amor

Vamos pintar a vida de amarelo

TW: SUICÍDIO

Estamos entrando nas últimas semanas de setembro, mês escolhido para sediar a campanha contra suicídio do CVV (Centro de Valorização da Vida). Chamada de “setembro amarelo”, a campanha propõe levas informações sobre a problemática do suicídio para a população que nunca sofreu com esse fantasma e ampliar a rede de apoio para a população que sofre ou já sofreu.

Em 2014, o Brasil era o 8º país com mais suicídios no mundo e o 4º com o maior crescimento no número de suicídios na América Latina. Não sei e não cabe a mim discutir as causas dessas estatísticas tão exorbitantes, mas o fato é que moramos num país onde o número de pessoas acometidas por essa epidemia é grande e cresce rápido, enquanto o número de pessoas ignorantes sobre ela se mantém altíssimo. Todo mundo que já teve ideações suicidas ou tem amigos próximos que já as tiveram sabe que não é fácil encontrar uma pessoa para quem desabafar. Desordens mentais, infelizmente, ainda são vistas como fruto de uma falta de vontade pessoal, de uma grande preguiça existencial, e não de um real desequilíbrio mental e químico que resulta numa doença crônica, de difícil manejo e alto risco de morte. Assim que tentamos encontrar uma pessoa com quem conversar, esbarramos no clichê do “você deveria sair mais”, ou “você deveria arranjar um emprego/uma pessoa para namorar/uns amigos”. Não é simples se livrar de uma depressão ou de ideações suicidas, porque elas são parte da sua mente, uma parte que pode ser confortável, mas que ninguém gosta de ter; mas também são partes que estão sempre ali, o tempo todo, cutucando, machucando, ferindo sem dar tempo de cicatrizar. Só com muito trabalho e tempo elas vão embora, mas, enquanto não vão, é imprescindível que as pessoas em volta de quem está tendo ideações suicidas entendam que estar mal não é escolha, e muito menos gostoso.

Obviamente nem todas as pessoas suicidas pensam a mesma coisa, mas um sentimento que pode ocorrer é o de falta de esperança, de que não existe um motivo para acreditar que as coisas vão melhorar. Dessa forma, não importa o que exista lá “do outro lado”, vai ser melhor que o que existe aqui. Sem esperanças de que a vida vá melhorar, a pessoa suicida passa para um estado de inércia (veja: inércia, não preguiça), em que não vale a pena tentar sair do fundo do poço. Terapia não é mais uma opção, porque, nesse estágio, a pessoa entende que não é um terapeuta que vai conseguir tirá-la daquele estado. Esse é o pensamento da pessoa suicida, mas não necessariamente é a verdade. Uma pessoa deprimida, sem esperanças na vida, costuma ver a realidade de forma mais distorcida que o restante das pessoas. É aí que a atuação de pessoas em situações melhores é crucial: as palavras certas podem significar muito para uma pessoa em ideação suicida, mas um passo em falso pode ser fatal. Para quem nunca esteve numa situação dessas, cabe saber que ajudar não é dizer o que a pessoa deveria fazer, mas sim, o que ela pode fazer. Dizer que uma pessoa deprimida deveria não estar mais deprimida é fácil, mas o que ela realmente pode fazer para chegar até lá? Fazer com que a pessoa se acalme em momentos de crise, ajudá-la a acreditar um pouco mais na eficiência da terapia, ocupá-la com atividades lúdicas e que a distraiam dos pensamentos suicidas são algumas das alternativas, mas conhecer a pessoa que se quer ajudar é a melhor opção. Só assim você saberá como realmente ajudá-la sem piorar a situação.

Nesse sentido, existe mais um problema: a personalidade da pessoa suicida. Se você já conhecia essa pessoa antes do período de depressão, saiba que ela não é mais a mesma pessoa de antes. A depressão nos transforma, nos deixa muito diferentes do que éramos antes. Se a pessoa em questão for adolescente ou jovem adulta e tiver passado toda a adolescência em depressão, o caso é ainda mais grave, porque essa pessoa não teve a oportunidade de formar sua personalidade, já que havia uma mentalidade deprimida tomando conta dos pensamentos dela e ela nunca conseguiu agir por si só. Por isso, dizer para uma pessoa deprimida e/ou com ideações suicidas coisas como “você não é a pessoa que eu conheci” é um erro. Só vai deixá-la ainda mais deprimida por ter decepcionado alguém que ela amava, e não vai ajudá-la de forma alguma.

