Uma meta para 2016

O ano novo chegou. Isso significa, friamente, que a Terra passou por um determinado ponto no movimento de translação, que acontece ao redor do Sol – na verdade, nem é um ponto determinado, porque, a cada ano, ficamos 6 horas atrasades em relação ao movimento de translação. É para corrigir esse erro que existem os anos bissextos (como 2016). Nossa espécie, no entanto, é famosa por incutir significado a coisas que parecem triviais. Biólogos que pesquisam a evolução humana estudam essa capacidade como um dos traços que nos define. Definindo ou não, o fato é que incutimos simbolismo em coisas aparentemente supérfluas, e, por mais que algumas pessoas queiram se distanciar disso, é algo inerente a nós e que não precisa ser, necessariamente, condenado. Devido a essa capacidade, colocamos significado às mudanças na posição do Sol, o que resultou em um calendário de 12 meses, cujo fim também possui um significado: renovação, renascimento, recomeço. Mesmo quem não segue o calendário gregoriano tem significados parecidos para a virada do ano; é só ver como chineses comemoram a vinda do ano-novo lunar, que não só significa renovação, mas também traz toda uma onda de vibrações diferentes, que favorece determinadas atividades, de forma parecida com a astrologia ocidental.

Horóscopos à parte, 2016 chegou, e para todo mundo, já que o calendário gregoriano é o oficial em todas as partes do mundo. Eu nunca fiz resoluções de ano novo, mas resolvi dar uma chance para elas dessa vez, mesmo sabendo que já vou ter esquecido todas elas em março. Uma delas eu não quero esquecer, e, por isso, resolvi trazê-la para o blog.

Em 2015, testemunhamos grandes avanços da militância assexual no Brasil. Vimos surgirem grandes – e ótimas – páginas no Facebook com esse tema: a Assexualidade da Depressão, que agora não funciona mais, mas teve um papel expressivo em 2015; a Fofura Assexual, que tem um pessoal tão criativo e que sabe fazer tantas coisas!; a Que Ace Te Mordeu?, que é novinha, mas já chegou chegando; e muitas outras que eu não conheço, ou que conheço, mas não lembro, porque a minha memória tem uma capacidade muito pequena. Também vimos grandes jornais fazerem matérias muito boas sobre a assexualidade, esclarecendo para quem não conhece que não somos aberrações, e que também não vivemos tristes; infelizmente, também vimos outros jornais prestarem desserviços a nós, mas, com sorte, isso não vai mais se repetir.

De qualquer forma, a quantidade de informação sobre a assexualidade em português aumentou muito em 2015, e isso é maravilhoso. Criei esse blog porque não conseguia encontrar informações sobre assexualidade em português, e, principalmente, informações mais pessoais, relatos sobre vivências, textos com os quais eu pudesse me identificar. Provavelmente, se eu não soubesse falar inglês, estaria até hoje procurando quem eu sou. Hoje, o cenário, para uma pessoa que se descobre assexual, é bastante diferente. Temos uma quantidade razoável de conteúdo em português, acessível para essas pessoas, para que elas tirem suas dúvidas e se encontrem. Fico imensamente feliz pensando nisso, mas ainda não é o suficiente.

Como eu já disse, algumas coisas que encontramos na internet não são mais do que um grande desserviço a nós, passando informações falsas, e até mesmo a noção de que somos doentes e precisamos ser tratades. Algumas dessas informações podem ser encontradas em jornais de grande circulação e que algumas pessoas consideram confiáveis, então é difícil filtrar tudo isso. A única forma que temos de passar nossas vivências para quem está se descobrindo agora e de fazermos as outras entenderem que não somos doentes é falando. Por isso, se você tem desenvoltura com as palavras, se sabe se portar na frente da câmera, se desenha, se narra, se consegue fazer qualquer coisa que possa ser convertida em mídia na internet, fica aqui o meu convite: comece a falar sobre a assexualidade. Você não precisa ter um blog ou um canal no YouTube exclusivos sobre isso – nem esse blog é exclusivo, por mais que pareça -, mas um post, um vídeo, um desenho, já vai fazer a mensagem se espalhar para mais gente. Se tem uma coisa que eu aprendi com esse blog é que todo mundo pode ter um grande alcance e atingir muitas outras pessoas. Muitas mais do que você pode imaginar.

