A vaidade da mulher assexual

Eu gosto de maquiagem. Gosto de pintar e desenhar, apesar de não fazer isso muito bem, e gosto de fazer o meu corpo como tela de pintura. Não tenho tatuagens, mas me maquiar me faz saciar um pouquinho essa vontade de fazer arte no meu corpo. Sei passar corretivo, base, pó, sombra, batom… Mas não passo. Não passo porque, quando eu era criança, minha mãe me incentivava para passar maquiagem e, quando passava, sempre vinha alguém me perguntar aonde eu ia ou para quem eu estava me arrumando, e isso me irritava muito. Para uma pessoa que sempre se incomodou ao ser associada a romance e sexo, isso era muito irritante. Era mais fácil parar de passar maquiagem do que explicar para todo mundo que eu não estava me arrumando para nada ou para ninguém, só para me sentir bem com a arte no meu corpo.

Crescendo um pouco, eu descobri que a vaidade é algo esperado de mulheres de forma geral, mas não para que elas se sintam melhores consigo mesmas, e sim para que possam impressionar homens. Mesmo que eles morram de dizer que preferem mulheres sem maquiagem, a cobrança para usarmos os cosméticos como forma de impressioná-los e/ou mantê-los por perto (sabe como é, “segurar marido”, para ele “não procurar fora de casa o que não encontrou dentro”) existe muito fortemente no nosso cotidiano. É claro que muitas mulheres usam a maquiagem como forma de empoderamento e de se sentir melhor com a própria aparência, mas a cobrança da sociedade diz respeito a impressionar homens. Isso não vale só para maquiagem, claro: usar vestido e salto me sujeita aos mesmos comentários.

Para mulheres assexuais, ser associada à ideia de tentar “capturar” ou “segurar” homens é violento. Nós não queremos homens, da mesma forma que não queremos mulheres. Nós não queremos conquistar ninguém, não queremos impressionar ninguém. Dizer o contrário é negar nossa personalidade, nossa essência.  Para a mulher assexual, ser vaidosa é um tabu no sentido que uma mulher vaidosa é socialmente lida como uma mulher que está procurando um parceiro, provavelmente homem; inclusive, muita gente ainda acha que uma mulher que usa batom vermelho está dando carta branca para que abusem dela. Não ser vaidosa também não é socialmente aceitável, porque mulheres precisam “se cuidar”: se depilar, não ter cheiros desagradáveis em parte nenhuma do corpo, não ser gordas, não estar com frizz no cabelo, não andar com tênis velho, etc. Todas essas características partem de dois pressupostos exageradamente machistas, que são: 1) toda mulher está disponível para pelo menos um homem; e 2) ser gorda, ter frizz no cabelo, não usar maquiagem, não se depilar, enfim, não estar dentro do padrão de higienização e beleza femininas é não se cuidar.

Se você acredita nisso, pense de novo. Primeiro, se submeter a procedimentos malucos e dolorosos para atingir um ideal de beleza não é se cuidar, de jeito nenhum. Segundo, uma pessoa pode se cuidar de diversas formas, sem ser fisicamente. Ela pode cuidar do espírito, da mente. Pode cuidar do seu sono. Pode equilibrar a sua rotina de forma a não ficar muito estressada, e isso é cuidar de tudo ao mesmo tempo. Não é porque você não consegue ver os resultados desse cuidado que ele não existe.

Se você é mulher e assexual e tem receio de se maquiar ou usar salto alto ou qualquer outra coisa porque não quer sofrer assédio e não quer que as pessoas associem o seu comportamento a busca por sexo, vamos nos libertar juntas. A ideia de que mulheres vaidosas estão, necessariamente, tentando impressionar homens é machista, obsoleta e errônea. Todas as mulheres merecem sair na rua sem ser lidas como máquinas de sexo, sejam elas assexuais ou não; para nós, que somos assexuais, esse assunto é ainda mais delicado, mas ter os comportamentos que nos são negados por causa dessas ideias erradas da sociedade nos empodera e nos torna visíveis. Usar maquiagem, vestido e salto alto e não estar procurando por sexo é uma forma de dizer ao mundo que você é assexual, que você existe e que vai fazer o que bem entender, não importa o que os outros achem, porque você é mulher e dona de si.

Anúncios

Vamos pintar a vida de amarelo

TW: SUICÍDIO

Estamos entrando nas últimas semanas de setembro, mês escolhido para sediar a campanha contra suicídio do CVV (Centro de Valorização da Vida). Chamada de “setembro amarelo”, a campanha propõe levas informações sobre a problemática do suicídio para a população que nunca sofreu com esse fantasma e ampliar a rede de apoio para a população que sofre ou já sofreu.

Em 2014, o Brasil era o 8º país com mais suicídios no mundo e o 4º com o maior crescimento no número de suicídios na América Latina. Não sei e não cabe a mim discutir as causas dessas estatísticas tão exorbitantes, mas o fato é que moramos num país onde o número de pessoas acometidas por essa epidemia é grande e cresce rápido, enquanto o número de pessoas ignorantes sobre ela se mantém altíssimo. Todo mundo que já teve ideações suicidas ou tem amigos próximos que já as tiveram sabe que não é fácil encontrar uma pessoa para quem desabafar. Desordens mentais, infelizmente, ainda são vistas como fruto de uma falta de vontade pessoal, de uma grande preguiça existencial, e não de um real desequilíbrio mental e químico que resulta numa doença crônica, de difícil manejo e alto risco de morte. Assim que tentamos encontrar uma pessoa com quem conversar, esbarramos no clichê do “você deveria sair mais”, ou “você deveria arranjar um emprego/uma pessoa para namorar/uns amigos”. Não é simples se livrar de uma depressão ou de ideações suicidas, porque elas são parte da sua mente, uma parte que pode ser confortável, mas que ninguém gosta de ter; mas também são partes que estão sempre ali, o tempo todo, cutucando, machucando, ferindo sem dar tempo de cicatrizar. Só com muito trabalho e tempo elas vão embora, mas, enquanto não vão, é imprescindível que as pessoas em volta de quem está tendo ideações suicidas entendam que estar mal não é escolha, e muito menos gostoso.

