha” por ter feito aquilo com o marido.

A repercussão imensa que o vídeo da Fabíola gerou é um retrato instantâneo do quão doente por sexo é a nossa sociedade. Se Fabíola e seu marido tivessem combinado que só veriam o sétimo filme do Star Wars um com o outro, e ele a flagrasse vendo o filme com o cunhado, gravasse e colocasse na internet, a reação do público seria a mesma? Tecnicamente, o contexto é o mesmo: marido e mulher “combinam” que vão fazer algo apenas um com o outro; um deles faz com outra pessoa; o outro o flagra, grava e coloca na internet. Se despojarmos o sexo da sua grandiosidade, é isso que sobra. Mas, na nossa sociedade, o sexo é importante, é grandioso, é ponto central na vida das pessoas; sem ele, não é possível conceber relacionamentos saudáveis, mentes saudáveis e pessoas bem-sucedidas. Como eu já disse em outra ocasião, nossa sociedade é viciada em sexo, e parte da militância assexual deve trabalhar para que esse vício seja revertido. O vídeo de Fabíola só evidencia o quanto nossa cultura é dependente do sexo e de espetáculos que o envolvam.

É importante que nos coloquemos no lugar de Fabíola e entendamos que ela foi vítima da mesma sociedade ninfomaníaca que nos oprime. Quando alguém diz que nossa orientação sexual não existe, ou que não encontramos a pessoa certa, ou quando alguém pensa que somos tristes ou temos problemas mentais por não sentirmos atração sexual, seu pensamento está baseado na mesma cultura que consumiu compulsoriamente o vídeo de Fabíola, puramente por se tratar de sexo. É, também, a mesma cultura que faz circular rapidamente pela internet as fotos íntimas de garotas e garotos cujas vidas acabam no fundo do poço.

Fabíola é, portanto, um lembrete para todes nós: temos um trabalho extenso a fazer até que nossa sociedade aprenda o quanto é doentio correr atrás de sexo em todas as situações e consumir sexo em todas as mídias, de todas as formas e a qualquer custo. Fabíola foi forte e até falou sobre o caso no facebook, mas quantas vezes você abaixou a cabeça quando deslegitimaram a sua orientação sexual? O caminho para a autoafirmação é longo, e o que leva à nossa aceitação pela sociedade é ainda mais extenso, mas não impossível de traçar.

Querido homem

Hoje é 8 de março, dia da mulher, e estou escrevendo este texto especialmente para pedir a você que não me dê parabéns. Explicarei por quê.

Assim como você tem seus broders, as mulheres são minhas irmãs. E isso não é porque eu sou um ser iluminado e acredito que todas as pessoas são irmãs. Isso é porque existe uma estrutura social dedicada a arruinar as vidas das mulheres no mundo todo, a fim de que elas permaneçam como seres inferiores por uma miríade de razões: o patriarcado. Esse patriarcado nos faz acreditar que somos inimigas, que devemos competir o tempo todo; e, como disse brilhantemente Chimamanda Ngozi Adichie, não competimos “por empregos ou conquistas, o que pode ser algo bom, mas pela atenção dos homens”. Esse mesmo patriarcado, que transforma minhas irmãs em inimigas, reforça a ideia de que todas nós existimos com a única função de servir homens como você. Mesmo que você seja um homem “diferente”, nós ainda existimos para servi-lo. Sendo homem, você automaticamente está inserido nessa cruel relação de dominação, mesmo que não queira. Sendo homem, a sociedade o colocou, sem perguntar a você se queria ou não, na posição de abusador emocional de mulheres. Quando estamos andando na rua sozinhas à noite e o encontramos, não paramos para nos perguntar se você tem um bom caráter. O medo nos sobe à cabeça e nós corremos. Você não tem como lutar contra isso, porque, num relacionamento abusivo, quem deve lutar para se livrar disso é a vítima; o que você pode fazer é conscientizar seus iguais da existência dessas relações e de como isso nos afeta.