Minha meta para 2016, então, é ver ainda mais conteúdo bom em português sobre a assexualidade, e ainda mais discussões (produtivas!) sendo feitas. Então, vamos lá?

O que a Fabíola tem a ver comigo?

Eu sei, você já cansou de ler texto sobre o caso da Fabíola, mas esse vai ser um pouquinho diferente dos outros – afinal, você tem que ter muita sorte para encontrar um texto que tenha relacionado o que aconteceu com a Fabíola com a discriminação que as pessoas assexuais sofrem diariamente.

Para quem não sabe, Fabíola era uma moça totalmente comum, como você e eu, que vivia uma vida totalmente comum. Um dia, o marido dela a seguiu e descobriu que ela o estava traindo com o cunhado. Não vou entrar no mérito se o que Fabíola fez foi “certo” ou “errado”, primeiro porque não tenho opinião formada sobre traição (afinal, é muito difícil para uma pessoa assexual entender o que motivaria uma), e, depois, porque nem eu, nem ninguém tem condições, e muito menos o direito, de julgar a vida de uma pessoa que não conhece. O fato é que Fabíola traiu, foi pega, filmada e sua cara – e toda a situação na qual foi envolvida – foi propagada pela internet. No mesmo vídeo, seu marido tem uma reação exagerada e abusiva, que inclusive custou a ele muito dinheiro, mas o que realmente ficou na cabeça das pessoas foi a desculpa da Fabíola e o quanto ela era “piranha” por ter feito aquilo com o marido.

A repercussão imensa que o vídeo da Fabíola gerou é um retrato instantâneo do quão doente por sexo é a nossa sociedade. Se Fabíola e seu marido tivessem combinado que só veriam o sétimo filme do Star Wars um com o outro, e ele a flagrasse vendo o filme com o cunhado, gravasse e colocasse na internet, a reação do público seria a mesma? Tecnicamente, o contexto é o mesmo: marido e mulher “combinam” que vão fazer algo apenas um com o outro; um deles faz com outra pessoa; o outro o flagra, grava e coloca na internet. Se despojarmos o sexo da sua grandiosidade, é isso que sobra. Mas, na nossa sociedade, o sexo é importante, é grandioso, é ponto central na vida das pessoas; sem ele, não é possível conceber relacionamentos saudáveis, mentes saudáveis e pessoas bem-sucedidas. Como eu já disse em outra ocasião, nossa sociedade é viciada em sexo, e parte da militância assexual deve trabalhar para que esse vício seja revertido. O vídeo de Fabíola só evidencia o quanto nossa cultura é dependente do sexo e de espetáculos que o envolvam.

É importante que nos coloquemos no lugar de Fabíola e entendamos que ela foi vítima da mesma sociedade ninfomaníaca que nos oprime. Quando alguém diz que nossa orientação sexual não existe, ou que não encontramos a pessoa certa, ou quando alguém pensa que somos tristes ou temos problemas mentais por não sentirmos atração sexual, seu pensamento está baseado na mesma cultura que consumiu compulsoriamente o vídeo de Fabíola, puramente por se tratar de sexo. É, também, a mesma cultura que faz circular rapidamente pela internet as fotos íntimas de garotas e garotos cujas vidas acabam no fundo do poço.