Obviamente nem todas as pessoas suicidas pensam a mesma coisa, mas um sentimento que pode ocorrer é o de falta de esperança, de que não existe um motivo para acreditar que as coisas vão melhorar. Dessa forma, não importa o que exista lá “do outro lado”, vai ser melhor que o que existe aqui. Sem esperanças de que a vida vá melhorar, a pessoa suicida passa para um estado de inércia (veja: inércia, não preguiça), em que não vale a pena tentar sair do fundo do poço. Terapia não é mais uma opção, porque, nesse estágio, a pessoa entende que não é um terapeuta que vai conseguir tirá-la daquele estado. Esse é o pensamento da pessoa suicida, mas não necessariamente é a verdade. Uma pessoa deprimida, sem esperanças na vida, costuma ver a realidade de forma mais distorcida que o restante das pessoas. É aí que a atuação de pessoas em situações melhores é crucial: as palavras certas podem significar muito para uma pessoa em ideação suicida, mas um passo em falso pode ser fatal. Para quem nunca esteve numa situação dessas, cabe saber que ajudar não é dizer o que a pessoa deveria fazer, mas sim, o que ela pode fazer. Dizer que uma pessoa deprimida deveria não estar mais deprimida é fácil, mas o que ela realmente pode fazer para chegar até lá? Fazer com que a pessoa se acalme em momentos de crise, ajudá-la a acreditar um pouco mais na eficiência da terapia, ocupá-la com atividades lúdicas e que a distraiam dos pensamentos suicidas são algumas das alternativas, mas conhecer a pessoa que se quer ajudar é a melhor opção. Só assim você saberá como realmente ajudá-la sem piorar a situação.

Nesse sentido, existe mais um problema: a personalidade da pessoa suicida. Se você já conhecia essa pessoa antes do período de depressão, saiba que ela não é mais a mesma pessoa de antes. A depressão nos transforma, nos deixa muito diferentes do que éramos antes. Se a pessoa em questão for adolescente ou jovem adulta e tiver passado toda a adolescência em depressão, o caso é ainda mais grave, porque essa pessoa não teve a oportunidade de formar sua personalidade, já que havia uma mentalidade deprimida tomando conta dos pensamentos dela e ela nunca conseguiu agir por si só. Por isso, dizer para uma pessoa deprimida e/ou com ideações suicidas coisas como “você não é a pessoa que eu conheci” é um erro. Só vai deixá-la ainda mais deprimida por ter decepcionado alguém que ela amava, e não vai ajudá-la de forma alguma.

Depois que a pessoa que você está tentando ajudar conseguir sair do fundo do poço, saiba que ela ainda não voltará a ser a mesma que era antes de tudo isso acontecer. É bastante comum que pessoas que passaram por essa experiência tenham Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT), uma doença psiquiátrica causada por eventos violentos. Idealizar, planejar e tentar suicídio é uma grande violência contra si próprie, e ninguém vai te dizer o contrário; logo, nada mais natural que haja um trauma depois dessa violência. Caso a pessoa suicida tenha TEPT, antes ou depois de se livrar da causa das suas ideações e/ou tentativas de suicídio, a terapia é muito importante, bem como o apoio das pessoas próximas a ela. Não é fácil sofrer com crises e mais crises de pânico, ansiedade e euforia, mas virar as costas para uma pessoa com TEPT pode ser o fim dela. Só faça isso se a pessoa pedir – e, mesmo nesse caso, saiba avaliar se ela está fazendo isso porque sua relação com ela é tóxica ou se é por um desejo de isolamento para que a culpa pelo suicídio iminente seja atenuada.

Numa analogia simples: todas as pessoas do mundo têm uma latinha de tinta, um pincel e uma parede para pintar. As pessoas saudáveis estão com a latinha cheia e as pessoas deprimidas estão com a latinha vazia. Se você tem a latinha cheia e seu amigo tem a latinha vazia e nenhum dinheiro para comprar tinta, você tem duas formas de ajudar: usando um pouco da tinta da sua latinha para encher a latinha dele ou dar dinheiro para ele comprar mais tinta. Não adianta dizer a ele para ir à loja comprar tinta, porque ele não tem dinheiro. Também não adianta dizer que ela deveria arranjar mais tinta, porque ele não tem como fazer isso. O que você pode dar ao seu amigo são meios, opções para que ele arranje a tinta. Dizer que ele precisa de mais tinta é o óbvio, e só vai fazê-lo se sentir mal por não ter tinta na latinha.

Se você tem a latinha vazia, não desista de você mesme. Vai melhorar. Isso é um conselho de quem, um dia, já perdeu até a latinha.

Se você tem a latinha cheia, pegue o seu pincel, molhe na sua tinta e pinte a vida de todas as pessoas à sua volta de amarelo, para sempre. Setembro vai acabar, mas a sua tinta, não.

Para conhecer o seu corpo

Hoje, a seção TAB do Uol postou um infográfico esteticamente maravilhoso (mas que demora um pouco para carregar com conexões lentas) sobre a assexualidade, repleto de imagens de bolos sendo obscenamente cobertos por caldas de chocolate e cortados (para ser devorados por alguém que não sou eu, o que é triste). As pessoas que contribuíram para a elaboração desse infográfico foram muito felizes em diversos aspectos, deixando bastante claro o quanto somos felizes sem sexo, ou sem a necessidade de fazê-lo. No final da página, há um teste para saber se você é assexual ou só “tem preguiça” de fazer sexo. Eu já estava esperando que não concordasse com a matéria inteira, afinal, é muito difícil concordar inteiramente com o pensamento dos outros, então a presença desse teste não me surpreendeu. Já disse aqui, algumas vezes, e volto a bater na tecla: ninguém pode te dizer se você é assexual ou não, e “preguiça de fazer sexo” pode significar assexualidade, sim – da mesma forma que pode não significá-la. A ajuda de profissionais da medicina e da psicologia pode ser importante caso você desconfie que a sua falta de libido seja uma doença, mas a única pessoa que pode afirmar qualquer sobre sobre a sua sexualidade é você. (Se você ainda tiver dúvidas quanto a isso, sugiro a leitura do post Eu sou assexual?)

