“Você não existe”: o peso da deslegitimação

Não sei até que ponto posso dizer que sofro preconceito por ser demissexual. Tenho váries amigues homossexuais e conheço pessoas trans* que sofrem muito mais com a sociedade cis-heteronormativa do que eu, então, talvez, chamar o que sofro de preconceito seja um pouco presunçoso demais. O fato é que, bem como ocorre com as outras orientações sexuais e com as identidades de gênero trans*, há um estigma rondando pessoas assexuais, e a forma mais recorrente pela qual ele se manifesta é o apagamento, ou a deslegitimação.

Deslegitimar alguma coisa é deixar de reconhecê-la como autêntica, ou seja, passá-la a um status de “falsa”, “imprópria”. Com pessoas assexuais, isso acontece de diversas formas. A que mais escuto, enquanto demissexual, é clássica: “mas todo mundo é assim!”. Por mais inofensiva que pareça para quem a profere, essa frase me causa enjoos, náuseas, indigestão e dores fortes no peito, seguidas de ataques de impaciência que tento controlar antes de começar a explicar que não, isso não é verdade. Dizer a um demissexual – ou a qualquer outra pessoa – que “todo mundo é assim” não é inseri-lo num contexto mais amplo, não é fazê-lo se sentir bem-vindo no grupo, e também não é demonstrar empatia; é, pura e simplesmente, deslegitimar sua orientação sexual. Ao dizer a uma pessoa demissexual que “todo mundo” compartilha de sua orientação sexual, se está igualando essa pessoa ao hetero/bi/pan/homossexual que pratica sexo casual, por exemplo, o que invalida todas as experiências pelas quais aquela pessoa já passou simplesmente por ser assexual. Eu, por exemplo, já fui várias vezes excluída de grupos sociais devido à minha orientação sexual, principalmente durante a adolescência, e dizer que minhas experiências românticas e sexuais são idênticas às de qualquer outra pessoa no mundo é ignorar completamente esse e outros fatos da minha vida – além de ser uma grande ignorância, porque nenhuma experiência sexual/romântica é igual, não importa a orientação sexual dos envolvidos.

Outra forma de apagar as orientações assexuais é dizer que “isso não existe” ou que “é doença”. Essa última forma é a mais cruel. Patologizar – ou seja, transformar em doença – uma pessoa, sua essência, o que ela é, é uma crueldade sem tamanho; a maioria des homossexuais e transgêneres deve se identificar, já que a homossexualidade era considerada doença até algumas décadas atrás, e a transexualidade ainda o é. É simplesmente absurdo dizer que uma pessoa homossexual é doente e precisa ser tratada por um psiquiatra ou psicólogo para se livrar disso, haja vista as inúmeras manifestações que ocorreram contra parlamentares brasileiros após tentativas de incluir esse tipo de “tratamento” nas pautas da saúde do país; por que, então, ainda é aceito que se trate uma pessoa assexual como um ser doente, de baixa libido, que necessita ter seus “traumas de infância” devidamente tratados para que possa recuperar uma “vida saudável”? Já me cansei de ver, em revistas femininas, principalmente, aquelas propagandas clamando que “sexo é vida” e que, se você não tem uma libido considerada “normal” ou “aceitável”, precisa procurar um médico neste momento, porque pode ter uma doença muito grave. É tão grave assim ser assexual? É tão ruim, a ponto de ser amplamente difundido como doença, que uma pessoa simplesmente não queira fazer sexo? 

E qual o problema, afinal, de tanta gente apontando na nossa cara que não existimos ou que somos doentes? Nós devemos mesmo nos importar com a opinião de pessoas que não estão no nosso grupo de relações e com as quais podemos nunca nos encontrar na vida? Sim, nós devemos. A deslegitimação pesa, e, infelizmente, tem alto poder de convencimento. Eu mesma passei anos da minha vida buscando soluções médicas para a minha falta de libido, o que me causou uma grande tristeza. Me sentia – e ainda me sinto, de certa forma – constantemente forçada a ter intenções sexuais com pessoas, o que me deixava tensa e abatida por nunca conseguir. Além disso, justamente por não ter segundas intenções com ninguém, sou muito lenta para entender quando as pessoas as têm para comigo, e vivo num estado constante de alerta, como se fossem me atacar a qualquer momento, de todos os lados, simplesmente porque, apesar de saber que sou assexual e que essa é uma orientação sexual válida, passei a maior parte dos meus anos acreditando no contrário, e o que está enraizado é difícil de ser tirado.

(Atenção: se você ou qualquer parente/amigue/cônjuge seu já teve níveis de libido considerados dentro dos padrões e sofreu uma queda brusca nesses níveis, a ponto de incomodar, essa pessoa DEVE ser aconselhada a procurar atendimento médico. Transtornos psiquiátricos graves, como depressão, se manifestam precocemente com diminuição da libido; no entanto, cabe a essa pessoa decidir se vai ou não buscar ajuda médica. Lembre-se sempre de que a sexualidade de uma pessoa pertence apenas a ela.)

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