Depois que a pessoa que você está tentando ajudar conseguir sair do fundo do poço, saiba que ela ainda não voltará a ser a mesma que era antes de tudo isso acontecer. É bastante comum que pessoas que passaram por essa experiência tenham Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT), uma doença psiquiátrica causada por eventos violentos. Idealizar, planejar e tentar suicídio é uma grande violência contra si próprie, e ninguém vai te dizer o contrário; logo, nada mais natural que haja um trauma depois dessa violência. Caso a pessoa suicida tenha TEPT, antes ou depois de se livrar da causa das suas ideações e/ou tentativas de suicídio, a terapia é muito importante, bem como o apoio das pessoas próximas a ela. Não é fácil sofrer com crises e mais crises de pânico, ansiedade e euforia, mas virar as costas para uma pessoa com TEPT pode ser o fim dela. Só faça isso se a pessoa pedir – e, mesmo nesse caso, saiba avaliar se ela está fazendo isso porque sua relação com ela é tóxica ou se é por um desejo de isolamento para que a culpa pelo suicídio iminente seja atenuada.

Numa analogia simples: todas as pessoas do mundo têm uma latinha de tinta, um pincel e uma parede para pintar. As pessoas saudáveis estão com a latinha cheia e as pessoas deprimidas estão com a latinha vazia. Se você tem a latinha cheia e seu amigo tem a latinha vazia e nenhum dinheiro para comprar tinta, você tem duas formas de ajudar: usando um pouco da tinta da sua latinha para encher a latinha dele ou dar dinheiro para ele comprar mais tinta. Não adianta dizer a ele para ir à loja comprar tinta, porque ele não tem dinheiro. Também não adianta dizer que ela deveria arranjar mais tinta, porque ele não tem como fazer isso. O que você pode dar ao seu amigo são meios, opções para que ele arranje a tinta. Dizer que ele precisa de mais tinta é o óbvio, e só vai fazê-lo se sentir mal por não ter tinta na latinha.

Se você tem a latinha vazia, não desista de você mesme. Vai melhorar. Isso é um conselho de quem, um dia, já perdeu até a latinha.

Se você tem a latinha cheia, pegue o seu pincel, molhe na sua tinta e pinte a vida de todas as pessoas à sua volta de amarelo, para sempre. Setembro vai acabar, mas a sua tinta, não.

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Quando o amor sufoca – e mata

TW: ABUSO EMOCIONAL

Hoje é dia das mães. É uma data particularmente bonita para as pessoas que têm famílias unidas, que se comunicam de forma saudável e possuem mães que sabem se colocar no seu lugar de mãe sem invadir a privacidade de suas crianças e/ou obrigá-las a desempenhar algum outro papel que não seja o de filhe (amigue, companheire, etc); no entanto, num dia tão especial para mães de forma geral e para pessoas que lutam por seus direitos reprodutivos, precisamos lembrar que nem todos possuem uma mãe, seja porque ela morreu, seja porque não desempenha seu papel de mãe. Também precisamos lembrar que não é necessário abandonar uma criança para deixar de desempenhar a função de mãe – ou de pai, mas não vou discutir aqui se existem diferenças entre as funções de uma mãe e as funções de um pai. Isso fica para outro post.