Uma das perguntas desse teste é: “Você se masturba com qual frequência?”, e as respostas possíveis são: “Com frequência”, “Evito me masturbar”, “Diariamente, às vezes mais de uma vez por dia”, “Apenas quando o corpo pede”. Torci um pouco o nariz para essa pergunta, e por isso marquei a primeira opção, e continuei o teste normalmente. O resultado foi “assex”. Refiz o teste, agora colocando a terceira opção para essa pergunta, e, novamente, o resultado foi “assex”. Isso me deixou um pouco mais aliviada, porque parece que esse teste não leva muito em consideração a frequência com a qual você se masturba para dizer se você é assexual ou não. Isso é bom. Significa que pessoas sexuais (ou alossexuais) estão entendendo o que é a assexualidade e que ela não necessariamente tem a ver com a sua relação com o seu corpo. Na maioria das vezes em que me foram feitas perguntas sobre a assexualidade, a masturbação apareceu de alguma forma, sutil ou não, no meio da conversa, e eu sempre digo o mesmo: não existe uma lei que proíba pessoas assexuais de se masturbarem, seja porque sentem desejo por si próprias ou porque têm vontade de sentir prazer sexual. Algumas pessoas assexuais sentem prazer sexual, e, dado que não há atração por outras pessoas, a masturbação é uma boa forma de alcançar esse prazer.

Mas o prazer sexual não é a única recompensa que a masturbação nos oferece. Masturbar-se é uma prática saudável porque alivia o estresse, já que os neurotransmissores liberados durante a masturbação (e também durante o sexo) favorecem o relaxamento; melhora a dor de cabeça, por causa das substâncias prazerosas que o cérebro produz durante o processo; melhora o tônus muscular, porque a masturbação e o sexo movimentam os músculos e servem como atividade física; e, acima de tudo, ajuda você a conhecer o seu corpo. Principalmente para mulheres, cuja masturbação e cujo corpo são assuntos velados, tocar-se é muito importante. Sem se tocar, você não vai saber como você é, do que você gosta, de onde você gosta que coloquem a mão. Tocar-se aumenta seu grau de intimidade com você mesme, te torna amigue íntime do seu corpo. Ser assexual não deve privar você de todas essas coisas boas que vêm com a masturbação; não é porque você não sente atração por outras pessoas que não deve se masturbar, sentir prazer sexual com você mesme, ou até mesmo com outra pessoa com quem você se sinta à vontade. Não é um encontro sexual ou uma prática comum de masturbação que vai tirar sua carteirinha de assexual.

Acontece que tem muita gente que não gosta de se masturbar, não necessariamente porque se reprime. Tem gente que sente dor, tem gente que não está confortável o suficiente para fazer isso, e tem gente que não gosta da ideia de tocar os próprios genitais; por isso, apresento aqui algumas outras formas de conhecer o seu corpo (e também a sua alma), que podem ser úteis para quem não se masturba, e também para quem quer explorar-se de outras formas.

Vista várias roupas diferentes e veja como elas se adaptam ao seu corpo. Essa história de que o seu corpo precisa entrar nas roupas, e por isso você tem que fazer mil dietas para entrar naquele vestido dois números menor que o seu e que você vai usar na sexta, é só um artifício do mercado para que você compre a ideia de corpo magro = corpo bonito. As roupas são os produtos industrializados feitos para servir o seu corpo, não o contrário; logo, elas precisam se adaptar ao seu corpo, não o contrário. Tire várias roupas do seu armário, de modelos diferentes, de festa e de dia-a-dia, e vá vestindo. Sinta o tecido tocando a sua pele e veja como ele se molda ao contorno do seu corpo. Aprecie a sua silhueta, ela é única e perfeita para você. Caso algumas das roupas não te sirva mais, ótimo! Pegue uma caixa de papelão, coloque todas essas roupas que não se adaptam mais ao seu corpo e doe para alguém que esteja precisando.

Dance. Dançar alegra, além de te deixar mais íntime dos seus músculos, da força das suas pernas e braços, e, consequentemente, do seu corpo. Caso a dança seja de salão, você ainda vai conseguir trabalhar sua relação com outras pessoas. Dança do ventre e pole dance trabalham ainda a sensualidade e a sua relação com ela. Além disso, dançar, assim como se masturbar, libera substâncias prazerosas no seu cérebro, e você vai sentir menos dor muscular, menos dor de cabeça e menos tristeza. Dançar na frente do espelho vai te ajudar a enxergar e aceitar a forma como seu corpo se movimenta.

Lute. Lutar é ótimo para extravasar a raiva! Com a onda recente do muay thai, kickboxing e outras lutas como forma de emagrecimento, vai ser bem fácil encontrar um lugar que ofereça aulas de lutas. Lutar também melhora o tônus muscular, te ajuda a conhecer os limites do seu corpo e aceitar a forma como sua mente e seu corpo reagem a situações de tensão e alerta. Além de tudo isso, você ainda ganha mais uma forma para se defender de violências.

Saia sozinhe. Vá ao shopping, veja um filme, faça uma refeição, tudo isso com você mesme como companhia. Sair com amigues é bom, mas a conversa pode ofuscar seus pensamentos. Além disso, sair na sua própria companhia te ajuda a ter mais paciência com você mesme, além de se entender mais e se importar menos com os olhares e as conversas das pessoas ao seu redor. Quantos filmes você viu nesse ano? Você veria todos eles se estivesse sozinhe ou viu alguns por influência das pessoas que estavam com você? Quantas refeições você fez acompanhade? Teria feito todas elas da mesma forma ou alguns itens do seu prato foram influência das pessoas que estavam com você? A resposta para essas perguntas está em se conhecer, em saber como você agiria se estivesse sozinhe.

