A vaidade da mulher assexual

Eu gosto de maquiagem. Gosto de pintar e desenhar, apesar de não fazer isso muito bem, e gosto de fazer o meu corpo como tela de pintura. Não tenho tatuagens, mas me maquiar me faz saciar um pouquinho essa vontade de fazer arte no meu corpo. Sei passar corretivo, base, pó, sombra, batom… Mas não passo. Não passo porque, quando eu era criança, minha mãe me incentivava para passar maquiagem e, quando passava, sempre vinha alguém me perguntar aonde eu ia ou para quem eu estava me arrumando, e isso me irritava muito. Para uma pessoa que sempre se incomodou ao ser associada a romance e sexo, isso era muito irritante. Era mais fácil parar de passar maquiagem do que explicar para todo mundo que eu não estava me arrumando para nada ou para ninguém, só para me sentir bem com a arte no meu corpo.

Crescendo um pouco, eu descobri que a vaidade é algo esperado de mulheres de forma geral, mas não para que elas se sintam melhores consigo mesmas, e sim para que possam impressionar homens. Mesmo que eles morram de dizer que preferem mulheres sem maquiagem, a cobrança para usarmos os cosméticos como forma de impressioná-los e/ou mantê-los por perto (sabe como é, “segurar marido”, para ele “não procurar fora de casa o que não encontrou dentro”) existe muito fortemente no nosso cotidiano. É claro que muitas mulheres usam a maquiagem como forma de empoderamento e de se sentir melhor com a própria aparência, mas a cobrança da sociedade diz respeito a impressionar homens. Isso não vale só para maquiagem, claro: usar vestido e salto me sujeita aos mesmos comentários.

Para mulheres assexuais, ser associada à ideia de tentar “capturar” ou “segurar” homens é violento. Nós não queremos homens, da mesma forma que não queremos mulheres. Nós não queremos conquistar ninguém, não queremos impressionar ninguém. Dizer o contrário é negar nossa personalidade, nossa essência.  Para a mulher assexual, ser vaidosa é um tabu no sentido que uma mulher vaidosa é socialmente lida como uma mulher que está procurando um parceiro, provavelmente homem; inclusive, muita gente ainda acha que uma mulher que usa batom vermelho está dando carta branca para que abusem dela. Não ser vaidosa também não é socialmente aceitável, porque mulheres precisam “se cuidar”: se depilar, não ter cheiros desagradáveis em parte nenhuma do corpo, não ser gordas, não estar com frizz no cabelo, não andar com tênis velho, etc. Todas essas características partem de dois pressupostos exageradamente machistas, que são: 1) toda mulher está disponível para pelo menos um homem; e 2) ser gorda, ter frizz no cabelo, não usar maquiagem, não se depilar, enfim, não estar dentro do padrão de higienização e beleza femininas é não se cuidar.

Se você acredita nisso, pense de novo. Primeiro, se submeter a procedimentos malucos e dolorosos para atingir um ideal de beleza não é se cuidar, de jeito nenhum. Segundo, uma pessoa pode se cuidar de diversas formas, sem ser fisicamente. Ela pode cuidar do espírito, da mente. Pode cuidar do seu sono. Pode equilibrar a sua rotina de forma a não ficar muito estressada, e isso é cuidar de tudo ao mesmo tempo. Não é porque você não consegue ver os resultados desse cuidado que ele não existe.

Se você é mulher e assexual e tem receio de se maquiar ou usar salto alto ou qualquer outra coisa porque não quer sofrer assédio e não quer que as pessoas associem o seu comportamento a busca por sexo, vamos nos libertar juntas. A ideia de que mulheres vaidosas estão, necessariamente, tentando impressionar homens é machista, obsoleta e errônea. Todas as mulheres merecem sair na rua sem ser lidas como máquinas de sexo, sejam elas assexuais ou não; para nós, que somos assexuais, esse assunto é ainda mais delicado, mas ter os comportamentos que nos são negados por causa dessas ideias erradas da sociedade nos empodera e nos torna visíveis. Usar maquiagem, vestido e salto alto e não estar procurando por sexo é uma forma de dizer ao mundo que você é assexual, que você existe e que vai fazer o que bem entender, não importa o que os outros achem, porque você é mulher e dona de si.

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