Magrofobia? Tem certeza?

Eu sempre fui gorda. Como qualquer mulher criada dentro da estrutura social do patriarcado e que não pensa sobre sua condição, sempre detestei ser gorda. Foi por causa da minha forma física que eu saí – ou, melhor dizendo, fui praticamente expulsa – do meu primeiro emprego, como modelo fotográfica e de passarela. Foi por causa da minha forma física que eu sofri bullying por muitos anos, desde a escola primária até o colegial. Enfim, meu corpo gordo, que só deixou de sê-lo muito recentemente e de forma desagradável, sempre foi fonte de irritação para mim. Não é pouco dizer que eu sempre odiei ser gorda, e só nos últimos três anos comecei a compreender que eu não precisava me odiar por isso; pelo contrário, podia me amar e muito sendo gorda, e inclusive porque sou gorda. A culpa de todas essas coisas que sempre aconteceram comigo não era minha, muito embora os outros fizessem questão de dizer que eram.

Se você é gorde, você não tem opção. Você precisa emagrecer. Não é uma coisa que cabe a você decidir; é claro, você pode decidir permanecer gorde, mas não é sua competência avaliar se você realmente tem a necessidade de emagrecer ou se pode continuar do jeito que está. Não importa se você é feliz sendo gorde. A sociedade decidiu, muito antes de você nascer, que gente gorda é gente doente, porque tem placa de gordura no coração e no fígado, tem pressão alta, tem problemas de coluna, tem diabetes, tem síndrome metabólica e mais outras mil doenças para as quais a correlação com a obesidade é forte. Você pode até continuar gorde, mas vão te julgar como uma pessoa preguiçosa, desleixada, que não cuida de si mesma. Porque se cuidar significa ser saudável, e ser saudável significa ser magre. É completamente inconcebível para a sociedade que uma pessoa gorda possa ser saudável sendo gorda, e, quando é, não poderá ser feliz, porque pessoas gordas não são amadas, não são respeitadas, não são colocadas no mesmo patamar de pessoas magras. Quem não se lembra da Perséfone, da novela Amor À Vida, que ficou durante mais da metade da história sendo ridicularizada por ser gorda e virgem? Pode parecer apenas um exemplo escrachado, mas assim é a vida de muitas mulheres gordas: lembradas cotidianamente do quanto são patéticas e “mal-amadas” por serem gordas.

Não estou dizendo que as doenças que citei anteriormente não têm nenhuma ligação com a obesidade. É claro que, se você é uma pessoa gorda, você precisa ir ao médico regularmente, especialmente se houver algum caso de diabetes, hipertensão, câncer, arritmias e outros problemas geneticamente herdados na sua família. O problema é que pessoas magras também precisam ter esse tipo de cuidado consigo mesmas, mas elas não são cobradas disso, porque seu tipo físico não está constantemente lembrando os outros que aquela pessoa pode ter algum problema de saúde. Muitas vezes, a gordura não incomoda tanto a pessoa gorda quanto incomoda os outros ao seu redor, e é aí que mora o preconceito. É aí que começa a ficar absurdo falar em “magrofobia” – da mesma forma que é absurdo falar em “heterofobia”, “brancofobia”, etc. Pessoas magras podem sofrer bullying por ser magras? É claro que podem, mas sofrer bullying não caracteriza preconceito. A diferença entre preconceito e bullying é tênue, mas, analisando um pouquinho a situação toda, é possível delineá-la: bullying é uma atitude cruel, maldosa em relação a uma pessoa; preconceito depende de uma estrutura social criada para discriminar aquela pessoa. Existe bullying sem preconceito, sim, e é esse o caso das pessoas magras. Não existe uma estrutura social criada exclusivamente para discriminar pessoas magras. Pessoas magras não são demitidas por isso; elas não têm sua saúde monitorada cotidianamente por causa disso; não choram em provadores de lojas porque nenhuma, absolutamente nenhuma roupa em nenhuma loja cabe nelas; não são cobradas por sua forma física por pessoas completamente desconhecidas; não são censuradas ao comer um sanduíche, um sorvete ou qualquer coisa que não seja uma folha de alface com um copo d’água; e não sofrem prejuízos em relações sociais por conta da sua magreza.

Se você leu até aqui e está pensando que eu acho que pessoas magras absolutamente não sofrem, você leu errado. As pessoas consideradas “magras demais” sofrem com alguns dos aspectos que eu listei no parágrafo anterior, no que diz respeito ao quanto comem e como vai sua saúde, mas isso também não é magrofobia por um motivo bastante simples: não é institucionalizado. Pessoas magras demais não são excluídas da seleção para a vaga de vendedora no shopping por serem magras demais. Pelo contrário, aliás: essas pessoas eram exaltadas no mundo da moda até muito recentemente, e ainda o são em alguns espaços. Ser muito magra é o sonho de muitas meninas gordas, e não é difícil inferir, a partir daí, que a violência contra pessoas gordas seja muito mais escancarada e legitimada por uma estrutura social.

Quando eu era criança, minha mãe costumava me dizer, para aumentar a minha autoestima, que “a gordura só incomoda os outros”. Ela não estava errada. O crime de ser gorda extrapola a falta de saúde, a falta de beleza ou a falta de autoestima; ele ofende os outros muito mais profundamente do que pode ofender a pessoa gorda. Falar em magrofobia numa sociedade que ojeriza corpos gordos de forma institucional é como falar em heterofobia ou cisfobia no contexto LGBTfóbico em que vivemos; por que, então, tem tanto militante da causa LGBT invalidando pessoas gordas que clamam sofrer gordofobia em espaços de militância?

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