apagamento

Uma meta para 2016

O ano novo chegou. Isso significa, friamente, que a Terra passou por um determinado ponto no movimento de translação, que acontece ao redor do Sol – na verdade, nem é um ponto determinado, porque, a cada ano, ficamos 6 horas atrasades em relação ao movimento de translação. É para corrigir esse erro que existem os anos bissextos (como 2016). Nossa espécie, no entanto, é famosa por incutir significado a coisas que parecem triviais. Biólogos que pesquisam a evolução humana estudam essa capacidade como um dos traços que nos define. Definindo ou não, o fato é que incutimos simbolismo em coisas aparentemente supérfluas, e, por mais que algumas pessoas queiram se distanciar disso, é algo inerente a nós e que não precisa ser, necessariamente, condenado. Devido a essa capacidade, colocamos significado às mudanças na posição do Sol, o que resultou em um calendário de 12 meses, cujo fim também possui um significado: renovação, renascimento, recomeço. Mesmo quem não segue o calendário gregoriano tem significados parecidos para a virada do ano; é só ver como chineses comemoram a vinda do ano-novo lunar, que não só significa renovação, mas também traz toda uma onda de vibrações diferentes, que favorece determinadas atividades, de forma parecida com a astrologia ocidental.

Horóscopos à parte, 2016 chegou, e para todo mundo, já que o calendário gregoriano é o oficial em todas as partes do mundo. Eu nunca fiz resoluções de ano novo, mas resolvi dar uma chance para elas dessa vez, mesmo sabendo que já vou ter esquecido todas elas em março. Uma delas eu não quero esquecer, e, por isso, resolvi trazê-la para o blog.

Em 2015, testemunhamos grandes avanços da militância assexual no Brasil. Vimos surgirem grandes – e ótimas – páginas no Facebook com esse tema: a Assexualidade da Depressão, que agora não funciona mais, mas teve um papel expressivo em 2015; a Fofura Assexual, que tem um pessoal tão criativo e que sabe fazer tantas coisas!; a Que Ace Te Mordeu?, que é novinha, mas já chegou chegando; e muitas outras que eu não conheço, ou que conheço, mas não lembro, porque a minha memória tem uma capacidade muito pequena. Também vimos grandes jornais fazerem matérias muito boas sobre a assexualidade, esclarecendo para quem não conhece que não somos aberrações, e que também não vivemos tristes; infelizmente, também vimos outros jornais prestarem desserviços a nós, mas, com sorte, isso não vai mais se repetir.

De qualquer forma, a quantidade de informação sobre a assexualidade em português aumentou muito em 2015, e isso é maravilhoso. Criei esse blog porque não conseguia encontrar informações sobre assexualidade em português, e, principalmente, informações mais pessoais, relatos sobre vivências, textos com os quais eu pudesse me identificar. Provavelmente, se eu não soubesse falar inglês, estaria até hoje procurando quem eu sou. Hoje, o cenário, para uma pessoa que se descobre assexual, é bastante diferente. Temos uma quantidade razoável de conteúdo em português, acessível para essas pessoas, para que elas tirem suas dúvidas e se encontrem. Fico imensamente feliz pensando nisso, mas ainda não é o suficiente.

Como eu já disse, algumas coisas que encontramos na internet não são mais do que um grande desserviço a nós, passando informações falsas, e até mesmo a noção de que somos doentes e precisamos ser tratades. Algumas dessas informações podem ser encontradas em jornais de grande circulação e que algumas pessoas consideram confiáveis, então é difícil filtrar tudo isso. A única forma que temos de passar nossas vivências para quem está se descobrindo agora e de fazermos as outras entenderem que não somos doentes é falando. Por isso, se você tem desenvoltura com as palavras, se sabe se portar na frente da câmera, se desenha, se narra, se consegue fazer qualquer coisa que possa ser convertida em mídia na internet, fica aqui o meu convite: comece a falar sobre a assexualidade. Você não precisa ter um blog ou um canal no YouTube exclusivos sobre isso – nem esse blog é exclusivo, por mais que pareça -, mas um post, um vídeo, um desenho, já vai fazer a mensagem se espalhar para mais gente. Se tem uma coisa que eu aprendi com esse blog é que todo mundo pode ter um grande alcance e atingir muitas outras pessoas. Muitas mais do que você pode imaginar.

