capitalismo

Para conhecer o seu corpo

Hoje, a seção TAB do Uol postou um infográfico esteticamente maravilhoso (mas que demora um pouco para carregar com conexões lentas) sobre a assexualidade, repleto de imagens de bolos sendo obscenamente cobertos por caldas de chocolate e cortados (para ser devorados por alguém que não sou eu, o que é triste). As pessoas que contribuíram para a elaboração desse infográfico foram muito felizes em diversos aspectos, deixando bastante claro o quanto somos felizes sem sexo, ou sem a necessidade de fazê-lo. No final da página, há um teste para saber se você é assexual ou só “tem preguiça” de fazer sexo. Eu já estava esperando que não concordasse com a matéria inteira, afinal, é muito difícil concordar inteiramente com o pensamento dos outros, então a presença desse teste não me surpreendeu. Já disse aqui, algumas vezes, e volto a bater na tecla: ninguém pode te dizer se você é assexual ou não, e “preguiça de fazer sexo” pode significar assexualidade, sim – da mesma forma que pode não significá-la. A ajuda de profissionais da medicina e da psicologia pode ser importante caso você desconfie que a sua falta de libido seja uma doença, mas a única pessoa que pode afirmar qualquer sobre sobre a sua sexualidade é você. (Se você ainda tiver dúvidas quanto a isso, sugiro a leitura do post Eu sou assexual?)

Uma das perguntas desse teste é: “Você se masturba com qual frequência?”, e as respostas possíveis são: “Com frequência”, “Evito me masturbar”, “Diariamente, às vezes mais de uma vez por dia”, “Apenas quando o corpo pede”. Torci um pouco o nariz para essa pergunta, e por isso marquei a primeira opção, e continuei o teste normalmente. O resultado foi “assex”. Refiz o teste, agora colocando a terceira opção para essa pergunta, e, novamente, o resultado foi “assex”. Isso me deixou um pouco mais aliviada, porque parece que esse teste não leva muito em consideração a frequência com a qual você se masturba para dizer se você é assexual ou não. Isso é bom. Significa que pessoas sexuais (ou alossexuais) estão entendendo o que é a assexualidade e que ela não necessariamente tem a ver com a sua relação com o seu corpo. Na maioria das vezes em que me foram feitas perguntas sobre a assexualidade, a masturbação apareceu de alguma forma, sutil ou não, no meio da conversa, e eu sempre digo o mesmo: não existe uma lei que proíba pessoas assexuais de se masturbarem, seja porque sentem desejo por si próprias ou porque têm vontade de sentir prazer sexual. Algumas pessoas assexuais sentem prazer sexual, e, dado que não há atração por outras pessoas, a masturbação é uma boa forma de alcançar esse prazer.

Mas o prazer sexual não é a única recompensa que a masturbação nos oferece. Masturbar-se é uma prática saudável porque alivia o estresse, já que os neurotransmissores liberados durante a masturbação (e também durante o sexo) favorecem o relaxamento; melhora a dor de cabeça, por causa das substâncias prazerosas que o cérebro produz durante o processo; melhora o tônus muscular, porque a masturbação e o sexo movimentam os músculos e servem como atividade física; e, acima de tudo, ajuda você a conhecer o seu corpo. Principalmente para mulheres, cuja masturbação e cujo corpo são assuntos velados, tocar-se é muito importante. Sem se tocar, você não vai saber como você é, do que você gosta, de onde você gosta que coloquem a mão. Tocar-se aumenta seu grau de intimidade com você mesme, te torna amigue íntime do seu corpo. Ser assexual não deve privar você de todas essas coisas boas que vêm com a masturbação; não é porque você não sente atração por outras pessoas que não deve se masturbar, sentir prazer sexual com você mesme, ou até mesmo com outra pessoa com quem você se sinta à vontade. Não é um encontro sexual ou uma prática comum de masturbação que vai tirar sua carteirinha de assexual.

Acontece que tem muita gente que não gosta de se masturbar, não necessariamente porque se reprime. Tem gente que sente dor, tem gente que não está confortável o suficiente para fazer isso, e tem gente que não gosta da ideia de tocar os próprios genitais; por isso, apresento aqui algumas outras formas de conhecer o seu corpo (e também a sua alma), que podem ser úteis para quem não se masturba, e também para quem quer explorar-se de outras formas.