Entre 2001 e 2011, mais de 50 mil das minhas irmãs morreram simplesmente por serem mulheres. Então você me diz: “mas morreram muito mais homens no mesmo período!”. É verdade. Acontece que o crime de assassinato de um homem é diferente do crime de assassinato de uma mulher, da mesma forma que assassinar um homem homossexual é diferente de assassinar um homem heterossexual. Quaisquer crimes envolvendo minorias sociais, salvo raras exceções, decorrem ou são agravados pelo fato daquela pessoa pertencer a uma minoria social. Dado que ser mulher não é algo que possa ser “escondido”, como a homossexualidade pode, não é exagero afirmar que os crimes de assassinato contra mulheres tenham pelo menos um dedinho de machismo. Afinal, quando um homem mata uma mulher, ele está exercendo seu controle sobre ela; quando uma mulher mata um homem, ela está saindo da sua posição submissa. Nenhum dos crimes é louvável, mas a natureza dos dois é diferente.

Mesmo quando continuamos vivas, caro homem, não paramos de sofrer com o patriarcado. Temos medo de andar pela rua sozinhas a qualquer hora do dia. A pesquisa Chega de Fiufiu contabilizou, em 2013, que 99,6% das 7762 mulheres que participaram da pesquisa já haviam sofrido assédio. Dessas, 83% disseram que receber cantadas não é algo legal. 90% já trocaram de roupa por medo de ser assediadas na rua. Por medo. Medo. Não existe palavra que resuma melhor o sentimento de ser mulher do que “medo”. Estamos constantemente suscetíveis a ataques, seja na forma de “inocentes” cantadas, ou na forma de brutais estupros. Então você me diz, homem: “mas não só mulheres sofrem estupros!”. De novo, é verdade; no entanto, em relatório do IPEA, nota-se que 88,5% das vítimas de estupro no Brasil em 2011 eram mulheres. Isso decorre da ideia de que mulheres devem estar sempre sexualmente disponíveis para homens, uma ideia vendida pela mídia e até mesmo pela educação que é dada aos nossos meninos. Aliás, esses dados seriam muito maiores se todas as mulheres estupradas tivessem coragem de denunciar seus agressores, ou mesmo conseguissem reconhecer que foram vítimas de um estupro.

Mas nem precisamos ser tão brutais para falar de violência contra mulheres, estimado homem. Uma pesquisa (promovida por uma marca de higienização antes e depois do sexo, mas ainda válida) feita com 1252 homens heterossexuais revelou que 33% deles tem nojo de fazer sexo oral em sua parceira. Não era para menos: nossa vagina é taxada como suja e nojenta desde a infância. Precisamos ter um cuidado especial com ela, sempre limpar, usar um sabonete diferente, um lenço umedecido, limpar com o papel higiênico até estarmos completamente secas (muito embora vulva seca seja um mau sinal), tirar todos os pelos (e ficar suscetíveis a ataques de microorganismos que poderiam ser evitados com a presença desses pelos), entre outros cuidados que “toda mulher” precisa tomar para estar sempre cheirosinha e ser desejada. Acontece que a vagina, como qualquer parte do corpo, possui um odor natural, indicativo de que está tudo bem por lá, e esse odor não é o de flores do campo. Pelo contrário, aliás: higiene em excesso mata a flora vaginal, um conjunto de microorganismos benéficos e necessários para a saúde da vagina. Somos convencidas de que a vulva é nojenta e não deve ser tocada nem por dedos, muito menos por línguas; enquanto isso, ensinamos aos meninos que, depois de fazer xixi, uma balançadinha resolve. E ai da namorada dele se não quiser fazer sexo oral e engolir depois!

Talvez devido a esse nojo extremo da vagina, e com certeza devido à ignorância extrema quanto à anatomia e fisiologia do prazer feminino, um terço das mulheres brasileiras nunca atingiu um orgasmo. Sabe-se que a masturbação ajuda a mulher a se conhecer, saber o que gosta e o que não gosta quanto ao sexo, e também melhora sua capacidade de atingir orgasmos, mas 40% das mulheres brasileiras nunca se masturbaram, não porque não queiram, mas porque a masturbação feminina ainda é vista como um tabu, algo proibido. Quando nossas mães nos viam com a mão perigosamente próxima da vulva durante o final da infância, elas nos censuravam e brigavam conosco; mas quantas mães brigam com os filhos adolescentes quando eles passam um tempo descomunalmente grande no banho? E, caro homem, se a sua parceira não consegue atingir orgasmos durante o sexo e teve a coragem para contar isso a você (o que geralmente não acontece), pense bem: você sabe manipular um clitóris? Talvez seja hora de aprender.