Minha meta para 2016, então, é ver ainda mais conteúdo bom em português sobre a assexualidade, e ainda mais discussões (produtivas!) sendo feitas. Então, vamos lá?

O que a Fabíola tem a ver comigo?

Eu sei, você já cansou de ler texto sobre o caso da Fabíola, mas esse vai ser um pouquinho diferente dos outros – afinal, você tem que ter muita sorte para encontrar um texto que tenha relacionado o que aconteceu com a Fabíola com a discriminação que as pessoas assexuais sofrem diariamente.

Para quem não sabe, Fabíola era uma moça totalmente comum, como você e eu, que vivia uma vida totalmente comum. Um dia, o marido dela a seguiu e descobriu que ela o estava traindo com o cunhado. Não vou entrar no mérito se o que Fabíola fez foi “certo” ou “errado”, primeiro porque não tenho opinião formada sobre traição (afinal, é muito difícil para uma pessoa assexual entender o que motivaria uma), e, depois, porque nem eu, nem ninguém tem condições, e muito menos o direito, de julgar a vida de uma pessoa que não conhece. O fato é que Fabíola traiu, foi pega, filmada e sua cara – e toda a situação na qual foi envolvida – foi propagada pela internet. No mesmo vídeo, seu marido tem uma reação exagerada e abusiva, que inclusive custou a ele muito dinheiro, mas o que realmente ficou na cabeça das pessoas foi a desculpa da Fabíola e o quanto ela era “piranha” por ter feito aquilo com o marido.

A repercussão imensa que o vídeo da Fabíola gerou é um retrato instantâneo do quão doente por sexo é a nossa sociedade. Se Fabíola e seu marido tivessem combinado que só veriam o sétimo filme do Star Wars um com o outro, e ele a flagrasse vendo o filme com o cunhado, gravasse e colocasse na internet, a reação do público seria a mesma? Tecnicamente, o contexto é o mesmo: marido e mulher “combinam” que vão fazer algo apenas um com o outro; um deles faz com outra pessoa; o outro o flagra, grava e coloca na internet. Se despojarmos o sexo da sua grandiosidade, é isso que sobra. Mas, na nossa sociedade, o sexo é importante, é grandioso, é ponto central na vida das pessoas; sem ele, não é possível conceber relacionamentos saudáveis, mentes saudáveis e pessoas bem-sucedidas. Como eu já disse em outra ocasião, nossa sociedade é viciada em sexo, e parte da militância assexual deve trabalhar para que esse vício seja revertido. O vídeo de Fabíola só evidencia o quanto nossa cultura é dependente do sexo e de espetáculos que o envolvam.

É importante que nos coloquemos no lugar de Fabíola e entendamos que ela foi vítima da mesma sociedade ninfomaníaca que nos oprime. Quando alguém diz que nossa orientação sexual não existe, ou que não encontramos a pessoa certa, ou quando alguém pensa que somos tristes ou temos problemas mentais por não sentirmos atração sexual, seu pensamento está baseado na mesma cultura que consumiu compulsoriamente o vídeo de Fabíola, puramente por se tratar de sexo. É, também, a mesma cultura que faz circular rapidamente pela internet as fotos íntimas de garotas e garotos cujas vidas acabam no fundo do poço.

Fabíola é, portanto, um lembrete para todes nós: temos um trabalho extenso a fazer até que nossa sociedade aprenda o quanto é doentio correr atrás de sexo em todas as situações e consumir sexo em todas as mídias, de todas as formas e a qualquer custo. Fabíola foi forte e até falou sobre o caso no facebook, mas quantas vezes você abaixou a cabeça quando deslegitimaram a sua orientação sexual? O caminho para a autoafirmação é longo, e o que leva à nossa aceitação pela sociedade é ainda mais extenso, mas não impossível de traçar.