Vista várias roupas diferentes e veja como elas se adaptam ao seu corpo. Essa história de que o seu corpo precisa entrar nas roupas, e por isso você tem que fazer mil dietas para entrar naquele vestido dois números menor que o seu e que você vai usar na sexta, é só um artifício do mercado para que você compre a ideia de corpo magro = corpo bonito. As roupas são os produtos industrializados feitos para servir o seu corpo, não o contrário; logo, elas precisam se adaptar ao seu corpo, não o contrário. Tire várias roupas do seu armário, de modelos diferentes, de festa e de dia-a-dia, e vá vestindo. Sinta o tecido tocando a sua pele e veja como ele se molda ao contorno do seu corpo. Aprecie a sua silhueta, ela é única e perfeita para você. Caso algumas das roupas não te sirva mais, ótimo! Pegue uma caixa de papelão, coloque todas essas roupas que não se adaptam mais ao seu corpo e doe para alguém que esteja precisando.

Dance. Dançar alegra, além de te deixar mais íntime dos seus músculos, da força das suas pernas e braços, e, consequentemente, do seu corpo. Caso a dança seja de salão, você ainda vai conseguir trabalhar sua relação com outras pessoas. Dança do ventre e pole dance trabalham ainda a sensualidade e a sua relação com ela. Além disso, dançar, assim como se masturbar, libera substâncias prazerosas no seu cérebro, e você vai sentir menos dor muscular, menos dor de cabeça e menos tristeza. Dançar na frente do espelho vai te ajudar a enxergar e aceitar a forma como seu corpo se movimenta.

Lute. Lutar é ótimo para extravasar a raiva! Com a onda recente do muay thai, kickboxing e outras lutas como forma de emagrecimento, vai ser bem fácil encontrar um lugar que ofereça aulas de lutas. Lutar também melhora o tônus muscular, te ajuda a conhecer os limites do seu corpo e aceitar a forma como sua mente e seu corpo reagem a situações de tensão e alerta. Além de tudo isso, você ainda ganha mais uma forma para se defender de violências.

Saia sozinhe. Vá ao shopping, veja um filme, faça uma refeição, tudo isso com você mesme como companhia. Sair com amigues é bom, mas a conversa pode ofuscar seus pensamentos. Além disso, sair na sua própria companhia te ajuda a ter mais paciência com você mesme, além de se entender mais e se importar menos com os olhares e as conversas das pessoas ao seu redor. Quantos filmes você viu nesse ano? Você veria todos eles se estivesse sozinhe ou viu alguns por influência das pessoas que estavam com você? Quantas refeições você fez acompanhade? Teria feito todas elas da mesma forma ou alguns itens do seu prato foram influência das pessoas que estavam com você? A resposta para essas perguntas está em se conhecer, em saber como você agiria se estivesse sozinhe.

É claro que essas são apenas sugestões: você pode procurar a forma de se conhecer que combine mais com você, com as suas demandas e seus traumas. Além disso, caso você tenha problemas com alguma dessas práticas, não a faça! Não se expor a situações traumáticas também é importante na hora de se conhecer. Considerando tudo isso, o resto é por sua conta. Boa sorte nessa empreitada para conhecer seu corpo e sua mente!

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A “ninfomania social” ou Como a militância assexual pode ajudar pessoas sexuais

tw: exemplos de: transfobia, lesbofobia, homofobia, afobia

Vivemos numa sociedade viciada em sexo. Talvez isso seja mais fácil de perceber para uma pessoa assexual, vítima direta da ninfomania da sociedade, mas o sucesso das pessoas – de todas as pessoas – está, de certa forma, ligado ao sexo. Um homem bem-sucedido não é aquele que tem cinco casas na Europa, dez carros importados e um quarteirão na Avenida Paulista, mas sim o homem que penetra muitas vaginas (até porque, quando um homem tem cinco casas na Europa, dez carros importados e um quarteirão na Avenida Paulista, ele “deve pegar todas”). A mulher bem-sucedida é aquela que tem um homem, é a “bem-comida” (ou “bem-amada” para pessoas mais tímidas), a que é penetrada, mas não por muitos homens, apenas por um. Na sociedade ninfomaníaca, os papéis de gênero são complementares, mas também contraditórios: homens devem penetrar muito, mulheres devem deixar ser penetradas. Homens devem ter múltiplas parceiras, mulheres devem ser fiéis; mas ambos necessitam do sexo para sua felicidade, para seu bem-estar pleno. Mesmo pessoas que fujam do padrão heteronormativo caem nesses papéis. O homem gay também deve penetrar para ser um homem; gays passivos, principalmente afeminados, não são aceitos nem no meio LGBT. Para a sociedade ninfomaníaca, que também é falocêntrica, transfóbica e binarista, o sexo lésbico não existe, é “só uma brincadeira”, e por isso não existem lésbicas ativas – afinal, elas precisariam de um pênis para penetrar vaginas, e mulheres trans que não fizeram a cirurgia de redesignação não são mulheres “de verdade”, logo, não podem ser lésbicas.