Fabíola é, portanto, um lembrete para todes nós: temos um trabalho extenso a fazer até que nossa sociedade aprenda o quanto é doentio correr atrás de sexo em todas as situações e consumir sexo em todas as mídias, de todas as formas e a qualquer custo. Fabíola foi forte e até falou sobre o caso no facebook, mas quantas vezes você abaixou a cabeça quando deslegitimaram a sua orientação sexual? O caminho para a autoafirmação é longo, e o que leva à nossa aceitação pela sociedade é ainda mais extenso, mas não impossível de traçar.

Guest post – E pode namorar?

Por Priscilla Binato

Ser assexual e namorar com uma pessoa que não é (allosexual) é algo que, para muita gente com quem eu já conversei, parece ser uma  complicação sem limites. As pessoas falam que é impossível, que é irreal, que nunca vai dar certo, que o allosexual não vai conseguir deixar de lado o seu desejo sexual… Mas e se eu não quiser deixar de lado o meu para ser a assexual típica dos padrões?

Meu nome é Priscilla Binato, sou carioca, tenho 21 anos e sou assexual. Eu e meu namorado estamos juntos há quase um ano e, apesar dos estereótipos, temos uma vida excelente – tanto no relacionamento quanto uma vida sexual. E isso não me envergonha nem um pouco. Na realidade, é o tipo de coisa que eu gosto de falar para ajudar a quebrar esses estereótipos que são criados dentro do assexual. Eu descobri a minha assexualidade no ano passado e passei algum tempo tentando descobrir como funcionava esse mundo novo de nomes, identificações e até uma própria leitura de sociedade nova. A ideia de uma sociedade de não-sexualização era muito estranha antes de eu me identificar com a assexualidade, mas quando eu conheci o conceito foi algo que só começou a parecer cada vez mais real com o passar dos dias em que eu refletia sobre.

Eu nunca fui uma pessoa sexual, apesar de já ter tido diversos relacionamentos antes do meu atual. Gostava de me sentir parte de um relacionamento de me sentir amada, de ser parte de uma dupla. Só que na parte de ter uma vida sexual nesses antigos relacionamentos, eu sempre pensava naqueles comentários sexistas que mulheres fazem quando estão reproduzindo o machismo: eu nunca teria a minha virgindade de novo, então era melhor “gastar” com alguém que valesse a pena. De certa forma, eu via a minha falta de atração sexual (e, naquele momento, de interesse) como algo natural para mulheres “boas”, uma vez que a minha reprodução de preconceitos me impedia de ver os problemas nisso.

Foi só quando comecei o meu atual relacionamento que eu decidi iniciar uma vida sexual. Não porque eu comecei a sentir atração sexual ou deixei de ser assexual, mas porque várias coisas se juntaram no meu atual namorado que me deram interesse o suficiente para que eu tivesse vontade disso. Eu o amo, nós nos damos super bem, ele me faz sentir bem com a minha auto-estima, com o meu corpo, com muitas coisas que sempre me incomodaram antes. Então na hora de decidir como seria isso, eu só pensei: por que não?

Depois de alguns meses de namoro que eu conheci os conceitos de assexuais sexo-positivos ou sexo-negativos e isso só me ajudou ainda mais a me sentir uma parte da comunidade. A ideia de que um assexual pode não só fazer sexo como gostar de sexo e, ainda, viver em um relacionamento com alguém allosexual me completa e faz a capacidade de entender a minha sexualidade ser ainda mais plena. Mas, acima de tudo, ser uma pessoa assexual sexo-positiva me faz feliz, então só volto na pergunta com a qual comecei o texto: por que eu vou deixar isso de lado e me restringir para encaixar no padrão assexual?

Eu não sou anti-sexo

Muita gente acha que assexuais não gostam de sexo. Já sabemos que isso não é verdade; primeiro, porque assexual não é quem não gosta de sexo, mas sim, quem não sente atração sexual, ou apenas a sente sob determinadas circunstâncias; segundo, porque pessoas assexuais podem, sim, fazer sexo. E gostar.