Você também pode me perguntar, amado homem, por que estou falando de sexo num blog sobre assexualidade. Isso é porque o mesmo patriarcado que mata de forma gritante as minhas irmãs negras e trans não permite que minhas irmãs assexuais se assumam como tal. Como já disse, uma mulher tem a obrigação de estar sexualmente disponível para os homens que a desejam, e isso tira de suas mãos o poder de se assumir assexual perante a sociedade – e, muitas vezes, perante si mesma. Se ela o faz, será questionada; morrerá sozinha, não será feliz. Muitas nem consideram a assexualidade como uma opção para sua identidade, não só porque não a conhecem, mas também porque não nos é dada essa opção. Precisamos nos casar com um homem, satisfazê-lo e ter filhos com ele, ou jamais alcançaremos a felicidade plena. Daí, você, louvado homem, também pode concluir que não temos direito a ser lésbicas, e isso é verdade. Mulher com mulher só é aceito em filmes pornôs, quando ambas estão ali para dar prazer a – adivinhe – homens, como você.

Por tudo isso, querido homem, não me dê parabéns. Muito menos uma rosa. O melhor presente que você pode me dar é reconhecer que não existe mérito nenhum em ser mulher.

A “ninfomania social” ou Como a militância assexual pode ajudar pessoas sexuais

tw: exemplos de: transfobia, lesbofobia, homofobia, afobia

Vivemos numa sociedade viciada em sexo. Talvez isso seja mais fácil de perceber para uma pessoa assexual, vítima direta da ninfomania da sociedade, mas o sucesso das pessoas – de todas as pessoas – está, de certa forma, ligado ao sexo. Um homem bem-sucedido não é aquele que tem cinco casas na Europa, dez carros importados e um quarteirão na Avenida Paulista, mas sim o homem que penetra muitas vaginas (até porque, quando um homem tem cinco casas na Europa, dez carros importados e um quarteirão na Avenida Paulista, ele “deve pegar todas”). A mulher bem-sucedida é aquela que tem um homem, é a “bem-comida” (ou “bem-amada” para pessoas mais tímidas), a que é penetrada, mas não por muitos homens, apenas por um. Na sociedade ninfomaníaca, os papéis de gênero são complementares, mas também contraditórios: homens devem penetrar muito, mulheres devem deixar ser penetradas. Homens devem ter múltiplas parceiras, mulheres devem ser fiéis; mas ambos necessitam do sexo para sua felicidade, para seu bem-estar pleno. Mesmo pessoas que fujam do padrão heteronormativo caem nesses papéis. O homem gay também deve penetrar para ser um homem; gays passivos, principalmente afeminados, não são aceitos nem no meio LGBT. Para a sociedade ninfomaníaca, que também é falocêntrica, transfóbica e binarista, o sexo lésbico não existe, é “só uma brincadeira”, e por isso não existem lésbicas ativas – afinal, elas precisariam de um pênis para penetrar vaginas, e mulheres trans que não fizeram a cirurgia de redesignação não são mulheres “de verdade”, logo, não podem ser lésbicas.

Isso se traduz de forma bastante clara em jogos online, por exemplo. Tomando o World of Warcraft como exemplo – um jogo que adoro e o que mais entendo -, uma pessoa, para ser boa no jogo, precisaria ter um personagem no nível 100, com equipamentos épicos, um anel lendário e um dano por segundo incrivelmente alto; mas nada disso é o suficiente se o dito jogador não tiver uma namorada. Sim, no feminino, porque um bom jogador só pode ser homem e só pode penetrar vaginas. Relacionamentos amorosos/sexuais com homens são inadmissíveis, a menos que você “goste” de ser xingado a cada login. Caso o homem em questão se relacione com uma mulher trans, ele será eternamente ridicularizado por ter “caído na mentira” dela.