Isso se traduz de forma bastante clara em jogos online, por exemplo. Tomando o World of Warcraft como exemplo – um jogo que adoro e o que mais entendo -, uma pessoa, para ser boa no jogo, precisaria ter um personagem no nível 100, com equipamentos épicos, um anel lendário e um dano por segundo incrivelmente alto; mas nada disso é o suficiente se o dito jogador não tiver uma namorada. Sim, no feminino, porque um bom jogador só pode ser homem e só pode penetrar vaginas. Relacionamentos amorosos/sexuais com homens são inadmissíveis, a menos que você “goste” de ser xingado a cada login. Caso o homem em questão se relacione com uma mulher trans, ele será eternamente ridicularizado por ter “caído na mentira” dela.

Para uma criança, um adolescente ou um adulto que ainda não tenha formado sua personalidade, a ninfomania da nossa sociedade é extremamente danosa. Com o indivíduo suscetível a qualquer tipo de propaganda, bombardeá-lo com a ideia de que ter uma vida sexual badalada é ser saudável, feliz e bem-sucedido faz com que ele se envolva em situações que, muitas vezes, não são exatamente consentidas. E, mesmo quando o são, talvez não fossem se a pessoa tivesse escolha. Infelizmente, nosso consentimento nem sempre parte de nós; quando nos forçamos a pensar que o sexo nos fará felizes, mantemos relações sexuais com quaisquer pessoas para alcançar essa felicidade. Muitas vezes nos arrependemos, e, depois de pensar um pouco, chegamos à conclusão de que nos forçamos a ter aquele momento, como se fosse nossa obrigação manter relações sexuais sempre que a oportunidade apareça. Caso isso não aconteça, somos moles, frouxes, não sabemos curtir a vida. (Não estou falando de pessoas, na maioria homens cis, que bebem até cair, ficam com uma pessoa que sofra preconceito, como travestis e mulheres gordas, e depois “se arrependem” disso. Essas pessoas são apenas preconceituosas.)

E onde entra a militância assexual nessa história toda? Obviamente, essa “ninfomania social” atinge pessoas assexuais. A maior parte dos casos de afobia que presenciei derivam dela. Somos aberrações, erros da humanidade por não ter interesse por sexo. Ao me reconhecer demissexual e começar a pensar nas relações de poder que me mantiveram presa à ideia de que fui doente até aquele momento, percebi tudo isso que foi explicitado até agora, e entendi que não era a única a sofrer com isso. Minhas amigas que foram forçadas a ter sua primeira vez num momento em que não queriam sofreram com isso. Meus amigos gays que foram forçados pelos pais a manter relações sexuais com mulheres sofreram com isso. Nenhuma dessas pessoas é assexual, mas elas também sofrem com a ninfomania da sociedade, muito embora poucas pensem sobre ela. Ao mesmo tempo, pessoas assexuais são invisibilizadas e silenciadas em todos os espaços: não existe “A” na sigla LGBT, e, recentemente, uma organização de lésbicas e gays dos Estados Unidos fez uma campanha afirmando que o “A” da sigla estendida LGBTQIA queria dizer “aliados” e não “assexuais” (caso completo aqui, em inglês). Por isso, mesmo em meios não-normativos, as pessoas tendem a acreditar que não existimos, e isso só reforça a ninfomania social, no sentido em que compactua com a ideia de que o sexo é necessário para o bem-estar dos seres humanos.

Com uma militância assexual bem organizada e bastante presente, a visibilidade assexual seria muito maior, e as pessoas saberiam que existimos, que não somos aberrações e nem deprimidos – pelo menos não pelo fato de sermos assexuais. Isso levaria mais pessoas à reflexão que acabei de fazer sobre a ninfomania da sociedade, e elas concluiriam que é necessário subverter esse processo para que a adolescência e a vida adulta sejam fases menos traumáticas na vida de muitas pessoas, assexuais ou não. Isso também contribuiria para a não sexualização da infância: a partir do momento em que se assume que nem todas as pessoas possuem necessidade de fazer sexo, a pressão para que façam diminui, e perguntas como “você já tem namoradinhes?” param de ser feitas para crianças de cinco anos, por exemplo. No entanto, o sonho de uma sociedade menos ninfomaníaca está bem longe de ser alcançado por vários fatores. O mais proeminente deles, ao meu ver, é a falta de discussão sobre a compulsoriedade do sexo, mas podemos citar também interesses comerciais (afinal, indústrias de camisinhas, testes de gravidez, anticoncepcionais e brinquedos eróticos não ficariam felizes caso uma parcela de seus consumidores tivesse a liberdade de se assumir assexual).