É claro que essas são apenas sugestões: você pode procurar a forma de se conhecer que combine mais com você, com as suas demandas e seus traumas. Além disso, caso você tenha problemas com alguma dessas práticas, não a faça! Não se expor a situações traumáticas também é importante na hora de se conhecer. Considerando tudo isso, o resto é por sua conta. Boa sorte nessa empreitada para conhecer seu corpo e sua mente!

Eu não sou LGBT

Hoje aconteceu a 19ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, na Avenida Paulista, como todos os anos. Muita gente me chamou para ir; eu não fui. Tenho diversos problemas com a Parada (por exemplo, o fato dela ser uma manifestação de cunho político, mas ter empresas que a apoiam abertamente), mas o principal, e que sempre me faz negar todos os pedidos dos meus amigos para que os acompanhem, é que a Parada não me representa.

Não me representa por um motivo simples: eu não sou LGBT.

É claro que não estou falando sobre ser a quatro coisas ao mesmo tempo, mas sim, do fato de que não sou lésbica, nem gay, nem bissexual, nem transexual. Aliás, já perceberam quantas nuances de sexualidade ficam de fora dessa sigla? Eu, enquanto pessoa assexual, não sou incluída, bem como companheires poli e pansexuais, por exemplo. Somos pouques? Talvez. Somos invisíveis? Nessa luta, com certeza. Se não fôssemos, não teríamos tantas pessoas envolvidas com a militância LGBT afirmando que não existimos, que ainda não encontramos a pessoa certa, que um dia vamos entender que somos lésbicas/gays/heterossexuais e vamos parar de afirmar que não temos interesse por sexo. Seria obviamente violento da nossa parte dizer para um homem gay que ele, na verdade, não encontrou a mulher certa e que, um dia, vai entender que é hetero e que vai parar de dizer que não tem interesse por mulheres; por que não é tão obviamente violento quando esses comentários são dirigidos a pessoas assexuais?

Acredito que nossa ausência na sigla LGBT tenha um tanto de responsabilidade nesse sentido. A invisibilidade de pessoas assexuais é tão grande, mas tão grande, que não temos lugar nem mesmo na comunidade LGBT. Nem mesmo a hipócrita atitude de falsa inclusão acontece conosco; ninguém tenta nos enfiar em qualquer buraco da militância só para dizer que estamos ali, que lembraram de nós. Ninguém lembra de nós. De certa forma, isso pode até ser bom: nos poupa de certos problemas, como a transfobia que sempre está envolvida em comentários de pessoas que tentam incluir pessoas trans, geralmente binárias, em seus discursos dessa forma hipócrita. Por outro lado, denuncia o quanto nossa sociedade preza pelo sexo e o quanto as pessoas que fogem desse padrão são “anormais” nesse contexto. Para a sociedade em que vivemos, nós, assexuais, não deveríamos nem mesmo existir, e isso fica bastante claro quando pensamos que nem no ambiente dito “seguro” da militância LGBT temos espaço para celebrar nossa existência.

Não estou dizendo que gostaria de ligar a tela da minha televisão e ver pessoas assexuais representadas lá, da mesma forma que gostaria de ver companheires indígenas, por exemplo, representando a minha cor. Na verdade, nem sei muito bem como isso poderia ser feito – afinal, como seria uma propaganda de perfume com uma pessoa assexual? -, mas seria interessante saber que temos um espaço onde podemos nos expressar e discutir livremente sobre nossa falta de atração sexual. A militância LGBT não é esse espaço. Sei que não somos as únicas pessoas a passar por isso, mas nossa orientação sexual, que deveria ser mais uma dentre tantas que têm um lugar nesse movimento, é constantemente invisibilizada e tratada como objeto de chacota em espaços LGBT, como grupos no Facebook e até mesmo coletivos sérios. Isso pode ser falta de informação, sim, mas nada justifica ignorar completamente uma parte de alguém e considerá-la lésbica, gay ou heterossexual baseado nas suas observações e na forma como você vê o mundo. Lembre-se sempre, quem tem que se categorizar ou não é a pessoa em questão. Você não tem que decidir nada sobre a sexualidade de ninguém além de você mesme.

Obviamente, a invisibilidade não vai acabar quando nos incluírem na sigla; afinal, nos Estados Unidos, muitas organizações de pessoas não-cis-hetero já incluíram o A, e nem por isso as pessoas assexuais são mais visíveis do que eram antes. Inclusão na sigla, contudo, significa que estão cientes de que existimos e que estamos fazendo algum barulho, pelo menos o suficiente para incomodar ou alguém – ou fazer com que alguém olhe para nós. Enquanto não existirmos na sigla, temos o atestado de que somos completamente invisíveis, até mesmo para as pessoas que deveriam estar nos apoiando. Mesmo assim, ainda estamos inserides em espaços LGBT, porque é nesses espaços que costumamos encontrar segurança para falar sobre nossos problemas e indagações quanto a nossa sexualidade. Quando não há hostilidade, grupos e coletivos LGBT nos oferecem discussões ricas e, algumas vezes, esclarecedoras; no entanto, ainda não são espaços ideais, justamente porque, na maioria das vezes, não estamos discutindo com nossos iguais, mas com pessoas que nunca passaram e nunca passarão pelas mesmas experiências que nós. Seria como uma pessoa homossexual tentar discutir sua sexualidade numa roda exclusivamente heterossexual.

A inserção da letra A na sigla que representa as pessoas não-cis-hetero não vai acabar com nenhum problema da comunidade assexual, mas nos ajudaria a dar um passo mais longe da invisibilidade completa; afinal, enquanto eu puder ser categorizada apenas como homo ou heterossexual, sem nenhuma outra opção, a exclusão será sistêmica e constante, e é contra isso que devemos lutar de forma mais urgente.