Na verdade, o fato de que algumas pessoas assexuais fazem e gostam de sexo é apenas uma consequência do que é ser assexual. Assexual é um termo guarda-chuva, ou seja, abarca diversas denominações; dessa forma, não apenas quem não sente atração sexual em situação alguma é tido como assexual, mas também as pessoas que a sentem de forma muito esporádica, como pessoas demissexuais. Sabendo que algumas pessoas assexuais sentem atração sexual em situações específicas, concluímos que algumas delas façam sexo e gostem disso. Não existe muito mistério. Por que, então, essa confusão existe?

Tudo começa no moralismo. Historicamente, a sociedade entende o sexo como um ato que vai contra a moral. Por isso, sempre existiram pessoas que eram contra essa prática, por diversas razões (algumas delas, inclusive, não se apoiam no princípio da amoralidade do sexo). Essas pessoas são celibatárias, ou seja, escolheram não fazer sexo, por qualquer razão que seja. Padres católicos são um exemplo de celibatários. Essas pessoas fizeram uma escolha consciente de não fazer sexo, por mais que tenham vontade, e por maior que seja a atração que sentem. Não existe falta de atração nem de desejo nessas pessoas; o que existe é um autocontrole, e não estou dizendo que isso seja bom, nem ruim.

Para pessoas assexuais, a coisa funciona meio diferente. Nós não temos atração sexual e não houve escolha consciente sobre isso; tudo aconteceu naturalmente, como acontece com qualquer orientação sexual. Assim como pessoas homo ou heterossexuais, não escolhemos não sentir atração, apenas não sentimos. Quando sentimos e ficamos confortáveis o suficiente para que essa atração se concretize, isso não significa que não vamos gostar do sexo, porque temos capacidade de sentir prazer. Não existe motivo religioso, moral ou de qualquer outro cunho para que não façamos sexo: a única coisa que existe é falta de atração. A partir do momento em que ela passa a existir, o sexo passa a ser uma possibilidade. No entanto, uma vez que o celibato é tão amplamente divulgado e a assexualidade não é, é comum que as pessoas confundam os dois e assumam que assexuais escolheram não fazer sexo, não gostam de fazê-lo e têm algo contra ele.

Por isso, se você ler em algum lugar que assexual é quem não gosta de sexo, ou se pensava assim, saiba que isso não é verdade. É claro, existem pessoas assexuais que não gostam de fazer sexo, mas isso não é regra. E também não é ideologia. É apenas parte de quem somos.

A assexualidade dos outros

Se você é assexual, o post de hoje não é para você. Chame sua mãe, seu pai, as pessoas que são importantes na sua vida, e vamos falar, todes juntes, sobre como lidar com a assexualidade dos outros. Como tratar uma pessoa assexual? Como lidar com o fato de que uma pessoa importante para você tem uma sexualidade tão não-normativa, mas tão não-normativa, que você nunca ouviu falar sobre ela (e nem aquele seu amigo gay ouviu)?

Vão aí cinco dicas:

  1. Tente compreender. É difícil? É. Uma pessoa que não está passando por determinada experiência nunca vai entendê-la por completo, mas você não pode deixar de tentar. Sua geração, o ano em que você nasceu, sua idade, nada disso é empecilho para tentar entender que a pessoa que você ama não sente atração sexual e não tem problema nenhum quanto a isso. Não entendeu? Bom, continue tentando. Se você realmente ama essa pessoa assexual que te indicou esse post, tentar compreender a dor dela, a personalidade dela e as opressões pelas quais ela passa é o mínimo que você pode tentar fazer. Dói quando as pessoas que nos amam não nos compreendem, mas dói ainda mais quando elas nem tentam fazer isso.
  2. Não diga que a pessoa “vai morrer sozinha”. Você pode até ter medo disso, mas isso é falta de informação. Primeiro, porque o sexo não é a única forme de encontrar companhia; as pessoas podem se apaixonar e ter um relacionamento sem sexo. Além disso, não namorar e não se casar não é estar sozinhe. É pra isso que servem os amigos, não?
  3. Não questione a assexualidade dessa pessoa. “Ah, mas você ficou com tal pessoa, você não pode ser assexual.” NÃO FAÇA ISSO. APENAS NÃO FAÇA.  A atração sexual pode acontecer ocasionalmente para algumas pessoas assexuais, ou ela pode ter consentido em ficar com a outra pessoa por pressão social ou qualquer outra coisa.
  4. Tente não encarar a assexualidade como um problema. Assexualidade não é ruim, não é doença, e não precisa ser “culpa” de ninguém. Não é “culpa” da sua criação, nem de religião, nem de nada, porque não é ruim e não precisa ser “culpa” de ninguém. Ponto final. Dizer que a assexualidade é “culpa” de alguém significa dizer que é um problema.
  5. Não apague o sofrimento da pessoa assexual. Pressão social, apagamento, confusão e dúvidas: o dia normal de uma pessoa assexual. A sociedade não nos admite, a mídia não nos representa, nossa família e amigues não nos compreendem. Se uma pessoa assexual está sofrendo preconceito por sua orientação sexual, não diga que “todo mundo é assim”, que isso “acontece”, enfim, não diminua o sofrimento dela. Escute e fale o que achar necessário: o desnecessário pode ficar não-dito. Evite o sofrimento.

O que é área cinza?

A assexualidade é uma denominação guarda-chuva. Isso significa que existem pessoas estritamente assexuais – ou seja, aquelas que não sentem atração sexual -, e também existem pessoas que não costumam sentir atração sexual, mas isso pode acontecer sob determinadas condições. Todas essas pessoas podem se denominar assexuais. É mais ou menos o mesmo esquema do termo trans*, que é um termo guarda-chuva, ou seja, abarca várias denominações debaixo de si. Uma das denominações abraçadas pela assexualidade é a área cinza (ou gray-a, ou gray area), que é o conjunto de pessoas que não são estritamente assexuais e nem alossexuais (=sexuais).

Para entender melhor o termo, vamos fazer uma abstração: imagine que toda a pluralidade de sexualidades humanas coubesse numa paleta de cores. Na paleta de cinza estariam dois conceitos mais simples e mais abrangentes do que a bissexualidade, por exemplo; esses conceitos seriam a alossexualidade e a assexualidade. Nessa abstração, a alossexualidade seria representada pela cor preta e a assexualidade, pela cor branca. Por consequência, teríamos, entre esses dois extremos, vários tons de cinza. É daí que vem o termo “área cinza”. Dentro da área cinza, se encaixam as pessoas que: não sentem atração sexual normalmente, mas podem senti-la ocasionalmente; sentem atração sexual, mas não têm vontade de concretizá-la; e pessoas que fazem e gostam de fazer sexo, mas apenas em condições muito específicas.

Dependendo da concepção de área cinza, ela pode ou não conter outras denominações. Para algumas pessoas, a área cinza é uma orientação sexual, chamada de gray-asexual. Um gray-asexual, ou graysexual, é uma pessoa que sente atração sexual sob condições muito específicas, ou que raramente a sente. Para outras pessoas, a área cinza é um “lugar” onde se inserem várias outras orientações sexuais, como lithosexual (pessoas que sentem atração sexual, mas não querem que ela seja recíproca), pothisexual (pessoas que fazem e gostam de sexo, mas continuam assexuais por não sentirem atração) e demissexual (pessoas que podem sentir atração sexual apenas quando têm laços emocionais e/ou afetivos fortes).