E não é necessário temer um colapso da vida humana caso a sociedade deixe de ser ninfomaníaca: o número de pessoas que sentem atração sexual continuará maior que o número das pessoas que não sentem, o que desaparecerá será a pressão. Além disso, nosso modelo contemporâneo de alimentação e o estresse em que vivemos favorece doenças reprodutivas em homens e mulheres e aumenta os níveis de esterilidade em casais heterossexuais cisgênero. Se você realmente se preocupa com a perpetuação da espécie humana, campanhas para uma melhor alimentação e uma vida mais tranquila, além de militância ambiental, para que os recursos naturais tornem possível a procriação, são muito mais urgentes do que campanhas contra homossexuais ou assexuais.

“Mas ela era tão bonita!”

A beleza sempre me intrigou. Quando bem jovem (criança, mesmo) participei de inúmeras seleções para agências de modelos até conseguir uma que me aceitasse apesar dos quilos a mais, e, nesse tempo, testemunhei uma corrida insana para se conseguir e/ou se manter a beleza. Mesmo entre crianças, a competição para ver qual das meninas era mais bonita, qual tinha o acessório mais bonito no cabelo, qual tinha conseguido desfilar de salto (!) sem perder o equilíbrio era muito grande. As minhas colegas de profissão se orgulhavam de conseguir ficar horas e horas sentadas numa cadeira de salão tratando do cabelo para uma sessão de fotos que não duraria mais que trinta minutos, ou de conseguir empilhar uma biblioteca na cabeça. Fui modelo por pouco tempo, mas, enquanto o fui, me assustei muito com a indústria da beleza. Eu não compreendia o que era aquilo, por que aquilo acontecia, mas sabia que não queria deixar que um batom e um salto 15 tomassem conta da minha vida.

Fui crescendo, e as coisas não pareciam melhorar. Sempre, antes de sair de casa, minha mãe me perguntava se eu “não ia passar um batomzinho”. A resposta era quase sempre não, porque eu não gostava de usar maquiagem, apesar de gostar muito de passá-la no rosto; no começo, ela insistia e até brigava comigo por isso, mas depois foi desistindo, sempre me lembrando de que menino nenhum ia gostar de mim assim. Até hoje, por alguma razão que não consigo entender, me sinto extremamente desconfortável quando me dizem que estou bonita, principalmente se esse elogio partir dos meus pais. Talvez por isso, ou talvez pelo grande susto que a indústria da beleza me proporcionou na infância, eu não consiga entender por que a beleza é tão valorizada pelas pessoas. Beleza vende, principalmente a feminina – que foi feita para ser usada e observada, segundo a cultura patriarcal, que é a raiz e o caule da indústria da beleza -, e todos compram o ideal do belo, de que ser bonito é sinônimo de ser bem-sucedide.

Prova disso é que, quando uma pessoa jovem morre, três coisas são geralmente ressaltadas pelas pessoas que a conheciam: inteligência, alegria e beleza, três características bastante apreciadas pelo capitalismo. Dessas, a beleza é a que mais me intriga quando ressaltada dessa forma: qual o problema de uma pessoa considerada bela morrer? Depois de muito pensar, cheguei à conclusão de que, muitas vezes, pessoas consideradas belas dentro do padrão não são lembradas pelos outros como pessoas. Elas são mais que pessoas, um tipo de semideusas, intocáveis e inabaláveis; não dormem, não comem, não têm necessidades fisiológicas e, acima de tudo, não morrem. Sumarizando, não têm os problemas que as pessoas comuns, que não são exageradamente belas, possuem, e isso faz com que os “pobres mortais” se choquem ao perceber que sim, elas são pessoas, tal qual nós.

Não estou dizendo que exista preconceito ou discriminação contra pessoas belas. Pelo contrário: pessoas consideradas feias sofrem muito, seja para arranjar um emprego, companheire ou amizades, e não existe simetria em dizer que pessoas consideradas belas sofrem do mesmo jeito. O que existe é um sentimento coletivo de que o que vendem na mídia como belo é, na verdade, perfeito, sobreumano, inalcançável de tal forma que as pessoas que possuem esse “dom” deixam de ser seres humanos para se tornar uma coisa acima disso. Esse pensamento é nocivo de diversas formas. Primeiro, gera problemas epidemiológicos como transtornos alimentares e de humor, tanto que as passarelas passaram a repudiar modelos excessivamente magras por incitar esse tipo de doença. Segundo, cria sobre as pessoas, principalmente mulheres, uma expectativa irreal de beleza. Espera-se que mulheres sempre usem camadas e camadas de maquiagem para esconder imperfeições que todos têm, mas que são incompatíveis com o ideal de beleza; espera-se que se faça horas e horas de ginástica para perder quilos que não são nocivos para a saúde e, inicialmente, nem para a autoestima da pessoa. Daí vem a exclusão social de pessoas consideradas feias, que são vistas como “descuidadas de si mesmas”.