A assexualidade dos outros

Se você é assexual, o post de hoje não é para você. Chame sua mãe, seu pai, as pessoas que são importantes na sua vida, e vamos falar, todes juntes, sobre como lidar com a assexualidade dos outros. Como tratar uma pessoa assexual? Como lidar com o fato de que uma pessoa importante para você tem uma sexualidade tão não-normativa, mas tão não-normativa, que você nunca ouviu falar sobre ela (e nem aquele seu amigo gay ouviu)?

Vão aí cinco dicas:

  1. Tente compreender. É difícil? É. Uma pessoa que não está passando por determinada experiência nunca vai entendê-la por completo, mas você não pode deixar de tentar. Sua geração, o ano em que você nasceu, sua idade, nada disso é empecilho para tentar entender que a pessoa que você ama não sente atração sexual e não tem problema nenhum quanto a isso. Não entendeu? Bom, continue tentando. Se você realmente ama essa pessoa assexual que te indicou esse post, tentar compreender a dor dela, a personalidade dela e as opressões pelas quais ela passa é o mínimo que você pode tentar fazer. Dói quando as pessoas que nos amam não nos compreendem, mas dói ainda mais quando elas nem tentam fazer isso.
  2. Não diga que a pessoa “vai morrer sozinha”. Você pode até ter medo disso, mas isso é falta de informação. Primeiro, porque o sexo não é a única forme de encontrar companhia; as pessoas podem se apaixonar e ter um relacionamento sem sexo. Além disso, não namorar e não se casar não é estar sozinhe. É pra isso que servem os amigos, não?
  3. Não questione a assexualidade dessa pessoa. “Ah, mas você ficou com tal pessoa, você não pode ser assexual.” NÃO FAÇA ISSO. APENAS NÃO FAÇA.  A atração sexual pode acontecer ocasionalmente para algumas pessoas assexuais, ou ela pode ter consentido em ficar com a outra pessoa por pressão social ou qualquer outra coisa.
  4. Tente não encarar a assexualidade como um problema. Assexualidade não é ruim, não é doença, e não precisa ser “culpa” de ninguém. Não é “culpa” da sua criação, nem de religião, nem de nada, porque não é ruim e não precisa ser “culpa” de ninguém. Ponto final. Dizer que a assexualidade é “culpa” de alguém significa dizer que é um problema.
  5. Não apague o sofrimento da pessoa assexual. Pressão social, apagamento, confusão e dúvidas: o dia normal de uma pessoa assexual. A sociedade não nos admite, a mídia não nos representa, nossa família e amigues não nos compreendem. Se uma pessoa assexual está sofrendo preconceito por sua orientação sexual, não diga que “todo mundo é assim”, que isso “acontece”, enfim, não diminua o sofrimento dela. Escute e fale o que achar necessário: o desnecessário pode ficar não-dito. Evite o sofrimento.

Eu não sou LGBT

Hoje aconteceu a 19ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, na Avenida Paulista, como todos os anos. Muita gente me chamou para ir; eu não fui. Tenho diversos problemas com a Parada (por exemplo, o fato dela ser uma manifestação de cunho político, mas ter empresas que a apoiam abertamente), mas o principal, e que sempre me faz negar todos os pedidos dos meus amigos para que os acompanhem, é que a Parada não me representa.

Não me representa por um motivo simples: eu não sou LGBT.

É claro que não estou falando sobre ser a quatro coisas ao mesmo tempo, mas sim, do fato de que não sou lésbica, nem gay, nem bissexual, nem transexual. Aliás, já perceberam quantas nuances de sexualidade ficam de fora dessa sigla? Eu, enquanto pessoa assexual, não sou incluída, bem como companheires poli e pansexuais, por exemplo. Somos pouques? Talvez. Somos invisíveis? Nessa luta, com certeza. Se não fôssemos, não teríamos tantas pessoas envolvidas com a militância LGBT afirmando que não existimos, que ainda não encontramos a pessoa certa, que um dia vamos entender que somos lésbicas/gays/heterossexuais e vamos parar de afirmar que não temos interesse por sexo. Seria obviamente violento da nossa parte dizer para um homem gay que ele, na verdade, não encontrou a mulher certa e que, um dia, vai entender que é hetero e que vai parar de dizer que não tem interesse por mulheres; por que não é tão obviamente violento quando esses comentários são dirigidos a pessoas assexuais?