Mas como um pai ou uma mãe pode deixar de sê-lo sem sair de perto da criança? Há algumas formas de se fazer isso, e uma delas é mantendo um relacionamento abusivo com filhes. Relacionamento abusivo é uma relação entre duas pessoas que se baseia em chantagem emocional, culpa, vergonha, humilhação e isolamento, nem sempre explícitos; ou, numa definição mais elaborada e formal, “qualquer ato que inclua confinamento, isolamento, agressão verbal, humilhação, intimidação, infantilização ou qualquer outro tratamento que diminua o senso de identidade, dignidade e autoestima” (traduzido daqui). Esse tipo de relacionamento, nem um pouco saudável, entrou em voga na internet quando muitas pessoas que produzem conteúdo, seja em forma de vídeo ou texto, passaram a falar abertamente sobre ele. Ainda existe uma defasagem, no entanto, no sentido em que é muito mais fácil encontrar material em português – e até mesmo em inglês – sobre relacionamentos abusivos entre casais do que entre pais e filhes, mas as duas modalidades acontecem de forma bastante comum. Caso você queira saber um pouco mais sobre essa situação ou acha que está inseride nela, deixo aqui um vídeo da JoutJout (que tem um canal maravilhoso!) falando sobre relacionamentos abusivos no contexto de um casal.

No tempo em que estive engajada mais intimamente à militância LGBT, percebi que é bastante comum que pais e mães sejam abusivos com filhes que se encaixam em condições não-normativas de identidade de gênero e orientação sexual. Não sei se existe uma correlação verdadeira entre esses dois fatos, mas foi isso que observei, e foi isso que me levou a pesquisar sobre o assunto e escrever aqui.

Agora que sabemos o que é um relacionamento abusivo, precisamos saber como se percebe que se está em um, e é aí que mora o trunfo desse tipo de violência: não se percebe. Geralmente, nem a vítima, nem o agressor percebem que estão envolvides numa teia nem um pouco saudável de violência e desamor, e é aí que mora o perigo. Cabe às pessoas próximas da vítima alertá-la que essa situação não é saudável e que não pode se sustentar, muito embora o cenário mais comum seja a negação da vítima em relação ao abuso que sofre. É difícil para ela entender e aceitar que aquela pessoa está violentando-a, justamente porque um dos “sintomas” de um relacionamento abusivo é que a vítima se sente culpada e até mesmo merecedora da agressão que sofre. Quando a vítima é filha da pessoa que a agride, o cenário é ainda mais grave. A sociedade nos conta que devemos amar nossos pais incondicionalmente, porque eles nos tratam bem, nos dão amor, carinho e comida na mesa; caso não o façamos, somos ingrates, mesmo que o “amor” e o “carinho” sejam distorcidos a ponto de nos trazer sofrimento. Isso só agrava a culpa da pessoa que sofre abuso por parte dos pais: além de sentir-se culpada e merecedora daquele abuso, ela se sente mais culpada por não conseguir amar seus pais da forma que é esperado dela, apesar da violência.

Se, a essa altura, você acha que está passando por essa situação ou conhece alguém que está, deixarei aqui uma lista de sinais de abuso emocional de pais para filhes. Muitos desses sinais não se aplicam a crianças, e não consegui encontrar material sobre abuso emocional entre pais e filhes direcionado a crianças jovens, que ainda não entraram na puberdade. (A lista foi traduzida integralmente desse site.)

Humilhação, degradação, culpabilização, julgamento, críticas:
Eles zombam de você e te fazem sentir mal na frente de outras pessoas?
Eles te provocam e/ou usam sarcasmo como forma de fazer você se sentir mal?
Quando você reclama, eles dizem que “foi só uma piada” ou que você é sensível demais?
Eles te dizem (ou fazem com que você sinta) que seus sentimentos e suas opiniões estão errados?
Eles ridicularizam, dispensam ou desconsideram suas opiniões, sugestões, seus pensamentos e sentimentos?

Dominação, controle, uso da vergonha:
Você sente que eles te tratam feito criança?
Eles constantemente corrigem ou punem você pelo seu comportamento “inapropriado”?
Você sente que precisa de “permissão” para tomar até mesmo as menores decisões?
Eles controlam seus gastos?
Eles tratam você como se fosse inferior?
Eles fazem você sentir que estão sempre certos?
Eles sempre te lembram dos seus fracassos?
Eles diminuem suas conquistas, suas aspirações, seus planos ou até mesmo sua identidade?
Eles endereçam olhares, comentários e comportamentos de desaprovação, desconsideração, desdém ou superioridade a você?