Apesar de ser um conceito subjetivo, a beleza está no imaginário das pessoas como algo unificado, uniforme e padronizado, como se seres humanos saíssem de uma fábrica, todes prontes para se tornar o impossível: a pessoa bela e perfeita, endeusada e sobreumana que estampa capas de revistas e outdoors.

O amor é capitalista

Eu ensaiei muito esse post. Muito mesmo. Por várias razões. A principal é que, mesmo fazendo essa associação desde criança, eu nunca li o suficiente a respeito para ter uma opinião mais madura do que aquela que formo sozinha. Depois, estava tentando reunir exemplos o suficiente para falar disso, e, apesar de não tê-lo feito de forma satisfatória para mim, provavelmente vou voltar ao assunto, então farei uma introdução hoje e, no futuro, aprofundarei meus conhecimentos e os posts sobre amor e capitalismo.

Como já disse, penso nisso desde criança, e a primeira forma de amor com a qual uma criança tem contato é o amor fraternal (aquele que vem das pessoas que nos criam e de nosses irmãos e irmãs). Sou filha única, logo, o amor do qual estive exclusivamente próxima, até os 17 anos, foi o amor dos meus pais. Isso me fez pensar abundante e incessantemente sobre a natureza desse amor, que muitas vezes me parecia exageradamente protetor e possessivo. Claro, as pessoas adultas sempre fizeram questão de invalidar os meus questionamentos, dizendo que “quando você crescer, vai entender” ou “quando você for mãe, saberá do que estou falando”. Ainda não sou mãe, então não posso refutar a segunda afirmação, mas a primeira é claramente inválida, pelo menos no meu caso. Estou com 20 anos, o que pode não ser muito, mas já é o bastante para dizer com certeza que sou adulta e ainda não entendi por que o amor maternal e paternal precisa ser tão… Paternalista. Não entendi, mas tenho algumas hipóteses. A que me convence melhor é a de que isso acontece porque o amor, na nossa sociedade, é visto da mesma forma que todas as outras coisas e até mesmo pessoas: uma mercadoria, um objeto, que você pode obter e perder, que pode ser “comprado” e “roubado”.

Recentemente, minha mãe me deu um exemplo muito claro de que esse pensamento existe e do quanto está arraigado nas mentes das pessoas. Via facebook, ela compartilhou uma foto dizendo que o maior medo dos pais seria perder os filhos, ou coisa parecida, ao que eu argumentei que não se pode perder algo que nunca foi sua propriedade. Ela, mais que depressa, refutou que eu sou, sim, propriedade dela, que ela é minha dona, pura e simplesmente por ser minha mãe. É óbvio que ela não usou essas palavras, mas a ideia geral era essa. Eu, então, pedi a ela que me mostrasse o certificado de propriedade, a nota fiscal, a escritura que me vinculava a ela dessa forma mercantil e capitalista, e foi aí que ela pensou que talvez, e apenas talvez, transformar pessoas em mercadorias não fosse algo tão legal assim, muito menos uma demonstração de amor. Porque é isso que as pessoas pensam: que ter umas às outras, agir como se o outro fosse sua propriedade é demonstração pura de amor. Eu mesma já pensei assim, e mesmo hoje tenho dificuldades para conter isso. É uma cultura hegemônica entre nós, que só será subvertida com a subversão da noção capitalista de que tudo tem um valor comercial, o que está bem longe de nós, mas não custa sonhar, não é?

Exemplos dessa visão capitalista do amor, que bota valor monetário em tudo e todos e aplica seus conceitos econômicos a tudo e a todos, são recorrentes nas relações entre pais e filhes. Dadas as devidas exceções, temos filhes para suprir uma necessidade pessoal de sermos mães ou pais, e não porque queremos fazer algo por uma criança ou pelo mundo ou qualquer coisa do tipo; tratamos nosses filhes como bonecas que fazem tudo o que queremos, ou como uma projeção de nós mesmos, um ser sem consciência, um objeto que só existe para nos agradar, e, quando isso não acontece, ficamos decepcionades; entendemos nosses filhes como nossa propriedade, e temos medo de que os “roubem” de nós, não só no sentido literal (como num sequestro, por exemplo), mas também no sentido figurado – afinal, quantos pais não têm medo de que suas crianças arranjem amiguinhes e deixem-nos de lado?

