área cinza

Eu não sou anti-sexo

Muita gente acha que assexuais não gostam de sexo. Já sabemos que isso não é verdade; primeiro, porque assexual não é quem não gosta de sexo, mas sim, quem não sente atração sexual, ou apenas a sente sob determinadas circunstâncias; segundo, porque pessoas assexuais podem, sim, fazer sexo. E gostar.

Na verdade, o fato de que algumas pessoas assexuais fazem e gostam de sexo é apenas uma consequência do que é ser assexual. Assexual é um termo guarda-chuva, ou seja, abarca diversas denominações; dessa forma, não apenas quem não sente atração sexual em situação alguma é tido como assexual, mas também as pessoas que a sentem de forma muito esporádica, como pessoas demissexuais. Sabendo que algumas pessoas assexuais sentem atração sexual em situações específicas, concluímos que algumas delas façam sexo e gostem disso. Não existe muito mistério. Por que, então, essa confusão existe?

Tudo começa no moralismo. Historicamente, a sociedade entende o sexo como um ato que vai contra a moral. Por isso, sempre existiram pessoas que eram contra essa prática, por diversas razões (algumas delas, inclusive, não se apoiam no princípio da amoralidade do sexo). Essas pessoas são celibatárias, ou seja, escolheram não fazer sexo, por qualquer razão que seja. Padres católicos são um exemplo de celibatários. Essas pessoas fizeram uma escolha consciente de não fazer sexo, por mais que tenham vontade, e por maior que seja a atração que sentem. Não existe falta de atração nem de desejo nessas pessoas; o que existe é um autocontrole, e não estou dizendo que isso seja bom, nem ruim.

Para pessoas assexuais, a coisa funciona meio diferente. Nós não temos atração sexual e não houve escolha consciente sobre isso; tudo aconteceu naturalmente, como acontece com qualquer orientação sexual. Assim como pessoas homo ou heterossexuais, não escolhemos não sentir atração, apenas não sentimos. Quando sentimos e ficamos confortáveis o suficiente para que essa atração se concretize, isso não significa que não vamos gostar do sexo, porque temos capacidade de sentir prazer. Não existe motivo religioso, moral ou de qualquer outro cunho para que não façamos sexo: a única coisa que existe é falta de atração. A partir do momento em que ela passa a existir, o sexo passa a ser uma possibilidade. No entanto, uma vez que o celibato é tão amplamente divulgado e a assexualidade não é, é comum que as pessoas confundam os dois e assumam que assexuais escolheram não fazer sexo, não gostam de fazê-lo e têm algo contra ele.

Por isso, se você ler em algum lugar que assexual é quem não gosta de sexo, ou se pensava assim, saiba que isso não é verdade. É claro, existem pessoas assexuais que não gostam de fazer sexo, mas isso não é regra. E também não é ideologia. É apenas parte de quem somos.

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A assexualidade dos outros

Se você é assexual, o post de hoje não é para você. Chame sua mãe, seu pai, as pessoas que são importantes na sua vida, e vamos falar, todes juntes, sobre como lidar com a assexualidade dos outros. Como tratar uma pessoa assexual? Como lidar com o fato de que uma pessoa importante para você tem uma sexualidade tão não-normativa, mas tão não-normativa, que você nunca ouviu falar sobre ela (e nem aquele seu amigo gay ouviu)?

Vão aí cinco dicas:

  1. Tente compreender. É difícil? É. Uma pessoa que não está passando por determinada experiência nunca vai entendê-la por completo, mas você não pode deixar de tentar. Sua geração, o ano em que você nasceu, sua idade, nada disso é empecilho para tentar entender que a pessoa que você ama não sente atração sexual e não tem problema nenhum quanto a isso. Não entendeu? Bom, continue tentando. Se você realmente ama essa pessoa assexual que te indicou esse post, tentar compreender a dor dela, a personalidade dela e as opressões pelas quais ela passa é o mínimo que você pode tentar fazer. Dói quando as pessoas que nos amam não nos compreendem, mas dói ainda mais quando elas nem tentam fazer isso.
  2. Não diga que a pessoa “vai morrer sozinha”. Você pode até ter medo disso, mas isso é falta de informação. Primeiro, porque o sexo não é a única forme de encontrar companhia; as pessoas podem se apaixonar e ter um relacionamento sem sexo. Além disso, não namorar e não se casar não é estar sozinhe. É pra isso que servem os amigos, não?
  3. Não questione a assexualidade dessa pessoa. “Ah, mas você ficou com tal pessoa, você não pode ser assexual.” NÃO FAÇA ISSO. APENAS NÃO FAÇA.  A atração sexual pode acontecer ocasionalmente para algumas pessoas assexuais, ou ela pode ter consentido em ficar com a outra pessoa por pressão social ou qualquer outra coisa.
  4. Tente não encarar a assexualidade como um problema. Assexualidade não é ruim, não é doença, e não precisa ser “culpa” de ninguém. Não é “culpa” da sua criação, nem de religião, nem de nada, porque não é ruim e não precisa ser “culpa” de ninguém. Ponto final. Dizer que a assexualidade é “culpa” de alguém significa dizer que é um problema.
  5. Não apague o sofrimento da pessoa assexual. Pressão social, apagamento, confusão e dúvidas: o dia normal de uma pessoa assexual. A sociedade não nos admite, a mídia não nos representa, nossa família e amigues não nos compreendem. Se uma pessoa assexual está sofrendo preconceito por sua orientação sexual, não diga que “todo mundo é assim”, que isso “acontece”, enfim, não diminua o sofrimento dela. Escute e fale o que achar necessário: o desnecessário pode ficar não-dito. Evite o sofrimento.

O que é área cinza?

A assexualidade é uma denominação guarda-chuva. Isso significa que existem pessoas estritamente assexuais – ou seja, aquelas que não sentem atração sexual -, e também existem pessoas que não costumam sentir atração sexual, mas isso pode acontecer sob determinadas condições. Todas essas pessoas podem se denominar assexuais. É mais ou menos o mesmo esquema do termo trans*, que é um termo guarda-chuva, ou seja, abarca várias denominações debaixo de si. Uma das denominações abraçadas pela assexualidade é a área cinza (ou gray-a, ou gray area), que é o conjunto de pessoas que não são estritamente assexuais e nem alossexuais (=sexuais).

Para entender melhor o termo, vamos fazer uma abstração: imagine que toda a pluralidade de sexualidades humanas coubesse numa paleta de cores. Na paleta de cinza estariam dois conceitos mais simples e mais abrangentes do que a bissexualidade, por exemplo; esses conceitos seriam a alossexualidade e a assexualidade. Nessa abstração, a alossexualidade seria representada pela cor preta e a assexualidade, pela cor branca. Por consequência, teríamos, entre esses dois extremos, vários tons de cinza. É daí que vem o termo “área cinza”. Dentro da área cinza, se encaixam as pessoas que: não sentem atração sexual normalmente, mas podem senti-la ocasionalmente; sentem atração sexual, mas não têm vontade de concretizá-la; e pessoas que fazem e gostam de fazer sexo, mas apenas em condições muito específicas.

Dependendo da concepção de área cinza, ela pode ou não conter outras denominações. Para algumas pessoas, a área cinza é uma orientação sexual, chamada de gray-asexual. Um gray-asexual, ou graysexual, é uma pessoa que sente atração sexual sob condições muito específicas, ou que raramente a sente. Para outras pessoas, a área cinza é um “lugar” onde se inserem várias outras orientações sexuais, como lithosexual (pessoas que sentem atração sexual, mas não querem que ela seja recíproca), pothisexual (pessoas que fazem e gostam de sexo, mas continuam assexuais por não sentirem atração) e demissexual (pessoas que podem sentir atração sexual apenas quando têm laços emocionais e/ou afetivos fortes).

Ou seja: a área cinza contempla as pessoas que não são estritamente assexuais, mas também não são alossexuais. Quem está na área cinza também pode se considerar assexual e também pode sofrer afobia (o preconceito contra assexuais). Para algumas pessoas, a área cinza é uma orientação sexual, mas, para outras, é o local onde se inserem as denominações que cabem dentro da assexualidade, junto com a assexualidade estrita. Nenhuma das duas concepções está errada; a vivência das pessoas e a denominação com a qual elas se sentem mais confortáveis vai determinar qual delas adotar – ou, até mesmo, nenhuma delas, afinal, podemos sempre formar nossas próprias concepções a partir das existentes, não é mesmo?