Acredito que nossa ausência na sigla LGBT tenha um tanto de responsabilidade nesse sentido. A invisibilidade de pessoas assexuais é tão grande, mas tão grande, que não temos lugar nem mesmo na comunidade LGBT. Nem mesmo a hipócrita atitude de falsa inclusão acontece conosco; ninguém tenta nos enfiar em qualquer buraco da militância só para dizer que estamos ali, que lembraram de nós. Ninguém lembra de nós. De certa forma, isso pode até ser bom: nos poupa de certos problemas, como a transfobia que sempre está envolvida em comentários de pessoas que tentam incluir pessoas trans, geralmente binárias, em seus discursos dessa forma hipócrita. Por outro lado, denuncia o quanto nossa sociedade preza pelo sexo e o quanto as pessoas que fogem desse padrão são “anormais” nesse contexto. Para a sociedade em que vivemos, nós, assexuais, não deveríamos nem mesmo existir, e isso fica bastante claro quando pensamos que nem no ambiente dito “seguro” da militância LGBT temos espaço para celebrar nossa existência.

Não estou dizendo que gostaria de ligar a tela da minha televisão e ver pessoas assexuais representadas lá, da mesma forma que gostaria de ver companheires indígenas, por exemplo, representando a minha cor. Na verdade, nem sei muito bem como isso poderia ser feito – afinal, como seria uma propaganda de perfume com uma pessoa assexual? -, mas seria interessante saber que temos um espaço onde podemos nos expressar e discutir livremente sobre nossa falta de atração sexual. A militância LGBT não é esse espaço. Sei que não somos as únicas pessoas a passar por isso, mas nossa orientação sexual, que deveria ser mais uma dentre tantas que têm um lugar nesse movimento, é constantemente invisibilizada e tratada como objeto de chacota em espaços LGBT, como grupos no Facebook e até mesmo coletivos sérios. Isso pode ser falta de informação, sim, mas nada justifica ignorar completamente uma parte de alguém e considerá-la lésbica, gay ou heterossexual baseado nas suas observações e na forma como você vê o mundo. Lembre-se sempre, quem tem que se categorizar ou não é a pessoa em questão. Você não tem que decidir nada sobre a sexualidade de ninguém além de você mesme.

Obviamente, a invisibilidade não vai acabar quando nos incluírem na sigla; afinal, nos Estados Unidos, muitas organizações de pessoas não-cis-hetero já incluíram o A, e nem por isso as pessoas assexuais são mais visíveis do que eram antes. Inclusão na sigla, contudo, significa que estão cientes de que existimos e que estamos fazendo algum barulho, pelo menos o suficiente para incomodar ou alguém – ou fazer com que alguém olhe para nós. Enquanto não existirmos na sigla, temos o atestado de que somos completamente invisíveis, até mesmo para as pessoas que deveriam estar nos apoiando. Mesmo assim, ainda estamos inserides em espaços LGBT, porque é nesses espaços que costumamos encontrar segurança para falar sobre nossos problemas e indagações quanto a nossa sexualidade. Quando não há hostilidade, grupos e coletivos LGBT nos oferecem discussões ricas e, algumas vezes, esclarecedoras; no entanto, ainda não são espaços ideais, justamente porque, na maioria das vezes, não estamos discutindo com nossos iguais, mas com pessoas que nunca passaram e nunca passarão pelas mesmas experiências que nós. Seria como uma pessoa homossexual tentar discutir sua sexualidade numa roda exclusivamente heterossexual.

A inserção da letra A na sigla que representa as pessoas não-cis-hetero não vai acabar com nenhum problema da comunidade assexual, mas nos ajudaria a dar um passo mais longe da invisibilidade completa; afinal, enquanto eu puder ser categorizada apenas como homo ou heterossexual, sem nenhuma outra opção, a exclusão será sistêmica e constante, e é contra isso que devemos lutar de forma mais urgente.