A segunda forma de amor com a qual tive contato foi a amizade, que é, de longe, a mais desinteressada de todas as que experimentei. Ainda assim, algumas pessoas insistem que se pode “trocar” um amigue por outre, como se as duas (ou três, ou quatro, enfim) pessoas envolvidas fossem figurinhas do Harry Potter.

Depois da amizade, vem o amor romântico. Isso é particularmente difícil de falar no meu caso, porque é bastante recente e inclui muitas nuances da minha sexualidade, mas tentarei me desvincular disso, porque é tema de outro post. Por isso, falarei, especialmente, de relacionamentos que observei, seja entre meus pais, entre amigues, enfim. Todos esses relacionamentos eram monogâmicos, e a monogamia compulsória (ou seja, o sistema em que se impõe a todas as pessoas que elas devem ser monogâmicas para serem aceitas na sociedade) deixa bastante explícita a noção de que pessoas são mercadorias. Num relacionamento monogâmico faz-se um contrato de exclusividade, ou seja, as duas partes concordam em não desejar nem se relacionar com mais ninguém. Na minha opinião, isso, por si só, é tentar negar os sentimentos, o desejo e a expressão da sexualidade das pessoas, o que as reduz a objetos ou sombras de pessoas; afinal, como se pode ter certeza de que jamais haverá sentimentos por mais ninguém, ou, que seja, apenas o desejo? Se não se pode, o contrato é desonesto e torna-se inválido, a menos que ambas as partes também concordem em ignorar sumariamente essas partes de si mesmas e, eventualmente, tornarem-se propriedade do outro. Muitas vezes eu ouvi que os ciúmes são “medo de perder” alguém, e, como já citei, não se pode perder algo que não seja sua propriedade, o que confirma que os relacionamentos monogâmicos (e muitos relacionamentos não-monogâmicos também) são capitalistas na medida em que tratam as pessoas como objetos que podem ser roubados e perdidos.

Como última consideração, nossa linguagem corrobora tudo isso. “Meu” esposo, “minha” esposa, “meu” filho, “minha” filha, “meu” amigo, “minha” amiga, enfim, precisamos utilizar pronomes possessivos ao nos referirmos às pessoas que amamos, e não consigo pensar em nenhuma alternativa viável a isso. A cultura que transforma pessoas em objetos e mercadorias é onipresente e é quase impossível escapar dela, mas, quem sabe, não vivamos algum dia num mundo em que as pessoas sejam tratadas como pessoas e os objetos, como objetos?

Como o machismo me oprime

Esse é um daqueles posts que, por mais que eu escreva, vou continuar achando que está muito raso e que poderia ser maior. Como minha tendinite está atacada esses tempos, provavelmente ele ficará mesmo um pouco raso, mas esse é um assunto que será recorrente no blog; além disso, o meu objetivo não é e nunca foi dar todas as respostas para as perguntas que proponho nos títulos, mas sim plantar a sementinha da dúvida em quem ainda não tem e colocar um pouco de água na planta de quem já tem (e na minha também, óbvio).

Antes de qualquer coisa, esclareço que esse post vai focar na minha experiência enquanto mulher demissexual, porque não há como dissociar a minha assexualidade da minha identidade de gênero. Tudo faz parte de quem eu sou. Segunda coisa: o post não se chama “como o machismo me oprime” à toa; eu não quero e nunca quis representar todas as mulheres ou todes demissexuais. Por último, tomarei por base, para deixar as coisas mais palpáveis, a indústria. Mais especificamente, a indústria da música. Todo mundo sabe que o machismo é latente e praticamente não pode ser evitado na indústria musical, onde quer que seja; se não é pela hiperexposição dos corpos, assunto do qual vou tratar aqui, é pela vida pessoal des artistes, sempre escancarada pela mídia e alvo de todo tipo de críticas.

Por que escolhi a indústria da música? Porque ela me oferece vários clipes com exemplos de machismo e hipersexualização fáceis de identificar. Um deles é o clipe abaixo. É um clipe coreano, de uma música que eu adoro, de uma dupla chamada Troublemaker, composta pela Hyuna e pelo Hyunseung. Construirei meu raciocínio sobre a performance dos dois nesse vídeo, então, lá vai:

Vamos começar por 0:08 de vídeo. Nesse momento, temos Hyunseung vindo na direção da câmera, Hyuna na direção contrária, e, em menos de 10 segundos, eu já percebo que terei um enorme desgosto em ver esse clipe. O tamanho do vestido da Hyuna, a roupa do Hyunseung e a forma como eles andam já deixa isso bem claro para mim. Por que ela precisa andar desse jeito, rebolando, até mudando o salto de direção quando pisa – uma forma que absolutamente ninguém anda normalmente, mesmo de salto – e ele pode andar casualmente, como se estivesse indo pegar água na cozinha? Veja bem, eu não sou contra mulheres usando vestido curto, salto alto e rebolando. Pelo contrário, sou bastante a favor disso, contanto que seja escolha única e exclusivamente da mulher que o está fazendo, o que, no caso, não acontece. Além de Hyuna já ter dito, inúmeras vezes, que odeia essa máscara “sexy” que colocam nela nos clipes, ela está sendo paga por isso. Por uma empresa. Que pode e vai demiti-la se ela não fizer o que eles mandam.

Vamos pular para o intervalo entre 0:30 e 0:45 para comparar como os dois se portam na cadeira de couro. Hyunseung está sentado com pose de gangster, com duas mulheres rebolando do lado; Hyuna está sozinha, se contorcendo toda para mostrar sua cara “sexy” e suas pernas, que aparecem o tempo todo (meio off-topic, mas a Hyuna tem pernas lindas, é justo que apareçam). Agora eu vou pular para 1:25, e se você assistiu o vídeo até aqui sem pular desse jeito, percebeu que a Hyuna está sempre se esforçando muito para ser sexy, e que o Hyunseung não faz nada. Literalmente. Ele só fica lá, com essa pose de gangster, esse olhar meio indefinido e essas meninas rebolando em volta. Mas, em 1:25, começa a parte da dança solo da Hyuna. Ela dança com mais algumas meninas, e eu gosto muito dessa coreografia, mas nessa parte fica bastante claro que até o enquadramento da câmera está tentando hipersexualizá-la. Quando ela está de costas, a câmera fica baixa, perto dos pés dela, evidenciando o bumbum dela. Esse enquadramento mais baixo também acontece na parte da dança solo do Hyunseung (2:50), mas nunca de forma a evidenciar a bunda, as coxas ou qualquer coisa assim; é sempre uma câmera mais larga, que fica mais longe, dando para ver bem o cenário e os outros dançarinos.

Ok, não vou continuar analisando o vídeo. Acho que já deu para perceber que, durante o clipe todo, ela está tentando ser sexy e ele está sendo cool, afinal, homens não precisam tentar ser sexy, são as mulheres que precisam fazer isso por eles. Essa mensagem fica muito, muito clara nesse vídeo. Mulheres são hipersexualizadas o tempo todo na mídia em geral, porque é isso que se espera de nós: uma postura impecável, sensual, que esteja o tempo todo disponível para e em busca de homens, mas que não deixe claro que fazemos e gostamos de sexo. Quando uma mulher foge disso, ela não cabe na sociedade.

Agora, surpresa! Mulheres assexuais nunca atenderão a esse estereótipo, simplesmente porque elas não estão disponíveis e muito menos à procura de homens. Nem de mulheres. Nem de qualquer outra identidade de gênero. Mulheres assexuais nunca vão atender a esse estereótipo porque a hipersexualização simplesmente é ridícula para quem não sente atração sexual. Uma vez, vendo um clipe da Beyoncè (acho que era Naughty Girl), me senti tão deslocada do mundo que foi até estranho. Como aquilo não me atraía de modo algum, comecei a achar hilária a forma como ela dançava, tentando impressionar o homem que estava com ela e a audiência que estaria atrás do computador, e isso me pareceu ridículo. Por que alguém teria que fazer isso? Claro, Beyoncè e Hyuna fizeram pelo seu trabalho, mas onde isso se encaixaria no meu cotidiano?

A hipersexualização do corpo feminino causa na sociedade em geral uma ideia de que todas as mulheres buscam sexo (mesmo que isso tenha que ser bastante velado), mas eu, como mulher assexual, posso dizer que isso não é verdade. Já me perguntaram, em uma festa, por que eu iria a festas se não buscava ficar com ninguém, e isso me chocou tanto que eu tive que parar para pensar sobre essas coisas que estou escrevendo agora. Espera-se que queiramos sexo, e a mídia sustenta isso de forma impecável, com clipes de grande alcance, como Troublemaker, que tem uma audiência um pouco restrita por ser coreano, mas já tem mais de 42.000.000 de visualizações. Além de todo o resto, é assim que o machismo me oprime: esfregando na minha cara, mesmo quando eu estou tentando me divertir, que não estar sexualmente disponível é errado, uma abominação, uma doença, e que eu deveria me tratar.

Para quem gostou do tema, deixo aqui outro texto para pensar mais um pouco.