Quando o amor sufoca – e mata

TW: ABUSO EMOCIONAL

Hoje é dia das mães. É uma data particularmente bonita para as pessoas que têm famílias unidas, que se comunicam de forma saudável e possuem mães que sabem se colocar no seu lugar de mãe sem invadir a privacidade de suas crianças e/ou obrigá-las a desempenhar algum outro papel que não seja o de filhe (amigue, companheire, etc); no entanto, num dia tão especial para mães de forma geral e para pessoas que lutam por seus direitos reprodutivos, precisamos lembrar que nem todos possuem uma mãe, seja porque ela morreu, seja porque não desempenha seu papel de mãe. Também precisamos lembrar que não é necessário abandonar uma criança para deixar de desempenhar a função de mãe – ou de pai, mas não vou discutir aqui se existem diferenças entre as funções de uma mãe e as funções de um pai. Isso fica para outro post.

Mas como um pai ou uma mãe pode deixar de sê-lo sem sair de perto da criança? Há algumas formas de se fazer isso, e uma delas é mantendo um relacionamento abusivo com filhes. Relacionamento abusivo é uma relação entre duas pessoas que se baseia em chantagem emocional, culpa, vergonha, humilhação e isolamento, nem sempre explícitos; ou, numa definição mais elaborada e formal, “qualquer ato que inclua confinamento, isolamento, agressão verbal, humilhação, intimidação, infantilização ou qualquer outro tratamento que diminua o senso de identidade, dignidade e autoestima” (traduzido daqui). Esse tipo de relacionamento, nem um pouco saudável, entrou em voga na internet quando muitas pessoas que produzem conteúdo, seja em forma de vídeo ou texto, passaram a falar abertamente sobre ele. Ainda existe uma defasagem, no entanto, no sentido em que é muito mais fácil encontrar material em português – e até mesmo em inglês – sobre relacionamentos abusivos entre casais do que entre pais e filhes, mas as duas modalidades acontecem de forma bastante comum. Caso você queira saber um pouco mais sobre essa situação ou acha que está inseride nela, deixo aqui um vídeo da JoutJout (que tem um canal maravilhoso!) falando sobre relacionamentos abusivos no contexto de um casal.

No tempo em que estive engajada mais intimamente à militância LGBT, percebi que é bastante comum que pais e mães sejam abusivos com filhes que se encaixam em condições não-normativas de identidade de gênero e orientação sexual. Não sei se existe uma correlação verdadeira entre esses dois fatos, mas foi isso que observei, e foi isso que me levou a pesquisar sobre o assunto e escrever aqui.

Agora que sabemos o que é um relacionamento abusivo, precisamos saber como se percebe que se está em um, e é aí que mora o trunfo desse tipo de violência: não se percebe. Geralmente, nem a vítima, nem o agressor percebem que estão envolvides numa teia nem um pouco saudável de violência e desamor, e é aí que mora o perigo. Cabe às pessoas próximas da vítima alertá-la que essa situação não é saudável e que não pode se sustentar, muito embora o cenário mais comum seja a negação da vítima em relação ao abuso que sofre. É difícil para ela entender e aceitar que aquela pessoa está violentando-a, justamente porque um dos “sintomas” de um relacionamento abusivo é que a vítima se sente culpada e até mesmo merecedora da agressão que sofre. Quando a vítima é filha da pessoa que a agride, o cenário é ainda mais grave. A sociedade nos conta que devemos amar nossos pais incondicionalmente, porque eles nos tratam bem, nos dão amor, carinho e comida na mesa; caso não o façamos, somos ingrates, mesmo que o “amor” e o “carinho” sejam distorcidos a ponto de nos trazer sofrimento. Isso só agrava a culpa da pessoa que sofre abuso por parte dos pais: além de sentir-se culpada e merecedora daquele abuso, ela se sente mais culpada por não conseguir amar seus pais da forma que é esperado dela, apesar da violência.

Se, a essa altura, você acha que está passando por essa situação ou conhece alguém que está, deixarei aqui uma lista de sinais de abuso emocional de pais para filhes. Muitos desses sinais não se aplicam a crianças, e não consegui encontrar material sobre abuso emocional entre pais e filhes direcionado a crianças jovens, que ainda não entraram na puberdade. (A lista foi traduzida integralmente desse site.)

Humilhação, degradação, culpabilização, julgamento, críticas:
Eles zombam de você e te fazem sentir mal na frente de outras pessoas?
Eles te provocam e/ou usam sarcasmo como forma de fazer você se sentir mal?
Quando você reclama, eles dizem que “foi só uma piada” ou que você é sensível demais?
Eles te dizem (ou fazem com que você sinta) que seus sentimentos e suas opiniões estão errados?
Eles ridicularizam, dispensam ou desconsideram suas opiniões, sugestões, seus pensamentos e sentimentos?

Dominação, controle, uso da vergonha:
Você sente que eles te tratam feito criança?
Eles constantemente corrigem ou punem você pelo seu comportamento “inapropriado”?
Você sente que precisa de “permissão” para tomar até mesmo as menores decisões?
Eles controlam seus gastos?
Eles tratam você como se fosse inferior?
Eles fazem você sentir que estão sempre certos?
Eles sempre te lembram dos seus fracassos?
Eles diminuem suas conquistas, suas aspirações, seus planos ou até mesmo sua identidade?
Eles endereçam olhares, comentários e comportamentos de desaprovação, desconsideração, desdém ou superioridade a você?

Acusações e culpabilização, demandas ou expectativas irracionais, negação do próprio fracasso:
Eles te acusam de algo criado na própria mente deles, mesmo que você saiba que não é verdade?
Eles não conseguem rir de si mesmos?
Eles se mostram extremamente sensíveis quando outras pessoas zombam deles ou fazem qualquer comentário que mostre mínima falta de respeito?
Eles têm problemas para pedir desculpas?
Eles arranjam desculpas por seus erros e culpam outras pessoas ou as circunstâncias?
Eles te dão apelidos e rótulos depreciativos?
Eles culpam você pelos problemas ou pela infelicidade deles?
Eles continuamente cometem “violações de limites” e desrespeitam seus pedidos válidos?