Acusações e culpabilização, demandas ou expectativas irracionais, negação do próprio fracasso:
Eles te acusam de algo criado na própria mente deles, mesmo que você saiba que não é verdade?
Eles não conseguem rir de si mesmos?
Eles se mostram extremamente sensíveis quando outras pessoas zombam deles ou fazem qualquer comentário que mostre mínima falta de respeito?
Eles têm problemas para pedir desculpas?
Eles arranjam desculpas por seus erros e culpam outras pessoas ou as circunstâncias?
Eles te dão apelidos e rótulos depreciativos?
Eles culpam você pelos problemas ou pela infelicidade deles?
Eles continuamente cometem “violações de limites” e desrespeitam seus pedidos válidos?

Distância emocional e “tratamento do silêncio”, isolamento, abandono emocional e negligência:
Eles diminuem a afeição e a atenção dadas a você como forma de te punir?
Eles se negam a atender suas demandas mais básicas ou usam negligência e abandono como punição?
Eles se fazem de vítima para que a culpa recaia sobre você em vez de se responsabilizar por suas atitudes?
Eles não percebem ou não se importam com seus sentimentos?
Eles não mostram empatia nem fazem perguntas para conseguir informações sobre você?

Codependência e falta de limites pessoais:
Eles tratam você como uma extensão de si mesmos e não como um indivíduo?
Eles não protegem seus limites pessoais e dividem informações que você não quer dividir?
Eles desrespeitam suas demandas e fazem o que acham melhor para você?
Eles demandam contato contínuo com você e não conseguem formar uma rede social saudável com seus iguais?

Se você viu semelhança entre esses sinais e a sua relação com seus pais, procure ajuda o mais rápido possível, de preferência de alguém que esteja fora da situação, como amigues e outres parentes. Se possível, o mais indicado seria conseguir ajuda profissional, de uma pessoa formada em Psicologia e que esteja preparada para ajudar você a superar esse abuso. Abuso emocional por parte dos pais pode causar problemas profundos nas crianças e nas pessoas adultas que elas se tornarão, por isso a ajuda é tão importante. Nesse momento, o mais importante é ter esperança; afinal, essa situação não vai se sustentar para sempre, e você conseguirá sair desse ciclo de violência. É importante desenvolver a capacidade de se perdoar e entender que a culpa não é sua, mas da pessoa que te agrediu, além de ter consciência plena de que seus pais (ou apenas um deles) abusa/abusava de você e como. Se apenas um dos seus pais for abusive e você se sentir à vontade para isso, conte para a outra pessoa. Além disso, é vital que você crie uma distância com a pessoa que abusa de você, a fim de que ela não volte a fazê-lo e você possa lidar com seus traumas em paz. Isso será difícil, porque pais abusivos tendem a aumentar as agressões em quantidade e intensidade quando filhe começa a se distanciar, mas, com uma rede de suporte bem estabelecida entre você, psicólogue, amigues e outres familiares, você será capaz de superar essa fase mais violenta e se reinserir num contexto de relacionamentos saudáveis.

Se você conhece alguém que esteja passando por essa situação, fique disponível. Mostre que você se importa com essa pessoa e que deseja que ela saia desse relacionamento doente; mostre a ela os sinais, diga a ela que você está pronte para ouvi-la e conduzi-la a uma pessoa que possa guiá-la melhor para sair desse relacionamento. Ajude-a a perceber que a culpa não é dela, mas da pessoa agressora, e exerça sua paciência. Não é com violência que se tira uma pessoa de um contexto violento.

Referências que usei: 
The Invisible Scar – Adult Survivors of Emotional Abuse
WikiHow – How to Deal With Emotional Abuse From Your Parents (For Adolescents)
Healthy Place – Emotional Abuse: Definition, Signs, Symptoms, Examples
PsychCentral – Signs of Emotional Abuse
WikiPedia – Dysfunctional family

Conheço uma pessoa assexual, e agora?