Para uma criança, um adolescente ou um adulto que ainda não tenha formado sua personalidade, a ninfomania da nossa sociedade é extremamente danosa. Com o indivíduo suscetível a qualquer tipo de propaganda, bombardeá-lo com a ideia de que ter uma vida sexual badalada é ser saudável, feliz e bem-sucedido faz com que ele se envolva em situações que, muitas vezes, não são exatamente consentidas. E, mesmo quando o são, talvez não fossem se a pessoa tivesse escolha. Infelizmente, nosso consentimento nem sempre parte de nós; quando nos forçamos a pensar que o sexo nos fará felizes, mantemos relações sexuais com quaisquer pessoas para alcançar essa felicidade. Muitas vezes nos arrependemos, e, depois de pensar um pouco, chegamos à conclusão de que nos forçamos a ter aquele momento, como se fosse nossa obrigação manter relações sexuais sempre que a oportunidade apareça. Caso isso não aconteça, somos moles, frouxes, não sabemos curtir a vida. (Não estou falando de pessoas, na maioria homens cis, que bebem até cair, ficam com uma pessoa que sofra preconceito, como travestis e mulheres gordas, e depois “se arrependem” disso. Essas pessoas são apenas preconceituosas.)

E onde entra a militância assexual nessa história toda? Obviamente, essa “ninfomania social” atinge pessoas assexuais. A maior parte dos casos de afobia que presenciei derivam dela. Somos aberrações, erros da humanidade por não ter interesse por sexo. Ao me reconhecer demissexual e começar a pensar nas relações de poder que me mantiveram presa à ideia de que fui doente até aquele momento, percebi tudo isso que foi explicitado até agora, e entendi que não era a única a sofrer com isso. Minhas amigas que foram forçadas a ter sua primeira vez num momento em que não queriam sofreram com isso. Meus amigos gays que foram forçados pelos pais a manter relações sexuais com mulheres sofreram com isso. Nenhuma dessas pessoas é assexual, mas elas também sofrem com a ninfomania da sociedade, muito embora poucas pensem sobre ela. Ao mesmo tempo, pessoas assexuais são invisibilizadas e silenciadas em todos os espaços: não existe “A” na sigla LGBT, e, recentemente, uma organização de lésbicas e gays dos Estados Unidos fez uma campanha afirmando que o “A” da sigla estendida LGBTQIA queria dizer “aliados” e não “assexuais” (caso completo aqui, em inglês). Por isso, mesmo em meios não-normativos, as pessoas tendem a acreditar que não existimos, e isso só reforça a ninfomania social, no sentido em que compactua com a ideia de que o sexo é necessário para o bem-estar dos seres humanos.

Com uma militância assexual bem organizada e bastante presente, a visibilidade assexual seria muito maior, e as pessoas saberiam que existimos, que não somos aberrações e nem deprimidos – pelo menos não pelo fato de sermos assexuais. Isso levaria mais pessoas à reflexão que acabei de fazer sobre a ninfomania da sociedade, e elas concluiriam que é necessário subverter esse processo para que a adolescência e a vida adulta sejam fases menos traumáticas na vida de muitas pessoas, assexuais ou não. Isso também contribuiria para a não sexualização da infância: a partir do momento em que se assume que nem todas as pessoas possuem necessidade de fazer sexo, a pressão para que façam diminui, e perguntas como “você já tem namoradinhes?” param de ser feitas para crianças de cinco anos, por exemplo. No entanto, o sonho de uma sociedade menos ninfomaníaca está bem longe de ser alcançado por vários fatores. O mais proeminente deles, ao meu ver, é a falta de discussão sobre a compulsoriedade do sexo, mas podemos citar também interesses comerciais (afinal, indústrias de camisinhas, testes de gravidez, anticoncepcionais e brinquedos eróticos não ficariam felizes caso uma parcela de seus consumidores tivesse a liberdade de se assumir assexual).