Distância emocional e “tratamento do silêncio”, isolamento, abandono emocional e negligência:
Eles diminuem a afeição e a atenção dadas a você como forma de te punir?
Eles se negam a atender suas demandas mais básicas ou usam negligência e abandono como punição?
Eles se fazem de vítima para que a culpa recaia sobre você em vez de se responsabilizar por suas atitudes?
Eles não percebem ou não se importam com seus sentimentos?
Eles não mostram empatia nem fazem perguntas para conseguir informações sobre você?

Codependência e falta de limites pessoais:
Eles tratam você como uma extensão de si mesmos e não como um indivíduo?
Eles não protegem seus limites pessoais e dividem informações que você não quer dividir?
Eles desrespeitam suas demandas e fazem o que acham melhor para você?
Eles demandam contato contínuo com você e não conseguem formar uma rede social saudável com seus iguais?

Se você viu semelhança entre esses sinais e a sua relação com seus pais, procure ajuda o mais rápido possível, de preferência de alguém que esteja fora da situação, como amigues e outres parentes. Se possível, o mais indicado seria conseguir ajuda profissional, de uma pessoa formada em Psicologia e que esteja preparada para ajudar você a superar esse abuso. Abuso emocional por parte dos pais pode causar problemas profundos nas crianças e nas pessoas adultas que elas se tornarão, por isso a ajuda é tão importante. Nesse momento, o mais importante é ter esperança; afinal, essa situação não vai se sustentar para sempre, e você conseguirá sair desse ciclo de violência. É importante desenvolver a capacidade de se perdoar e entender que a culpa não é sua, mas da pessoa que te agrediu, além de ter consciência plena de que seus pais (ou apenas um deles) abusa/abusava de você e como. Se apenas um dos seus pais for abusive e você se sentir à vontade para isso, conte para a outra pessoa. Além disso, é vital que você crie uma distância com a pessoa que abusa de você, a fim de que ela não volte a fazê-lo e você possa lidar com seus traumas em paz. Isso será difícil, porque pais abusivos tendem a aumentar as agressões em quantidade e intensidade quando filhe começa a se distanciar, mas, com uma rede de suporte bem estabelecida entre você, psicólogue, amigues e outres familiares, você será capaz de superar essa fase mais violenta e se reinserir num contexto de relacionamentos saudáveis.

Se você conhece alguém que esteja passando por essa situação, fique disponível. Mostre que você se importa com essa pessoa e que deseja que ela saia desse relacionamento doente; mostre a ela os sinais, diga a ela que você está pronte para ouvi-la e conduzi-la a uma pessoa que possa guiá-la melhor para sair desse relacionamento. Ajude-a a perceber que a culpa não é dela, mas da pessoa agressora, e exerça sua paciência. Não é com violência que se tira uma pessoa de um contexto violento.

Referências que usei: 
The Invisible Scar – Adult Survivors of Emotional Abuse
WikiHow – How to Deal With Emotional Abuse From Your Parents (For Adolescents)
Healthy Place – Emotional Abuse: Definition, Signs, Symptoms, Examples
PsychCentral – Signs of Emotional Abuse
WikiPedia – Dysfunctional family

Querido homem

Hoje é 8 de março, dia da mulher, e estou escrevendo este texto especialmente para pedir a você que não me dê parabéns. Explicarei por quê.

Assim como você tem seus broders, as mulheres são minhas irmãs. E isso não é porque eu sou um ser iluminado e acredito que todas as pessoas são irmãs. Isso é porque existe uma estrutura social dedicada a arruinar as vidas das mulheres no mundo todo, a fim de que elas permaneçam como seres inferiores por uma miríade de razões: o patriarcado. Esse patriarcado nos faz acreditar que somos inimigas, que devemos competir o tempo todo; e, como disse brilhantemente Chimamanda Ngozi Adichie, não competimos “por empregos ou conquistas, o que pode ser algo bom, mas pela atenção dos homens”. Esse mesmo patriarcado, que transforma minhas irmãs em inimigas, reforça a ideia de que todas nós existimos com a única função de servir homens como você. Mesmo que você seja um homem “diferente”, nós ainda existimos para servi-lo. Sendo homem, você automaticamente está inserido nessa cruel relação de dominação, mesmo que não queira. Sendo homem, a sociedade o colocou, sem perguntar a você se queria ou não, na posição de abusador emocional de mulheres. Quando estamos andando na rua sozinhas à noite e o encontramos, não paramos para nos perguntar se você tem um bom caráter. O medo nos sobe à cabeça e nós corremos. Você não tem como lutar contra isso, porque, num relacionamento abusivo, quem deve lutar para se livrar disso é a vítima; o que você pode fazer é conscientizar seus iguais da existência dessas relações e de como isso nos afeta.

Entre 2001 e 2011, mais de 50 mil das minhas irmãs morreram simplesmente por serem mulheres. Então você me diz: “mas morreram muito mais homens no mesmo período!”. É verdade. Acontece que o crime de assassinato de um homem é diferente do crime de assassinato de uma mulher, da mesma forma que assassinar um homem homossexual é diferente de assassinar um homem heterossexual. Quaisquer crimes envolvendo minorias sociais, salvo raras exceções, decorrem ou são agravados pelo fato daquela pessoa pertencer a uma minoria social. Dado que ser mulher não é algo que possa ser “escondido”, como a homossexualidade pode, não é exagero afirmar que os crimes de assassinato contra mulheres tenham pelo menos um dedinho de machismo. Afinal, quando um homem mata uma mulher, ele está exercendo seu controle sobre ela; quando uma mulher mata um homem, ela está saindo da sua posição submissa. Nenhum dos crimes é louvável, mas a natureza dos dois é diferente.