A “ninfomania social” ou Como a militância assexual pode ajudar pessoas sexuais

tw: exemplos de: transfobia, lesbofobia, homofobia, afobia

Vivemos numa sociedade viciada em sexo. Talvez isso seja mais fácil de perceber para uma pessoa assexual, vítima direta da ninfomania da sociedade, mas o sucesso das pessoas – de todas as pessoas – está, de certa forma, ligado ao sexo. Um homem bem-sucedido não é aquele que tem cinco casas na Europa, dez carros importados e um quarteirão na Avenida Paulista, mas sim o homem que penetra muitas vaginas (até porque, quando um homem tem cinco casas na Europa, dez carros importados e um quarteirão na Avenida Paulista, ele “deve pegar todas”). A mulher bem-sucedida é aquela que tem um homem, é a “bem-comida” (ou “bem-amada” para pessoas mais tímidas), a que é penetrada, mas não por muitos homens, apenas por um. Na sociedade ninfomaníaca, os papéis de gênero são complementares, mas também contraditórios: homens devem penetrar muito, mulheres devem deixar ser penetradas. Homens devem ter múltiplas parceiras, mulheres devem ser fiéis; mas ambos necessitam do sexo para sua felicidade, para seu bem-estar pleno. Mesmo pessoas que fujam do padrão heteronormativo caem nesses papéis. O homem gay também deve penetrar para ser um homem; gays passivos, principalmente afeminados, não são aceitos nem no meio LGBT. Para a sociedade ninfomaníaca, que também é falocêntrica, transfóbica e binarista, o sexo lésbico não existe, é “só uma brincadeira”, e por isso não existem lésbicas ativas – afinal, elas precisariam de um pênis para penetrar vaginas, e mulheres trans que não fizeram a cirurgia de redesignação não são mulheres “de verdade”, logo, não podem ser lésbicas.

Isso se traduz de forma bastante clara em jogos online, por exemplo. Tomando o World of Warcraft como exemplo – um jogo que adoro e o que mais entendo -, uma pessoa, para ser boa no jogo, precisaria ter um personagem no nível 100, com equipamentos épicos, um anel lendário e um dano por segundo incrivelmente alto; mas nada disso é o suficiente se o dito jogador não tiver uma namorada. Sim, no feminino, porque um bom jogador só pode ser homem e só pode penetrar vaginas. Relacionamentos amorosos/sexuais com homens são inadmissíveis, a menos que você “goste” de ser xingado a cada login. Caso o homem em questão se relacione com uma mulher trans, ele será eternamente ridicularizado por ter “caído na mentira” dela.

Para uma criança, um adolescente ou um adulto que ainda não tenha formado sua personalidade, a ninfomania da nossa sociedade é extremamente danosa. Com o indivíduo suscetível a qualquer tipo de propaganda, bombardeá-lo com a ideia de que ter uma vida sexual badalada é ser saudável, feliz e bem-sucedido faz com que ele se envolva em situações que, muitas vezes, não são exatamente consentidas. E, mesmo quando o são, talvez não fossem se a pessoa tivesse escolha. Infelizmente, nosso consentimento nem sempre parte de nós; quando nos forçamos a pensar que o sexo nos fará felizes, mantemos relações sexuais com quaisquer pessoas para alcançar essa felicidade. Muitas vezes nos arrependemos, e, depois de pensar um pouco, chegamos à conclusão de que nos forçamos a ter aquele momento, como se fosse nossa obrigação manter relações sexuais sempre que a oportunidade apareça. Caso isso não aconteça, somos moles, frouxes, não sabemos curtir a vida. (Não estou falando de pessoas, na maioria homens cis, que bebem até cair, ficam com uma pessoa que sofra preconceito, como travestis e mulheres gordas, e depois “se arrependem” disso. Essas pessoas são apenas preconceituosas.)