Ao contrário de pessoas homo, bi e pansexuais, poucas pessoas assexuais sentem necessidade de se assumir. Eu, particularmente, senti essa necessidade, porque o fato de ser mulher implica em gravidez compulsória e disponibilidade sexual, e, sabendo que sou assexual, as cobranças seriam menos ferrenhas e/ou menos frequentes. Com ou sem essa necessidade, contudo, é provável que mães, pais, amigues e conhecides da pessoa assexual vão, em algum momento, ficar sabendo sobre a orientação sexual dessa pessoa, e suas cabeças ficarão cheias de dúvidas. E então vem aquela insegurança: tenho filhe/amigue/conhecide assexual, o que eu faço?

A primeira coisa que você tem que fazer quando alguém assume uma orientação sexual e/ou identidade de gênero não-normativa é respeitar. Pessoas assexuais querem respeito, da mesma forma que qualquer pessoa quer respeito. Respeitar uma pessoa assexual é deixá-la confortável no tocante à sua sexualidade. Não tenho como fazer uma lista completamente precisa de coisas que você não deve fazer se quiser respeitar uma pessoa assexual porque cada pessoa é uma, e cabe a você perguntar a ela o que a deixa desconfortável quando necessário, mas algumas coisas deixarão a maioria das pessoas assexuais desconfortáveis, por exemplo:

  • “mas todo mundo é um pouco assim”
  • “isso vai passar logo, você vai ver”
  • “é só você encontrar a pessoa certa que a vontade de fazer sexo aparece”
  • “não é porque você não gosta de sexo que precisa inventar um nome pra isso”
  • “se você saísse de casa não seria assim”
  • “então você é virgem?”
  • “mas você namorou tal pessoa durante anos e vem com esse papinho agora?”
  • “se você nunca fez sexo, como sabe que é assexual?”
  • “o que eu fiz de errado para você ficar assim?”
  • “você devia procurar um psicólogo/psiquiatra”

Entre outros comentários depreciativos, ofensivos e completamente desnecessários. Outro ponto a se pensar é sobre as perguntas; sua curiosidade sobre a vida de uma pessoa assexual vem da sua ignorância ou do fato de que você acha a orientação sexual dela tão exótica, tão diferente de tudo o que viu e concebeu na vida, que quer saber detalhes íntimos? Não é melhor considerar que assexuais são pessoas, assim como você, e pensar como você reagiria às mesmas perguntas e aos mesmos comentários, caso eles se referissem à sua orientação sexual? Para pessoas heterossexuais talvez essa projeção seja um pouco diferente, e até mais difícil, porque elas não estão acostumadas a ser oprimidas por sua orientação sexual, mas com um pouco de esforço e empatia, tudo se resolve.

Fora isso, se o seu relacionamento com a pessoa assexual em questão é saudável, não há nada que precise ser mudado nele. Ela continua sendo a mesma pessoa, e você também; qual o sentido de mudar seu relacionamento só porque você soube que a pessoa não sente atração sexual da forma que você sente? O que isso muda na sua vida? Não acha que a atração que essa pessoa sente diz respeito somente a ela? Seja você mãe, pai ou amigue da pessoa assexual em questão, por quem, como, quando e por que ela sente atração sexual não é da sua conta, a menos que a própria pessoa resolva falar disso com você ou pedir sua opinião. E, mesmo assim, muitos detalhes ainda não serão da sua conta. Ou seja: não pressione. Se a pessoa quiser dar detalhes da sua vida sexual/amorosa para você e você estiver confortável com isso, ela dará. Não faz sentido ficar perguntando ou fazendo alusão a isso o tempo todo, mesmo que seja para reforçar que você sabe que a pessoa não sente atração alguma. Comentários como “você vai morrer sozinhe” ou “agora eu sei que você nunca vai engravidar, mesmo” não ajudam e só colocam para baixo, além de ser preconceituosos em vários níveis.

Se você lê em inglês, recomendo também o FAQ da AVEN para família e amigues de pessoas assexuais. Senão, pode conferir o FAQ para esposes/namorades de pessoas assexuais ou o FAQ para pais de pessoas assexuais no site da Comunidade Assexual.