Mesmo quando continuamos vivas, caro homem, não paramos de sofrer com o patriarcado. Temos medo de andar pela rua sozinhas a qualquer hora do dia. A pesquisa Chega de Fiufiu contabilizou, em 2013, que 99,6% das 7762 mulheres que participaram da pesquisa já haviam sofrido assédio. Dessas, 83% disseram que receber cantadas não é algo legal. 90% já trocaram de roupa por medo de ser assediadas na rua. Por medo. Medo. Não existe palavra que resuma melhor o sentimento de ser mulher do que “medo”. Estamos constantemente suscetíveis a ataques, seja na forma de “inocentes” cantadas, ou na forma de brutais estupros. Então você me diz, homem: “mas não só mulheres sofrem estupros!”. De novo, é verdade; no entanto, em relatório do IPEA, nota-se que 88,5% das vítimas de estupro no Brasil em 2011 eram mulheres. Isso decorre da ideia de que mulheres devem estar sempre sexualmente disponíveis para homens, uma ideia vendida pela mídia e até mesmo pela educação que é dada aos nossos meninos. Aliás, esses dados seriam muito maiores se todas as mulheres estupradas tivessem coragem de denunciar seus agressores, ou mesmo conseguissem reconhecer que foram vítimas de um estupro.

Mas nem precisamos ser tão brutais para falar de violência contra mulheres, estimado homem. Uma pesquisa (promovida por uma marca de higienização antes e depois do sexo, mas ainda válida) feita com 1252 homens heterossexuais revelou que 33% deles tem nojo de fazer sexo oral em sua parceira. Não era para menos: nossa vagina é taxada como suja e nojenta desde a infância. Precisamos ter um cuidado especial com ela, sempre limpar, usar um sabonete diferente, um lenço umedecido, limpar com o papel higiênico até estarmos completamente secas (muito embora vulva seca seja um mau sinal), tirar todos os pelos (e ficar suscetíveis a ataques de microorganismos que poderiam ser evitados com a presença desses pelos), entre outros cuidados que “toda mulher” precisa tomar para estar sempre cheirosinha e ser desejada. Acontece que a vagina, como qualquer parte do corpo, possui um odor natural, indicativo de que está tudo bem por lá, e esse odor não é o de flores do campo. Pelo contrário, aliás: higiene em excesso mata a flora vaginal, um conjunto de microorganismos benéficos e necessários para a saúde da vagina. Somos convencidas de que a vulva é nojenta e não deve ser tocada nem por dedos, muito menos por línguas; enquanto isso, ensinamos aos meninos que, depois de fazer xixi, uma balançadinha resolve. E ai da namorada dele se não quiser fazer sexo oral e engolir depois!

Talvez devido a esse nojo extremo da vagina, e com certeza devido à ignorância extrema quanto à anatomia e fisiologia do prazer feminino, um terço das mulheres brasileiras nunca atingiu um orgasmo. Sabe-se que a masturbação ajuda a mulher a se conhecer, saber o que gosta e o que não gosta quanto ao sexo, e também melhora sua capacidade de atingir orgasmos, mas 40% das mulheres brasileiras nunca se masturbaram, não porque não queiram, mas porque a masturbação feminina ainda é vista como um tabu, algo proibido. Quando nossas mães nos viam com a mão perigosamente próxima da vulva durante o final da infância, elas nos censuravam e brigavam conosco; mas quantas mães brigam com os filhos adolescentes quando eles passam um tempo descomunalmente grande no banho? E, caro homem, se a sua parceira não consegue atingir orgasmos durante o sexo e teve a coragem para contar isso a você (o que geralmente não acontece), pense bem: você sabe manipular um clitóris? Talvez seja hora de aprender.

Você também pode me perguntar, amado homem, por que estou falando de sexo num blog sobre assexualidade. Isso é porque o mesmo patriarcado que mata de forma gritante as minhas irmãs negras e trans não permite que minhas irmãs assexuais se assumam como tal. Como já disse, uma mulher tem a obrigação de estar sexualmente disponível para os homens que a desejam, e isso tira de suas mãos o poder de se assumir assexual perante a sociedade – e, muitas vezes, perante si mesma. Se ela o faz, será questionada; morrerá sozinha, não será feliz. Muitas nem consideram a assexualidade como uma opção para sua identidade, não só porque não a conhecem, mas também porque não nos é dada essa opção. Precisamos nos casar com um homem, satisfazê-lo e ter filhos com ele, ou jamais alcançaremos a felicidade plena. Daí, você, louvado homem, também pode concluir que não temos direito a ser lésbicas, e isso é verdade. Mulher com mulher só é aceito em filmes pornôs, quando ambas estão ali para dar prazer a – adivinhe – homens, como você.

Por tudo isso, querido homem, não me dê parabéns. Muito menos uma rosa. O melhor presente que você pode me dar é reconhecer que não existe mérito nenhum em ser mulher.

A “ninfomania social” ou Como a militância assexual pode ajudar pessoas sexuais

tw: exemplos de: transfobia, lesbofobia, homofobia, afobia

Vivemos numa sociedade viciada em sexo. Talvez isso seja mais fácil de perceber para uma pessoa assexual, vítima direta da ninfomania da sociedade, mas o sucesso das pessoas – de todas as pessoas – está, de certa forma, ligado ao sexo. Um homem bem-sucedido não é aquele que tem cinco casas na Europa, dez carros importados e um quarteirão na Avenida Paulista, mas sim o homem que penetra muitas vaginas (até porque, quando um homem tem cinco casas na Europa, dez carros importados e um quarteirão na Avenida Paulista, ele “deve pegar todas”). A mulher bem-sucedida é aquela que tem um homem, é a “bem-comida” (ou “bem-amada” para pessoas mais tímidas), a que é penetrada, mas não por muitos homens, apenas por um. Na sociedade ninfomaníaca, os papéis de gênero são complementares, mas também contraditórios: homens devem penetrar muito, mulheres devem deixar ser penetradas. Homens devem ter múltiplas parceiras, mulheres devem ser fiéis; mas ambos necessitam do sexo para sua felicidade, para seu bem-estar pleno. Mesmo pessoas que fujam do padrão heteronormativo caem nesses papéis. O homem gay também deve penetrar para ser um homem; gays passivos, principalmente afeminados, não são aceitos nem no meio LGBT. Para a sociedade ninfomaníaca, que também é falocêntrica, transfóbica e binarista, o sexo lésbico não existe, é “só uma brincadeira”, e por isso não existem lésbicas ativas – afinal, elas precisariam de um pênis para penetrar vaginas, e mulheres trans que não fizeram a cirurgia de redesignação não são mulheres “de verdade”, logo, não podem ser lésbicas.