E onde entra a militância assexual nessa história toda? Obviamente, essa “ninfomania social” atinge pessoas assexuais. A maior parte dos casos de afobia que presenciei derivam dela. Somos aberrações, erros da humanidade por não ter interesse por sexo. Ao me reconhecer demissexual e começar a pensar nas relações de poder que me mantiveram presa à ideia de que fui doente até aquele momento, percebi tudo isso que foi explicitado até agora, e entendi que não era a única a sofrer com isso. Minhas amigas que foram forçadas a ter sua primeira vez num momento em que não queriam sofreram com isso. Meus amigos gays que foram forçados pelos pais a manter relações sexuais com mulheres sofreram com isso. Nenhuma dessas pessoas é assexual, mas elas também sofrem com a ninfomania da sociedade, muito embora poucas pensem sobre ela. Ao mesmo tempo, pessoas assexuais são invisibilizadas e silenciadas em todos os espaços: não existe “A” na sigla LGBT, e, recentemente, uma organização de lésbicas e gays dos Estados Unidos fez uma campanha afirmando que o “A” da sigla estendida LGBTQIA queria dizer “aliados” e não “assexuais” (caso completo aqui, em inglês). Por isso, mesmo em meios não-normativos, as pessoas tendem a acreditar que não existimos, e isso só reforça a ninfomania social, no sentido em que compactua com a ideia de que o sexo é necessário para o bem-estar dos seres humanos.

Com uma militância assexual bem organizada e bastante presente, a visibilidade assexual seria muito maior, e as pessoas saberiam que existimos, que não somos aberrações e nem deprimidos – pelo menos não pelo fato de sermos assexuais. Isso levaria mais pessoas à reflexão que acabei de fazer sobre a ninfomania da sociedade, e elas concluiriam que é necessário subverter esse processo para que a adolescência e a vida adulta sejam fases menos traumáticas na vida de muitas pessoas, assexuais ou não. Isso também contribuiria para a não sexualização da infância: a partir do momento em que se assume que nem todas as pessoas possuem necessidade de fazer sexo, a pressão para que façam diminui, e perguntas como “você já tem namoradinhes?” param de ser feitas para crianças de cinco anos, por exemplo. No entanto, o sonho de uma sociedade menos ninfomaníaca está bem longe de ser alcançado por vários fatores. O mais proeminente deles, ao meu ver, é a falta de discussão sobre a compulsoriedade do sexo, mas podemos citar também interesses comerciais (afinal, indústrias de camisinhas, testes de gravidez, anticoncepcionais e brinquedos eróticos não ficariam felizes caso uma parcela de seus consumidores tivesse a liberdade de se assumir assexual).

E não é necessário temer um colapso da vida humana caso a sociedade deixe de ser ninfomaníaca: o número de pessoas que sentem atração sexual continuará maior que o número das pessoas que não sentem, o que desaparecerá será a pressão. Além disso, nosso modelo contemporâneo de alimentação e o estresse em que vivemos favorece doenças reprodutivas em homens e mulheres e aumenta os níveis de esterilidade em casais heterossexuais cisgênero. Se você realmente se preocupa com a perpetuação da espécie humana, campanhas para uma melhor alimentação e uma vida mais tranquila, além de militância ambiental, para que os recursos naturais tornem possível a procriação, são muito mais urgentes do que campanhas contra homossexuais ou assexuais.

Conheço uma pessoa assexual, e agora?

Ao contrário de pessoas homo, bi e pansexuais, poucas pessoas assexuais sentem necessidade de se assumir. Eu, particularmente, senti essa necessidade, porque o fato de ser mulher implica em gravidez compulsória e disponibilidade sexual, e, sabendo que sou assexual, as cobranças seriam menos ferrenhas e/ou menos frequentes. Com ou sem essa necessidade, contudo, é provável que mães, pais, amigues e conhecides da pessoa assexual vão, em algum momento, ficar sabendo sobre a orientação sexual dessa pessoa, e suas cabeças ficarão cheias de dúvidas. E então vem aquela insegurança: tenho filhe/amigue/conhecide assexual, o que eu faço?