O amor é capitalista

Eu ensaiei muito esse post. Muito mesmo. Por várias razões. A principal é que, mesmo fazendo essa associação desde criança, eu nunca li o suficiente a respeito para ter uma opinião mais madura do que aquela que formo sozinha. Depois, estava tentando reunir exemplos o suficiente para falar disso, e, apesar de não tê-lo feito de forma satisfatória para mim, provavelmente vou voltar ao assunto, então farei uma introdução hoje e, no futuro, aprofundarei meus conhecimentos e os posts sobre amor e capitalismo.

Como já disse, penso nisso desde criança, e a primeira forma de amor com a qual uma criança tem contato é o amor fraternal (aquele que vem das pessoas que nos criam e de nosses irmãos e irmãs). Sou filha única, logo, o amor do qual estive exclusivamente próxima, até os 17 anos, foi o amor dos meus pais. Isso me fez pensar abundante e incessantemente sobre a natureza desse amor, que muitas vezes me parecia exageradamente protetor e possessivo. Claro, as pessoas adultas sempre fizeram questão de invalidar os meus questionamentos, dizendo que “quando você crescer, vai entender” ou “quando você for mãe, saberá do que estou falando”. Ainda não sou mãe, então não posso refutar a segunda afirmação, mas a primeira é claramente inválida, pelo menos no meu caso. Estou com 20 anos, o que pode não ser muito, mas já é o bastante para dizer com certeza que sou adulta e ainda não entendi por que o amor maternal e paternal precisa ser tão… Paternalista. Não entendi, mas tenho algumas hipóteses. A que me convence melhor é a de que isso acontece porque o amor, na nossa sociedade, é visto da mesma forma que todas as outras coisas e até mesmo pessoas: uma mercadoria, um objeto, que você pode obter e perder, que pode ser “comprado” e “roubado”.

Recentemente, minha mãe me deu um exemplo muito claro de que esse pensamento existe e do quanto está arraigado nas mentes das pessoas. Via facebook, ela compartilhou uma foto dizendo que o maior medo dos pais seria perder os filhos, ou coisa parecida, ao que eu argumentei que não se pode perder algo que nunca foi sua propriedade. Ela, mais que depressa, refutou que eu sou, sim, propriedade dela, que ela é minha dona, pura e simplesmente por ser minha mãe. É óbvio que ela não usou essas palavras, mas a ideia geral era essa. Eu, então, pedi a ela que me mostrasse o certificado de propriedade, a nota fiscal, a escritura que me vinculava a ela dessa forma mercantil e capitalista, e foi aí que ela pensou que talvez, e apenas talvez, transformar pessoas em mercadorias não fosse algo tão legal assim, muito menos uma demonstração de amor. Porque é isso que as pessoas pensam: que ter umas às outras, agir como se o outro fosse sua propriedade é demonstração pura de amor. Eu mesma já pensei assim, e mesmo hoje tenho dificuldades para conter isso. É uma cultura hegemônica entre nós, que só será subvertida com a subversão da noção capitalista de que tudo tem um valor comercial, o que está bem longe de nós, mas não custa sonhar, não é?

Exemplos dessa visão capitalista do amor, que bota valor monetário em tudo e todos e aplica seus conceitos econômicos a tudo e a todos, são recorrentes nas relações entre pais e filhes. Dadas as devidas exceções, temos filhes para suprir uma necessidade pessoal de sermos mães ou pais, e não porque queremos fazer algo por uma criança ou pelo mundo ou qualquer coisa do tipo; tratamos nosses filhes como bonecas que fazem tudo o que queremos, ou como uma projeção de nós mesmos, um ser sem consciência, um objeto que só existe para nos agradar, e, quando isso não acontece, ficamos decepcionades; entendemos nosses filhes como nossa propriedade, e temos medo de que os “roubem” de nós, não só no sentido literal (como num sequestro, por exemplo), mas também no sentido figurado – afinal, quantos pais não têm medo de que suas crianças arranjem amiguinhes e deixem-nos de lado?

A segunda forma de amor com a qual tive contato foi a amizade, que é, de longe, a mais desinteressada de todas as que experimentei. Ainda assim, algumas pessoas insistem que se pode “trocar” um amigue por outre, como se as duas (ou três, ou quatro, enfim) pessoas envolvidas fossem figurinhas do Harry Potter.