E não é necessário temer um colapso da vida humana caso a sociedade deixe de ser ninfomaníaca: o número de pessoas que sentem atração sexual continuará maior que o número das pessoas que não sentem, o que desaparecerá será a pressão. Além disso, nosso modelo contemporâneo de alimentação e o estresse em que vivemos favorece doenças reprodutivas em homens e mulheres e aumenta os níveis de esterilidade em casais heterossexuais cisgênero. Se você realmente se preocupa com a perpetuação da espécie humana, campanhas para uma melhor alimentação e uma vida mais tranquila, além de militância ambiental, para que os recursos naturais tornem possível a procriação, são muito mais urgentes do que campanhas contra homossexuais ou assexuais.

Sobre dor crônica e auto-aceitação

Este provavelmente vai ser o meu post mais íntimo até agora no blog, então apenas continue se estiver disposte a ler sobre minhas experiências.

Eu tenho fibromialgia, uma condição crônica que causa dor em músculos, tendões e articulações, além de dificuldades para dormir, percepção aumentada à dor, parestesia (sensações como formigamento ou bichinhos andando na pele), dores de cabeça, falta de disposição e problemas intestinais e urinários. Nada, desde o diagnóstico até o tratamento, é muito certo em fibromialgia. Diagnostica-se fibromialgia descartando todas as outras hipóteses, e por isso muita gente acredita que fibromialgia seja o nome não de uma síndrome, mas de várias, que médicxs ainda não conseguem diagnosticar precisamente e/ou ainda não descobriram. O tratamento pode ser feito de várias formas, mas sabe-se que exercícios ajudam a melhorar a dor, bem como antidepressivos tricíclicos, opioides e canabinoides (mas muita gente tem dificuldade em responder a um ou mais desses medicamentos).

Não vou mentir, viver com dor não é fácil. Ninguém gosta de sentir dor, tanto que a evitamos de todas as formas, e, quando a temos, tentamos nos livrar dela o mais rápido possível. Eu não tenho como me livrar da minha dor. Respondo muito mal a antidepressivos tricíclicos e opioides, e o acesso a canabinoides no Brasil é muito limitado. No caso da fibromialgia, a dor oscila: em alguns dias está muito ruim, em outros nem tanto. Mas, mesmo nos dias em que ela está muito ruim, eu consigo me adaptar bem a ela, esquecer que ela está ali e continuar fazendo minhas tarefas – não normalmente, é claro, mas com uma produtividade baixa, o que é melhor do que produtividade nenhuma. Algumas coisas não consigo mais fazer, como subir muitos lances de escada ou correr por muito tempo (o que é triste para quem jogava futebol quando criança). É óbvio que eu não gosto de ter fibromialgia, mas, por mais contrariada que seja, preciso admitir que ter dor crônica me ajudou a me aceitar melhor.

A palavra de ordem quando se vive com dor crônica e se quer ter uma relação minimamente saudável com o próprio corpo é paciência. Na maioria do tempo, o seu corpo não vai acompanhar o ritmo que você gostaria que ele acompanhasse, e, principalmente, não vai acompanhar o ritmo da sua mente. Eu posso planejar meu dia todo indo a mil lugares, fazendo mil coisas, mas, se ao sair de casa alguém me der uma cotovelada, a disposição pode acabar aí. Uma cotovelada “de nada” pode significar uma dor terrível para mim. Sabe quando você está parade e passa alguém e te acerta uma cotovelada em cima da dobra do braço? Dor horrível. Sabe quando você bate as costas na maçaneta da porta? A morte encarnada. Sabe quando dá um encontrão de leve com a porta do guarda-roupa? Amostra grátis do inferno. Claro que não é sempre assim; nos dias em que a dor está mais suportável, a sensibilidade geralmente também está, mas a dor que eu sinto continua sendo pior do que a dor que uma pessoa com sensibilidade normal sente, então acidentes corriqueiros podem ser um transtorno horrendo para mim. Além disso, sair de casa é um problema porque, além da dor física, dói muito não conseguir andar rápido (principalmente morando em São Paulo), ter medo de cair a cada passo, não conseguir subir escadas que não sejam rolantes sem demorar dois minutos em cada degrau, andar desviando das pessoas (porque, como eu disse, um encontrão pode acabar com um dia produtivo), não conseguir subir no ônibus e/ou ficar de pé nele, enfim, dói muito não conseguir fazer coisas que uma pessoa como eu, de 21 anos, deveria conseguir. E não é que doa fisicamente. O que dói são os olhares das pessoas que não conseguem entender por que uma menina tão jovem precisa se apoiar no guarda-chuva para andar.