A primeira coisa que você tem que fazer quando alguém assume uma orientação sexual e/ou identidade de gênero não-normativa é respeitar. Pessoas assexuais querem respeito, da mesma forma que qualquer pessoa quer respeito. Respeitar uma pessoa assexual é deixá-la confortável no tocante à sua sexualidade. Não tenho como fazer uma lista completamente precisa de coisas que você não deve fazer se quiser respeitar uma pessoa assexual porque cada pessoa é uma, e cabe a você perguntar a ela o que a deixa desconfortável quando necessário, mas algumas coisas deixarão a maioria das pessoas assexuais desconfortáveis, por exemplo:

  • “mas todo mundo é um pouco assim”
  • “isso vai passar logo, você vai ver”
  • “é só você encontrar a pessoa certa que a vontade de fazer sexo aparece”
  • “não é porque você não gosta de sexo que precisa inventar um nome pra isso”
  • “se você saísse de casa não seria assim”
  • “então você é virgem?”
  • “mas você namorou tal pessoa durante anos e vem com esse papinho agora?”
  • “se você nunca fez sexo, como sabe que é assexual?”
  • “o que eu fiz de errado para você ficar assim?”
  • “você devia procurar um psicólogo/psiquiatra”

Entre outros comentários depreciativos, ofensivos e completamente desnecessários. Outro ponto a se pensar é sobre as perguntas; sua curiosidade sobre a vida de uma pessoa assexual vem da sua ignorância ou do fato de que você acha a orientação sexual dela tão exótica, tão diferente de tudo o que viu e concebeu na vida, que quer saber detalhes íntimos? Não é melhor considerar que assexuais são pessoas, assim como você, e pensar como você reagiria às mesmas perguntas e aos mesmos comentários, caso eles se referissem à sua orientação sexual? Para pessoas heterossexuais talvez essa projeção seja um pouco diferente, e até mais difícil, porque elas não estão acostumadas a ser oprimidas por sua orientação sexual, mas com um pouco de esforço e empatia, tudo se resolve.

Fora isso, se o seu relacionamento com a pessoa assexual em questão é saudável, não há nada que precise ser mudado nele. Ela continua sendo a mesma pessoa, e você também; qual o sentido de mudar seu relacionamento só porque você soube que a pessoa não sente atração sexual da forma que você sente? O que isso muda na sua vida? Não acha que a atração que essa pessoa sente diz respeito somente a ela? Seja você mãe, pai ou amigue da pessoa assexual em questão, por quem, como, quando e por que ela sente atração sexual não é da sua conta, a menos que a própria pessoa resolva falar disso com você ou pedir sua opinião. E, mesmo assim, muitos detalhes ainda não serão da sua conta. Ou seja: não pressione. Se a pessoa quiser dar detalhes da sua vida sexual/amorosa para você e você estiver confortável com isso, ela dará. Não faz sentido ficar perguntando ou fazendo alusão a isso o tempo todo, mesmo que seja para reforçar que você sabe que a pessoa não sente atração alguma. Comentários como “você vai morrer sozinhe” ou “agora eu sei que você nunca vai engravidar, mesmo” não ajudam e só colocam para baixo, além de ser preconceituosos em vários níveis.

Se você lê em inglês, recomendo também o FAQ da AVEN para família e amigues de pessoas assexuais. Senão, pode conferir o FAQ para esposes/namorades de pessoas assexuais ou o FAQ para pais de pessoas assexuais no site da Comunidade Assexual.

Tudo tem limites, mas a zoeira…

Eu estou ciente de que este post pode me deixar infame nas interwebs. Isso é porque 2014 foi o ano da zoeira – e eu não me assustarei se 2015 também for. Com uma plataforma de disseminação rápida como o facebook, as páginas de zoeira puderam se espalhar, e elas existem de todas as formas possíveis. Aí você me pergunta “mas Nathália, você vai querer ver problema até na zoeira agora?”, e eu respondo, não me leve a mal, eu também gosto de zoeira. Meus amigos que o digam. O problema é quando a zoeira não encontra limites, o que é fácil de acontecer na internet, porque, como todos nós sabemos, ela não tem limites.

Será?