Ou seja: a área cinza contempla as pessoas que não são estritamente assexuais, mas também não são alossexuais. Quem está na área cinza também pode se considerar assexual e também pode sofrer afobia (o preconceito contra assexuais). Para algumas pessoas, a área cinza é uma orientação sexual, mas, para outras, é o local onde se inserem as denominações que cabem dentro da assexualidade, junto com a assexualidade estrita. Nenhuma das duas concepções está errada; a vivência das pessoas e a denominação com a qual elas se sentem mais confortáveis vai determinar qual delas adotar – ou, até mesmo, nenhuma delas, afinal, podemos sempre formar nossas próprias concepções a partir das existentes, não é mesmo?

Assexual ou assexuado?

Hoje (19/10) começa a semana da visibilidade assexual, que vai até o dia 23. Para comemorar a semana, o blog vai ter alguns textos curtos sobre questões importantes e básicas no que diz respeito à sexualidade. A primeira delas é aquela dúvida comum: o certo é assexual ou assexuado?

É parecido para falar e para escrever. Às vezes, até parece que as duas palavras têm o mesmo significado. Mas não têm, não. É bem comum as pessoas confundirem assexual com assexuado; mesmo quem já está acostumado com a militância, às vezes, comete esse erro. Mas as duas coisas são bem diferentes. Bem diferentes MESMO. Esse post é para esclarecer isso, não só porque eu tenho gastura quando escrevem errado, mas também porque é desrespeitoso, e ninguém quer ser desrespeitoso sem querer, certo?

Vamos começar esclarecendo uma coisa: o nome da orientação sexual de quem não sente atração é ASSEXUAL.

E por que isso? Porque estamos falando de pessoas. As pessoas podem ser heterossexuais, homossexuais, bissexuais, pansexuais… Em momento algum elas são heterossexuadas ou bissexuadas. A confusão entre as palavras assexual e assexuado vem lá das aulas de biologia, de quando escutamos falar em plantas e microorganismos que não fazem reprodução sexuada. Esses seres, sim, são assexuados. Ou seja: assexuado é quem pode se reproduzir produzindo cópias de si mesmo, clones, para povoar um ambiente. Isso é ser assexuado. Quando você estiver em dúvida se o certo é assexual ou assexuado, então, pare e pense: essa pessoa se reproduz fazendo clones de si mesma? Se a resposta for não, o certo é assexual.

aequina bacteria

Esse pólipo e essas bactérias são assexuados, por exemplo.

Em algumas definições de dicionário, contudo, a palavra “assexuado” aparece como sendo uma pessoa que não sente atração sexual. Como todes devem saber, verbetes de dicionário são péssimos para explicar as pessoas (vamos lembrar que os dicionários ainda apontam pessoas trans como doentes mentais?). Além disso, todas as pessoas assexuais que eu conheço se sentem incomodadas e/ou ofendidas pelo uso da palavra “assexuado” para se referir à assexualidade, dado que assexuado é um adjetivo que cabe a organismos que fazem reprodução assexuada, como eu já disse. Então, se você quiser continuar usando a palavra “assexuada” para se referir a uma pessoa assexual, saiba que, no mínimo, ela vai se incomodar. É claro que, como qualquer outra coisa que eu escreva aqui, isso não é regra para todas as pessoas assexuais, mas é provável que o incômodo exista. A menos que a pessoa se refira a si mesma como assexuada e/ou te diga para fazer isso, assexual é a palavra certa.

Agora que já sabemos como tratar uma pessoa assexual, vamos fazer a lição de casa?

Mariazinha não sente atração sexual por ninguém. Mariazinha é uma pessoa _________.

As plantas são seres vivos que podem se reproduzir sem a troca de material genético, ou seja, fazendo clones de si mesmas. As plantas são seres ________.

Luizinha sente atração sexual apenas por pessoas com quem tem conexão emocional, isto é, Luizinha é demissexual. Como assexualidade é um termo guarda-chuva, Luizinha também é uma pessoa ________.

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Respostas: assexual, assexuados, assexual. Acertou? Parabéns! Errou? Se acostumar com a terminologia é realmente difícil, mas você consegue!