Conheço uma pessoa assexual, e agora?

Ao contrário de pessoas homo, bi e pansexuais, poucas pessoas assexuais sentem necessidade de se assumir. Eu, particularmente, senti essa necessidade, porque o fato de ser mulher implica em gravidez compulsória e disponibilidade sexual, e, sabendo que sou assexual, as cobranças seriam menos ferrenhas e/ou menos frequentes. Com ou sem essa necessidade, contudo, é provável que mães, pais, amigues e conhecides da pessoa assexual vão, em algum momento, ficar sabendo sobre a orientação sexual dessa pessoa, e suas cabeças ficarão cheias de dúvidas. E então vem aquela insegurança: tenho filhe/amigue/conhecide assexual, o que eu faço?

A primeira coisa que você tem que fazer quando alguém assume uma orientação sexual e/ou identidade de gênero não-normativa é respeitar. Pessoas assexuais querem respeito, da mesma forma que qualquer pessoa quer respeito. Respeitar uma pessoa assexual é deixá-la confortável no tocante à sua sexualidade. Não tenho como fazer uma lista completamente precisa de coisas que você não deve fazer se quiser respeitar uma pessoa assexual porque cada pessoa é uma, e cabe a você perguntar a ela o que a deixa desconfortável quando necessário, mas algumas coisas deixarão a maioria das pessoas assexuais desconfortáveis, por exemplo:

  • “mas todo mundo é um pouco assim”
  • “isso vai passar logo, você vai ver”
  • “é só você encontrar a pessoa certa que a vontade de fazer sexo aparece”
  • “não é porque você não gosta de sexo que precisa inventar um nome pra isso”
  • “se você saísse de casa não seria assim”
  • “então você é virgem?”
  • “mas você namorou tal pessoa durante anos e vem com esse papinho agora?”
  • “se você nunca fez sexo, como sabe que é assexual?”
  • “o que eu fiz de errado para você ficar assim?”
  • “você devia procurar um psicólogo/psiquiatra”

Entre outros comentários depreciativos, ofensivos e completamente desnecessários. Outro ponto a se pensar é sobre as perguntas; sua curiosidade sobre a vida de uma pessoa assexual vem da sua ignorância ou do fato de que você acha a orientação sexual dela tão exótica, tão diferente de tudo o que viu e concebeu na vida, que quer saber detalhes íntimos? Não é melhor considerar que assexuais são pessoas, assim como você, e pensar como você reagiria às mesmas perguntas e aos mesmos comentários, caso eles se referissem à sua orientação sexual? Para pessoas heterossexuais talvez essa projeção seja um pouco diferente, e até mais difícil, porque elas não estão acostumadas a ser oprimidas por sua orientação sexual, mas com um pouco de esforço e empatia, tudo se resolve.

Fora isso, se o seu relacionamento com a pessoa assexual em questão é saudável, não há nada que precise ser mudado nele. Ela continua sendo a mesma pessoa, e você também; qual o sentido de mudar seu relacionamento só porque você soube que a pessoa não sente atração sexual da forma que você sente? O que isso muda na sua vida? Não acha que a atração que essa pessoa sente diz respeito somente a ela? Seja você mãe, pai ou amigue da pessoa assexual em questão, por quem, como, quando e por que ela sente atração sexual não é da sua conta, a menos que a própria pessoa resolva falar disso com você ou pedir sua opinião. E, mesmo assim, muitos detalhes ainda não serão da sua conta. Ou seja: não pressione. Se a pessoa quiser dar detalhes da sua vida sexual/amorosa para você e você estiver confortável com isso, ela dará. Não faz sentido ficar perguntando ou fazendo alusão a isso o tempo todo, mesmo que seja para reforçar que você sabe que a pessoa não sente atração alguma. Comentários como “você vai morrer sozinhe” ou “agora eu sei que você nunca vai engravidar, mesmo” não ajudam e só colocam para baixo, além de ser preconceituosos em vários níveis.

Se você lê em inglês, recomendo também o FAQ da AVEN para família e amigues de pessoas assexuais. Senão, pode conferir o FAQ para esposes/namorades de pessoas assexuais ou o FAQ para pais de pessoas assexuais no site da Comunidade Assexual.

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