Depois da amizade, vem o amor romântico. Isso é particularmente difícil de falar no meu caso, porque é bastante recente e inclui muitas nuances da minha sexualidade, mas tentarei me desvincular disso, porque é tema de outro post. Por isso, falarei, especialmente, de relacionamentos que observei, seja entre meus pais, entre amigues, enfim. Todos esses relacionamentos eram monogâmicos, e a monogamia compulsória (ou seja, o sistema em que se impõe a todas as pessoas que elas devem ser monogâmicas para serem aceitas na sociedade) deixa bastante explícita a noção de que pessoas são mercadorias. Num relacionamento monogâmico faz-se um contrato de exclusividade, ou seja, as duas partes concordam em não desejar nem se relacionar com mais ninguém. Na minha opinião, isso, por si só, é tentar negar os sentimentos, o desejo e a expressão da sexualidade das pessoas, o que as reduz a objetos ou sombras de pessoas; afinal, como se pode ter certeza de que jamais haverá sentimentos por mais ninguém, ou, que seja, apenas o desejo? Se não se pode, o contrato é desonesto e torna-se inválido, a menos que ambas as partes também concordem em ignorar sumariamente essas partes de si mesmas e, eventualmente, tornarem-se propriedade do outro. Muitas vezes eu ouvi que os ciúmes são “medo de perder” alguém, e, como já citei, não se pode perder algo que não seja sua propriedade, o que confirma que os relacionamentos monogâmicos (e muitos relacionamentos não-monogâmicos também) são capitalistas na medida em que tratam as pessoas como objetos que podem ser roubados e perdidos.

Como última consideração, nossa linguagem corrobora tudo isso. “Meu” esposo, “minha” esposa, “meu” filho, “minha” filha, “meu” amigo, “minha” amiga, enfim, precisamos utilizar pronomes possessivos ao nos referirmos às pessoas que amamos, e não consigo pensar em nenhuma alternativa viável a isso. A cultura que transforma pessoas em objetos e mercadorias é onipresente e é quase impossível escapar dela, mas, quem sabe, não vivamos algum dia num mundo em que as pessoas sejam tratadas como pessoas e os objetos, como objetos?

Sexualidade e romantismo

Vejo muitos problemas na concepção atual de amor. Esses problemas vão desde a essência de algumas relações amorosas até a mercantilização do amor, mas cada um deles merece um post para si, porque a discussão é longa e rende muito. Neste post, eu vou tratar de um problema o qual não costumo discutir com as pessoas: a relação entre sexualidade e romantismo.

A maioria das pessoas admite a dissociação entre sexo e amor, unilateralmente. Prova disso é que o sexo casual é – felizmente – aceito na sociedade pós-industrial, embora com vários poréns. Não ignoro, é claro, a ditadura machista sobre nossa atitude sexual, que exige que as mulheres sejam santas e associem amor e sexo com muito mais frequência do que os homens o fazem, mas o fato é que, mesmo entre mulheres, o sexo casual já não é mais o tabu que foi, digamos, na época em que minha mãe era jovem – a saber, década de 1960. Sei disso porque fui criada numa família conservadora, que me ensinou a não me aproximar dos homens, porque tudo o que eles queriam era sexo e eu, enquanto mulher, não podia responder diretamente a essas investidas, ou seria taxada de puta, vadia, piranha e todos os outros adjetivos carinhosíssimos que todas nós já ouvimos pelo menos uma vez na vida. Quando cresci, aprendi que eu podia, sim, responder, mas em situações muito específicas. Também não vou me ater ao assunto da liberalização sexual feminina, ou esse post vai ficar longo demais; o ponto é que o sexo casual é razoavelmente aceitável em nossa sociedade, apesar de o ser em medidas diferentes para homens e mulheres.