A primeira notícia que eu li hoje foi a do suicídio de Leelah Alcorn. Não vou entrar em detalhes sobre esse caso no blog porque sou cis e não pretendo me meter numa luta que não é minha; se alguém quiser saber mais sobre a luta das pessoas transgêneras binárias, pode seguir o perfil da Daniela Andrade e do João Nery no facebook, por exemplo, ou ler o Batatinhas ou o Nonbinary.org, se quiser saber sobre a luta das pessoas não-binárias. O foco desse post não é o fato da Leelah ser trans, mas sim, o seu suicídio. A notícia dele me fez lembrar de todas as vezes que eu vi piadas de extremo mau gosto sobre suicidas na internet (e fora dela também), e sobre todo tipo de assunto com o qual não se faz piadas. Se você ainda não pegou o espírito da coisa, vou dar alguns exemplos (dos assuntos, não das piadas, não quero que esse post seja trigger para ninguém): transtornos alimentares, depressão, transtornos de personalidade, violência doméstica, infanticídio, estupro, pedofilia… Eu podia ficar aqui fazendo essa lista até o final de 2015, mas acho que agora já deu para ter uma ideia. A maioria das pessoas que eu conheço tem o bom senso de saber que não se faz piada com esses assuntos pesados, que podem causar emoções muito negativas em algumas pessoas, mas tem gente que sempre me pergunta “por que eu não posso fazer piada com [insira assunto sensível aqui]”.

Bom, vamos imaginar uma situação. Pense na pessoa que você mais ama. Pense nos momentos bons que você já passou com essa pessoa, em todas as vezes que vocês riram juntes, jogaram juntes, se divertiram juntes. Pode até pensar nas brigas, se elas fizeram as duas pessoas mais felizes, no final. Pensou? Ok, então agora pense em como você se sentiria se essa pessoa morresse. A menos que a situação de morte de alguém querido não seja traumática para você (o que também não é exatamente errado), você vai ficar muito triste por bastante tempo. Imagine, agora, que a perda dessa pessoa foi tão traumática que você desenvolveu transtorno do estresse pós-traumático (TEPT). Imagine, também, que essa pessoa querida tenha morrido atacada por um gorila. Então, oito meses depois da morte dessa pessoa, quando seu TEPT está bem estabelecido e você não consegue superar essa perda de forma alguma, você está, em um dia tranquilo e razoavelmente alegre, olhando o facebook, quando vê um vídeo de uma pessoa sendo atacada por um gorila. Você vai, imediatamente, começar a ter sintomas de ansiedade e estresse intensos, e provavelmente terá um ataque de raiva, pânico ou qualquer outro tipo de reação emocional muito negativa. Bom, o mesmo aconteceria se aparecesse um vídeo de uma pessoa contando uma piada sobre pessoas que foram atacadas por um gorila, ou algo assim.

E aí me perguntam de novo: “mas as pessoas têm traumas com todo tipo de coisa, eu vou parar de fazer piadas completamente?”, e novamente eu respondo, não. O caso que eu peguei foi obviamente exagerado. Alguns assuntos, como aqueles que eu citei no começo, são sensíveis para a maioria das pessoas que já tenha passado por essa experiência e/ou seus entes queridos. É claro, existem os que lutam contra um TEPT ou uma depressão ou qualquer tipo de emoção negativa fazendo piada, mas não é justo e nem compensa fazer milhares de pessoas sofrerem porque uma ou duas delas ia gostar desse tipo de piada. É o mesmo caso da cantada de rua: a grande maioria das mulheres alega não gostar; é justo continuar com as cantadas por causa das que alegam gostar delas? E eu sei, às vezes é difícil saber qual ou quais assuntos evitar fazer piada sobre, então eu fiz uma lista para ninguém ficar perdide.

  • suicídio
  • transtornos mentais
  • transtornos alimentares
  • transfobia, lesbofobia, bifobia, homofobia
  • racismo
  • classismo
  • capacitismo
  • gordofobia
  • escravidão
  • violência doméstica
  • violência contra a mulher
  • estupro
  • assassinato (e aí pode incluir o feminicídio e o infanticídio)
  • pedofilia
  • abusos físicos, emocionais e sexuais
  • qualquer coisa que viole os direitos humanos

É claro que ficou faltando coisa, porque eu não vou lembrar de tudo agora, mas a dica é que, antes de fazer uma piada, faça duas perguntas a si mesme: 1) alguém precisa se tratar para se livrar desta coisa sobre a qual eu vou fazer a minha piada? 2) existe algum grupo organizado que lute contra o assunto da minha piada? Se a resposta para uma dessas perguntas for sim, NÃO FAÇA, ou você é um babaca.