A meritocracia e a problemática do aborto

Um passo para frente, outro para trás – é assim que caminha a legalização do aborto, uma das mais incipientes polêmicas atuais, no tocante à saúde pública e ao feminismo. Há mais ou menos um mês foi aprovada uma portaria que incluía o aborto legal na lista de procedimentos executados pelo SUS, o que significaria um avanço nas políticas de prevenção de morte de gestantes e de maus tratos e abandono de crianças no Brasil, caso a mesma portaria não tivesse sido revogada dias depois da sua publicação. Se a revogação não tivesse acontecido, poderíamos esperar que pelo menos um milhão de mulheres por ano (Terra) logo teriam seu direito à interrupção segura da gravidez garantido, sendo que, dentre elas, figurariam muitas que não podem e nunca poderão pagar por um aborto em uma clínica e o fazem tomando chás absurdos e enfiando agulhas de crochê na vagina.

O que isso tem a ver com meritocracia? Bom, não sei se conseguirei explicar de forma clara o suficiente, porque essa reflexão é fruto de uma das minhas muitas viagens, mas tentarei. Meritocracia é a predominância do mérito sobre qualquer outro critério de seleção na sociedade, ou seja, é conseguir as coisas por “merecimento”. O vestibular é um dos exemplos mais claros de meritocracia em que consigo pensar, porque seleciona, da forma mais injusta possível, as pessoas que “merecem”, o que não significa exatamente aqueles que estudaram, mas sim os que tiveram oportunidade de pagar uma escola particular, geralmente das mais caras. Nessa conta também entram alguns transtornos psiquiátricos – por exemplo, entre dois adolescentes que estudam numa escola particular de elite, na mesma sala, sendo que uma tem transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e a outra não, qual delas tem mais chances de passar no vestibular? – e vários outros problemas, inclusive os familiares, o que torna a meritocracia uma ideologia muito, mas muito furada. Afinal, como quantificar o merecimento? E os fatores que não são considerados na hora de fazer essa conta? Como ter tanta certeza de que alguém não merece certo cargo sem acompanhar de perto seu cotidiano, seus dramas e suas alegrias?

Apesar de todos esses furos, a ideologia meritocrática é comprada por muita gente, como o próprio vestibular ilustra. Já vi muito vestibulando defender esse tipo de prova como algo ideal para selecionar quem entra e quem não entra em uma universidade, por mais pública que ela alegue ser (um beijo para a FUVEST!). Outro exemplo muito claro é o problema do desemprego. Quantas vezes eu já ouvi – e sei que não vou parar de ouvir… – gente dizendo, sobre pessoas pobres, que, “se tomassem vergonha na cara”, ou “se não fossem tão preguiçosos”, ou “se não ficassem tentando escolher o que fazer (!!!!!), teriam um emprego”. É bastante óbvio que quem diz isso não tem noção nenhuma do que é não ter oportunidade para sair de uma situação. Ninguém é pobre porque gosta, muito menos porque quer, e sim porque o sistema não deu oportunidades para que essas pessoas se desenvolvessem financeiramente. Os pobres sustentam o sistema, mas não cabem nele, e a forma de pensar meritocrática é um bom meio de dar conta dessa contradição: o que os pobres “merecem”, por sua falta de vontade de trabalhar, é limpar o meu lixo, lavar os meus copos, fazer a minha comida, limpar a bunda dos meus filhos (ironicamente, tarefas muito desgastantes). Seguindo a mesma ideia, uma mulher pobre, que não mereceu a informação suficiente para acessar camisinha e pílula anticoncepcional, ou que não mereceu o dinheiro de que precisava para comprar a pílula do dia seguinte, merece ter um filho ou morrer tentando se livrar dele. Ela também não tem dinheiro para subornar o ginecologista ou comprar Citotec, como muitas adolescentes de classe média e alta fazem, então, tudo o que pode fazer é tomar aquele chazinho de abacaxi, se jogar da escada, enfiar agulha na vagina, entre outras formas tão ou mais brutais de abortar uma criança e que matam quase 12 vezes mais, no Brasil, do que ataques de pitbull matam nos EUA (ZH Notícias). E ainda querem matar os pitbulls.

Achar que qualquer mulher poderia ter evitado a sua gravidez é não só uma atitude ingênua como meritocrática e, portanto, injusta. Além dos casos em que o método anticoncepcional falhou – mesmo a camisinha tem entre 88% e 97% de eficácia -, existem aqueles em que a gravidez não poderia ter sido evitada por uma miríade de outros motivos. Não cabe a mim, e nem a você, julgar os motivos de qualquer mulher para cometer um aborto. E nem para comer um bolo – mas de gordofobia eu falarei no futuro.