Depois de muito tempo convivendo com tudo isso, eu finalmente entendi que as pessoas não parariam de olhar. A dor também não pararia de acontecer. O que eu precisava fazer era aprender a conviver não só com os sintomas físicos da fibromialgia, mas também com seus sintomas sociais, e aqui estou falando de capacitismo. Por isso a paciência. Quando comecei a ser mais paciente comigo mesma, entendendo que, se não posso descer a escada rolante, devo ficar do lado esquerdo para que as pessoas passem e não me pressionar a descer, também comecei a ser mais paciente com os outros. As pessoas olham e julgam, mas que olhem e julguem! Obviamente ninguém pensa que eu posso ter uma condição crônica que me causa dor e por isso uso o elevador do metrô apesar de parecer saudável, e isso não é problema meu. Essas pessoas precisam desconstruir o próprio capacitismo, e eu não preciso me sentir mal por isso. Quando entendi que não era um problema andar devagar e dar tempo ao meu corpo para que a dor parei de detestar a ideia de sentir dor. Dor é parte da minha vida. Sempre sinto e sempre vou sentir. O que cabe a mim é apenas aceitar que meus limites são mais estreitos que os dos meus amigos, e que nem sempre eu vou conseguir subir as escadas para chegar ao xerox da faculdade.

Aceitar-se não é um processo fácil, e também não foi fácil aceitar a minha dor. Eu ainda não gosto de senti-la, mas, a partir do momento em que aceitei que ela fazia parte de mim e não era algo alienígena, como um vírus ou uma bactéria, ficou mais fácil aceitar outras coisas, como a minha celulite, minhas espinhas, minhas cicatrizes, minhas alergias, minha barriga, enfim, todas as minhas falhas. É claro que não aceitei todas, porque, como disse, aceitar-se é um processo complicado, e ninguém se aceita por completo, mas já melhorei muito. Ao entender que meu corpo era lento e, muitas vezes, incapaz de fazer coisas que outros corpos fazem, comecei a entender que o mesmo se aplica à minha mente. No final, por mais que seja ruim conviver com dor, ela me ensinou que as pessoas são diferentes e merecem que seus limites sejam respeitados. E que isso começa com você mesmo aceitando seus próprios limites.

Conheço uma pessoa assexual, e agora?

Ao contrário de pessoas homo, bi e pansexuais, poucas pessoas assexuais sentem necessidade de se assumir. Eu, particularmente, senti essa necessidade, porque o fato de ser mulher implica em gravidez compulsória e disponibilidade sexual, e, sabendo que sou assexual, as cobranças seriam menos ferrenhas e/ou menos frequentes. Com ou sem essa necessidade, contudo, é provável que mães, pais, amigues e conhecides da pessoa assexual vão, em algum momento, ficar sabendo sobre a orientação sexual dessa pessoa, e suas cabeças ficarão cheias de dúvidas. E então vem aquela insegurança: tenho filhe/amigue/conhecide assexual, o que eu faço?

A primeira coisa que você tem que fazer quando alguém assume uma orientação sexual e/ou identidade de gênero não-normativa é respeitar. Pessoas assexuais querem respeito, da mesma forma que qualquer pessoa quer respeito. Respeitar uma pessoa assexual é deixá-la confortável no tocante à sua sexualidade. Não tenho como fazer uma lista completamente precisa de coisas que você não deve fazer se quiser respeitar uma pessoa assexual porque cada pessoa é uma, e cabe a você perguntar a ela o que a deixa desconfortável quando necessário, mas algumas coisas deixarão a maioria das pessoas assexuais desconfortáveis, por exemplo:

  • “mas todo mundo é um pouco assim”
  • “isso vai passar logo, você vai ver”
  • “é só você encontrar a pessoa certa que a vontade de fazer sexo aparece”
  • “não é porque você não gosta de sexo que precisa inventar um nome pra isso”
  • “se você saísse de casa não seria assim”
  • “então você é virgem?”
  • “mas você namorou tal pessoa durante anos e vem com esse papinho agora?”
  • “se você nunca fez sexo, como sabe que é assexual?”
  • “o que eu fiz de errado para você ficar assim?”
  • “você devia procurar um psicólogo/psiquiatra”

Entre outros comentários depreciativos, ofensivos e completamente desnecessários. Outro ponto a se pensar é sobre as perguntas; sua curiosidade sobre a vida de uma pessoa assexual vem da sua ignorância ou do fato de que você acha a orientação sexual dela tão exótica, tão diferente de tudo o que viu e concebeu na vida, que quer saber detalhes íntimos? Não é melhor considerar que assexuais são pessoas, assim como você, e pensar como você reagiria às mesmas perguntas e aos mesmos comentários, caso eles se referissem à sua orientação sexual? Para pessoas heterossexuais talvez essa projeção seja um pouco diferente, e até mais difícil, porque elas não estão acostumadas a ser oprimidas por sua orientação sexual, mas com um pouco de esforço e empatia, tudo se resolve.

Fora isso, se o seu relacionamento com a pessoa assexual em questão é saudável, não há nada que precise ser mudado nele. Ela continua sendo a mesma pessoa, e você também; qual o sentido de mudar seu relacionamento só porque você soube que a pessoa não sente atração sexual da forma que você sente? O que isso muda na sua vida? Não acha que a atração que essa pessoa sente diz respeito somente a ela? Seja você mãe, pai ou amigue da pessoa assexual em questão, por quem, como, quando e por que ela sente atração sexual não é da sua conta, a menos que a própria pessoa resolva falar disso com você ou pedir sua opinião. E, mesmo assim, muitos detalhes ainda não serão da sua conta. Ou seja: não pressione. Se a pessoa quiser dar detalhes da sua vida sexual/amorosa para você e você estiver confortável com isso, ela dará. Não faz sentido ficar perguntando ou fazendo alusão a isso o tempo todo, mesmo que seja para reforçar que você sabe que a pessoa não sente atração alguma. Comentários como “você vai morrer sozinhe” ou “agora eu sei que você nunca vai engravidar, mesmo” não ajudam e só colocam para baixo, além de ser preconceituosos em vários níveis.

Se você lê em inglês, recomendo também o FAQ da AVEN para família e amigues de pessoas assexuais. Senão, pode conferir o FAQ para esposes/namorades de pessoas assexuais ou o FAQ para pais de pessoas assexuais no site da Comunidade Assexual.

Tudo tem limites, mas a zoeira…

Eu estou ciente de que este post pode me deixar infame nas interwebs. Isso é porque 2014 foi o ano da zoeira – e eu não me assustarei se 2015 também for. Com uma plataforma de disseminação rápida como o facebook, as páginas de zoeira puderam se espalhar, e elas existem de todas as formas possíveis. Aí você me pergunta “mas Nathália, você vai querer ver problema até na zoeira agora?”, e eu respondo, não me leve a mal, eu também gosto de zoeira. Meus amigos que o digam. O problema é quando a zoeira não encontra limites, o que é fácil de acontecer na internet, porque, como todos nós sabemos, ela não tem limites.

Será?