Quando é exigido das pessoas que se dissocie amor e sexo, nessa ordem, muitas têm dificuldades em fazê-lo. Ainda é inconcebível para muita gente que uma relação romântica – um namoro, um casamento, etc – exista sem o componente sexual. Assim como o já citado machismo, isso também é pensamento aprendido; eu mesma aprendi assim, na escola mesmo, e, se não tivesse aprendido lá, aprenderia folheando qualquer revista feminina, nas quais propagandas berram que “sexo é vida” e prometem resolver todos os problemas de um casamento monogâmico falido corrigindo a impotência do marido ou a falta de vontade da mulher de ceder às investidas dele – porque, claro, o único papel de uma mulher num relacionamento sexual é ceder ao marido, não cabe a ela estimulá-lo; e ai dela se não ceder! Esse é outro aspecto que enxergo muito bem nos meus pais: em crise, eles reclamam de forma recorrente da falta de vontade de fazer sexo, e culpam esse fator isoladamente pela infelicidade pela qual passam. Parece que esqueceram de contar a eles, e à maioria das pessoas, que amor não tem, necessariamente, a ver com sexo. Um casamento é, antes de tudo, uma amizade; afinal, uma pessoa precisa ser muito amiga e confiar muito em outra para escolher passar o resto todo da vida com ela. O mesmo se aplica a um namoro. Relacionar-se amorosamente com alguém é abrir o seu coração e a sua alma para que alguém possa passar um tempo dentro de você, explorando seu íntimo, e isso não se faz sem uma amizade forte e grande confiança.

Talvez tudo isso que eu estou dizendo soe um pouco romântico demais, mas pense bem: uma pessoa qualquer, independente de sua orientação sexual, precisa ter relações sexuais todos os dias com a pessoa que ama para continuar amando-a, ou para continuar chamando a relação que tem com ela de namoro, casamento ou qualquer outra coisa? Você, que namora, me diga: se ficar três semanas sem fazer sexo com namorade, por qualquer razão, o namoro de vocês obrigatoriamente acaba? Se você respondeu que sim, está simplesmente exercendo sua liberdade de colocar o sexo como fator obrigatório para um relacionamento feliz, mas eu acredito que exista muito mais num namoro que o sexo, mesmo que se excetuem todas as coisas que eu disse anteriormente sobre abrir o coração para uma pessoa. Quando se namora alguém, não se namora o genital dessa pessoa, nem qualquer zona erógena que ela tenha; namora-se a pessoa por inteiro, inclusive sua mente, suas crenças e seus pensamentos. Um namoro que só existe pelo sexo podia existir perfeitamente bem, e até melhor, como uma amizade colorida, sem compromissos, com muito mais liberdade para as pessoas envolvidas; um namoro que existe pelo companheirismo, pelo amor, pela simples vontade de estar com a outra pessoa, existe bem com ou sem sexo. É claro que, em alguns relacionamentos, a falta de sexo é um problema, mas ela é mais um indicador de problemas muito maiores do que uma querela em si.

Falei tanto sobre isso porque uma das formas de preconceito contra assexuais mais pungentes que vejo pela internet e fora dela é dizer que vamos passar o resto das nossas vidas sozinhes. Eu mesma já ouvi isso dos meus pais, diversas vezes, porque além de assexual, sou uma pessoa muito difícil de me abrir para quem quer que seja. É tão comum assim ouvir isso justamente por causa dessa cultura tão arraigada de que um relacionamento amoroso deve vir com sexo embutido, ou então não é namoro de verdade. Se você já disse isso para alguém, ou se já pensou em dizer alguma vez, assexuais – pasme! – também namoram. E nem sempre é com outra pessoa assexual. Muitas pessoas sexuais mantém relacionamentos saudáveis com assexuais, e, embora eu não tenha detalhes sobre esses relacionamentos, posso dizer que eles não são um fracasso total, porque existem. Ser assexual não é assinar um termo que te obriga a ficar sozinhe para sempre, é simplesmente aceitar sua sexualidade, assim como ser gay, lésbica, bissexual, etc; e, da mesma forma que existem pessoas assexuais que têm relacionamentos amorosos saudáveis, existem pessoas assexuais que também são arromânticas, e são saudáveis sem qualquer relacionamento amoroso. Tudo o que nos contaram sobre precisar de um amor para viver e de sexo para ser feliz no casamento se revela, a partir desta data, como mentira.