Isso se traduz de forma bastante clara em jogos online, por exemplo. Tomando o World of Warcraft como exemplo – um jogo que adoro e o que mais entendo -, uma pessoa, para ser boa no jogo, precisaria ter um personagem no nível 100, com equipamentos épicos, um anel lendário e um dano por segundo incrivelmente alto; mas nada disso é o suficiente se o dito jogador não tiver uma namorada. Sim, no feminino, porque um bom jogador só pode ser homem e só pode penetrar vaginas. Relacionamentos amorosos/sexuais com homens são inadmissíveis, a menos que você “goste” de ser xingado a cada login. Caso o homem em questão se relacione com uma mulher trans, ele será eternamente ridicularizado por ter “caído na mentira” dela.

Para uma criança, um adolescente ou um adulto que ainda não tenha formado sua personalidade, a ninfomania da nossa sociedade é extremamente danosa. Com o indivíduo suscetível a qualquer tipo de propaganda, bombardeá-lo com a ideia de que ter uma vida sexual badalada é ser saudável, feliz e bem-sucedido faz com que ele se envolva em situações que, muitas vezes, não são exatamente consentidas. E, mesmo quando o são, talvez não fossem se a pessoa tivesse escolha. Infelizmente, nosso consentimento nem sempre parte de nós; quando nos forçamos a pensar que o sexo nos fará felizes, mantemos relações sexuais com quaisquer pessoas para alcançar essa felicidade. Muitas vezes nos arrependemos, e, depois de pensar um pouco, chegamos à conclusão de que nos forçamos a ter aquele momento, como se fosse nossa obrigação manter relações sexuais sempre que a oportunidade apareça. Caso isso não aconteça, somos moles, frouxes, não sabemos curtir a vida. (Não estou falando de pessoas, na maioria homens cis, que bebem até cair, ficam com uma pessoa que sofra preconceito, como travestis e mulheres gordas, e depois “se arrependem” disso. Essas pessoas são apenas preconceituosas.)

E onde entra a militância assexual nessa história toda? Obviamente, essa “ninfomania social” atinge pessoas assexuais. A maior parte dos casos de afobia que presenciei derivam dela. Somos aberrações, erros da humanidade por não ter interesse por sexo. Ao me reconhecer demissexual e começar a pensar nas relações de poder que me mantiveram presa à ideia de que fui doente até aquele momento, percebi tudo isso que foi explicitado até agora, e entendi que não era a única a sofrer com isso. Minhas amigas que foram forçadas a ter sua primeira vez num momento em que não queriam sofreram com isso. Meus amigos gays que foram forçados pelos pais a manter relações sexuais com mulheres sofreram com isso. Nenhuma dessas pessoas é assexual, mas elas também sofrem com a ninfomania da sociedade, muito embora poucas pensem sobre ela. Ao mesmo tempo, pessoas assexuais são invisibilizadas e silenciadas em todos os espaços: não existe “A” na sigla LGBT, e, recentemente, uma organização de lésbicas e gays dos Estados Unidos fez uma campanha afirmando que o “A” da sigla estendida LGBTQIA queria dizer “aliados” e não “assexuais” (caso completo aqui, em inglês). Por isso, mesmo em meios não-normativos, as pessoas tendem a acreditar que não existimos, e isso só reforça a ninfomania social, no sentido em que compactua com a ideia de que o sexo é necessário para o bem-estar dos seres humanos.

Com uma militância assexual bem organizada e bastante presente, a visibilidade assexual seria muito maior, e as pessoas saberiam que existimos, que não somos aberrações e nem deprimidos – pelo menos não pelo fato de sermos assexuais. Isso levaria mais pessoas à reflexão que acabei de fazer sobre a ninfomania da sociedade, e elas concluiriam que é necessário subverter esse processo para que a adolescência e a vida adulta sejam fases menos traumáticas na vida de muitas pessoas, assexuais ou não. Isso também contribuiria para a não sexualização da infância: a partir do momento em que se assume que nem todas as pessoas possuem necessidade de fazer sexo, a pressão para que façam diminui, e perguntas como “você já tem namoradinhes?” param de ser feitas para crianças de cinco anos, por exemplo. No entanto, o sonho de uma sociedade menos ninfomaníaca está bem longe de ser alcançado por vários fatores. O mais proeminente deles, ao meu ver, é a falta de discussão sobre a compulsoriedade do sexo, mas podemos citar também interesses comerciais (afinal, indústrias de camisinhas, testes de gravidez, anticoncepcionais e brinquedos eróticos não ficariam felizes caso uma parcela de seus consumidores tivesse a liberdade de se assumir assexual).

E não é necessário temer um colapso da vida humana caso a sociedade deixe de ser ninfomaníaca: o número de pessoas que sentem atração sexual continuará maior que o número das pessoas que não sentem, o que desaparecerá será a pressão. Além disso, nosso modelo contemporâneo de alimentação e o estresse em que vivemos favorece doenças reprodutivas em homens e mulheres e aumenta os níveis de esterilidade em casais heterossexuais cisgênero. Se você realmente se preocupa com a perpetuação da espécie humana, campanhas para uma melhor alimentação e uma vida mais tranquila, além de militância ambiental, para que os recursos naturais tornem possível a procriação, são muito mais urgentes do que campanhas contra homossexuais ou assexuais.