A primeira notícia que eu li hoje foi a do suicídio de Leelah Alcorn. Não vou entrar em detalhes sobre esse caso no blog porque sou cis e não pretendo me meter numa luta que não é minha; se alguém quiser saber mais sobre a luta das pessoas transgêneras binárias, pode seguir o perfil da Daniela Andrade e do João Nery no facebook, por exemplo, ou ler o Batatinhas ou o Nonbinary.org, se quiser saber sobre a luta das pessoas não-binárias. O foco desse post não é o fato da Leelah ser trans, mas sim, o seu suicídio. A notícia dele me fez lembrar de todas as vezes que eu vi piadas de extremo mau gosto sobre suicidas na internet (e fora dela também), e sobre todo tipo de assunto com o qual não se faz piadas. Se você ainda não pegou o espírito da coisa, vou dar alguns exemplos (dos assuntos, não das piadas, não quero que esse post seja trigger para ninguém): transtornos alimentares, depressão, transtornos de personalidade, violência doméstica, infanticídio, estupro, pedofilia… Eu podia ficar aqui fazendo essa lista até o final de 2015, mas acho que agora já deu para ter uma ideia. A maioria das pessoas que eu conheço tem o bom senso de saber que não se faz piada com esses assuntos pesados, que podem causar emoções muito negativas em algumas pessoas, mas tem gente que sempre me pergunta “por que eu não posso fazer piada com [insira assunto sensível aqui]”.

Bom, vamos imaginar uma situação. Pense na pessoa que você mais ama. Pense nos momentos bons que você já passou com essa pessoa, em todas as vezes que vocês riram juntes, jogaram juntes, se divertiram juntes. Pode até pensar nas brigas, se elas fizeram as duas pessoas mais felizes, no final. Pensou? Ok, então agora pense em como você se sentiria se essa pessoa morresse. A menos que a situação de morte de alguém querido não seja traumática para você (o que também não é exatamente errado), você vai ficar muito triste por bastante tempo. Imagine, agora, que a perda dessa pessoa foi tão traumática que você desenvolveu transtorno do estresse pós-traumático (TEPT). Imagine, também, que essa pessoa querida tenha morrido atacada por um gorila. Então, oito meses depois da morte dessa pessoa, quando seu TEPT está bem estabelecido e você não consegue superar essa perda de forma alguma, você está, em um dia tranquilo e razoavelmente alegre, olhando o facebook, quando vê um vídeo de uma pessoa sendo atacada por um gorila. Você vai, imediatamente, começar a ter sintomas de ansiedade e estresse intensos, e provavelmente terá um ataque de raiva, pânico ou qualquer outro tipo de reação emocional muito negativa. Bom, o mesmo aconteceria se aparecesse um vídeo de uma pessoa contando uma piada sobre pessoas que foram atacadas por um gorila, ou algo assim.

E aí me perguntam de novo: “mas as pessoas têm traumas com todo tipo de coisa, eu vou parar de fazer piadas completamente?”, e novamente eu respondo, não. O caso que eu peguei foi obviamente exagerado. Alguns assuntos, como aqueles que eu citei no começo, são sensíveis para a maioria das pessoas que já tenha passado por essa experiência e/ou seus entes queridos. É claro, existem os que lutam contra um TEPT ou uma depressão ou qualquer tipo de emoção negativa fazendo piada, mas não é justo e nem compensa fazer milhares de pessoas sofrerem porque uma ou duas delas ia gostar desse tipo de piada. É o mesmo caso da cantada de rua: a grande maioria das mulheres alega não gostar; é justo continuar com as cantadas por causa das que alegam gostar delas? E eu sei, às vezes é difícil saber qual ou quais assuntos evitar fazer piada sobre, então eu fiz uma lista para ninguém ficar perdide.

  • suicídio
  • transtornos mentais
  • transtornos alimentares
  • transfobia, lesbofobia, bifobia, homofobia
  • racismo
  • classismo
  • capacitismo
  • gordofobia
  • escravidão
  • violência doméstica
  • violência contra a mulher
  • estupro
  • assassinato (e aí pode incluir o feminicídio e o infanticídio)
  • pedofilia
  • abusos físicos, emocionais e sexuais
  • qualquer coisa que viole os direitos humanos

É claro que ficou faltando coisa, porque eu não vou lembrar de tudo agora, mas a dica é que, antes de fazer uma piada, faça duas perguntas a si mesme: 1) alguém precisa se tratar para se livrar desta coisa sobre a qual eu vou fazer a minha piada? 2) existe algum grupo organizado que lute contra o assunto da minha piada? Se a resposta para uma dessas perguntas for sim, NÃO FAÇA, ou você é um babaca.